Grécia: O eterno retorno

 

 

 

Ao estudarmos mitologia grega, e mesmo sua versão empobrecida Romana, ficamos maravilhados com aquele mundo fantástico, muitas vezes nem percebemos as suas implicações no nosso presente, o comportamento dos heróis, mitos ou deuses através da psique nos conecta ao nosso íntimo, nossa personalidade, nosso Gene e Ethos.

Estava relendo alguns textos sobre a relação de mitos, heróis e os seus ritos iniciáticos(passagem de estágios na vida: Menino – Homem), como sempre retorno ao mestre Junito de Souza Brandão, pois ele expõe com perfeição qual a unidade lógica de cada coisa, leiamos juntos:

Cavernas, Labirintos e útero

As grutas e cavernas desempenhavam um papel religioso muito importante, não apenas na religião cretense, mas em todas as culturas primitivas. A descida a uma caverna, gruta ou labirinto simboliza a morte ritual, do tipo iniciático. Nesse e em outros ritos da mesma espécie, passava-se por “uma série de experiências” que levavam o indivíduo aos começos do mundo e às origens do ser, donde “o saber iniciático é o saber das origens“.

Esta catábase é a materialização do regressus ad uterum, isto é, do retorno ao útero materno, donde se emerge de tal maneira transformado, que se troca até mesmo de nome. O iniciado torna-se outro. Na tradição iniciática grega, a gruta é o mundo, este mundo, como o concebia Platão (República VII, 514, ab): uma caverna subterrânea, onde o ser humano está agrilhoado pelas pernas e pelo pescoço, sem possibilidade, até mesmo, de olhar para trás. A luz indireta que lá penetra provém do sol invisível, que, no entanto, indica o caminho que a psiqué deve seguir, para reencontrar o bem e a verdade.

À idéia de caverna está associada o labirinto Numa visão simbólica, o labirinto, como as grutas e cavernas, locais de iniciação, tem sido comparado a um mandala, que tem realmente, por vezes, um aspecto labiríntico.

Assim, em termos religiosos cretenses, o Labirinto seria o útero; Teseu, o feto; o fio de Ariadne, o cordão umbilical, que permite a saída para a luz

“Muito provavelmente, como pensa Mircea Eliade, a lenda dos companheiros de Teseu, sete rapazes e sete moças, ‘oferecidos’ ao Minotauro, reflete a lembrança de uma prova iniciática desse gênero. Infelizmente ignoramos a mitologia do touro divino e o seu papel no culto. É provável que o objeto cultuai especificamente cretense, denominado ‘chifre de consagração’, represente a estilização de um frontal de touro. A sua onipresença confirma a importância de sua função religiosa: os chifres serviam para consagrar os objetos colocados no interior”

As touradas atuais, diga-se de passagem, sobretudo as espanholas, em que se mata e se devora o touro, simbolizariam uma comunhão com o animal, uma aquisição de seu mana, de sua enérgeia, já que o touro, seja o Minotauro, seja o feroz Rudra do Rig-Veda, é portador de um sêmen abundante que fertiliza abundantemente a terra. Ao culto em favor dos vivos estava indissoluvelmente ligado o culto em benefício dos mortos


Ontem e Hoje


Teseu é apenas um herói que passa tão detalhadamente pelo rito iniciático de ir à Creta e matar o Minotauro, livrar Atenas de pagar com a vida dos seus jovens imposta por Minós. Era fundamental a Teseu fazer sua Catábase, descida ao labirinto enfrentar seu “Monstro” matá-lo e de lá fazer sua Anabase, subida, já como Homem e Herói.

Os Junguianos interpretam estes mitos de forma bastante coerente, apontando traços comuns em diversas culturas e trazendo até os dias de hoje vários aspectos comuns de nossas vidas, nossas lutas, que às vezes fazemos determinada ação e não compreendemos a lógica ou o porquê de fazê-lo.