Hipólito – castidade ou morte

Hipólito

Eurípedes

Mister seria que os mortais tivessem uma prova segura da amizade e o poder de enxergar, nos corações, qual o amigo sincero e qual o falso! Deviam ter os homens duas vozes; uma, a da retidão, e outra qualquer; assim, a que servisse em seus malfeitos seria confundida pela honesta e nós nunca seríamos logrados..”

Tema: Tragédia. Traição.

Resumo: Hipólito filho de Teseu é casto e só rende oferendas a Ártemis, Deusa da castidade e da caça,ao mesmo tempo Afrodite(Cípris), a deusa do amor sexual, que se vingará terrivelmente do jovem.

O Livro

Teseu já em idade avançada casa-se com Fedra filha de Minós a quem Teseu derrotara em Creta. De outro casamento anterior Teseu era pai de Hipólito, com a Rainha das Amazonas Antíope.  O jovem Hipólito era muito belo, mas optara pela castidade, prestando culto a Ártemis, deusa da caça e da castidade, irmã de Apolo, filha de Zeus e Leto.

A opção pela castidade, combinada com o desprezo a Afrodite, deusa do amor sexual, faz com que a ela sinta-se enciumada e quer a todo custo vingar-se de Hipólito.

Com sua arte de sedução, Afrodite, faz com que Fedra fique perdidamente apaixonada pelo enteado. A paixão é devastadora, aproveitando que Teseu, ficara um ano no exílio como castigo, Fedra se aproxima mais do enteado e com ajuda de sua aia, declara-se ao rapaz.

Hipólito fica espantando com tal revelação, renega qualquer possibiidade de romance com a bela madrasta, mas ao mesmo tempo jura que jamais revelará o segredo ao seu pai Teseu.

(…)

“FEDRA – Juraste bem. Examinando tudo, deveras descobri, neste infortúnio, um único expediente que assegure aos filhos uma vida sem desaire e a mim a salvação desta desonra. Somente por amor de minha vida não é que hei de infamar meu lar de Creta

nem de encarar Teseu no meu pecado.

CORO – Planejas algum mal irremediável?

FEDRA – Morrer; eu própria escolherei o meio.

CORO – Não profiras palavras agourentas!

FEDRA – Se queres também tu aconselhar-me, que seja um bom conselho. Se hoje mesmo abandonar a vida, darei gosto a deusa Cípris, que me está perdendo; eu terei sucumbido a Amor cruel. Porém, inda serei, depois de morta, a ruína de alguém, para que saiba não se ufanar de minha desventura e aprenda a moderar o seu orgulho,sofrendo o seu quinhão nesta desgraça.”

Porém, ao retornar do exílio, Teseu encontra Fedra morta, ela se suicidara, não sem antes deixar um bilhete acusando o jovem Hipólito de ser o culpado de sua morte. Teseu com muito ódio convoca o filho, este explica que nada tem a ver com o fato.

(…)

TESEU – Ai de mim! Como sofro! Foi esta, povo meu, a máxima das minhas desventuras. Ó destino, pesado te abateste sobre mim e meu lar, qual mancha misteriosa impressa por um gênio vingador; pior, como ruína que me torna impossível viver daqui por diante. Na minha desventura, contemplo um mar tão vasto de infortúnios, que nunca poderei salvar-me a nado, nem ao menos vencer esta vaga fatal que ora me assalta. Mulher infortunada, nem sei com que palavras definir teu destino cruel. (…)

TESEU – Já não posso conter no limiar dos lábios o mal insuperável que me arrasta à ruína. Ah! Povo meu! Hipólito atreveu-se a violar pela força meu tálamo nupcial, sem respeito ao supremo olhar de Zeus. Portanto, ó Posidão, tu que és meu pai e um dia me outorgaste três desejos, ouve o primeiro e mata-me esse filho! Se são certos os votos outorgados, que não possa escapar ao dia de hoje!

CORO – (horrorizada) Pelos deuses, meu rei, retira a praga! Dia virá em que hás de compreender que cometeste um erro; dá-me ouvidos.

TESEU – Não retiro; demais, vou desterrá-lo para que o fira um de dois destinos: ou Posidão, cumprindo o meu desejo, morto o enviará para a mansão de Hades, ou, expulso daqui, há de, no exílio, errante, consumir a vida em dores.

CORO – Bem a propósito, eis que surge Hipólito; é teu filho em pessoa. Ó rei, aplaca tua daninha cólera e resolve o que melhor convenha a tua casa.

HIPÓLITO – (entra com pequena escolta) Ouvi teus brados, pai, e vim a pressa. Não sei o que lastimas neste instante; quero ouvi-lo de ti. Mas, oh! Que houve? Vejo morta, meu pai, a tua esposa?! Minha surpresa é imensa! Ainda há pouco, quando a deixei, podia ver a luz! Que se passou com ela? De que modo veio a morrer? Quero de ti ouvir. Meu coração, ansioso de saber, mesmo ante uma desgraça não disfarça sua ansiedade. Porém, tu te calas? De que serve o silêncio no infortúnio? Aos amigos, meu pai, aos mais que amigos não é justo que ocultes teus reveses.

TESEU – Ó homens, vós, que tantos erros vãos viveis a cometer, vós, que ensinais ciências incontáveis, vós, que tudo descobris e inventais, por que será que uma coisa ignorais, nem buscais nunca aprender, que é ensinar sabedoria àqueles que carecem de razão?”

(…)

Teseu o expulsa do palácio e irrefletidamente pede aos deuses que puna o filho com a morte. Hipólito sofre um acidente e morre. A Deusa Ártemis conta a Teseu que o jovem era inocente.

(…)

TESEU – Acaso algum flagelo inesperado as cidades irmãs terá ferido?

MENSAGEIRO – A bem dizer, Hipólito morreu. Inda contempla a luz, porém exala os derradeiros hálitos de vida.

TESEU – Quem o matou? Talvez alguém que o odeia, por lhe ter, como ao pai, violado a esposa?

MENSAGEIRO – Causou-lhe a morte a sua carruagem e mais a maldição com que invocaste contra teu filho o deus do mar, teu pai.

(…)

VOZ – Nobre filho de Egeu, convido-te a escutar-me. Sou Ártemis, a filha de Leto, que te chamo. Por que, infeliz Teseu, te rejubilas? Deste morte sacrílega a teu filho; a mensagem falaz de tua esposa te fez acreditar no que era incerto e agora tens tua desgraça certa. E não vais esconder tua vergonha afundando na terra até o Tártaro? Ou, mudando de espécie, não te evolas fugindo da miséria pelos ares? Já não deves prover a tua vida entre os homens de bem! Eis, Teseu, um balanço de teus males. Deveras, não adianta e te magoa, mas venho tornar clara a inocência da alma de teu filho, cuja morte quer glorificar, e a paixão louca – ou nobreza, talvez – de tua esposa. Sim, pois, pungida do aguilhão da deusa que entre os seres divinos mais odiamos quantas nos comprazemos em ser virgens, estava apaixonada de teu filho. Tentou com a razão vencer a Cípris, mas sucumbiu, mau grado seu, às artes da ama, que a teu filho, sob penhor de juramentos, tudo revelava. Ele, por ser honesto, repeliu as propostas da ama e, por piedoso, não traiu o segredo que jurara, mesmo quando o trataste ignobilmente. Temendo a convicção de seu pecado, Fedra compôs essa falaz mensagem, que arruinou a vida de teu filho. Era um embuste e nele acreditaste.

TESEU – Que desventura a minha!

Pequeno Comentário

Esta tragédia traz a luz vários sentimentos e casualidades próprias da vida humana, Junito de Souza Brandão nos lembra, acertadamente, “motivo Putifar” que é acusação infundada de adultério, tramada por uma mulher com a qual o injustamente acusado e, quase sempre punido, se recusou a ter relações sexuais. Este fato é em Gênesis 39,7-20, a re
speito da inteireza, caráter e temor de Deus por parte de José.

De qualquer forma, o motivo Putifar representa sempre um situação crítica para o herói, conjuntura essa que se resolve ora tragicamente, com a morte, no caso de Hipólito e Eunosto, com a cegueira, como na punição de Fênix; ora de maneira menos violenta, como prova superada através de riscos tremendos, como a exposição de Tenes; com o exílio e a vida ameaçada, no caso de Belerofonte ou, eventualmente, a vítima se vinga mais tarde, de modo cruel, de quem o caluniou, como Peleu, que esquartejou Astidamia”.

O ciúme de Afrodite por que Hipólito não lhe presta culto deve ser entendido também do ponto de vista reprodutivo, pouco natural que um jovem príncipe, futuro Rei, recuse-se a fecundar, tarefa obrigatória ao cargo, que inspira crescimento, fertilidade e longevidade, o ciclo “‘natural” da vida.

Lição dolorosa é a de Teseu que não verificando os fatos, julga e condena o próprio filho, o amaldiçoando. Mas aqui também há o germe da tensão própria do choque de gerações que se sobrepõe a sucessão da casa real, o velho rei que terá que ceder o trono ao jovem príncipe.

Hipolito – Euripedes

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Dúvidas da Luana

Minha filha Luana tem nove anos, outro dia estava lendo a “Bíblia para criança”, que ganhou de sua tia, aí  lascou três perguntas para mim:

1)   Por que deus castigou Moisés e não o deixou chegar na terra prometida, mesmo tendo sido ele quem libertou o povo de deus no Egito?

2)   Por que deus é tão bom, mas judiou tanto de Jó?

3)    E, por fim, a definitiva: Por que deus está fazendo isto com a minha irmã Letícia(#Leucemia : Quando ela bate na sua porta!)?

Tentei argumentar que Moisés e o povo que o seguia começou adorar o “Bezerro de Ouro”..aí ela diz e daí o Bezerro também não era criação dos filhos de Deus? Sobre Jó falei que Deus testava sua fé…Luana responde: Precisa judiar dele assim? Bem, complicado explicar “teste de fé”.

Como sempre a parte mais difícil, pra ela, e para mim, falar sobre a doença da Letícia, Leucemia, com 13 anos, corpo judiado pelas 50 quimioterapia em 9 meses, perda completa de cabelos, duas vezes…Luana se revolta em ver a irmã assim, de não podermos planejar nada pelos próximos 2 anos. Claro que não entende os mistérios da vida, de Deus, dos homens, da natureza. Mas como assunto era Deus( castigos, privações, bondade) fica quase impossível uma resposta satisfatória que acalme seu coraçãozinho, suas angústia, aplacar sua rebeldia.

Hoje refiz as três perguntas e minha irmã, Luciete, muito religiosa e sábia, manda as respostas via facebook:

“Na verdade Deus dá o livre arbítrio

1)   Moisés duvidou;

2)    Na história de Jó Deus permitiu, pois o Diabo estava atiçando, mas em troca Jó prosperou em tudo sofreu, mas não se rendeu a tentação;

3)   Quanto a Letícia ele permite, não é a vontade dele, mas a gente passa por tribulações é difícil entender apenas digo que confie sem questionar e a tempestade vai passar.”

Bem e você o que acha?

Formação Humana

Introdução


Pós-muro de Berlim, aqueles que militavam no campo da esquerda passaram a viver num mundo estranho, todos os sonhos e ideologia postos em xeque, a crueza do leste revelada em sua plenitude, houve dois movimentos no começo dos 90 muito significativos na militância:

1) Abandono da perspectiva socialista;

2) Reflexão e volta aos clássicos;

Por volta de 91 e 92 participava de um pequeno grupo, que se propôs a fazer esta reflexão para compreender o que houve no leste europeu, maioria de nós era “pró-soviético” oriundos do PCB. Teve companheiro que em 1986 chegou a dizer que bom mesmo não era Gorbachev, mas sim o prefeito de Moscou, Boris Yeltsin, o verdadeiro revolucionário, sabemos hoje no que deu.

Esta cegueira advinha de uma crença quase religiosa na revolução, em particular na interpretação russa do escritos de Marx, que teve em Lênin grande continuador, mas adstrito a realidade russa, mas que foi tomada como universal.

Aquele impacto de ruir todo o leste europeu fez com que vários companheiros simplesmente abandonarem a luta política, acreditando que aquela era a experiência definitiva do que se convencionou chamar de “socialismo real”. Honestamente derrotados, incapaz de continuarem a militar, se recolheram, trancaram a vida para qualquer nova reflexão.

Como sempre ocorre nestes períodos de crise, um setor que sempre militou quase como 5ª coluna, aderiu de vez ao ideário burguês, no Brasil a ruptura do PCB, já em frangalhos, liderados por Bob Freire, cria o PPS, todos sabemos os seus passos posteriores de traição e alianças preferenciais à direita (PSDB e DEM).

Volta aos clássicos

Vários de nós, em pequenos grupos e círculos intelectuais, voltaram aos estudos dos clássicos, não apenas os escritos de Marx, mas de toda a tradição humanista, revisitar os filósofos gregos, os cânones literários, as fontes únicas do pensamento humano.

Esta dolorosa tarefa no meio militante é sempre muito complicada, cheia de barreiras, parte dos dirigentes despreza a ampliação do conhecimento, pois as tarefas diárias se impõem. A baixa compreensão, da formação política e intelectual também se torna adversário deste “mergulho”.

Fizemos um roteiro longo em que buscávamos ampliar os horizontes para além da teoria política, inserindo novos desafios de entender o homem sob uma perspectiva histórica, filosófica e cultural, que abarcasse a Teoria do conhecimento humano em todos seus vastos campos.

(Texto de Introdução – escrito em 1992)


Origem dos Homens

O Comunismo Primitivo

O início dos tempos tem diversas explicações, desde a dos cristãos, segundo a qual Deus (Jeová) criou o mundo e depois o homem, a partir do barro ( Adão) e de sua costela, a mulher (Eva). Estes entes pecam perante Deus e são expulsos do paraíso – começa propriamente dita a procriação, sendo estes marcados pelo pecado original.

Já para Gregos, Egípcios e Romanos o surgimento do homem é produto dos deuses e semideuses, estes foram criados para adorá-los. Sua relação com os deuses, porém, não é a do medo (como cristãos) do pecado original – homens e mulheres mantêm relações íntimas com estes deuses. Por exemplo, Aquiles, herói grego da guerra de tróia, era filho de Tétis, uma deusa do mar com Peleu, um rei de Ftia (região grega).

Na visão dos materialistas (marxistas ou não) o homem surge, assim como o universo, do produto das transformações da matéria, sendo seu estágio mais elaborado o homem e seu cérebro, pois este foi capaz de criar condições para sua própria existência e transformação. Este processo durou milhões de anos, tendo o homem passado por diversos estágios até chegar ao que é hoje.

Alguns avanços foram fundamentais para este desenvolvimento, como a descoberta do fogo, a linguagem e o começo da vida coletiva. Logo a seguir, a descoberta da roda, as primeiras divisões do trabalho, a caça e a pesca, e depois a lavoura, tudo isso feito por todos em conjunto, talvez não por um desejo consciente de união, mas como único meio de sobrevivência. A este período conhecido vulgarmente como pré-história ou idade da pedra, nós damos o nome de

Sociedade Comunista Primitiva

A Divisão dos Homens

A sociedade de classes, o escravagismo, o primeiro estágio

O homem se desenvolve continuamente e surge a grande divisão social do trabalho, que passa a ser o motor de um acelerado desenvolvimento da vida: o trabalho intelectual versus trabalho manual.

Alguns homens começam a se apropriar do excedente da agricultura, pecuária e pesca, e percebem que é melhor pensar como melhor produzir e outros continuarem produzindo. No mesmo instante, nas guerras de tribos já não se libertam os presos inimigos, os quais passam a ser mão-de-obra escrava dos vencedores, dando o poder econômico maior a alguns membros.

As respostas aos fenômenos da natureza, como a lua, sol, rios etc. levam o homem a adorá-los e sendo alguns destacados para organizar estes cultos, o germe do estado-religião começa a ser plantado, as decisões coletivas já não dão respostas às novas fases de produção.

Começam a se gestar decisões individuais, e aqueles que têm seus escravos de tribo inimiga agora escravizam homens de sua própria tribo; os primeiros conflitos desta divisão precisam de autoridades para resolvê-los – eis nosso “poder” de estado em conjunto com os dos sacerdotes estruturam o estado. Em uma palavra, a revolução social está completa.

Nós devemos entender como foi importante esta divisão, pois permitiu ao homem se desenvolver em escala nunca experimentada, se desenvolvem as ciências – a medicina, a astronomia, a matemática, a física – surgem os primeiros filósofos, literatos, historiadores. O mundo se livra da ameaça simples de destruição catastrófica produzida pela natureza, que o homem passa a dominar. É o senhor dos mares, das terras e dos ares.

É neste contexto que vamos estudar a sociedade escravagista: Sua literatura, a história e filosofia da época, a política e a economia

Estudo da Teoria do Conhecimento Humano (corte ocidental)

Parte I

Sociedade Escravagista

Modulo I – Literatura

Homero: Ilíada e Odisséia

A) Épicos                   Virgílio: Eneida

Heródoto: História

B) Mitologia     Hesíodo: Teogonia e O trabalho e os dias

C) Costumes    Suetônio: A vida dos doze Césares

Modulo II – Teatro

Sófocles: Prometeu Acorrentado

Ésquilo: Oréstia

Eurípedes: As Bacantes

Modulo III – Filmes

Fellini: Satirycon

Pasollini: Medeia

Roma (mini serie – acrescida hoje)

Stanley Kubrick: Spartacus

Modulo IV – Filosofia

Platão: Fedro

Aristóteles: Ética a Nicômaco

Modulo V – Política e Estado

Plutarco: Alexandre e César, vidas comparadas

Tácito: Os anais

Obama e seus fracassos

“Deixai toda esperança ó vós que entrais.

Inferno 3:9”(Inferno – Dante Alighieri)

A visita de Barack Obama ao Brasil coincide com um momento muito particular da política americana: sua imensa crise que vai pra os 30 meses sem que haja a perspectiva de solução. O governo Obama sofreu fragorosa derrota nas recentes eleições parlamentares, perdendo a maioria na Câmara e o poder de decisão unilateral no Senado.

Enfrenta também crise de credibilidade pelos documentos tornados públicos pelo Wikileaks, numa clara divisão interna de comando no Departamento de Estado. Aos olhos do mundo, Obama é visto cada vez mais como decepção e sem rumo, muitas políticas dos governos republicanos foram continuadas e, até em alguns casos, pioradas.

O texto abaixo busca fazer um balanço desde a vitória de Obama até sua recente derrota eleitoral, que coloca em xeque sua reeleição no próximo ano.

Um link com Roosevelt

A primeira coisa de que me lembro com Obama na presidência é de outro grande presidente americano, talvez o maior e mais singular deles, Franklin Delano Roosevelt. Herdeiro da catástrofe econômica de 29, assumiu a presidência em 32 vencendo a máquina partidária e com um programa de amplas reformas; rompeu com o liberalismo predominante e implementou fundamentalmente um programa keynesiano clássico, de intervenção estatal pesada. O New Deal foi centrado nos seguintes itens:

  • Controle sobre bancos e instituições financeiras;
  • Construção de obras de infraestrutura para a geração de empregos e aumento do mercado consumidor;
  • Concessão de subsídios e crédito agrícola a pequenos produtores familiares;
  • Criação de Previdência Social, que estipulou um salário mínimo, além de garantias a idosos, desempregados e inválidos;
  • Controle da corrupção no governo;
  • Incentivo à criação de sindicatos para aumentar o poder de negociação dos trabalhadores e facilitar a defesa dos novos direitos instituídos.

Roosevelt, apesar de vir do seio da burguesia americana – seu primo Theodore havia sido presidente em 1908 –, foi sempre taxado de comunista, esquerdista, e enfrentou oposição terrível do início ao fim do mandato; tudo em sua vida era motivo de exploração nos jornais. Espertamente ele resolveu fazer comunicação direta com o povo falando em cadeia de rádio sem intermediário, e assim rompeu o cerco que a mídia (jornais) tentou lhe impor. Para quem tiver curiosidade sobre esta época ler “Anos dourados” (Gore Vidal), romance que localiza bem a luta política enfrentada.

Fator Obama

Coincidência ou não, o motor da chegada de Obama à Casa Branca foi o desastre Bush Jr. Sem isto, ouso afirmar, jamais um negro, com família com vínculos ao islã, lá chegaria. Sua ascensão é algo extraordinário, inimaginável há 10 anos, quem de nós conseguiria vislumbrar algo tão luminar?

Obama surge do nada, ganha da favorita Hillary a indicação do Partido Democrata. Uma hipótese pouco cogitada seis meses antes, um negro na presidência. Vitória de um outsider total, sem um pé na máquina partidária, dominada pelos Clintons.

Obama faz um acordo cruel, entrega a Secretaria de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary. Enfrentando uma crise sem precedentes, mais ou menos dividiu seu governo em dois: no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. O front externo é entregue a Hillary e aos falcões mais reacionários. Como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitado pelos crescentes conflitos advindos da ampla crise financeira mundial.

Assume a presidência naquela que é considerada a segunda maior grande depressão da história do capitalismo, o país mergulhado num atoleiro no Iraque e no Afeganistão, com pouquíssimo espaço de manobra, uma herança mais do que MALDITA, sob desconfiança da elite reacionária, que aceitou a derrota na batalha, mas prolonga a guerra via mídia. Neste contexto, no próprio Partido Democrata Obama tem poucos aliados confiáveis, é obrigado a montar um ministério de composição com as alas conservadoras e ainda manter um presidente do FED comprometido ainda com o neoliberalismo.

Estes fatores combinados, recessão violenta, desemprego, sensação de decadência, duas guerras no front, uma mídia hostil deixam pouco, ou quase nada, espaço de manobra para Obama se movimentar. Para nós que estamos de fora apontar o dedo de por que ele continua as guerras é fácil, por que ele não enfrenta os lobbies armamentistas, grupos poderosos etc. Seu próprio chanceler Hilary Clinton sabota-lhe  o trabalho: negociou com os golpistas hondurenhos, por exemplo, mas são as concessões inevitáveis de governo novo no meio do caos. Aqui não quero justificar os erros de conduta de Obama, mas tentar explicar os fatos com isenção.

Economia continua em crise, desemprego piorou muito nestes anos

Houve uma piora sensível nas condições políticas e de governabilidade, acentuada agora pela imensa derrota nas eleições congressuais bianuais, com a perda da maioria na Câmara e redução na maioria do Senado.

Os grandes bancos receberam pesados recursos do Tesouro, sendo salvos os banqueiros, os megainvestidores, mas nada sobrou para os endividados em hipotecas: passou a idéia de que é melhor salvar os ricos, sem se preocupar com quem realmente perdeu tudo.

As 400 maiores fortunas nos EUA têm mais dinheiro do que 155 milhões de americanos, uma brutal concentração de renda típica de “terceiro mundo”, que se aprofundou mais no governo Obama. Depois da “crise”, em recente pesquisa foi constatado que aumentou o número de americanos com mais de US$ 1 milhão em investimentos, situação contraditória numa crise sem precedentes.

Mas na outra ponta da economia há aumento no índice de desemprego e mais ainda o aumento drástico da população que recebe os Food Stamps (programa equivalente ao Bolsa Família (no pé do texto há um link sobre o programa): de fevereiro de 2010 a outubro passou de 39 milhões a 42,4 milhões de pessoas (quase 10%).

De acordo com o United States Department of Agriculture, as estatísticas para o programa de assistência alimentar são os seguintes:

  • 51 por cento de todos os participantes são crianças (17 anos ou menos), e 65 por cento deles vivem em famílias monoparentais.
  • 55 por cento dos domicílios do vale-refeição incluem crianças.
  • 9 por cento de todos os participantes são idosos (60 anos ou mais).
  • 79 por cento de todos os benefícios vão para as famílias com filhos, 14 por cento vão para as famílias com pessoas com deficiência e sete por cento vão para as famílias com pessoas idosas.
  • 36 por cento dos agregados familiares com crianças eram chefiadas por uma mãe solteira, a esmagadora maioria dos quais eram mulheres.
  • O tamanho médio do agregad
    o familiar é de 2,3 pessoas.
  • A renda bruta média mensal por agregado familiar do vale-refeição é de R $ 640.
  • 41 por cento dos participantes são brancos, 36 por cento são Africano-americanos, não-hispânicos, 18 por cento são hispânicos; 3 por cento são asiáticos, 2 por cento são indígenas, e 1 por cento são de raça ou etnia desconhecida.

Neste ambiente Obama jogou todo o seu peso para aprovar uma espécie de SUS, plano de saúde público, pois cerca de 45 milhões de americanos não tinham nenhuma proteção hospitalar e assistência médica (número coincidente com participantes do Food Stamps). O custo do seguro saúde é muito alto: a precarização do emprego e mesmo do subemprego impediam que esta faixa da população tivesse atendimento médico.

Porém o custo político foi desastroso, Obama foi pintado como “bolchevique”, socialista que quer acabar com a livre iniciativa. A dura batalha no Congresso foi divorciada da sociedade; um movimento protofascista, o Tea Party, cresceu de forma assustadora, elegeu inclusive representantes no novo Congresso.

Política externa desastrosa ruim com de perda de poder e influência no mundo


A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã. Mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende às demandas da indústria bélica, do setor petrolífero, dos militares e dos falcões de Israel.

Parece que nada mudou desde Bush Jr. A Sra. Clinton continua sua escalada de medo e ódio pelo mundo, Obama quase nada se diferencia, sua submissão é total ao que Hillary faz e desfaz.

Neste contexto, cada dia mais a China cresce como pólo aglutinador de forças econômicas e alternativa de investimentos, em particular no chamado 3º mundo. Com 5 trilhões de reservas cambiais, a China hoje é o principal credor americano, boa parte do destino do dólar está nas mãos dos chineses.

Esta sensação de perda do poder hegemônico mundial é mais uma derrota do governo Obama. A extrema dificuldade de dialogar com o mundo leva ao isolamento, e o império apenas é reconhecido pelo poder militar.

Mesmo em relação ao G20, Obama e Hillary nada fizeram para se aproximar e quebrar a influência chinesa. É inconcebível que Obama não tenha visitado o Brasil, o articulador mais dinâmico do G20. Este desprezo pelas relações diplomáticas torna a saída da crise americana mais distante ou em condições piores.

A recente desvalorização do dólar apenas reforça a visão equivocada de G2 (EUA-China) fechando os olhos para o resto do mundo. Ao comprar a guerra cambial com a China, Obama fecha as portas para qualquer diálogo com o restante do G20, em particular com Brasil, Índia, Rússia e África do Sul.

Falta de enfrentamento político com adversários

O surgimento de um movimento de extrema-direita nos EUA é reflexo da falta de combatividade de Obama, a complexa situação da economia, o empobrecimento crescente vistos a olho nu fizeram surgir no seio da classe média americana a Hybris do ódio e do ressentimento.

Consubstanciado no caricato Tea Party, algo parecido com típicos movimentos protofascistas que surgem na ebulição de grandes crises, em síntese são os ultraliberais contra o governo, o de Obama em particular, contra impostos, saúde pública, que querem resgatar o “sonho americano”. No fundo não passa de mais um pesadelo.

Aqui mais uma vez houve a maior falha de Obama: ele não tomou para si as rédeas de seu governo, foi bombardeado internamente pelos Clintons, por Nancy Pelosi e outros falcões democratas. Do lado de fora, o combalido Partido Republicano ressurgiu mais forte e mais à direita, galvanizando a letargia e, por que não, a covardia do governo Obama de enfrentar seus inimigos.

A imensa derrota nas eleições foi a maio senha de que Obama precisa agir com firmeza, afastar os adversários de dentro do governo, ir ter com o povo diretamente, sem meias medidas. Talvez este momento seja muito parecido com o que Lula viveu na crise do mensalão. Daquele momento em diante Lula assumiu seu destino. Será que Obama assumirá o seu? Parece que caminha para ser um novo Jimmy Carter.

Prazer, sou Dilma: Valeu Agripino!!

Ontem o finado DEM elegeu seu coveiro, Agripino Maia, Ex-Arena,Ex-PDS,Ex-PFL, em breve em Ex-DEM. Lembrei de como involuntariamente ele lançou definitiva Dilma como candidata a Presidente.

O dia 07 de maio de 2008 será conhecido no futuro como a data que a Ex-torturada política se vingou do seu algoz em praça pública.Agripino Maia lançou Dilma Presidenta..Valeu agripino!!

Antígone – Liberdade ou Morte

 

“O tempo que terei para agradar aos mortos, é bem mais longo do que consagrado aos vivos…hei-de jazer eternamente!”


 

Tema: Tragédia, Autoritarismo e Heroísmo

Resumo: Antígone guiou seu pai Édipo, que furara os olhos, por longos anos no exílio até seu descanso final em Colono. Ao voltar para Tebas e ficar noiva de seu primo Hêmon, seus irmãos Polinice e Etéocles lutam pelo poder.

 

Passado Anterior


Jocasta ao saber que casara como próprio filho, Édipo, se suicida com os lençóis do leito pecaminoso. Édipo ao entrar nos aposentos e ver que a esposa/mãe se matara pega um broche que prende a roupa fura seus olhos para punir seus pecados.

Édipo vai para o Exílio em Colono, cidade próxima à Atenas, seus passo são guiados desde Tebas por sua filha Antígone, que acompanhará suas ultimas reflexões, vendo que a maldição que o pai sofreu, não sendo aceito em nenhum lugar sagrado. Cego e doente é condenado a viver nas proximidades de Atenas.

 

O Livro


 

Creonte, o irmão de Jocasta, assume o Trono de Tebas, enquanto os irmãos Polinice e Etéocles crescem para no futuro decidir que será o rei. Já adultos, os irmão, decidem que se revezarão anualmente no trono, primeiro Etéocles depois seria a vez de Polinice .

Entretanto, Etéocles não cede à vez ao irmão, este busca exílio em Argos, sendo recebido por Adrasto, rei da cidade, que dará uma de suas filhas em casamento. Polinice , com o apoio das tropas do sogro, decide reivindicar o trono de Tebas. Cerca a cidade fazem um acordo de um duelo singular entre os irmãos o vencedor ficará com o trono. Porém, mais uma vez a maldição dos Labdacida(Édipo Rei ou a maldição dos Labdacidas ) acontece e ambos morrem.

Creonte mais uma vez assume o trono e determina que apenas Etéocles receba as exéquias mortais, enquanto Polinice  seja condenado a ter seu corpo devorado pelas aves de rapina na praia (o maior castigo ao morto).

Antígone, que voltara do exílio após a morte de Édipo, não aceita a decisão de Creonte, tenta convencer Ismênia sua irmã, a não ajudá-la, com medo ela recusa-se. Antígone não se intimida e escondida durante a noite, faz as exéquias do irmão, enterrando-o com as honras necessárias.

Creonte ao saber que o corpo de Polinice  foi enterrado resolveu punir o culpado por desobedecer à ordem e será condenado à morte. Logo descobre que foi Antígone, sua sobrinha e futura nora, ela era noiva de Hêmon filho mais velho de Creonte. Como havia decretada manda que os guardas levem Antígone para morrer de fome e sede sob um conjunto de rochas fora da cidade.

A notícia do castigo a jovem princesa se espalha e uma revolta na cidade se estabelece. Creonte com receio da repercussão de seu ato, manda chamar Tirésias, o adivinho, pra saber o que os deuses acham de sua decisão. Este, ao chegar, diz que o crime de Creonte será purgado com sangue de sua própria família se ele não reparar a tempo o erro cometido.

Creonte temeroso pela previsão de Tirésias manda buscar Antígone, porém, ao chegar na rocha os guardas encontram-na morta junto a ela Hêmon, ambos se suicidaram por não puderem casar. Por fim Eurídice, esposa de Creonte, também se mata.

 

Comentário sobre o Livro


 

A maldição do Labdacida tem seu fechamento com as últimas vítimas dela: Antígone, Hêmon e Eurídice. A peça Antígone é uma das mais significativas das que chegaram até nossos dias, pois traz a síntese das tragédias abertas por Édipo Rei e sua antítese representada por Édipo em Colono.

Antígone virou o símbolo da luta contra o despotismo dos governos autoritário, que vai além da Grécia, na época dirigida pelos tiranos. Toda vez que há um governo déspota a peça se agiganta, se impõe nesta luta pela liberdade, ainda que a morte seja o castigo.

Há várias leituras possíveis, como tratamos na analise de Édipo Rei, interessante um pequeno comentário feito por Junito se Souza Brandão que une analise psicológica e política, muito bem localizada, no tema central do livro:

“Do ponto de vista simbólico, todavia, a cegueira que Édipo se infligiu possui um sentido mais profundo. As trevas externas geram a luz interna. A αναγνώριση (anagnórisis), “a ação de reconhecer” e de reconhecer-se começa efetivamente a existir quando se deixa de olhar de fora para dentro e se adquire a visão de dentro para fora. Mergulhado externamente nas trevas, o herói se encontrou. Se Édipo, porque sabia, conquistou o poder, a hipertrofia desse mesmo poder sufocou-lhe o saber. Sua cegueira estabeleceu em definitivo a ruptura entre o saber e o poder: cego, o herói agora sabe, mas não pode. Não mais, como deixa claro Foucault, estamos na época dos týrannoi, dos tiranos, mas na era de Péricles, no século da democracia, que não sabe, mas pode. Tanto que em Édipo Rei os únicos a saber, além dos deuses e os adivinhos, são os humildes, os pastores, que não podem, mas sabem. Por isso mesmo, em sua tragédia Antígona, que é um confronto entre a consciência individual e o despotismo sofistico, Sófocles mostrou com muita clareza que a característica básica de sua personagem central, Antígona, é o direito de opor uma verdade sem poder a um poder sem verdade.

http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/antigone.pdf

Governo Dilma nem começou e já tem epitáfio?

Polêmica boa entre companheiros que preservam o respeito e buscam construir um diálogo saudável no seio da esquerda é fundamental para entendermos o momento atual, a conjuntura política e econômica. A dinâmica da luta de classes e a posição daqueles que se advogam de esquerda e revolucionária.

A maioria sabe dos meus últimos dias, que não me permitiram dialogar com o companheiro Maurício  Caleiro. Tentei fazer isto com ele e a Maria Frô de forma limitada no texto anterior (“O mundo é um moinho” – a política também).

Porém, durante o carnaval, o companheiro foi mais fundo nas críticas ao governo Dilma Dilma e o retrocesso que a direita adora, agora não mais pontuais e sim globais, mais trabalhadas na Tréplica ao Alexandre Porto. Apresento as minhas considerações gerais de resposta aos dois textos do Caleiro.

Dilma e o retrocesso que a direita adora ou Esquerdismo do jardim da infância

Estivemos lado a lado na campanha por três motivos que Caleiro apontou

1)   Defesa do governo Lula e suas conquistas;

2)   Derrotar Serra e seu programa de extrema-direita;

3)   Derrotar definitivamente o neoliberalismo;

Particularmente concordo com as questões e elencaria mais outros, sendo o principal destes a falta de alternativa consistente à esquerda programática que rompesse com o sistema, o que nos reuniu no projeto pequeno-burguês radical do PT.

É preciso ter claro: o PT não se propôs em nenhum momento, nem em 2010, 2006, 2002, 1998 ou 1994, a romper com a institucionalidade burguesa, exceto em 1989, que tinha ainda um programa anticapitalista. Desde 1992, com o refluxo do Leste europeu, a queda do Muro de Berlim, a esquerda revolucionária refluiu no PT ou rompeu com ele, fundando pequenos partidos como PSOL e PSTU, que se propuseram como alternativas, mas que no fundo gravitam na órbita do PT, com suas famosas “exigências e denúncias”, a formulação trotskista inócua que impediu objetivamente uma conformação política programática forte e alternativa anticapitalista.

Já em 2003, nos primeiros meses do governo Lula, alguns parlamentares liderados por Heloísa Helena e Luciana Genro romperam com Lula, por acreditar que este traíra o programa histórico – pequeno erro, não leram ou não se deram o trabalho de perceber que tinha já 12 anos que o PT não se propunha algo diferente do que administrar o Estado burguês com mais “competência”, numa visão democrática e popular. Surgiu o PSOL que pouco ou nada de alternativa política programática, a meu ver, trouxe para o cenário político de esquerda.

Portanto, ao apoiar um governo de um partido como o PT é preciso ter claro: ele NÃO ROMPERÁ os laços com o grande capital. Tentará sempre que possível conciliar estes interesses em luta, procurará ampliar os espaços de participação política, mas muito se frustrará quem acha quem será totalmente distinto de um governo burguês comum.

Quem milita na esquerda não pode vir com um papo de “traição”, pois ou não leu o programa ou, pior. leu e não o entendeu. Fatalmente cairá no esquerdismo tardio, típico do jardim de infância. Alguns fundam outros partidos (PSOL, PSTU), que sem política global viram seitas ou grupamentos de tendências em lutas permanentes.

Economicismo, o que seria isto?

Caleiro corretamente aponta o corte de R$ 50 bilhões no orçamento como questão preocupante por seus impactos na vida do cidadão comum. No novo texto fala do aumento da taxa Selic e suas consequências de restrição ao consumo e ao crescimento. Vamos às questões para entendermos se realmente este é um retrocesso ou um recuo normal na economia.

Desde a grande crise, em setembro de 2008, o governo Lula apontou que saída seria o investimento pesado do Estado, incentivando o crescimento com desoneração fiscal (IPI, PIS, Cofins), gerando compras corporativas estatais com grandes obras (PAC), apostando que num horizonte de curto prazo a economia mundial volte a crescer.

Os resultados todos sabem: em 2009, praticamente tivemos um trimestre de forte retração e logo a seguir um período virtuoso de crescimento que culminou em 2010 com a taxa de 7,5%. Esta dinâmica foi conseguida graças ao grande trabalho do Estado, do governo federal, a ação positiva de Lula de ir a campo e liderar a retomado do crescimento, em desalinho ao que acontecia no mundo.

Porém, em longo prazo este crescimento isolado do Brasil, este vigoroso movimento, sem o devido acompanhamento externo, não se sustentaria: já em agosto de 2010, ainda sob Lula, teve início um movimento para frear a economia devido ao componente inflacionário, que em última análise pune os mais pobres. A dinâmica econômica era contida para um crescimento mais moderado que impedisse a volta da inflação, apostando numa retomado do mercado mundial.

Óbvio que Dilma, a grande gestora de todos os grandes programas de crescimento do governo Lula (PAC, Minha Casa, Minha Vida) é sabedora de todos os percalços e da necessidade de se redefinirem as prioridades do crescimento e a adequação do orçamento, que sempre vem “vitaminado” com emendas parlamentares, muitas, fisiológicas.

É preciso ter responsabilidade fiscal, que garanta, repito, nos marcos da administração do estado burguês, a gestão coerente, que possibilite no futuro ainda maior inclusão social.

Que Dilma honre os compromissos que a elegeramem dois meses?

Fico espantando com a pressa de que Dilma cumpra seus compromissos, tudo em dois meses; esta mesma pressa levou muitos companheiros ao PSOL, queimou pontes e hoje amargam isolamento político – muitos ficam apenas gravitando eternamente na órbita da estrela maior.

As medidas econômicas duras, ao contrário do que se diz, já estavam sendo tomadas no governo Lula: o ministro da Fazenda é mesmo, o BC, aliás, melhorou com a saída de Meireles. Este período de ajuste é necessário e, dando crédito ao que diz Mantega, no segundo semestre começa a mudar.

Mas a pressa ou as frustrações imediatas muitas vezes falam mais alto do que a razão – mesmo que o companheiro não aceite o argumento histórico, vivemos de análise da dinâmica histórica. O governo Lula também sofreu no começo com a herança de FHC, péssima em todos os sentidos, mas o horizonte de crescimento mundial também nos favoreceu. Agora estamos numa situação inversa: a herança de Lula é boa, mas o horizonte externo é nebuloso e complicado.

Outra coisa engraçada é que só se reforça o que aparentemente é ruim no “economicismo” ou nos ministério que têm retrocessos. Mas por que nada se fala do aumento das verbas para saúde? aumento do piso dos professores com repasse de 1 bilhão do Fundeb? Ou da mudança de comando da Funasa, de Furnas, dos ministérios da saúde e de comunicações?

Sinceramente, nunca ouvi de Erundina que romperá com o governo Dilma porque Kassab ou Katia Abreu (esta nunca ouvi dizendo que nos apoiará) fundarão partido para irem para a base de apoio. Base de apoio a governos centrais é “rede de arrasto”, vêm apoios os mais cretinos possíveis. Por exemplo, Maluf é da base, Collor, Sarney, mas a pergunta é bem objetiva: são estes que dão a dinâmica do governo??

Mais uma vez apelo à razão, à calma na análise: sei que a dinâmica do deb
ate não é ruptura, mas determinados argumentos assacados são francamente impróprios pelo pouco tempo de governo. Vamos ficar jogando água quente na fervura por que mesmo? Temos outro projeto político a construir? Outras forças sociais surgiram nestes dois meses que nos permitam apontar uma ruptura?