A vida segue, mas nem sempre

 

 

 

“Na minha desventura, contemplo um mar tão vasto de infortúnios, que nunca poderei salvar-me a nado, nem ao menos vencer esta vaga fatal que ora me assalta” ( Hipólito – Eurípedes )

 

Semana passada escrevi o texto que mesmo com todos os problemas que enfrentamos: A vida segue…. Mas não é tão fácil assim, a dinâmica geral da vida realmente segue, os fenômenos que nos paralisam ou congelam nossa existência particular, pouco ou nenhuma importância há para o grande fluxo.

 

Esta lógica do seguir em frente não pode também nos fazer indiferentes ao que nos rodeia: as pessoas, as suas micro-tragédias, os desacertos do cotidiano ou as desavenças próprias da nossa medíocre/espetacular trajetória. Falar de si, por mais egoísta que seja, pode ser um alento nas dores que cada um em particular sofre, mas não consegue efetivamente expressar.

 

Vivi nos últimos 30 dias duas experiências terríveis com jovens que morreram de forma estúpida, que devastam nosso ser, ficando um vazio, uma sensação de impotência. Primeiro o Dimitri Sena( Os fados da vida ) , 24 anos, um acidente de moto. Agora na última sexta meu sobrinho Rodrigo, 18 anos, sofreu grave acidente de carro, veio a falecer na segunda. Aos pais, que são amigos tão queridos, que perderam seus filhos de forma violenta, pouco temos a dizer, choramos juntos, morremos um pouco com eles, mas dor que sentem não há como dimensionar.

 

Rodrigo era um menino apenas, inteligente, afável, cheio de vida. Ano passado esteve conosco em São Paulo prestando vestibular para medicina, conversamos muito sobre os planos de vida, as expectativas, ele não queria iniciar a faculdade tão novo, sabia que medicina iria consumir 9 anos, pelo menos, de sua vida, seu tio é médico, seus pais são dentistas, então conhecia a dedicação que seria. Revelou-me que ficaria feliz se entrasse agora, mas não estaria triste se ficasse um ano na casa dos pais, para estudar mais forte, curtir um pouco, antes de mergulhar na faculdade. Fiquei feliz com esta visão, longe da lógica do “mercado” de impor tamanha pressão sob as costas de pessoas tão jovens.

 

As notas do Enem do Rodrigo foram ótimas, entraria na maioria dos cursos, mas não para medicina, realmente voltou para casa dos pais no interior do Ceará, depois de morar sozinho por 3 anos em Fortaleza. Estava fazendo cursinho, estudando, mas como todo jovem também se divertia, brincava, tinha seus momentos de lazer. Desgraçadamente num destes momentos sofreu o terrível acidente, voltando de uma festa. Desde sexta sabíamos do quadro gravíssimo, a primeira avaliação era de morte cerebral, durante o fim de semana houve várias tentativas de reversão e de esperança para que não se confirmasse o laudo inicial, infelizmente segunda veio o veredito final.

 

A morte é a única certeza da vida como nos Lembra Ariano Suassuna na definição perfeita sobre viver e morrer, quando Chicó encontra João Grilo morto:

“Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.”


Muitos dos que me acompanham neste espaço sabe das tormentas por quem tenho passado no último ano e meio( #Leucemia : Quando ela bate na sua porta! ) , por mais dura que tenha se mostrado a vida, não perco a fé ou a esperança de que vamos passar e voltar  a ser felizes, parece uma ilusão estéril, mas esta certeza de que superaremos é mais forte do que os maiores temores que possam existir.

O Paraíso

Madredeus

Subi a escada de papelão
Imaginada
Invocação
Não leva a nada
Não leva não
É só uma escada de papelão

Há outra entrada no Paraíso
Mais apertada
Mais sim senhor
Foi inventada
Por um anão
E está guardada
Por um dragão

Eu só conheço
Esse caminho
Do Paraíso

 

 

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A vida segue…

 

 

 

“Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada… ” (Hamlet – WS)

 

 

Uma imagem me assombra, o medo de saber do medo que corrói o coração da minha pequena filha, o silêncio e nenhuma fala dela sobre o que sente ou se passa consigo me atormenta, pois racionalmente é impossível ser indiferente ao que estamos vivendo, mas como abordar? Será melhor fingir que nada há?

 

Esta dor no peito que nunca passa o extremo cansaço do corpo, a mente que não para de funcionar nunca, a necessidade de parecer forte, jamais chorar ou demonstrar sofrimento piora ainda à dor e a angustia, as incertezas sobre o porvir é a única certeza que carrego no dia a dia. Aliás, conto os dias feito presidiário, afinal qual diferença há entre a minha vida e a prisão?

 

Minha única fuga neste momento é escrever compulsivamente, a vontade de ler não há, mas o cansaço mental muitas vezes trava. Difícil explicitar o que me cerca, então apelo para viagens literárias, ou contar as viagens reais, talvez ver o que acontece no mundo, momento tão rico e confuso, as mil possibilidades históricas que se abrem, mas ao mesmo tempo se fecham e pouco ou nada posso fazer.

 

Cada dia fico mais ácido, sei lá talvez mais lúcido, mas o que me oprime não devo usar para julgar ou oprimir ninguém, afinal o que vivo é só meu, não interessa a ninguém, a vida segue para cada um, inclusive para mim.

 

Trabalho de “corpo presente” nada mais que isto, a distância é enorme do que fazia e do que quero fazer, até coisas simples como ler um email ou escrever um me desanima. A rotina de vir, sentar-se à mesa, executar tarefas, análises de problemas, apontar soluções, é feita via “piloto automático” a longa experiência me ajuda a apenas ligar o botão do automático, mas não me ajuda a interagir com o que faço. Quanto menos falar, ou até lembrar-se do que é o mundo do trabalho, melhor.

 

Alguns dos grandes amigos se afastaram, o que é natural e humano, a dolorosa catábase e a posterior Anábase é nossa, a vida segue e nossa montanha de problemas numa grande cidade não admite partilhar mais um problema de um terceiro. A solidariedade real e sincera nos alimenta, enche de esperança e fé, mas sei do que temos que viver, não há como partilhar, nem é justo exigir de ninguém mais do que fazem.

 

O que vejo hoje jamais foi pensado ontem, a minha existência está partida ao meio, este hiato,  entre os momentos, dura uma infinidade que segundos e minutos correm devagar, as horas fecham, os dias terminam, tudo impulsinam para frente, porém mais o fosso se abre. O desvão é longo, estou suspenso no ar: Vida, projetos, sentimentos.

 

Um dia o tempo acaba e possa olhar para trás e reler o que escrevi, mas não sei com que olhos, porque simultaneamente tenho a obrigação de comemorar cada dia vencido com ela. A dor que ela sente é infinitamente superior a minha só me resta chorar escondido e representar com alguma dignidade meu papel. A vida segue…

 

“Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir… dormir… Talvez sonhar… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos.É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa!” (Hamlet – WS)

Mito de Prometeu e as religiões

 

 

 

 

 

 

“Zeus te ocultou a vida no dia em que, com a alma em fúria, se viu ludibriado por Prometeu de pensamentos velhacos. Desde então ele preparou para os homens tristes cuidados, privando-os do fogo”  (Os trabalhos e os Dias – Hesíodo)

 

Introdução

 

Dois anos atrás postei no blog O Prometeu Acorrentado – Resenha e Análise um texto que escrevi tem quase vinte anos, mas não me senti satisfeito porque não cumpria as diversas facetas do Mito de Prometeu, várias vezes tentei reescrever, mas não gosto de mexer no que já foi escrito, resolvi então fazer uma nova leitura do mito, abrindo um novo enfoque.

Algumas das mais terríveis dores que atingiu Prometeu, hoje sinto e passo, as angustias e incertezas da vida, as agruras causadas pela doença de um ente querido provocam em mim, um misto de dor e impotência, a revolta de não aceitar já muito me consumiu e torturou, mas, agora, convivo mais com a necessidade de que o tempo passe logo e possamos ser libertado, assim como aconteceu ao Prometeu. Vamos em frente, sigamos nossa luta.

 

 

Prometeu Acorrentado revisitado

 

 

Zeus, o vencedor da guerra contra seus tios Titãs, graças à fundamental ajuda de seu primo, Prometeu (o Previdente – aquele que antever o futuro e age), que lhe dera o fogo, resolve dizimar a raça dos mortais que não lhe ajudara na sua luta pelo poder. Planejava uma nova raça, que lhe fosse fiel e submissa.

 

Prometeu ajuda os humanos a prestar culto a Zeus, o novo senhor dos deuses e dos homens, mas a ira não lhe fora aplacada, a desconfiança leva Zeus a impor terrível castigo: privou o homem do Fogo, quer dizer, simbolicamente dos nûs, da inteligência, tornando a humanidade anóetis, isto é, imbecializou-a.

 

Prometeu rouba o fogo sagrado de Zeus e dar aos humanos, este fogo é a sabedoria, ciência, matemática, medicina e as letras. De posse dele os homens já poderão enfrentar os males advindos da caixa de Pandora, mais ainda, não dependem de Zeus e suas vontades para sobreviverem. Aqui um paralelo bíblico, Jesus após subir aos céus envia aos apóstolos o “Espírito Santo” na forma de “fogo”, que por mera coincidência dar a eles: Sabedoria, Ciência, Filosofia.

A própria questão do Fogo faz parte de quase toda as culturas, mestre Junito de Souza Brandão nos lembra a sua importância em vários cultos e religiões:

Quanto ao fogo propriamente dito, a maior parte dos aspectos de seu simbolismo está sintetizada no hinduísmo, que lhe confere uma importância fundamental. Agni, Indra e Sûrya são as “chamas” do nível telúrico, do intermediário e celestial, quer dizer, o fogo comum, o raio e o sol. Existem ainda dois outros: o fogo da penetração ou absorção (Vaishvanara) e o da destruição, que é um outro aspecto do próprio Agni.”

“Consoante o I Ching, o fogo corresponde ao sul, à cor vermelha, ao verão, ao coração, uma vez que ele, sob este último aspecto, ora simboliza as paixões, particularmente o amor e o ódio, ora configura o espírito ou o conhecimento intuitivo. A significação sobrenatural se estende das almas errantes, o fogo-fátuo, até o Espírito divino: Brahma é idêntico ao fogo (Gîtâ, 4,25).”

“Os taoístas penetram nas chamas para se liberar do condicionamento humano, uma verdadeira apoteose, como a de Héracles, que, para se despir do invólucro mortal, subiu a uma fogueira no monte Eta. Mas há os que, como os mesmos Taoístas, entram nas chamas sem se queimar, o que faz lembrar o fogo que não queima do hermetismo ocidental, ablução, purificação alquímica, fogo este que é simbolizado pela Salamandra”

 

 

A vingança de Zeus

 

 

Zeus resolve punir de vez aos humanos e a Prometeu, seu primeiro intento foi dar a Epitemeu(aquele que sabe o futuro,mas não age,apenas lamenta -irmão de Prometeu) uma esposa Pandora ( uma mulher moldada por Hefesto, o Deus ferreiro, nos tempos de hoje ela seria uma Andróide) e uma Caixa de pmágica de presente, a caixa dos males. Dentro daquela caixa, se aberta, as doenças, a morte, a velhice, deformidades, seriam espalhadas para destruir aquela raça inferior. Aqui há um paralelo bíblico com a maçã, o fruto proibido, que Eva terá a sua frente.

A caixa de Pandora é aberta, assim como a maçã é comida. Para ambas as situações o mal absoluto é o castigo, Pandora liberta as doenças terríveis, os homens passam a conviver com a seca, estiagem, extremo frio, a morte à espreita. Adão e Eva, são expulsos do paraíso, terão que viver do trabalho, domar a natureza, para sua sobrevivência. (é apenas um paralelo, entre tantas que se estabelecem em religiões e crenças antigas).

 

 

O castigo de Prometeu é sua prisão no Cáucaso, as montanhas nos Urais, lá acorrentado por Hefesto, exposto ao Sol e às ondas do mar, ele ainda é atormentado por águia que lhe devora o fígado, depois espera que o mesmo de regenere e volta comer-lhe. Este terrível castigo é uma das mais fortes cenas da literatura que conheço, lembra o sofrimento continuo de que esta doente, com esperança vã de curar-se.

 

 

Sincretismo Religioso

 

Religionum animum nodis exsoluere pergo — esforço-me por libertar o espírito dos nós das superstições  (Tito Lucrécio Caro – De Rerum Natura, I, 932)

 

Outro paralelo obrigatório entre Prometeu e a Bíblia é a possível identidade dele com o Anjo da luz, aquele que desafia Jeová e é banido dos céus, do convívio dos anjos, arcanjos e querubins. O que nos remete a uma conclusão de que o sincretismo religioso, a absorção pela nova igreja das antigas religiões era fato comum e uma form
a de conquista de novos adeptos dentro das regiões “pagãs”. Absorviam os vários mitos dando-lhe novas conotações.

Aliás, o sincretismo foi a cadeia necessária para sobrevivência de vários deuses menores absorvidos em novos cultos na própria Grécia, mais ainda na cultura Romana, que em muito bebeu na fonte grega. Uma cadeia direta liga os vários mitos e religiões. Nas palavras de Junito: A religião homérica resulta de um vasto sincretismo e de influências várias, no tempo e no espaço.

 

 

Sócrates e a Democracia Corinthiana

 

Sócrates: Doutor, Político e Craque

 

 

 

Hoje leio no Diário Lance! Um colunista que diz ter Sócrates como ídolo, ok acredito que ele tenha falado sobre futebol, mas conhecendo as opiniões do colunista sobre política e Brasil, vejo que é muito difícil que ele possa admirar o Homem Sócrates e seu significado político no futebol.

Sócrates para além de grande jogador,entre os maiores que vi,está o Homem, o Cidadão, um dos líderes da Democracia Corinthiana, do movimento das Diretas Já. O Dr Magrão já se destacara no Botafogo de Ribeirão Preto por jogar e fazer faculdade de medicina, uma coisa rara, mesmo hoje. Um acerto dele com os dirigentes faziam com que ele apenas se apresentasse nos dias de jogos e treinos, permitindo que ele concluísse um curso dificílimo como Medicina.

Quando estava tudo certo entre Botafogo e São Paulo para que Sócrates fosse jogar no Morumbi, o lendário Vicente Mateus vai até Ribeirão Preto e procura diretamente o jogador e o convence que seu lugar é no Corinthians, que recém saíra da fila, mas que carecia de um grande ídolo como fora Roberto Rivelino. Ele acertou em cheio.

Sócrates chega em 1978 ao Corinthians e faz dupla com Geraldo, depois com Palhinha e é campeão paulista em 1979, que na verdade termina em 1980, numa joga de mestre Vicente Mateus se opões as semifinais em rodada dupla adiando-as para ano seguinte.  Mas a grande mudança mesmo acontecerá em 1982.

 

A Democracia Corinthiana: A Revolução do Parque São Jorge

 

O Corinthians já tinha experimentado uma primeira revolução democrática com o surgimento da Gaviões da Fiel em 1969, que nasceu como forma de combater Waldih Helu, presidente do time e um dos comandantes da Arena o partido da ditadura. Com os métodos do regime perseguiu torcedores com repressão aberta e cacetetes policial. Alguns membros fundadores da Gaviões foram vítimas do regime militar.

 

(Anistia Ampla Geral e Irrestrita )

Esta centelha de clube/torcida contestador, terá grande desdobramento no começo dos anos 80.  Depois de péssimos resultados em 1980/81 caiu a gestão Mateus e sobe Waldemar Pires, o sociólogo Adilson Monteiro Alves vira Diretor de Futebol, em abril começa uma pequena revolução de costumes no futebol brasileiro: A Democracia Corintiana. Em plena ditadura, quebrou paradigmas, time era bom demais, ganhava títulos, tinha compromisso social e político. As decisões do futebol eram discutidas e votadas pelos jogadores, comissão técnica, roupeiro, massagistas.

 

Sócrates, Vladimir, Zenon, e o jovem Casagrande, eram os maiores expoentes da Democracia Corinthiana, fruto das célebres greves do ABC, movimento pela anistia, o país começava a respirar novos ares pelas liberdades e um dos maiores times de massa, no estado mais rico do país entra em plena sintonia com este momento, as célebres mensagens nas camisas, ou faixas carregadas na entrada ao gramado pedindo, por exemplo, Diretas já ou Eu quero votar para Presidente, ou ainda o lema do time: “Ganhar ou perder, mas sempre com Democracia” foi revolucionário demais.

Os gols de Sócrates comemorados com punho cerrado, símbolo da esquerda, da necessidade de se insurgir contra os milicos, festa da Democracia, aqueles tempos de 1982 a 1984 foram os mais importantes da história do Corinthians, o time foi capaz de galvanizar o sentimento social e o Doutor Sócrates com sua maestria e genialidade se tornou um líder natural. A participação dos maiores ídolos do Corinthians nos comícios das Diretas Já, a faixa prendendo os cabelos de Sócrates até me emociona, quase leva às lágrimas.

Esta liderança de Sócrates o levou a ser capitão da maior seleção brasileira de todos os tempos, o time comandado por Telê em 1982, jogava por música, eram craques do 1 ao 11, e tinha pelo menos três gênios no meio de campo: Falcão, Zico( o maior deles) e Sócrates. Os deuses do futebol não permitiram o título mundial, mas jamais esqueceremos os seus feitos.

Gols de Sócrates

Sócrates ainda hoje é o 8º maior artilheiro da história do Corinthians com 172 gols, mesmo jogando como ponta de lança. Ele foi o único jogador eleito unânime como um dos 11 de todos os tempos do timão. Foi eleito pela FIFA um dos 100 maiores de todos os tempos.

É quase impossível dissociar a Democracia Corinthiana da imagem de Sócrates, a figura que foi um dos seus mais lúcidos e vibrantes porta-vozes, jamais aceitou as visões autoritárias de técnicos e esquemas do futebol.

 

Influências Literárias

 

 

 

Primeiras Letras

Quase sempre, ao escrever, lembro-me das minhas fontes, ou de como cheguei a tal autor ou determinada obra, ou por muitas vezes até situações prosaicas de como cheguei a determinado livro, hoje vou relembrar algumas destas histórias e homenagear meus mestres e guias.

A primeira grande referência literária que tive foi Monteiro Lobato, mas isto eu já escrevi um post lembrando dele, mas, o que não falei é como cheguei a ele. Pois bem morava, no interior do Ceará, a cidade é Bela Cruz, muito longe de Fortaleza, contava não mais que sete anos e meus primos que moravam na capital vieram nos visitar, ano era 1976, pouco depois das Olimpíadas de Montreal, que eu não assistira, mas eles sim. Resolveram fazer uma competição entre nós, como eu era o menorzinho, só fiz pontos na leitura, que por acaso foi um livro de Monteiro Lobato, que mostrava as aventuras de Pedrinho.

Tudo bem, desde aí ganhei “fama” de leitor, na verdade eu já lia desde os quatro anos, meus irmãos liam os livros eu decorava as estórias e pegava os livros e “lia” em cima, fui alfabetizando lendo, sem saber as letras direito. Mas tomei gosto pela coisa. Como era tradição de família, aos 8 anos fui fazer primeira comunhão e virar coroinha, naquel tempo chamávamos de acólito, ganhei uma bíblia ilustrada e aquilo era uma maravilha, a lia como literatura, as histórias e estórias eram fantásticas. Confesso que ler aquela bíblia era melhor do que ajudar o padre, dava um azar danado sempre caia na missa do sábado as 18 horas, justo no horário da Disneylândia, ia chateado e com sono, às vezes cochilava durante o sermão, de bom é que decorei todas as falas do padre, aliás antes dele as pronunciar eu me antecipava, ele me olhava com reprovação.

 

Juventude e Esquerda

Depois morando em Fortaleza conheci o professor de português Roberto Falcão, estava na época com 12 para 13 anos, ele fôra preso político da ditadura por sua militância no teatro, ele participara do grupo do José Wilker, eram área de influência do partidão. Falcão, além de excelente professor, era um baita contador de histórias sobre o leste europeu, onde tinha se exilado, contava sobre os operários e povo leitor, que devoravam livros, mas ali pouco de nós era afeito a ler. Foi dele que ganhei o gosto por meus dois autores nacionais pré-adolescente: Jorge Amado e Érico Veríssimo.  Aquela descoberta foi maravilhosa, minha mãe era diretora de escola e os vendedores de livros costumavam presenteá-la com coleções em capa dura, ou vender a preços módicos. Para minha sorte ela tinha todos os livros de Jorge e Érico, acabei lendo os dois fim a fim. Depois já na escola técnica me dediquei a Machado de Assis.

Mas justamente na Escola Técnica travei meus primeiros contatos mais próximos com os textos marxistas. Por um lado através de Elias e Leal, que eram do Pc do B, pelo outro lado Simone que era Trotskista. Dos debates com os dois lados, acabei tendo contato com uma turma sensacional que me identifiquei logo de cara, Alexandre, pequeno, Carlos e Hélade, eles faziam parte de um grupo ultra-secreto que rompera com o partidão e eram dedicados aos estudos marxistas. Estes me levaram efetivamente a buscar um caminho mais sistemático do marxismo. Daí parti para leitura de Marx (menos o Capital, que fui ler bem depois), Engels e Lenin. Foi um achado, líamos muito e debatíamos tudo, os antigos militantes do Coletivo Gregório Bezerra, eram conhecidos como “ratos de livros”. A combinação de leitura, debates e participação no movimento estudantil me moldou e me tornou o que sou.

 

Literatura Clássica

 

 

Quando vim para São Paulo, em 1989, não podia levar para o trabalho livros marxistas, não era de bom tom alguém andar com tal literatura numa empresa privada. Mas como leitor voraz voltei-me para literatura clássica, quase por coincidência certa manhã, num sábado, estava trabalhando no Guarujá fui de bicicleta a Santos, lá numa livraria na praça independência, deparei-me com o Hamlet, um pequeno livro da edições de Ouro, tradução do Carlos Nunes, resolvi comprar, ainda ali em frente ao mar comecei a ler, voltei na livraria e encontrei mais três peças do Shakespeare: Macbeth, Coriolano e  Comédia dos Erro, levei para casa.

Semana seguinte comprei todos os títulos dele disponíveis, aquilo me encantou, havia e, há, um tabu sobre a dificuldade de entender Shakespeare e qualquer obra clássica, mas me senti um asno de aos 21anos não ter lido antes, perdi tanto tempo, em pouco mais de dois meses já lera todas as obras publicadas pela gloriosa Edições de Ouro, no formato bolso. Quando voltei a São Paulo passei a freqüentar a sede da Ouro ali perto do largo do Paissandu. Lá descobri Goethe, Platão, e as maiores descobertas o teatro grego.

O teatro grego eu já conhecia alguma coisa, mas ali na Ouro eu passei a ler o que tinham, tempo depois comecei a comprar as edições mais elaboradas da Zahar com traduções diretas do grego, do Mario da Gama Khury e tomei as primeiras aulas do mestre para sempre Junito de Souza Brandão. Ele me abriu amplo campo de visão sobre o mundo grego, através dele eu me encorajei e li de uma levada só Ilíada e Odisséia, coisa de uma semana, passei a buscar tudo que havia sobre o mundo Greco-romano. Fui atrás da Paidéia, os livros de Platão e seu personagem Sócrates, depois Aristóteles, os historiadores Tucidide e Herótodo. Depois no lado romano Sêneca, Marco Aurélio, Plauto, Suetônio, Plutarco e suas vidas comparadas, Virgilio, Ovídio e o mais espetacular de todos: Dante. A Divina Comédia, em particular o Inferno, continua sendo uma eterna fonte de consulta

Quem também me causou impacto foi Camille Paglia com seu grandioso “Personas Sexuais”, um delicioso livro.  A erudição e os ensinamentos do mestre Harold Bloom me fez reler livro a livro do Shakespeare por várias vezes, o Hamlet acredito que devo ter lido pelo menos umas 20 vezes, sempre acho que ainda não li tudo. Com Bloom se Cânone Ocidental me fez repensar autores e leituras, compreender melhor cada um.

De tudo isto conclui que a literatura me fez um homem melhor, transformou decisivamente minha vida e minha história, a vontade de ler e aprender leva-nos a outros mundos, a viagens fantásticas, a lista de livros fundamentais é imensa, e o Google não lhe ajudará a conhecê-lo, para o bem ou para o mal você tem que ler. Todos têm sua lista de imperdíveis, segue as minhas em ranking imaginável:

  1. Hamlet;
  2. Ilíada;
  3. Divina Comedia;
  4. Odisséia;
  5. Fausto;
  6. O tempo e o vento
  7. Trilogia Tebana;
  8. Trilogia de Orestes;
  9. Macbeth;
  10. Capitães de Areia;

 

Crise Mundial 2.0 – Desdobramentos

 

 

 

“Os bolos fúnebres serviram para os frios do esposório”  ( Hamlet _ WS)

 

 

Rebobinando o filme

 

Meus ultimos posts dedicados a questão da atual crise econômica mundial têm procurado aproximar o blog de uma analise quase que cotidiana dos desdobramentos desta crise.

Semana passada o artigo Crise Mundial 2.0 (2008-2011) buscou relocalizar a visão dos fatos últimos da economia mundial, em particular a questão do “calote” ou não da dívida americana e apontei algumas vertentes dos problemas dela decorrentes nas bolsas mundiais e também a sua relação com a Europa, mais precisamente Itália e Espanha.

Mas precisamos de mais um recuo e lembrar os fatos econômicos que estão se deteriorando mês a mês, pelo menos desde abril, maio. Estes abaixo  artigos localizam algumas destas questões para sua compreensão mais geral:

 

  1. Crise Mundial e Mundo Novo : aqui é o começo da série sobre a questão dívida e seu impacto na crise, as várias economias que são afetadas violetamente com a restrição das política públicas pela falta de dinheiro, todo canalizado para salvar mais uma vez bancos e grandes empresas;
  2. Um fantasma ronda a Europa : A dívida leva Grécia, Portugal e Irlanda à bancarrota, a zona do Euro foi sacudida em junho/julho pela perspectiva de intensa queda das economias que foram levadas de forma artificial à zona do Euro;
  3. Itália um case de insucesso : A Itália é a terceira maior economia européia, mas claudica político-economicamente desde a adoção do Euro, se revezando ora crise política, ora crise econômica, com a perspectiva de piora da dívida ameaça uma crise total;

 

Desdobramentos pós não “Calote”

A questão do aumento do teto do endividamento dos EUA parecia que aliviaria o cenário de crise à curto prazo, lembrou as primeiras horas de 15 de setembro de 2008, quando Hank Paulson todo pomposo anunciou que o Governo dos EUA não salvaria Lehman Brothers e seu banqueiro falido com dinheiro público, sua aparição pela manhã, foi bem recebida por não mais que três horas, quando o “mercado” entendeu o significado de suas palavras caiu em espiral. Vale a pena ver esta cena no filme “Grande demais para quebrar”, este filme e o documentário “Inside Job” são o que há de mais profundo na análise da crise de 2008.

 

Fechado o acordo no congresso e votado o aumento, as bolsas, o “deus” mercado,  ficou nervoso e devorou os ganhos no mundo inteiro, até sexta a queda era acentuada, mas as notícias mais críticas saíram no fim de semana. A Standard & Poors (S&P) anunciou o rebaixamento dos título do tesouro dos EUA. Pela primeira vez na história estes títulos, que servem como referência mundial, passaram a ter valor de liquidez incerto, uma desconfiança de que o calote é possível, mesmo depois do acordo no congresso. As mesmas agências de riscos que inflamaram as ações do Lehman classicando-as como triplo AAA, agora joga os EUA na incerteza, assim como fizeram com Portugal, Grécia.

 

Também no fim de semana o BC Europeu, presidido pelo francês Jean-Claude Trichet, alertou para o perigoso jogo de resgate dos títulos públicos de países como Itália e Espanha. O resgate grego não trouxe a “tranquilidade” à Zona do Euro, o gráfico abaixo mostra o tamanho do rombo das dívidas:

TABELA_SAB.JPG

 

 

 

 

 

 

 

A reunião emergencial do BCE desta segunda aponta para uma tentativa deseperada de comprar os títulos de Itália e Espanha, antes que entre em colapso de vez. Mas o problema mais grave que se avizinha é a retração do crédito, o mesmo fenômeno que engessou a economia mundial em setembro/outubro de 2008, está na ordem do dia. Os bancos privados não querem emprestar, nem para os governos, nem para produção, muitos menos para famílias. Esta barafunda pode jogar mais uma vez papel decisivo na crise.

Crise Mundial 2.0(2008-2011)

 

 

 

No ar; e tudo quanto nos parecia ser corpóreo se fundiu como ao vento nosso anélito. Oh!se tivessem demorado um pouco! (Macbeth, WS)


 

Apesar do esforço para acompanhar o desenrolar da crise mundial que se alonga desde setembro de 2008 até agora, sem nenhum sinal claro de uma reversão em curto prazo, não tenho dado conta de atualizar estes estudos e observações, pois me falta tempo e rigor científico e, apenas reproduzir matérias de jornais não serve para compreensão da dinâmica da crise.

Vamos pontuar os últimos relevantes fatos e tentar uma pequena analise destes, talvez pelo menos ajude a continuar na produção do debate:

1)      A crise da dívida americana e o não calote;

2)     Estouro das bolsas ou ajustes especulativo imediato;

3)     Nova crise do dólar que se derrete;

4)     O abismo de Itália e Espanha;

 

 

A crise da dívida americana e o não calote

 

Insisti várias vezes nos debates no Twitter Facebook de que os EUA não dariam calote na sua dívida, que o objetivo da extrema-direita americana, liderada pelo Tea Party/Republicanos, era “sangrar” Obama em praça pública, humilhá-lo ao extremo e fazer o pior acordo. Os financiadores de campanhas de Wall Street não deixariam seus financiados irem além da humilhação e prejudicar seus negócios.

Irrefletidamente vários debatedores, inclusive de esquerda, torciam pelo calote, uma atitude mais que irresponsável, pois a conta tanto do acordo e mais ainda de um calote recairá sobre as costas do trabalhadores, muitas vezes esquecemos a razão e ética, para destilar desejos juvenis e inconseqüentes, não olhamos a economia com o devido e necessário distanciamento, ou subestimamos que:

A)    De setembro de 2008 até 2010 houve um crescente enriquecimento dos bilionários americanos, com um aumento do número deles incomparável em qualquer momento histórico, nada menos que 31 novos bilionários em 2 anos;

B)    Os quatrocentos mais ricos americanos detêm mais renda do que 155 milhões de americanos, uma brutal concentração de rendas, graças aos pacotes bilionários de salvamento dos governos Bush/Obama;

C)    Os pacotes de salvamento giraram em torno de 5 trilhões de dólares ( quase três PIBs do Brasil), porém o retorno é de pouco mais de 57% , gerando um passivo de mais de 2 trilhões(1 PIB do Brasil) de calote privado, agravando mais ainda a dívida pública americana;

D)   Uma clara transferência de rendas do Estado, para os grandes grupos econômicos privados, demonstrando que este papo de estado mínimo é só para miriams, sardenbergs se iludirem, na hora H é o ESTADO quem paga a conta de quem o domina, no caso americano, nomeadamente o Morgan Stanley e seus clientes bilionários;

E)    Nestes últimos 3 anos o número de americanos abaixo da linha de pobreza, que recebem os Food Stamps pulou de 31 milhões em agosto de 2008 paras 45 milhões em julho de 2011, um aumento dramático da pobreza, o bolsa família deles é de US$ 137 por pessoa;

 

O orçamento aprovado no congresso americano aponta não apenas para não permitir o calote, pois aumentou o endividamento do Estado, na verdade apenas reconheceu os números atuais, de 99,7% da relação PIB x Dívida, mas apontou para a face mais cruel dele, corte no orçamento, não no socorro aos ricos, mas no corte nos gastos públicos, o que deve agravar a crise, o desemprego e assistência social, aponta para corte de impostos dos ricos e num pequeno corte nos gastos da conta estratosférica da defesa.

Uma ressalva, sem ele o caos seria instalado imediatamente e conta viria de uma vez só, atingindo o mundo de forma violenta, basta lembrar que os títulos da dívida americana remuneram as 75% das reservas cambias do Brasil, da China e da Rússia, imaginem os efeitos sobre estes países um calote americano?

 

Estouro das bolsas ou ajustes especulativo imediato

 

Esta semana, imediatamente após a aprovação do alongamento da dívida americana, começou um intenso ajuste especulativo nas bolsas de todo o mundo, em apenas três dias os números parece alarmante:

A)    Bovespa queda de 10%;

B)    Europa queda de 8%;

C)    EUA queda de 4%

D)   Ásia queda em média 6%;

 

Este movimento de intensa baixa é uma combinação de especulação pura e simples, de criar pânico e depois comprar em baixa, com a visão de que  o acordo americano e crise da zona do Euro apontam para uma recessão global. A versão 2.0 da grande crise de setembro de 2008.

Naquela época houve uma crise violenta de liquidez dos bancos que não davam mais créditos à produção e famílias, uma crise de confiança sobre os créditos podres que intoxicavam e especulavam as bolsas do mundo inteiro. Houve um choque “quase moral” com relação aos capitais especulativos, em particular os mais artificiais, denominados de sub-primes.

O movimento hoje aponta para outra direção a incapacidade dos estados nacionais de rolarem suas dívidas, a maioria privada, mas assimilados pelos governos durante a crise.

 

Nova crise do dólar que se derrete

 

 

O governo americano usou como vetor de saída da crise uma guerra cambial despejando apenas ano passado 600 bilhões de dólares no mercado mundial sobrevalorizando moedas e tornando suas mercadorias competitivas. Este movimento não teve um contra-ataque imediato.

Porém com a perspectiva de acordo da dívida americana ser o pior, como demonstrou ser, alguns Banco centrais começaram uma corrida para comprar dólar e evitar que suas moedas locais se valorizem frente a ele. Banco do Japão (BOJ) compras de dólares (US$ 12,6 bilhões) no mercado, para tentar segurar a valorização do iene. O Banco Central Suiço , O da Inglaterra recomprou 200 Bilhões de libras. Segundo Celso Ming

“O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, criticou asperamente a iniciativa do BOJ, observando que essas intervenções têm de ser coordenadas; não podem ser unilaterais. E, a despeito da posição contrária das autoridades monetárias da Alemanha, avisou que reiniciaria a recompra de títulos de dívida de Portugal e Irlanda, que vêm perdendo preço nos mercados. O BCE já detinha em carteira 78 bilhões de euros em títulos de dívida de países do bloco, especialmente desses dois. Além disso, reabriu leilões de liquidez ilimitada com vencimento em seis meses.”

 

O abismo de Itália e Espanha

 

 

As economias de Itália e Espanha (3ª e 4ª da zona do Euro) estão sob intenso ataque e desconfiança, as agências de riscos rebaixam seus títulos e seus relatórios apontam a impossibilidades delas de cumprirem os compromissos de suas dívidas.

A situação é dramática, pois mesmo a Alemanha e França injetando dinheiro na Grécia, não foram capazes de acalmar as especulações do default grego. Mas a situação italiana é muito mais complexa, sua dívida remonta a 1,8 trilhões de Euro, 120% do seu PIB. A economia em completa estagnação, crise de poder prolongada, nenhuma liderança política nacional consegue dar rumo sólido ao país, efeito Berlusconi corroeu as instituições republicanas.

Espanha com desemprego galopante, enfrenta protestos tem mais de 3 meses sem cessar, combinado com uma economia frágil, completa este cenário caótico. Parece claro que pouca ou nenhuma diferença faz a condução do PSOE ou PP, a maioria do povo espanhol já não espera mais, a ocupação das praças em Madri e Barcelona, e o boicote às eleições recentes demonstram isto.