Crise 2.0: A visão do BC do Brasil

 

 

 

Na terça dia 27 de Setembro o Presidente do Banco Central do Brasil, Sr Alexandre Tombini,  foi à CAE ( Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado Federal e fez uma longa e detalhada explanação sobre a Economia Mundial, análise da Crise 2.0 e quais os desdobramentos no Brasil. Vale a pena ler e ouvir a apresentação, muitos temas e tabelas apresentadas temos tratados aqui no nosso blog.

 

Apresentação

Desafios e Perspectivas da Economia Brasileira

Aúdio

Desafios e Perspectivas da Economia Brasileira – Audio

 

Atentem para riqueza de informações e qual a visão do Governo/BC brasileiro.

 

Crise 2.0 : A Resistência é possível?

 

 

 

 

As crises precedentes

 

Depois de dar um panorama econômico e ideológico sobre a atual crise, que denomino de Crise 2.0, vou elencar e tratar da resistência de países, classe trabalhadora, estudantes e povos contra as consequências cada dia mais funestas deste modelo que se esgota.

A grande novidade da atual crise foi que seu eixo se deslocou dos países periféricos para o coração do sistema capitalista mundial: foi um retorno à crise do petróleo da década de 70, que gerou as três posteriores:

1) Crise das dívidas externas: assolou o “terceiro mundo” nos anos 80, a chamada “década perdida”. Países como Brasil e México foram duramente castigados. Depois de receber grandes subvenções nos anos 60/70, estes países foram cobrados sem dó nem piedade nos anos 80;

2) Crise dos Tigres Asiáticos: Na década de 90 os países centrais apresentaram a conta dos investimentos aos seus “laboratórios”, quase os levando à falência total;

3) Crise russa: Depois da queda da Economia de Estado (não a considero socialista, menos ainda comunista), a Rússia entrou desenfreadamente no ultraliberalismo: a queima do patrimônio estatal, o Estado esfacelado e o endividamento levaram ao default da dívida;

Notadamente nessas três crises, os países centrais (EUA, União Europeia e Japão) sofreram o impacto, mas de forma colateral, não perdendo o controle do jogo: suas economias foram preservadas e a duração da crise mundial provocada por cada uma delas foi relativamente curta.

 

A Crise 2.0


Este reexame das últimas crises é importante para entendermos a dinâmica totalmente diferente da Crise 2.0. O fato primordial é onde ela surgiu: nos EUA. Em segundo lugar, sua longa duração, três anos, sem tendência clara de solução nos próximos dois anos. Agora, a Crise 2.0 atingiu em cheio a Europa. O que parecia circunscrito aos países mais periféricos da Zona do Euro, Grécia, Irlanda e Portugal, expandiu-se e já atinge Itália e Espanha, que, juntas, detêm 1/3 do PIB da Europa.

A Crise 2.0 gera dois movimentos cruéis: A) Aumento do número de desempregados e miseráveis; B) Brutal transferência de riqueza do Estado para os mais ricos.

 

A) Aumento do número de desempregados e miseráveis

 

Vejamos isto em números:

Taxa de Desemprego

EUA 9,1%

Irlanda 14,4%

Espanha 21%

Portugal 12,2%

Alemanha 7,3%

Grécia 15%

Zona do Euro 9,9%

Na Espanha a taxa de desemprego entre os jovens de 18 a 25 anos chega aos 40%; a Itália tem o 3º pior salário médio da Zona do Euro, sendo o 3º país mais rico – a atual geração italiana é mais pobre do que as duas anteriores. A Grécia entrou numa paralisia brutal de serviços desde março de 2011: em apenas 1 ano e três meses, sua dívida não rolada passou de 40 bilhões de euros para 179 bilhões, tornando-se impagável. A dívida italiana atingiu o pico de 103% do PIB: seus títulos a vencer chegam a 200 bilhões de euros, e com a crise política e econômica alguns bancos querem “antecipar” cerca de 1,8 trilhão de euros.

Nos EUA o número de desempregados aumentou em 3 anos em 6 milhões, atingindo 14 milhões de trabalhadores. O número de pessoas que recebem o bolsa família (food stamps) saltou de 36 milhões em agosto de 2008 para 46,2 milhões em setembro de 2011, e o custo passa de 100 bilhões de dólares (comparando, o Bolsa Família no Brasil custa 6 bilhões de dólares).

 

B) Brutal transferência de riqueza do Estado para os mais ricos

 

A despeito da crise, os dois últimos anos foram pródigos para o clube dos bilionários nos EUA: houve um acréscimo de 31 novos. A concentração de riqueza atingiu patamares inacreditáveis: as 400 famílias mais ricas do EUA têm a mesma renda de 155 milhões de americanos mais pobres. Apenas 737 empresas no mundo detêm 80% de tudo que é produzido – este é o outro lado da crise, fácil de ser explicado. No início da crise, em setembro de 2008, o FED pediu ao Congresso 700 bilhões para “dar” aos bancos e cobrir 5% do calote da dívida interna, de 14 trilhões. Depois pegaram gosto pela “redistribuição” do dinheiro público e gastaram 5 trilhões em 3 anos, com retorno de apenas 3 trilhões do processo de salvamento, que incluiu bancos e empresas, mas nada para os trabalhadores.

Um dos muitos planos de Bush/Obama criou um fundo de 200 bilhões para gastar em obras públicas, uma espécie de PAC, para aumentar em 500 mil o número de funcionários do Estado (nos EUA eles são 22,5 milhões). Segundo Paul Krugman, não mais que 125 milhões de dólares foram gastos nessa tarefa; os pequenos e falidos municípios receberam 4 bilhões deste fundo. Entende-se por que aumentou o número de desempregados e miseráveis.

Apenas nestes últimos 4 meses, 10 trilhões de dólares foram queimados na ciranda financeira mundial – as ações em bolsa das empresas passaram de 57 trilhões para 47 trilhões. A especulação continua a todo vapor, apesar do agravamento da crise.

 


Os movimentos de resistência à Crise

 

 

O Brasil cumpre relevante papel na atual Crise 2.0. Além de não ter sucumbido, como aconteceu em 97, na crise dos Tigres, e em 98, na crise russa, ele conseguiu agrupar uma nova ordem de países que não aceitam mais pagar a conta. Mas vamos voltar um pouco e entender o que fez o Brasil.

 

O Brasil e o neoliberalismo

 

Nenhum projeto político ficou imune à lógica neoliberal. O do PT de Lula se adaptou a este mundo, mas, por uma condição particular de extrema miséria e às doses cavalares do receituário neoliberal aplicados aqui, já se começavam a gestar iniciativas tímidas de fazer algo diferente da política dominante.

Dois fatores, para mim foram fundamentais:

1) Diminuição da dependência americana, busca de novos parceiros comerciais;

2) Rompimento com a política de privatizações, que preservou o Banco do Brasil, a CEF e a Petrobras;

Mesmo sob críticas ferozes, Lula buscou, desde 2003, remar lentamente contra a maré. Fez uma excelente política externa, coordenada por Celso Amorim, aproximando o país da China e da África e promovendo uma aliança estratégica com a Europa, em particular, com a França.

A segunda política, a de parar as privatizações, salvou um pouco do patrimônio público e deu margem de manobra para impulsionar uma política de desenvolvimento incentivado pelo Estado.

A Petrobrás, que quase fora privatizada por US$ 3 bilhões em 1999, em janeiro 2003 tinha seu patrimônio avaliado em US$ 20 bilhões; em janeiro de 2010 ela valia US$ 200 bilhões, e movimenta cerca de 10% do PIB, sendo hoje a quarta maior petroleira do mundo. Os ganhos do Pré-Sal podem definitivamente tirar o Brasil da miséria endêmica.

 

O Brasil e a grande crise

 

Aos primeiros sinais da crise, Lula falou que ela seria uma “marolinha”. Quase foi massacrado pela mídia e seus acólitos no parlamento. Porém ele jogou todo seu patrimônio político no combate à crise e enfrentou-a de peito aberto, com o significativo pronunciamento no Natal de 2008.

Lula jogou todas as suas forças e recursos do Estado para que o Brasil fosse pouco atingido pelos efeitos da crise. Importante lembrar que os coveiros (Miriam Leitão, Sardenberg, PSDB e DEM) torciam entusiasmados pela possibilidade de derrotar o governo. Todo dia festejavam um número ruim. Em abril, chegaram a dizer que o desemprego explodiria em 2009, que a geração de novos empregos seria nula. No parlamento, a ‘“marolinha” era motivo de chacota, os programas eleitorais de DEM/PSDB/PPS repetiam as piadas sobre a crise.

Logo em junho a situação se inverteu, o pior passara, o crescimento seria ZERO, mas no mundo todo, em média, seria de -4%, ou seja, estávamos no lucro. A previsão de geração de emprego foi de 1 milhão.

O Brasil impulsionou o G20, grupo que passou a ter voz ativa na OMC e a fazer frente às demandas dos países centrais por maior exploração dos recursos destas nações e a imposição de seus interesses de privatização e invasão de seus produtos.

Ontem a presidenta Dilma foi recebida num jantar em Bruxelas na reunião dos presidentes e primeiros-ministros que discutem uma saída para a crise e querem apoio do Brasil e dos BRICs para que invistam suas reservas cambiais na compra de títulos europeus, amenizando a crise.

 

A luta direta

 

 

O país mais atingindo pela crise, sem dúvida, é a Grécia e para variar a classe trabalhadora foi “convidada” a pagar a conta. Os planos do governo, como sempre, punem os trabalhadores, cortando previdência e aposentadoria, flexibilizando mais ainda o emprego. Os trabalhadores gregos têm respondido de forma ativa, com grandes manifestações e greves. Sob constante ameaça de perder o “status” de integrante da Zona do Euro, a Grécia é o país da região que paga os piores salários. A resistência é heroica, lembra seu passado mitológico.

A Puerta Del Sol em Madri é o símbolo de luta e resistência dos trabalhadores e do povo espanhol. Ocupada desde maio, expandiu para todo o país e a Europa que as medidas de mais ajustes não serão aceitas. A combinação de desemprego e falta de perspectiva política levou a este amplo movimento a juventude, setor mais atingindo pela crise.

As rebeliões de Londres em julho, uma onda que misturava protesto e vandalismo, mostrou que a luta é a saída para as regiões mais excluídas do país, apesar da repressão violenta, do corte de comunicação via celular. Foram momentos que puseram a nu a situação precária que a classe trabalhadora inglesa enfrenta.

A recente ocupação de Wall Street é mais um indício de que a resistência chega ao coração do sistema. O amplo empobrecimento, os seguidos planos que salvam a pele dos bilionários não são digeridos pacificamente pelos trabalhadores e os estudantes.

As famosas manifestações da “Primavera Árabe”, que teve seu auge no Egito, foram para a Europa, mostraram ao povo que só a luta direta pode enfrentar a Crise 2.0. As ações dos governos, até hoje, foram para salvar os mais ricos, relegando aos trabalhadores, aos jovens e aos estudantes o ônus da crise. A classe trabalhadora luta e resiste em condições bastante precárias.

 

Crise 2.0:A questão Ideológica

 

 

 

“Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos” (Ideologia – Cazuza e Frejat)

 

Crise e Ideologia

 

A Crise 2.0 tem sido analisado neste blogs com vários posts (Ver Economia Política )  olhando-a do ponto de vista de Economia e Política. Como ano passado tinha escrito sobre as questões ideológica por trás da crise, resolvi sistematizar melhor esta análise, para ter um melhor método de acompanhamento do cenário mundial, em particular suas profundas mudanças no debate ideológico.

Vários de nós, em pequenos grupos e círculos intelectuais, voltaram aos estudos dos clássicos, não apenas os escritos de Marx, mas de toda a tradição humanista, revisitar os filósofos gregos, os cânones literários, as fontes únicas do pensamento humano.

Esta dolorosa tarefa no meio militante é sempre muito complicada, cheia de barreiras, parte dos dirigentes despreza a ampliação do conhecimento, pois as tarefas diárias se impõem. A baixa compreensão, da formação política e intelectual também se torna adversário deste “mergulho”.

 

Dividiremos este longo post em blocos :

 

  • A) A queda dos Blocos Ideológicos
  • 1) Falência do Leste Europeu;
  • 2) Falência do Liberalismo;
  • B) Estado de Bem Estar Social;
  • C) A Gênese do Neoliberalismo;
  • D) Apogeu e queda;
  • E) A Ideologia sobre o Estado

 

 

A queda dos Blocos Ideológicos

 

Os anos de 1989 e 2008 trarão consigo,quando vistos no futuro, uma profunda ligação, eles encerram marcos muito claro de disputas ideológicas e suas respectivas quedas. Os fatos de 1989 representados na queda do muro de Berlim encerrou a experiência das “Economias de Estado” iniciada com a Revolução Russa de 1917, a revolução Socialista, não completa, ruiu com o muro.

A queda do “socialismo real” possibilitou o aprofundamento do Neoliberalismo, iniciado com Tatcher e Reagan no fim dos anos 70, que terá seu auge pós-muro. 19 anos depois caiu o outro muro, o de Wall Street, quando houve uma quebra generalizada dos bancos e sua imoral ciranda financeira mundial.

Em ambos os casos a ressaca é ideológica, direita e esquerda sem projetos claros de poder e  utopia.

 

Pós-muro de Berlim: a grande melancolia da Esquerda

 

As imagens da queda do muro de Berlim, mostradas e reprisadas à exaustão foi um baque imenso na Esquerda mundial, havia dois sentimentos nas principais correntes de pensamento:

1)       Estupor: Por parte dos grupos que tinham vínculos históricos político-afetivos com a URSS, em particular correntes Stalinistas e não-trotskistas em geral. Aquele profundo desanimo de repensar a vida e valores morais, culturais, fé e utopia;

2)      Euforia: Por parte das correntes Trotskista, que viram na queda a justeza de que sempre tiveram razão de que lá não era Socialismo e mais ainda que uma nova revolução estava em curso, os trabalhadores não aceitariam à volta do “capitalismo”.

Sabemos as profundas conseqüências deste comportamento. Na parte não-trotskista e stalinista, muitos companheiros se quebraram, moralmente abatidos, era uma paulada atrás da outra, todos os sonhos ruíram de forma rápida e inequívoca, praticamente Todos os projetos de esquerda no mundo foram desarticulados, a vitória histórica foi acachapante.

Do lado trotskista a ficha demorou a cair se é que efetivamente caiu para alguns, de que eles também não teriam público para continuar a revolução, a própria análise de que o leste não era Socialista, mas mesmo assim os trabalhadores de lá não iam aceitar o Capitalismo é uma flagrante contradição.

Esta cegueira advinha de uma crença quase religiosa na revolução, em particular na interpretação russa do escritos de Marx, que teve em Lênin grande continuador, mas adstrito a realidade russa, mas que foi tomada como universal.

Aquele impacto de ruir todo o leste europeu fez com que vários companheiros simplesmente abandonarem a luta política, acreditando que aquela era a experiência definitiva do que se convencionou chamar de “socialismo real”. Honestamente derrotados, incapaz de continuarem a militar, se recolheram, trancaram a vida para qualquer nova reflexão.

 

Houve uma tentativa meio “tateado às cegas” de fazer balanços históricos de se entender o que passara nos 72 anos de URSS, os grandes erros, o que levar de lição da revolução. Porém faltaram “audiência” e disposição moral para ir até o fim.

Na metade dos anos 90 a atomização da esquerda revolucionária era fato, com a integração do PT ao regime, as experiências de PSTU e mais recente PSOL, ainda não tem dimensão de massas e não conseguiram discutir um programa capaz de empolgar o ideário revolucionário. Permanecendo assim o PT ainda dentro de um campo de debates de idéias e suas de experiências de administrações dentro dos marcos burgueses são referência para o conjunto da classe.

 

Pós-queda de Wall Street: a grande melancolia da Direita

 

Setembro de 2008 são o marco da queda do castelo Neoliberal, a bancarrota de toda a lógica de acumulação de capital dominante da última do Século XX e a década inicial deste século tem efeito político-ideológico similar à queda do muro de Berlim.

Ruiu a visão de que a História tinha acabado, de que o Estado não era mais necessário, de as organizações coletivas eram peças de museu. Todo arcabouço ideológico foi “triturado” pela crise.

As ações dos frágeis Governos nacionais foram em busca do receituário do passado, ninguém propôs menos estado, por que será? O estado virou a salvação de todos os pecados, aquele mesmo que fora “demonizado” nos áureos tempos Reagan, veio como o Salvador, não deve passar despercebido que a mídia fechou os olhos para esta heresia.

Óbvio que o desmonte feito no Estado em alguns países foi de uma violência tamanha, que nem a possibilidade de uma ação mínima foi tentada. Nações inteiras faliram, exemplos piores na periferia foram: México ( http://especiais.ig.com.br/zoom/a-guerra-contra-o-narcotrafico-no-mexico/ ), Argentina e Turquia. Nas economias centrais os seus déficits públicos e endividamento estatal foram ao espaço, noticias de hoje dão conta de que: Grécia, Espanha, Portugal e Itália estão na completa insolvência. Caricato é Dubai ilha artificial da burguesia de mau gosto também faliu.

A Esquerda ficou desarmada pós-muro, vejo que a Direita agora está sem terra sob os seus pés.A saída da esquerda foi buscar seus teóricos(Marx,Lenin) agora a Direita busca keynes assombradamente, como uma miragem.

 

Estado de Bem Estar Social

 

No pós Guerra várias economias centrais (EUA, Japão, Europa Ocidental) impulsionaram seus estados nacionais com ampla distribuição de renda e atendimento das principais necessidades básicas dos trabalhadores como saúde, educação previdência, aumento da expectativa de vida. Todas estas garantias foram feitas por estados nacionais fortes, que participaram intensamente das atividades da economia, centralizando o planejamento e sendo o principal indutor desta, visão de Keynes era vencedora no mundo.

Muitos economistas consideram os anos 60 e parte dos 70, os anos dourados da economia mundial, larga expansão, crescimento e mundialização do comércio. Estes anos apagaram em parte a maior catástrofe da humanidade, a Segunda Guerra Mundial. Neste contexto os EUA tomam para si a referência de crédito e dinamizador do crescimento. Garantia crédito e ao mesmo tempo comprar o que se produzia, mesmo que significasse enormes déficits comerciais. Porém garantia para si as rédeas econômicas e combatia o “comunismo”.

A dura crise do petróleo nos anos setenta combinado com as das dívidas externas no início dos anos 80 põem em xeque o estado de bem estar social (Welfare State) surgido do pós-guerra como contraponto ao leste europeu.

 

O Novo Liberalismo ou simplesmente: Neoliberalismo

 

A virada política começa com as vitórias de Reagan e Tatcher, estes impõe um duro ajuste econômico com privatizações e restrição do crédito “fácil” o que levou em 82/83 a grave crise das dívidas externas do terceiro mundo (Brasil, México e Argentina no default).

A ofensiva ideológica imposta neoliberal foi de que não havia qualquer possibilidade de “tatear” um contexto de ação econômica ou política fora desta ordem. Combateram sangrentamente as rebeliões na América Latina, como em El Salvador e Nicarágua. Usaram de qualquer método político-militar para impedir e sufocar revoluções e governos de esquerda.

Enfrentaram a antiga URSS e os países do leste europeu de forma decidida, derrotando-os impiedosamente com a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da Rússia. Mesmo governos claramente identificados com políticas de esquerda sucumbiram ao marasmo deste Tsunami interminável.

Nunca uma ideologia capitalista perdurou tanto como esta Neoliberal, que teve seu inicio com a derrota dos mineiros ingleses no Governo Thatcher, amplificado por 8 anos Reagan, que culminou com a queda do muro de Berlim, 30 anos ao todo,sendo os últimos 19 anos(89 a 2008) sem qualquer combate global ideológico.

Particularmente a defensiva política pela qual passamos com a queda do muro de Berlim, desarmou a esquerda ideológica que foi reduzida a pequenos círculos sem efetivo contato e produção política que oferecesse qualquer combate sistemático e global ao neoliberalismo. Em todos os campos sociais e políticos. A situação ficou tão ruim que Francis Fukuyama chegou a prever o fim da “história”.

 

Os arautos midiáticos nos lobomotizaram longamente, reações esporádicas de vozes isoladas foram caladas, intelectuais identificados com a esquerda foram seletivamente ou cooptados ou jogados no limbo, as noções mínimas de jornalismo foram abandonadas.

Nas escolas e universidades a ideologia e o culto ao individualismo é a norma do dia, a necessidade de  que o importante é se dar bem, nem a mínima ética foi respeitada, percebe-se isto claramente no ambiente de trabalho em que colegas recém saídos das escolas com seus MBAs  chegam pisando em qualquer um, pois o objetivo é “crescer”.

 

Império Único, Senhor do Mundo e das Guerras

 

1)    Reagan e a vitória neoliberal

O ciclo neoliberal mais forte e ideológico americano deu-se durante o duro governo Reagan, que foi amplamente vitorioso na luta ideológico ao império soviético, como diz  Macbeth depois das revelações das bruxas “tudo que nos parecia sólido sumiu ao ventos como nossos anelos”.

Reagan conseguiu eleger seu vice, Bush Pai, respaldado pela vitória anti-comunista, sem inimigos claros no mundo. A base da economia americana no pós-guerra era a indústria bélica, bilhões de orçamento público era gasto para deter o inimigo vermelho, com seu fim ela em si perderia a razão lógica de existir. Se não havia contraponto no mundo para que manter algo surreal como ela?

Ledo engano, a pretexto de proteger suas posições no Golfo Pérsico, em 1991, Bush invadi o Iraque, seus leiais aliados de combate anti-iraniano. A mal sucedida invasão, do ponto de vista militar, pois não derrubou Sadam Hussein, reanimou a economia, não o suficiente para garantir um segundo mandato a Bush.

2)    Clinton e os anos dourados do neoliberalismo

Uma surpresa total para EUA foi a vitória de Clinton, ex-governador de Arkansas, estado pequeno e secundário nos EUA. Com uma trajetória de militância política em causas sociais, Clinton chega a Casa Branca e lidera por 8 longos anos um dos maiores crescimentos da economia americana, sem que houvesse um grande conflito externo. Favorecido pela liderança única americana no cenário mundial impôs uma política de expansão das empresas e influência americana baseada no dólar e no mercado financeiro.

Caminhava para garantir um terceiro mandato com Al Gore, seu vice, mas foi atingindo pelo escândalos sexuais, a direita americana pudica até uma tentativa de impedimento cogitou, safando-se por muito pouco. Esta perda de confiança fez com que não tivesse a coragem suficiente de enfrentar a fraude da família Bush na Flórida.

3)    Bush Filho a volta dos senhores da guerra

O episódio de vencer, sem ganhar, levou a uma mudança completa de atitude do Governo Americano, que experimentou uma defensiva externa, questionamento e foi atacado pela primeira vez em seu solo. Os episódios do 11 de Setembro de 2001 foi uma dura resposta tardia a presença americana no oriente médio.

Novo recrudescimento interno e externo deu uma nova guerra ao Iraque a família Bush, detentora de petróleo e amplamente financiada pelos lobbies da indústria bélica. O medo extremo imposto ao estilo de vida americano deu ao Bush Filho seu segundo mandato. Este porém foi um fiasco total, atolados numa guerra sem saída, a economia sem responder, foram 4 anos penosos, um novo “inimigo” crescendo silenciosamente(China) a financiar seu crescente déficit fiscal, culmina com um novo quase 11 de Setembro, 15/09, a quebra de todo o sistema financeiro americano.

4)    Obama o herdeiro do império

Obama surge do nada, ganha da favorita Hillary a indicação do Partido Democrata. Uma hipótese pouco cogitada leva um negro à presidência. Vitória de um outsider total. Sem um pé na máquina partidária, dominada pelos Clintons, Obama faz um acordo cruel, entrega a Secretária de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary.

Enfrentando uma crise sem precedentes, Obama mais ou menos dividiu seu Governo em dois, no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. No front externo entregue a Hillary e os falcões mais reacionários, como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitada pelos crescentes conflitos advindo da ampla crise financeira mundial.

A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela Direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã, mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende a demanda da indústria bélica, do setor petrolífero, do militares e dos falcões de Israel.

 

Queda do Neoliberalismo

 

A grande crise que estourou no mundo em Setembro de 2008 ainda repercute gravemente na Economia, na Política e claro na vida do cidadão comum. A maior conseqüência sem dúvida foi que o canto do cisne soou alto para a visão Neoliberal de mundo.

A crise mundial atingiu em cheio o coração das economias centrais, numa proporção ainda não medida totalmente, o fantasma de que a crise não passou e ameaça mais fica evidente com a quebra seqüencial de Grécia, provavelmente Espanha, Portugal e Irlanda. A Zona do Euro enfraquecia, abriu uma janela para que país como o Brasil com uma política externa agressiva brilhe no cenário mundial.

O mundo mudou rapidamente nestes dois anos, era inimaginável que um país absolutamente secundário no tabuleiro internacional como o Brasil, agora tenha um papel de protagonista, virou uma espécie de terceira via, diante de EUA, com sua visível débâcle e a China de amplo crescimento, sustentáculo da produção de base mundial.

Esta busca por um pólo democrático longe dos impérios pode e deve ser aproveitado pelo Brasil, até o momento tem sido muito bem ocupado este espaço, aparecendo na questão do Irã e sendo referência nas relações com seus parceiros mais pobres tanto na América Latina como na África.

 

Ideologia e Estado

 

“Ideologia eu quero uma para viver” ( Ideologia – Cazuza e Frejat)

 

Seria cômico se não fosse trágico, mas o Estado vilipendiado pelo neoliberalismo virou o socorro às estas almas carentes de fé na sua ideologia, todas as práticas e discursos foram esquecidos e como na música do Chico a fila para Geni salvar tinham todos os personagens.

Em poucos dias o USA elegeu Obama, quase 30% da economia americana foi formalmente estatizada, a dívida líquida e o déficit público as jóias da coroa neoliberal foram enfiadas no saco, a prova cabal de que a ideologia e a política não resistem à dinâmica de crise econômica produzida pelo capital.

Estas medidas de intervenção estatal leva a um aprofundamento das diferenças sociais, em particular nos EUA onde as 400 famílias mais ricas têm a mesma renda dos 155 milhões mais pobres,a famosa classe média foi aplastada pela Crise.

Desde Setembro de 2008 a bolsa família (foods stamps) dos EUA subiu de 36 milhões para 46 milhões de pessoas. O desemprego passou de 6% p/ quase 10% (seis milhões a mais de desempregados). Por outro lado desde 2008 a lista da Forbes agregou 31 novos Bilionários nos EUA, aumenta o fosso social. O surgimento do Tea Party, um grupo de extrema direita, que quer corte de impostos, típica da ideologia ultra-liberal é um marco no atual momento americano.

Na Europa países inteiros estão sendo devastados com o repique da Crise, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália (PIIGS), a combinação de falência local, dívidas impagáveis, governos corruptos e burlescos acentuou o cenário destes países.

 

 

 

#DilmanaONU:Discurso histórico

 

 

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Dilma onu

 

Nova Iorque-EUA, 21 de setembro de 2011

 

Senhor presidente da Assembleia Geral, Nassir Abdulaziz Al-Nasser,

Senhor secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon,

Senhoras e senhores chefes de Estado e de Governo,

Senhoras e senhores,

 

Pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o Debate Geral. É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo.

É com humildade pessoal, mas com justificado orgulho de mulher, que vivo este momento histórico.

Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste Planeta, que, como eu, nasceram mulher, e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres.

Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras palavras muito especiais para mim: coragem e sinceridade. Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje.

 

Senhor Presidente,

O mundo vive um momento extremamente delicado e, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade histórica. Enfrentamos uma crise econômica que, se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social. Uma ruptura sem precedentes, capaz de provocar sérios desequilíbrios na convivência entre as pessoas e as nações.

Mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados.

Agora, menos importante é saber quais foram os causadores da situação que enfrentamos, até porque isto já está suficientemente claro. Importa, sim, encontrarmos soluções coletivas, rápidas e verdadeiras.

Essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países. Seus governos e bancos centrais continuam com a responsabilidade maior na condução do processo, mas como todos os países sofrem as conseqüências da crise, todos têm o direito de participar das soluções.

Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos e algumas vezes, de clareza de ideias.

Uma parte do mundo não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais apropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento. Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade.

O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo. Enquanto muitos governos se encolhem, a face mais amarga da crise – a do desemprego – se amplia. Já temos 205 milhões de desempregados no mundo. 44 milhões na Europa. 14 milhões nos Estados Unidos. É vital combater essa praga e impedir que se alastre para outras regiões do Planeta.

Nós, mulheres, sabemos, mais que ninguém, que o desemprego não é apenas uma estatística. Golpeia as famílias, nossos filhos e nossos maridos. Tira a esperança e deixa a violência e a dor.

 

Senhor Presidente,

É significativo que seja a presidenta de um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego, que venha falar, aqui, hoje, com cores tão vívidas, dessa tragédia que assola, em especial, os países desenvolvidos.

Como outros países emergentes, o Brasil tem sido, até agora, menos afetado pela crise mundial. Mas sabemos que nossa capacidade de resistência não é ilimitada. Queremos – e podemos – ajudar, enquanto há tempo, os países onde a crise já é aguda.

Um novo tipo de cooperação, entre países emergentes e países desenvolvidos, é a oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais.

O mundo se defronta com uma crise que é ao mesmo tempo econômica, de governança e de coordenação política.

Não haverá a retomada da confiança e do crescimento enquanto não se intensificarem os esforços de coordenação entre os países integrantes da ONU e as demais instituições multilaterais, como o G-20, o Fundo Monetário, o Banco Mundial e outros organismos. A ONU e essas organizações precisam emitir, com a máxima urgência, sinais claros de coesão política e de coordenação macroeconômica.

As políticas fiscais e monetárias, por exemplo, devem ser objeto de avaliação mútua, de forma a impedir efeitos indesejáveis sobre os outros países, evitando reações defensivas que, por sua vez, levam a um círculo vicioso.

Já a solução do problema da dívida deve ser combinada com o crescimento econômico. Há sinais evidentes de que várias economias avançadas se encontram no limiar da recessão, o que dificultará, sobremaneira, a resolução dos problemas fiscais.

Está claro que a prioridade da economia mundial, neste momento, deve ser solucionar o problema dos países em crise de dívida soberana e reverter o presente quadro recessivo. Os países mais desenvolvidos precisam praticar políticas coordenadas de estímulo às economias extremamente debilitadas pela crise. Os países emergentes podem ajudar.

Países altamente superavitários devem estimular seus mercados internos e, quando for o caso, flexibilizar suas políticas cambiais, de maneira a cooperar para o reequilíbrio da demanda global.

Urge aprofundar a regulamentação do sistema financeiro e controlar essa fonte inesgotável de instabilidade. É preciso impor controles à guerra cambial, com a adoção de regimes de câmbio flutuante. Trata-se, senhoras e senhores, de impedir a manipulação do câmbio tanto por políticas monetárias excessivamente expansionistas como pelo artifício do câmbio fixo.

A reforma das instituições financeiras multilaterais deve, sem sombra de dúvida, prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes, principais responsáveis pelo crescimento da economia mundial.

O protecionismo e todas as formas de manipulação comercial devem ser combatidos, pois conferem maior competitividade de maneira espúria e fraudulenta.

 

Senhor Presidente,

O Brasil está fazendo a sua parte. Com sacrifício, mas com discernimento, mantemos os gastos do governo sob rigoroso controle, a ponto de gerar vultoso superávit na
s contas públicas, sem que isso comprometa o êxito das políticas sociais, nem nosso ritmo de investimento e de crescimento.

Estamos tomando precauções adicionais para reforçar nossa capacidade de resistência à crise, fortalecendo nosso mercado interno com políticas de distribuição de renda e inovação tecnológica.

Há pelo menos três anos, senhor Presidente, o Brasil repete, nesta mesma tribuna, que é preciso combater as causas, e não só as consequências da instabilidade global.

Temos insistido na interrelação entre desenvolvimento, paz e segurança; e  que as políticas de desenvolvimento sejam, cada vez mais, associadas às estratégias do Conselho de Segurança na busca por uma paz sustentável.

É assim que agimos em nosso compromisso com o Haiti e com a Guiné-Bissau. Na liderança da Minustah, temos promovido, desde 2004, no Haiti, projetos humanitários, que integram segurança e desenvolvimento. Com profundo respeito à soberania haitiana, o Brasil tem o orgulho de cooperar para a consolidação da democracia naquele país.

Estamos aptos a prestar também uma contribuição solidária, aos países irmãos do mundo em desenvolvimento, em matéria de segurança alimentar, tecnologia agrícola, geração de energia limpa e renovável e no combate à pobreza e à fome.

 

Senhor Presidente,

Desde o final de 2010, assistimos a uma sucessão de manifestações populares que se convencionou denominar “Primavera Árabe”. O Brasil é pátria de adoção de muitos imigrantes daquela parte do mundo. Os brasileiros se solidarizam com a busca de um ideal que não pertence a nenhuma cultura, porque é universal: a liberdade.

É preciso que as nações aqui reunidas encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos a condução do processo.

Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis. Estamos convencidos de que, para a comunidade internacional, o recurso à força deve ser sempre a última alternativa. A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas.

Apoiamos o Secretário-Geral no seu esforço de engajar as Nações Unidas na prevenção de conflitos, por meio do exercício incansável da democracia e da promoção do desenvolvimento.

O mundo sofre, hoje, as dolorosas consequências de intervenções que agravaram os conflitos, possibilitando a infiltração do terrorismo onde ele não existia, inaugurando novos ciclos de violência, multiplicando os números de vítimas civis.

Muito se fala sobre a responsabilidade de proteger; pouco se fala sobre a responsabilidade ao proteger. São conceitos que precisamos amadurecer juntos. Para isso, a atuação do Conselho de Segurança é essencial, e ela será tão mais acertada quanto mais legítimas forem suas decisões. E a legitimidade do próprio Conselho depende, cada dia mais, de sua reforma.

 

Senhor Presidente,

A cada ano que passa, mais urgente se faz uma solução para a falta de representatividade do Conselho de Segurança, o que corrói sua eficácia. O ex-presidente Joseph Deiss recordou-me um fato impressionante: o debate em torno da reforma do Conselho já entra em seu 18º ano. Não é possível, senhor Presidente, protelar mais.

O mundo precisa de um Conselho de Segurança que venha a refletir a realidade contemporânea; um Conselho que incorpore novos membros permanentes e não-permanentes, em especial representantes dos países em desenvolvimento.

O Brasil está pronto a assumir suas responsabilidades como membro permanente do Conselho. Vivemos em paz com nossos vizinhos há mais de 140 anos. Temos promovido com eles bem-sucedidos processos de integração e de cooperação. Abdicamos, por compromisso constitucional, do uso da energia nuclear para fins que não sejam pacíficos. Tenho orgulho de dizer que o Brasil é um vetor de paz, estabilidade e prosperidade em sua região, e até mesmo fora dela.

No Conselho de Direitos Humanos, atuamos inspirados por nossa própria história de superação. Queremos para os outros países o que queremos para nós mesmos.

O autoritarismo, a xenofobia, a miséria, a pena capital, a discriminação, todos são algozes dos direitos humanos. Há violações em todos os países, sem exceção. Reconheçamos esta realidade e aceitemos, todos, as críticas. Devemos nos beneficiar delas e criticar, sem meias-palavras, os casos flagrantes de violação, onde quer que ocorram.

 

Senhor Presidente,

Quero estender ao Sudão do Sul as boas vindas à nossa família de nações. O Brasil está pronto a cooperar com o mais jovem membro das Nações Unidas e contribuir para seu desenvolvimento soberano.

Mas lamento ainda não poder saudar, desta tribuna, o ingresso pleno da Palestina na Organização das Nações Unidas. O Brasil já reconhece o Estado palestino como tal, nas fronteiras de 1967, de forma consistente com as resoluções das Nações Unidas. Assim como a maioria dos países nesta Assembléia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título.

O reconhecimento ao direito legítimo do povo palestino à soberania e à autodeterminação amplia as possibilidades de uma paz duradoura no Oriente Médio. Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional.

Venho de um país onde descendentes de árabes e judeus são compatriotas e convivem em harmonia – como deve ser.

 

Senhor Presidente,

O Brasil defende um acordo global, abrangente e ambicioso para combater a mudança do clima no marco das Nações Unidas. Para tanto, é preciso que os países assumam as responsabilidades que lhes cabem.

Apresentamos uma proposta concreta, voluntária e significativa de redução [de emissões], durante a Cúpula de Copenhague, em 2009. Esperamos poder avançar já na reunião de Durban, apoiando os países em desenvolvimento nos seus esforços de redução de emissões e garantindo que os países desenvolvidos cumprirão suas obrigações, com novas metas no Protocolo de Quioto, para além de 2012.

Teremos a honra de sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em junho do ano que vem. Juntamente com o Secretário-Geral Ban Ki-moon, reitero aqui o convite para que todos os Chefes de Estado e de Governo compareçam.

 

Senhor Presidente e minhas companheiras mulheres de todo mundo,

O Brasil descobriu que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. E que uma verdadeira política de direitos humanos tem por base a diminuição da desigualdade e da discriminação entre as pessoas, entre as regiões e entre os gêneros.

O Brasil avançou política, econômica e socialmente sem comprometer s
equer uma das liberdades democráticas. Cumprimos quase todos os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, antes 2015. Saíram da pobreza e ascenderam para a classe média no meu país quase 40 milhões de brasileiras e brasileiros. Tenho plena convicção de que cumpriremos nossa meta de, até o final do meu governo, erradicar a pobreza extrema no Brasil.

No meu país, a mulher tem sido fundamental na superação das desigualdades sociais. Nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central. São elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos.

Mas o meu país, como todos os países do mundo, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher. Ao falar disso, cumprimento o secretário-geral Ban Ki-moon pela prioridade que tem conferido às mulheres em sua gestão à frente das Nações Unidas.

Saúdo, em especial, a criação da ONU Mulher e sua diretora-executiva, Michelle Bachelet.

 

Senhor Presidente,

Além do meu querido Brasil, sinto-me, aqui, representando todas as mulheres do mundo. As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos; aquelas que padecem de doenças e não podem se tratar; aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar; aquelas cujo trabalho no lar cria as gerações futuras.

Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje.

Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.

E é com a esperança de que estes valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra de iniciar o Debate Geral da 66ª Assembleia Geral da ONU.

Muito obrigada.

 

Crise 2.0:Crise Terminal?

 

 

“Se tem que já, não será depois; se não for depois, é que vai ser agora, se não for agora, é que poderá ser mais tarde. O  principal é estarmos preparados, uma vez que ninguém sabe o que deixam que importa que seja logo? que seja!” ( Hamlet- WS)

 

 

A terceira parte desta Crise 2.0, que começou nestes artigos anteriores:

 

1) Crise 2.0 – Desdobramentos;

2) Crise Mundial 2.0 (2008-2011)

 

A localização da crise atual leva-nos diretamente ao reestudo de Marx e sua atualidade nos elementos de análises do capital e sua consequente crise. Neste momento há confrontos de visões não apenas da fase da crise, mas o tipo de crise que se gesta no centro do poder mundial.

 

Crise de Superprodução ou Terminal


Este último mês foi uma demonstração clara de que todas as políticas e medidas econômicas adotadas, quer no EUA, quer na Zona do Euro, têm redundado em fracasso, Trilhões de dólares despejados têm efeito nulo na complexa paralisia que atinge o coração do capitalismo. Os mais apressados, ou desavisados, apontam para crise terminal, como se isto fosse conceito em Marx; não é, apenas uma leitura vulgar dele leva a esta conclusão, que desarma a classe e “facilita” a conclusão, mas cria um problema: quando o capital se recompõe, ou pior, não, o que os fatalistas dizem?

Leonardo Boff, num pequeno artigo, advoga diretamente que a crise atual é TERMINAL, e numa leitura bastante simplista, próxima do pensamento de Rosa Luxemburgo, nos diz:

“duas razões me levam a esta interpretação(..) A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. (…)

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente.”

Este debate, para além da atualidade, já foi vencido nas polêmicas com Rosa Luxemburgo, que via sinceramente um vácuo na análise de Marx em relação à crise. Apressadamente ela concluiu que a crise, por exemplo, na fase imperialista que culmina com a Primeira Guerra, era uma crise terminal: o capital atingindo “todos os poros do planeta” e se desenvolvendo continuamente não terá como se reproduzir, ou não terá “elementos de mais-valia”, vital para sua existência.

Resgatando um pequeno trecho do Capital, mesmo distante do atual momento de desenvolvimento capitalista, mas com uma visão extremamente coerente com os elementos de estruturação da economia, Marx vislumbra o cerne da crise. Leiamos in verbis:

“A destruição principal, e de caráter mais agudo, atingiria os valores-capital, o capital na medida em que configura a propriedade valor. A parte do valor capital na forma apenas de direitos a participações futuras na mais-valia, no lucro, na realidade meros títulos de crédito sobre a produção em diversas modalidades, logo se deprecia com a queda das receitas que servem de base para determiná-la. Parte do ouro e da prata em espécie fica ociosa, não funcionando como capital. Parte das mercadorias que estão no mercado só pode efetuar o processo de circulação e de reprodução com enorme contração de preços, portanto por meio de depreciação do capital que ela representa. Do mesmo modo depreciam-se mais ou menos os elementos do capital fixo. Acresce que relações de preços determinadas, de antemão estabelecidas, condicionam o processo de reprodução, e por isso a queda geral de preços estagna-o e desorganiza-o. Essa perturbação e essa estagnação paralisam a função de meio de pagamento, exercida pelo dinheiro, ligada ao desenvolvimento do capital e baseada sobre aquelas relações de preços pressupostas; interrompem em inúmeros pontos a cadeia das obrigações de pagamento em prazos determinados, e se agravam com o conseqüente desmoronamento do sistema de crédito que se desenvolve junto com o capital. Assim redundam em crises violentas, agudas, em depreciações bruscas, brutais, em estagnação e perturbações físicas do processo de reprodução e, por conseguinte, em decréscimo real da reprodução” (Marx, Capital, L-III, V-IV, p. 292)

 

Novos e piores números da economia mundial

 

A grande novidade da atual crise econômica é que ela se instalou onde se concentram 2/3 da economia mundial, EUA, Europa e Japão. Os números do antigo G7 são francamente alarmantes, e mais e mais apontam para o agravamento da situação, conforme tabela abaixo:

 

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Aliadas às imensas dívidas dos estados, usadas para salvar os bancos e manter os lucros privados, as perspectivas de crescimento são reduzidas e o aumento do desemprego é a face mais cruel do atual momento. Milhões de trabalhadores vítimas da crise são relegados à miséria e toda ajuda é para o capital. Nos EUA, a bolsa-família atingiu 46 milhões de pessoas neste mês de agosto (2011).

A Grécia, que recebeu um pacote de ajuda de 159 bilhões de euros, em menos de um mês, é declarada insolvente. Esta situação coloca em xeque os principais bancos da França e da Alemanha, que detêm 66% dos títulos “podres” gregos, conforme tabela abaixo:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A situação de Portugal também só piorou neste último mês. O presidente do importante grupo português Jeronimo Martins, Alexandre Soares, resumiu bem o momento financeiro do país: Estamos falidos. A única coisa que temos de fazer em conjunto é darmos a mão e recuperamos o país trabalhando”. Na semana passada foi anunciado um plano de ampla privatização para arrecadar 7 bilhões de euros, com um pedido especial para que as empresas brasileiras participem deste processo. Não custa lembrar a inversão de valores: FHC em 1996 se humilhando frente a Portugal e Espanha para que viessem comprar as estatais brasileiras (seria cômico se não fosse trágico).

A Itália do bufão Berlusconi cai a olhos nus. Sua economia decadente desde pelo menos 1996 se arrasta lentamente ao caos; os trabalhadores italianos só ganham mais do que gregos e portugueses  — um empobrecimento explícito num país controlado por um ‘pequeno e medíocre” ditador, que atropela seguidamente o estado de direito, uma sociedade que não reage ao caos. Vem a lembrança da “operação mãos limpas”, que redundou na elevação do que há de pior na escória política da velha bota, o neofascismo burlesco. Hoje seus títulos soberanos foram rebaixados por uma das “famosas” agências de risco, a S&P. Para fechar, a perspectiva de queda no PIB e o plano de austeridade, que não será implementado como concebido.

Paul Krugman propõe implicitamente o abandono ao léu de Portugal e Grécia e a concentração dos recursos em Espanha e Itália. “O que Trichet e seus colegas deveriam estar fazendo, neste momento, é comprar os títulos da dívida espanhola e italiana – ou seja, fazer o que esses países estariam fazendo por conta própria se ainda tivessem suas próprias moedas.” Pois representam 1/3 da Zona do Euro e podem levar toda a Europa ao abismo, enquanto aqueles são apenas “periféricos”, afundam por sua inapetência.

Por fim, Obama lança o 10º plano de salvamento da economia americana, agora um duro corte no orçamento na ordem de 4 trilhões de dólares. Mas, por debaixo do pano (ou plano), 2,6 trilhões são resgate dos títulos não pagos em 2008. A dívida de fantásticos 14 trilhões emperra o governo Obama. Mas a alvissareira notícia é a manifestação em Wall Street, que está cercada desde sábado, 17 de setembro, um marco de que a primavera de protesto chega aos EUA.

 

 

A situação dos BRICs é de profunda apreensão: após o que se conseguiu de capital e importância política por enfrentar e vencer a primeira grande onda de crise em 2008, começa a tomar corpo um movimento de longo debate sobre o que fazer. As medidas tomadas em conjunto naquela época apostavam que ou EUA ou Europa sairia da crise em 2, 3 anos. Porém, o que se percebe é o recrudescimento de sua fase 2.0, muito mais cruel e funda. Sobra pouco espaço de manobra. O Brasil aponta agora para mergulhar fundo no mercado interno, com medidas de proteção à indústria, aos empregos locais, a perspectiva de diminuição de juros e consumo no país, a recomposição do dólar, mesmo com risco de aumento da inflação, tudo faz parte deste novo momento.

Os BRICs também pensam conjuntamente em participar do processo de resgate das economias europeias, seja via privatizações, seja comprando títulos dos países em crise; a China, que tem as maiores reservas, já definiu claramente sua estratégia: como contrapartida exige que a Europa a reconheça como economia de mercado, o que beneficia suas empresas a penetrarem com mais facilidade no Velho Continente.

O mundo está em ebulição. Lamentavelmente, limitamo-nos a analisar os desdobramentos da crise e a mutação da economia. Sem forjar uma alternativa de classe, viramos meros analistas do caos.

 

Blogueiro:Pequeno Ditador?

 

 

“Meu caro amigo,toda a teoria é névoas; auriverde só a árvore da vida” ( Fausto – Goethe)

 

 

A experiência de escrever, fazer um blog, por menor que seja, é riquíssima, incentiva nossas mentes a funcionar com maior vigor, impulsiona a atividade intelectual, ter mais rigor e compromisso, tem uma série coisas prazerosas e positivas que se descobre quando se começa a produzir um blog. Às vezes o receio, medo, de que não saía bom aquilo que escrevemos acaba retardando o início desta aventura, mas depois que se começa, difícil parar.

Porém a cada dia chego algumas conclusões pesadas sobre a atividade de blogueiro e sua função, as piores são as seguintes:

1)   Longe de projetos coletivos, muitos de nós acha que deve dar respostas a TODAS as demandas: Políticas, sociais, econômicas, culturais e estéticas;

2)   Tentar abarcar amplas demandas piora em muito a qualidade do que produzimos, não precisamos dar respostas a tudo o que acontece;

3)   Viramos doutores e “sabe tudo”, na verdade sabemos muito pouco de muitos temas, ou sabemos muito de poucos temas;

4)   Blogueiro se torna um pequeno ditador do seu pensamento, incluo-me, obviamente;

5)   Combinação explosiva de Blog, Twitter e Facebook levam a um distanciamento do mundo real;

 

Esta coisa de saber que o mundo não gira em torno de nós deve ser o primeiro ponto a ser visto como fundamental na hora de escrever textos e exercer a atividade de blogueiro. A tentação de responder a tudo e todos francamente nos fragilizam, pois as respostas são piores à medida que não dominamos determinados assuntos, conceitos e fundamentos. Temos que ter humildade de procurar fazer bem feito o que de melhor conhecemos.

 

 

O risco de querer virar “Guru”, superhomem, ou supermulher, apenas porque em algum momento o que escrevemos tem uma boa sintonia com alguns que nos lêem não nos dar garantia que sejamos superiores ou que tenhamos respostas sempre boas e verdadeiras para nossos amigos. A interação e o bom debate no mesmo nível com os que nos lêem é fundamental para aferirmos o que realmente podemos contribuir, talvez com algum acúmulo sobre determinados temas que temos maior domínio. Nada, além disto.

Mas o maior problema é quando o blogueiro, deliberadamente, não participa de movimentos coletivos, organizações culturais, políticas, sociais ou partidos começam a achar que pode sobrepor com seu blog, estas ações coletivas. Menospreza o elemento coletivo, achando que sozinho dará resposta ao mundo, autoritariamente tenta fazer às vezes, a função daqueles, mas óbvio que não consegue ir além dos seus mais próximos leitores. Depois quando as coisas não acontecem costumam culpar as organizações coletivas por não terem lhe dado o suporte. É uma flagrante contradição, pois o voluntarismo individual, não o fez dialogar com o coletivo, quando a sua ação fracassa culpa o coletivo.

Nortear a ação do espaço opinativo individual e buscar se inserir em espaços coletivos, colaborativos, deveria ser o ideal dos blogueiros, compartilhar as experiências, entender como cada um pode influir e contribuir com o debate e a intervenção social. Ainda continuo acreditando na soma das idéias, não conheço ninguém que tenha dado resposta a tudo, mesmo os mais geniais sempre buscaram o mundo coletivo para inferir suas idéias e ações. Mas a internet parece que mexeu com o Ego, que quanto mais inflamado mais individualista.

Outro dia um destes “famosos” chegou a dizer que não debateria com ninguém sobre Belo Monte se não tivesse escritos fortes e consistentes, mais uma prova deque  se subestima a inteligência por ter um “blog”. Uma vez nominei de “Personal Ideologic” outra figura que achava que podia “corrigir” o pensamento político de outro apenas por ter um blogão.

Precisamos sim debater, mas sem querer impor aquilo que julgamos ser “certo”, o espaço que, por exemplo, ocupo é à esquerda, procuro colaborar com este debate, mas sem usar “peso” de blog, ou de trajetória pessoal, mas claro nem sempre conseguimos, caímos muitas vezes na mesma tentação, mas afirmo, aceito as críticas e ponderações nos debates. Blog, Blogueiro, quando escreve tem de estar disposto a ser contrariado, ser desdito, no momento que escreve e torna público ele tem que se conscientizar que será alvo da crítica, justa ou não, mas não pode deixar debater, isto não tem a ver com patrulhamento político ou ideológico, é a contestação natural num mundo amplo e democrático, sem entender isto falamos apenas para nós mesmos, não cultivamos o senso crítico que tanto nos ajuda a mudar de pensamento e idéias.

 

Guga, um grande brasileiro

 

 

 

(do blog do guga: http://blog.guga.com/noticias/especial-35-anos-de-um-campeao-%E2%80%93-frases-titulos-e-conquistas/attachment/frases-guga-roland-garros-1997 )

 

Ontem ao voltar para casa estava ouvindo a Rádio Bandeirantes um programa de preparação do jogo Brasil x Argentina, quando de repente Milton Neves diz que estava no estúdio ao lado Fernando Meligeni e Gustavo “Guga” Kuerten, e que eles falariam aos ouvintes. Nem acreditei, estava entrando na garagem de casa, fiquei quase 20 minutos emocionado ouvindo(e chorando) meu maior ídolo no esporte, agradecendo todos os jogos que assisti dele.

Guga falava exatamente como o ouvi à primeira em junho de 1997, jeito simples, brincalhão e desprovido de qualquer máscara deste bando de mascarados do futebol. Fez brincadeiras de que deveria levar o Jacaré, seu ídolo do Avaí para seleção, de que o jogo logo mais era ótimo, pois se o Brasil ganhasse da Argentina seria considerado sensacional, se empatasse também, e se perdesse teriam a desculpa de não terem experiência, depois soltou aquela risada. Jamais teremos outro manezinho da ilha como nosso Guga, ele é um presente dos deuses, sem exageros.Voltei 14 anos no tempo imediatamente.

 

Tudo começou, para mim, num pequeno torneio challenger de Curitiba (Embratel Cup) metade de maio de 1997, um cidadão grandão cabeludo e desengonçado mandando boladas no outro da quadra e urrando a cada esforço. Era atração “B” dos programas de TV a cabo. Torneio regional e secundário, mas aquele cara me chamou atenção, nem o nome consegui decorar direito. Mas diziam que ele era um grande tenista que surgia, nosso tenistas numero um era Fernando Meligeni, estava feliz por estar entre os 50 do mundo. Aquele rapaz com a vitória do Challenger chegava a 66 no ranking, nada extraordinário,mas a figura exótica chamava atenção.

Aqui começa a maior aventura do esporte individual brasileiro desde Maria Esther Bueno, 27 de maio de 1997 numa quadra escondida para tenistas que apenas faz figuração no mais charmoso torneio de tênis do mundo, Roland Garros, em Paris, aquele rapazinho desengonçado mais cabeludo e exótico com aquele uniforme totalmente fora dos padrões, uma mistura de cores da bandeira brasileira, entra pra história, deu um baita azar de pegar uma chave fortíssima, exceto o primeiro jogo que o adversário era de pior ranking, Slava Doesedel da República Tcheca, numero 73, foi fácil demais 3 x 0 (6/0,7/5 e 6/4). Porém a segunda rodada ele pega um dos favoritos em grande ascensão no ranking o Sueco Jonas Bjorkman, numero 23. Guga foi para cima impôs 2 x0 e tinha jogo na mão para fazer 3 x 0, levou uma virada no 3º set, mas fechou bem 3 x 1(6/4,6/2,4/6 e 7/5),já era excepcional ele ir à terceira rodada.(confesso que não assisti as duas primeiras rodadas).

Um parêntese: nesta época tinha acabado de chegar do Japão e participava de um projeto de transferência de tecnologia, que tinha começado lá e continuava o desenvolvimento do projeto em campo em Salvador, convivia com cerca de 40 japoneses, num galpão e a língua oficial era japonês, tínhamos uns quatro brasileiros que falava japonês, mas aos poucos todo mundo se entendia, e os japas gostavam muito de tênis e um deles me chamou perguntando quem era aquele tal de Guga? A internet em 1997 não era lá grandes coisas, o site que eles acessavam era o do torneio de Rolang Garros e um da NHK que cobria o torneio, e este brasileiro de vestimentas exóticas e brincalhão ganhara o apelido de surfista do tênis. Passei a acompanhar o torneio via atualização do site e só na terceira rodada o “últimas notícias” do Uol dava resultado parcial dos sets, ficava lá esperando para nova atualização. Assim comecei a terceira rodada.

A terceira rodada Guga tem pela frente simplesmente o campeão de Rolanda Garros de 1995, considerado na época o maior jogador de saibro do mundo o austríaco, Thomas Muster, número 5 do mundo, vencera até ali 44 torneios de saibro, um MONSTRO. Grande jogo, Muster fez 1 x 0 num duro 7/6, Guga virou 6/1  e 6/3, mas perdeu o quarto set 6/3 e espetacular austríaco abre o 5º set fazendo 3/0, mas não se sabe de onde Guga regar e vira o jogo perdido e espanta o mundo com o 6/4. Alguma coisa realmente diferente estava acontecendo em Roland Garros.

Já nas oitavas de finais, Guga não era mais um desconhecido e exótico brasileiro, ele enfretará Andrei Medvedev, ucraniano gigante sacador forte, acabada de ganhar o Super 9(hoje Masters Series) de Hamburgo, jogo disputado na segunda quadra a Suzane Lenglen, começou dia 2 de junho e acabou no dia seguinte. Medvedev fez 7/5, Guga aplicou 6/1 e 6/2, mas perdeu de 6/1 o quarto set, quando no 5º estava 2/2 a partida foi suspensa. Dia seguinte recomeçando Guga abre 4/2, mas sofre o empate 4/4 e perdia 0/40 no saque quando usa toda sua força e vence 7/5. A inacreditável quartas de final totalmente inédita.

Aqui nem preciso dizer que as TV abertas do Brasil “descobriram” o manezinho da ilha, mas aquela figura totalmente anárquica não fazia o padrão global, é a primeira vez que ele aparece no jornal nacional, com uma pequena nota. Mas as quarta de finais, Guga enfrenta simplesmente o campeão de 1996 e maior favorito ao bicampeonato, o Russo Yevgney Kafelnikov, aquém Guga chama de “Café no copo”, grande jogo, quadra central de Roland Garros a torcida francesa já apaixonada pelo ‘maluco” cheio de cores e swing começa batendo 6/2 no campeão, sofre a virada 7/5 e 6/2, mas aplica um histórico pneu 6/0 e vence 6/4 no decisivo set. Aquilo parecia um sonho, um completo desconhecido, de um país que só se ouve falar pelo futebol, assombra Paris.

Ao chegar às semi, Guga terá outro jogador surpresa Filip Dewulf, um belga que veio do Qualifying e surpreendeu muito chegando junto com o brasileiro. Inspiradíssimo Guga jogou a partida com muita força e concentração, parecia que era veterano, com 20 anos ele fez 3 x 1 6/1,3/6,6/1 e 7/6. Guga torna-se finalista, as TVs e jornais brasileiros compram passagens e ingressos caros para “conhecer” aquele cidadão anônimo que chega à final. Lembro na sexta uma longa matéria no jornal nacional cheio de loas, mas apenas com imagens recentes de Guga, pois jamais souberam de quem se tratava. Vão atrás do hotel simples que ele se hospedava, não tinha regalias dos top tens, comia num lugar simples, que Guga manteve sempre a mesma rotina, com seu fiel amigo e protetor o GRANDE Larri Passos, outro cara genial tão desrespeitado no Brasil, invejado acima de tudo, mas que forjou um campeão, mentalmente forte.

 

No fim de semana em que aconteceu a final de Roland Garros, vim para São Paulo, estava para nascer minha primeira filha, e entre morar no Japão, depois Salvador, muitas coisas precisávamos fazer em casa, mas aquele jogo foi o grande momento daqueles dias. Domingo pela manhã, antiga Rede Manchete, abre um link com Roland Garros, Guga entra na quadra lado a lado com Sergi Bruguera, outro grande campeão do saibro, que havia conquistado duas vezes Roland Garros, 1993 e 1994, este espanhol era o primeiro de uma geração de campeões que hoje culminou com Rafael Nadal, uma escola de craques, planejamento de longo prazo. Simplesmente Guga não tomou conhecimento do currículo do Sergi Brugera facílimo 6/3, 6/4 e 6/2 uma loucura, aquele sujeito desengonçado chegou lá. Saímos de casa e algumas poucas pessoas no Parque Ibirapuera comemorando o título, depois de Airton Senna, Guga passa a ser a paixão nacional do domingos pela manhã.

 

Recontar sobre Roland Garros é muito duro para mim, pois a figura ímpar e carismática do grande brasileiro Gustavo Kuerten é muito forte, esta semana fez 35 anos, o setembro de 1976 foi pródigo com o Brasil nos deu em uma semana Guga e Ronaldo Nazário, outra grande coincidência em 1997 tanto um como o outro assombraram o mundo. Porém o feito de Guga é mais espetacular, por ser um esporte sem tradição no Brasil, com raros patrocinadores, e este cometa harley parece que é nosso destino, primeiro Maria Esther Bueno e depois Guga. Obrigado campeão, vamos sempre ficar felizes em vê-lo torcendo pelo seu Avaí e nos dando alegria com sua imagem.

Links sobre Guga:

Site Oficial

http://www.guga.com.br/#/home

Instituto Guga Kuerten

http://www.igk.org.br/

Wikipedia do Guga

http://pt.wikipedia.org/wiki/Gustavo_Kuerten