Crise 2.0: Capitalismo vs. Democracia

 

 

 

 

Domingo no caderno “Aliás” o Estadão republicou um artigo que saíra no “The Washington Post” de Harold Meyerson, velho jornalista militante, que já no título, faz uma provocação fatal, a mesma que estamos fazendo na longa  série Crise 2. 0, “ Capitalismo vs. Democracia” é um artigo provocante demais, vale ler cada parágrafo. O link do artigo integralmente está aqui em português traduzida pelo Estadão : Capitalismo vs. Democracia e em inglês no The Washington Post : The growing tension between capitalism and democracy

 

Capitalismo vs. democracia

Governos eleitos desbancados na Grécia, Itália, Espanha… É como se os mercados da Europa se cansassem dessa bobagem de soberania democrática

Harold Meyerson – The Washington Post ( via  O Estado de S.Paulo) / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK


“Capitalismo conflita com democracia? Um enfraquece o outro?

Para ouvidos americanos, essas questões parecem bizarras. Capitalismo e democracia estão ligados como gêmeos siameses, não? Esse foi nosso mantra durante a Guerra Fria, quando era nitidamente claro que comunismo e democracia eram incompatíveis. Mas depois que a Guerra Fria terminou as coisas ficaram mais confusas. Não custa lembrar que virtualmente cada executivo de empresa americano e cada presidente americano (dois Bushes e um Clinton, em particular) nos disseram que levar o capitalismo à China democratizaria a China”.

 

É exatamente o ponto crucial da propaganda do grande capital, que a expansão do capitalismo levará democracia a qualquer lugar do mundo, desde o antigo leste europeu, agora recentemente nas invasões aos países muçulmanos, como  Iraque, Afeganistão. A insistência em criminalizar Venezuela, Irã, Coréia do Norte tratando-os como eixos do mal.


“Os governos eleitos da Grécia e Itália foram depostos. Tecnocratas financeiros estão no comando nos dois países. Com as taxas de juros dos bônus espanhóis subindo acentuadamente nas últimas semanas, o governo socialista da Espanha foi desbancado por um partido de centro-direita que não ofereceu soluções para a crise crescente desse país. Agora, o governo de Nicolas Sarkozy, na França está ameaçado pelas taxas de juros crescentes sobre seus bônus. É como se os mercados por toda a Europa tivessem se cansado dessa bobagem de soberania democrática”.

 

Até a questão formal, eleições para validar governos em crise, foi abandonada, não admitindo que se “perca” tempo ouvindo o povo, afinal eles não têm muito a dizer, impuseram governos a países que foram berço da democracia ocidental: Grécia e Itália.

 

Cidadãos de Segunda categoria


“Para ninguém achar que exagero, considere-se a entrevista concedida por Alex Stubb, ministro da Europa para o governo de direita da Finlândia, ao jornal Financial Times no último fim de semana. Os 6 países da zona do euro com classificações de crédito AAA, disse Stubb, deveriam ter maior influência nos assuntos econômicos da Europa que os outros 11 membros do euro. Os direitos políticos da Europa Central e do Sul seriam subordinados, basicamente, aos da Alemanha e da Escandinávia – ou às agências de classificação de crédito, que estão ameaçando rebaixar a França (reduzindo, com isso, de seis para cinco o número de países do euro tomadores de decisões).

O que Stubb está propondo, e os mercados estão fazendo, é, em essência, estender ao reino de países antes igualmente soberanos o princípio de “um dólar um voto” que nossa Suprema Corte inscreveu em sua decisão Citizens United no passado. O requisito de que se deve possuir propriedade para votar – abolido neste país no início do século 19 pelos democratas jacksonianos – foi ressuscitado por poderosas instituições financeiras e seus aliados políticos. Para os países da união monetária europeia, a “propriedade” de que precisam para garantir seu direito de voto é uma classificação de crédito apropriada”.

 

A ideia desta emissão de Eurobônus “seletivo” estar sendo posta em prática, ontem as bolsas explodiram com a possibilidade destes títulos serem lançados apenas pelos países do triplo AAA. A democracia formal foi deixada de lado, uma verdadeira capitulação dos dirigentes eleitos aos ditames dos “mercados”, agora sem nenhum disfarce.


“Nos 80, alguns governos, liderados por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, inclinaram-se para outro caminho, aumentando as taxas de juro e o desemprego e ajudando a quebrar sindicatos. Nos anos 90, um acordo fatal foi firmado: para compensar as rendas estagnadas, o endividamento privado disparou e proprietários de casa e consumidores recorreram ao crédito fornecido por instituições financeiras desreguladas. A dívida pública contraiu (os Estados Unidos tiveram orçamentos equilibrados no fim dos anos 90). Na esteira do colapso de 2008, essa dinâmica foi invertida: governos por toda parte assumiram o endividamento que seus cidadãos não poderiam mais suportar, mediante gastos deficitários para contra-atacar a Grande Recessão.

Agora, os mercados estão contra-atacando. Napoleão não conseguiu conquistar toda a Europa, mas a Standard & Poor’s talvez ainda o consiga. Conflitos entre capitalismo e democracia estão eclodindo por toda parte. E os europeus – e mesmo os americanos – poderão ter de enfrentar, em breve, uma questão que não consideraram por muitíssimo tempo, se é que algum dia consideraram: de que lado eles estão?

Hoje a Moody’s ameaçou a UE para que tomem logo uma decisão rápida, senão rebaixa todo mundo, é a “voz” , uma espécie de “Anjo Gabriel” do “Deus Mercado”, para que os mortais aceitem pagar pelos seus pecados.

ISTO AINDA É DEMOCRACIA? fica a questão…

 

 

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Crise 2.0: Atores e seus roteiros limitados

 

 

 

“Inda enfim cá tornei. Visto quereres

saber por mim o que lá vai no mundo,

pronto; que antigamente (inda me lembra)

gostavas de me ouvir. É só por isso

que me tornas a ver entre esta súcia.

Tem paciência! Eu, retóricas sublimes,

é coisa que não gasto; e mesmo escuso

deste augusto congresso expor-me às vaias”.

(Fausto – Goethe)

A Crise 2.o pode nos ajudar a entender lance a lance como se desenrolam os bastidores das relações políticas e econômicas das economias centrais, na crise se despem os atores, eles agem com  mais medo, raiva e ódio, se mostram mais inteiramente, é assim que podemos notar alguns destes casos mais complicados de forma mais simples.

 

A Política por trás da Economia

 

A discussão mais central hoje na UE, na verdade entre Alemanha e França é sobre a emissão de Eurobônus, coordenado pelo BCE para resgate dos créditos podres dos países mais atingidos pela especulação dos CDS. Merkel resiste bravamente, abaixo algumas pistas do por que.

Mas para sentir o clima de que realmente a UE hoje não passa de uma união de países que se submetem a Alemanha, por enquanto a França também. Vejamos a vergonha declaração do Presidente da comissão europeria o português José Manuel Durão Barroso “Merkel não é contra o eurobônus; é contra discutir isso no momento errado”.

Mas a questão não se esgota na declaração do submisso Durão Barroso, semana passada em Estrasburgo, Merkel e Sarkhozy, sabatinaram o primeiro ministro italiano Mario Monti, apenas para lembrar, os dois já tinham dado ultimato ao eleito Berlusconi, de que se afastasse do governo, agora, mesmo com um tecnocrata de confiança, fizeram questão de chamá-lo para que não houvesse dúvidas do que se espera dele. Itália não é mais tratada como país, mas apenas uma capitania, com seu governador-geral.

Antes a dupla Merkhozy já humilhara o ex-premier grego, fazendo-o esperar por duas à porta de uma cúpula europeia, sem que lhe franqueasse o assento. Ainda o mandou de volta a Atenas como demissionário, com ordens de dar um fim na idéia de plebiscito e com novo primeiro ministro escolhido por eles. Agora a suprema humilhação: Todos os partidos gregos têm que assinar o plano de salvamento da dívida grega, senão as parcelas não serão liberadas, nem o FMI teve coragem para tanto no Brasil de FHC.

 

A Economia por trás da Política

 

Mas segundo OCDE com dificuldade para conter uma crise de dívida sem precedentes, a zona do euro já entrou em uma recessão e crescerá apenas 0,2% em 2012, disse a OCDE, cortando a previsão anterior de 2%”.(Via Estadão)

O artigo alarmante de Jamil Chade no sábado dá conta que a Itália já paga o maior “prêmio” aos seus títulos, inclusive superior aos pagos por Grécia, Portugal:

Ao emitir nesta sexta-feira € 2 bilhões com vencimento em dois anos, a Itália foi obrigado a pagar taxa de juros de 7,8%, a mais alta do país desde a criação do euro, no final de 1999. Outros € 8 bilhões foram emitidos, com prazo de seis meses, a uma taxa de 6,5%.

Na prática, o preço cobrado pelo mercado é um sinal claro de que os investidores não confiam na capacidade do governo de Mario Monti de superar a crise. Países como Grécia, Portugal e Irlanda tiveram de ser socorridos com a taxa próxima de 7%.

Na quinta-feira, a minicúpula entre Monti, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy terminou com a constatação que a Alemanha não concordará com a criação de um mecanismo na UE para resgatar governos em dificuldade. Merkel também se recusa a aceitar a ideia de ter o Banco Central Europeu (BCE) atuando para salvar países, projeto apoiado por Itália e França”.

A Bélgica tinha anunciado na quarta que dificilmente cumpria o acordo de salvar o Dexie, pois sua dívida pública estava incontrolável, cerca de 97% do PIB, na Sexta a Em outro sinal da deterioração dos mercados, a agência Standard & Poor’s reduziu a classificação da Bélgica de AA+ para AA, sob a alegação que cresce a possibilidade que o governo de Bruxelas seja obrigado a usar mais uma vez recursos públicos para salvar seus bancos”.( Estadão).

 

The Oscar goes to … Alemanha

 

 

Com todos os percalços a Alemanha é grande “vencedora” deste estado de coisas que se encontra a Europa. Apenas nos últimos dois anos ela economizou 20 bilhões de Euros com suas emissões de bônus de títulos soberanos. Com a imensa exposição dos países em crise seus títulos passaram a ser o “porto seguro”.

Daí a resistência de Merkel resistir a emissão de Eurobônus, ela como CEO dos bancos alemães, não tem menor interesse em ter “concorrência” na especulação, a analise alemã é que a queda, decadência dos outros países não a atinge, facilita inclusive que domine com mais intensidade a Europa.

Mais ainda, a envelhecida sociedade alemã atraiu os melhores jovens cérebros europeus, pagando salários menores, facilitado pela zona do Euro. Virou o objetivo de trabalhadores gregos, espanhóis, portugueses é ir vencer na Alemanha.

Engraçado ler uma crítica, quase moral, de Celso Ming contra o “timing” de Merkel:

“Apesar dos renitentes nãos da Lady No (a chanceler da Alemanha, Angela Merkel), estão próximos os dias em que o Banco Central Europeu (BCE) não terá outra saída a não ser assumir sua até agora renegada função de emprestador de última instância para os Estados nacionais do euro”.

(…)

“A questão é mais profunda. A função mais importante de um piloto de navio não é mantê-lo limpo e abastecido, embora isso também seja importante. É garantir capacidade de navegação. Não se trata de garantir cenários de longo prazo de sustentação do euro, que implicam complicada costura de novos tratados. Trata-se, em primeiro lugar, de impedir seu naufrágio.

Se é que já não foi ultrapassado, o ponto de assegurar a sobrevivência do euro parece muito próximo”.

 

O “papel” coadjuvante da França

 

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Sarkhozy tem sido o fiel escudeiro de Merkel, mas na prática é um degrau abaixo, não só porque a economia francesa é menor, mas a situação dela é extremamente delicada, não desesperadora, ainda, como a da Itália, Espanha, por exemplo.

Mas Sarkhozy defende com unhas e dentes esta parceria com a Alemanha, não é só identidade ideológica com Merkel, mas a força dela, para cobrar aos outros países suas dívidas com os bancos franceses, bastante ameaçados. Apenas com a Itália os bancos franceses são credores de 400 bilhões de Euros.

A Revista “The Economist”numa longa reportagem  “Beware of falling masonry” , aponta que para o pânico e o risco de desintegração do Euro, num de seus gráficos  a relação das dívidas dos países com os bancos franceses( porcentagem do PIB) a Itália deve o equivalente a  21% do PIB francês, a Espanha a 7,6%. Uma situação explosiva dada à imensa crise que estes países estão enfrentando. O Default deles pode “matar” a França.

 

A separação Sarkhozy de Merkel pode se dar na questão do Eurobônus, pois é vital para França, por enquanto eles arrumaram um jeito de contornar, o BCE começou discretamente a comprar os papeis secundários da divida italiana, mas entre Janeiro e meados de Fevereiro a Itália tem renovar 96 Bilhões de Euros de sua dívida, o que afeta diretamente os bancos franceses. Veja gráfico da The Economist com os vencimentos até Fevereiro de 2012.

 

 

 

Grandes emoções no frio inverno europeu…mais uma pausa para os intervalos comerciais!!!

 

Crise 2.0: Privatizadores, agora privatizados

 

 

 

“não sei do meu amor
que misterioso fado
ai que segredos tem…

– só tenho medo
do grande Mar,
cuidado! “

(Madredeus – Cuidado)


A Crise 2.0  tem derrubado alguns mitos, em particular para nós brasileiros, nos anos 90, o Brasil sob o receituário do FMI teve que privatizar uma gama enorme de empresas. Portugal e Espanha foram os ferozes compradores, associados ou em disputa entre si. Era dinheiro que não se sabia de onde, que empresas menores que as locais, chegavam aqui e compravam gigantes, afora este mistério, eles voltaram como novos conquistadores. E agora como estão?

 

Portugal : D. Sebastião não voltou…

 

Uma semana extremamente impiedosa com Portugal, este talvez seja o ano para esquecer e mais uma vez D. Sebastião não aportou nas praias, vindo do além mar. O Fado volta ao centro da alma do país, pois só resta o choro e o desespero, mais uma vez o continente vira as costas para Portugal.

De um só feito Portugal perdeu o “grau de investimentos” caindo suas notas de classificação de riscos para “Crédito Podre”, mesmo com ela sendo monitorada pela “troika” (BCE, UE e FMI), não foi suficiente para descer um pouco mais ao inferno. Mas as piores notícias vieram no fim de semana: PIB cairá 3% em 2012 e o plano de austeridade de reduzir o déficit público para 5,9% não será cumprido.

Os trabalhadores resistem fortemente, fizeram uma greve geral com grande adesão, o que irritou o governo de direita que acusa os sindicatos de sabotarem o plano de emergência para sair da crise. A situação se agrava, não se vislumbra mais aquela empáfia dos privatizadores da América Latina e África dos fins dos anos de 1990, aquele dinheiro farto, secou, só sobrou a lamúria e os embates internos.

A “troika” impõe a Portugal que ela tome do veneno que distribuiu, por exemplo, no Brasil, com as privatizações. As empresa estatais ou com “golden share” do governo português tem que ser privatizadas imediatamente, adivinhem quem serão os possíveis compradores? Há um pedido especial da “Troika” que o Brasil seja o coordenador destas compras, pois a UE não tem interesse e caixa para fazê-lo e há receio do dinheiro chinês.

 

Espanha: Touro corre solto em Madrid..

 

Do outro lado da Ibéria, Espanha viveu uma semana agitada, as eleições que prometiam abrir alguma expectativa positiva vão paulatinamente se tornando um peso, o vitorioso não conseguiu produzir uma única matéria positiva desde que se elegeu, além de estar sob pressão para que diga claramente o que fará.

A Espanha tem um agravante maior que Portugal, seu tamanho, principalmente de sua enorme dívida, em 2012 ela precisará de 110 bilhões de Euros apenas para rolar sua dívida, mas estas se tornando vencidas antecipadamente são o risco, soma 700 bilhões. Onde encontrará dinheiro para cobrir o menor ou o maior rombo?

A bolsa de valores de Madrid caiu 7% na semana e 22% no ano, indicio muito claro que a “confiança” dos “mercados”, esta entidade esotérica, não quer saber de eleições ou de governos que não têm planos que lhe agrade. Para fechar a situação Rajoy foi “convocado” a prestar conta à Merkhozy, na próxima semana, e TEM que levar um plano, senão voltará de mãos abanando, mesmo no frio europeu.

A receita imposta será a básica de sempre: Privatizações, redução das aposentadorias, ajuste fiscal, corte de gastos públicos. Para um país que vive uma crise violenta, em particular com desemprego em massa, parece ilógico que um receituário destes funcione, sem uma desagregação interna.

 

Crise 2.0: Há saída para a UE?

 

 

 

 

 

“Terra boa é sujeita a muita praga” ( Henrique IV,Parte II, W. Shakespeare)

 

 

Visão dos liberais

 

De muita valia tem sido ler o Estadão, para melhor alinhavar os artigos sobre Crise 2.0, em particular as colunas do Celso Ming, concordando ou não com ele, tem muito rigor, claro se não nos perdermos quando divaga na saudade liberal, mas as informações sempre são relevantes e os temas bem cadenciados.

Hoje a coluna dele “Trovoada lá fora”, corretamente ele aponta as três questões que provocaram temor no mundo inteiro, pela gravidade e relação estreita entre elas:

“(1) A Alemanha, economia mais sadia da Europa, não conseguiu comprador para todo o lote de seus títulos leiloados. Captou apenas 3,6 bilhões de euros, pouco mais da metade do volume pretendido.

(2) O Banco da Grécia (banco central) não só avisou que a dívida ficou insustentável, mas também que o Produto Interno Bruto (PIB) do país recuará ao menos 5,5% neste ano e outros 2,8% em 2012. E acrescentou que cresceu o risco de que a Grécia saia da área do euro.

(3) A Bélgica anunciou que ficou muito difícil garantir participação nas necessidades de capitalização do Banco Dexia, por exigir aumento proibitivo do seu endividamento.” (Estadão, 24/11/2011)

As analises que ele faz para cada item não são tão relevantes, usa muito lugar comum, mas a principal conclusão, sim, é mais que relevante, ela vai apontar para o mesmo caminho que Paul Krugman, que é de outro matiz, também o faz: O BCE tem que agir :

“O agravamento da crise deixa poucas opções aos líderes do euro. Parece cada vez mais próximo o dia em que o governo de Berlim terá, enfim, de admitir que o Banco Central Europeu opere como emprestador de última instância aos Tesouros nacionais e que, assim, trabalhe como bombeiro – como o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), em 2008, depois da quebra do Lehman Brothers.”(Estadão, 24/11/2011)

Tanto liberais clássicos como Ming, ou “esquerdista” (seja lá que diabo signifique isto) tipo Krugman, convergem rapidamente para a mesma solução, clamam por racionalidade diante de um “mercado” insano. Querem que o BCE intervenha, ponha ordem “POLÍTICA” nos mercados, assuma uma função ativa e evite o pior.

Eles, certos ou não, já não crêem nas soluções políticas locais, de uma Zona do Euro que hoje se funda, apenas na Moeda comum, então raciocinam que o BCE é o único que pode gestar uma solução aceita por seus sócios.

Há alguma razão no que dizem, basta ver o choque ontem entre Merkel e Barroso, um Comissário Europeu menor, não por ser português, país mergulhado numa crise mais intensa, mas porque o modelo de governança já caducou.

Merkel e Sarkozy atropelaram a lógica de funcionamento. Impondo humilhação aos que estão em pior situação, derrubando e formando novos governos, comprometidos com os bancos deles (Alemanha e França) e não com a UE.

A Crise ontem atingiu a própria Alemanha, quando não conseguiu rolar seus títulos, mas atente bem, a taxa oferecida foi de 1,98, bem inferior aos dos outros países. O Wall Street Journal publica a tabela demonstrativa :

 

 

 

 

 

 

 

 

Visão Oposta

 

Meu amigo Sergio Rauber (Blog  [… A COISA TODA] ) traduziu um texto cortante e critico sobre a atual Crise, de autoria de Andrea Fumagalli, A experiência aberta da ditatdura finaceira, alguns pontos são cruciais para o correto entendimento da crise e suas conseqüências práticas no mundo, selecionei alguns trechos que venho repisando e o artigo o faz de forma brilhante:

A questão da  formação da UE

“Já vimos uma dinâmica semelhante, quando se construiu a união monetária europeia, ideologicamente apresentada como o coroamento do sonho de uma união europeia, política e social. Nada poderia estar mais longe da verdade e agora vemos seus perversos efeitos. Na época, era o início dos anos 90, a necessidade incontornável de cumprir os critérios de Maastricht (ou da “emergência de entrar na Europa”) marcou o decisivo ponto de viragem para a mudança nas políticas de distribuição de renda (a transferência “institucionalizada” dos rendimentos do trabalho para os rendimentos do capital) e para o início do processo irreversível de precarização do trabalho e da vida. Hoje, a emergência é chamada de crise da dívida soberana (ou de “emergência para permanecer na Europa”). E esta é uma situação que, ao contrário do início dos anos 90, encontra um vazio de ação em nível institucional europeu”.

O Poder Real (dos Bancos) x Poder Servil (dos Políticos)

“O biopoder dos mercados financeiros aumentou muito com a financeirização da economia. Se o Produto Interno Bruto mundial em 2010 foi de 74 trilhões de dólares, o das finanças o supera: o mercado de títulos, mundial, com o valor de 95 trilhões de dólares; o das bolsas de valores ao redor do mundo 50 trilhões, os derivativos 466 trilhões (oito vezes mais do que a riqueza real). Tudo isso é muito conhecido, mas o que muitas vezes esquecemos a notar é que este processo, de mudança do centro de valorização capitalística da produção material para imaterial e, da exploração do trabalho manual pelo cognitivo, deu origem a uma nova “acumulação primitiva”, que, como toda acumulação primitiva, é caracterizada por um alto grau de concentração.

No mercado bancário, de 1980 a 2005, verificaram-se cerca de 11.500 fusões, uma média de 440 por ano, reduzindo de tal modo o número de bancos para menos de 7.500 (dados do Federal Reserve). No primeiro trimestre de 2011, cinco holdings (JP Morgan, Bank of America, Citibank, Goldman Sachs, HSBC/EUA) e cinco bancos (Deutsche Bank, UBS, Credit Suisse, Merrill Lynch-CityCorp, BNP/Paribas) têm controle sobre 90% do total dos derivativos (dados OCC, Office of Comptroller of the Currency)”.

(…)

“A governança política real não está mais nas instituições políticas, mas na hierarquia financeira. Tendo sido a politica um servo fiel nos anos 90, durante a construção monetária e monetaristas da Europa, não permitiu que as instituições europeias pudessem manter uma voz. O servilismo da política, enfim, transforma
do em servidão”.


“Tecnocratas”


“As políticas econômicas impostas para Itália e Grécia, Portugal, Espanha não têm como objetivo a consolidação das finanças públicas, mas se destinam a estabelecer, explicitamente, a primazia do poder econômico-financeiro sobre a política (através do controle social, político e midiático feito pelo controle disciplinar financeiro). O caso emblemático é o da Grécia. Depois de quatro ajustes financeiros draconianos em nome de uma suposta recuperação, as previsões do PIB grego para 2011 são desastrosas (- 5,3%), com o resultado que a equação déficit/PIB, longe de ser reduzida é suscetível de aumentar”.

(…)

A mudança política na Grécia e Itália, de fato, confirmam a suposição implícita de que os mercados financeiros são intocáveis”.

(…)

“A natureza problemática da proposta não é “técnica”, mas política, ela é, de fato, a introdução de restrições à circulação no mercado de capitais e a criação uma nova agência com a função de manter os títulos “congelados”. E esta nova agência não pode nem deve ser o BCE, mas sim uma agência de “política” na Europa, visando a construção de uma política fiscal comum europeia destronando soberania fiscal nacional em matéria de tributação e gastos públicos”.

 

Fumagalli ao contrário dos outros  acima não ver solução no BCE, mas numa agência política, o que seria um “Estado Unidos da Europa”? Este é o debate fundamental: Qual a saída?

 

Henrique IV: Parte II – O jovem Henrique

 

 

 

 

“Pelas línguas do Rumor chegam ledos e ligeiros, mais fatais do que males verdadeiros”.

 

 

Tema: Drama Histórico, luta pelo poder

Resumo: O jovem príncipe Harry, começa a assumir seu lugar no trono, a doença do pai o afasta da vida de fanfarra. O Velho Rei, doente faz uma mea culpa dos golpes que dera nos adversários para chegar ao trono.

 

Passado Anterior

 

A chegada da casa dos Lancaster ao trono inglês se dar com Henrique Bolinbroke, que entra em guerra com seu primo Ricardo II, que se corrompera no poder, tomando a herança de Henrique. A revolta é vitoriosa, graças a ajuda de Henrique Percy.

Bolinbroke obriga a Montmer abdicar do trono, assumindo ele mesmo como Henrique IV. Nova rebelião e mais uma vez com ajuda de Henrique Percy, Bolinbroke é vencedor. Tentando destruir de vez os adversários, o Rei exige a entrega por Percy dos mesmos, este se recusa provocando uma nova rebelião.

Os filhos de Henrique IV, o jovem fanfarrão Henrique e João vão para linha de frente da batalha lutar contra o temível Henrique Percy. A guerra que se prolonga por quase 100 anos está perto de chegar ao seu fim com a vitória da casa de Lancaster.

Ver mais aqui : Henrique IV: Parte I – Falstaff

 

O Livro


 

 

Na parte I de Henrique IV o primeiro rei da casa de Lancaster, Henrique Bolinbroke, chega ao poder, mas a guerra interna está longe de terminar, o seu grande aliado na primeira fase da luta, Henrique Percy, rompe com ele por não concordar com o massacre dos lordes rebeldes, Montmer e Glendower, nobres, inclusive o primeiro seria o legítimo herdeiro do trono, hora ocupado por Henrique IV.

Henrique IV, com a ajuda dos príncipes Henrique, João e Clarence, além do apoio amplo ao sei governo, vai ao campo de batalha enfrentar os nobres rebelados que buscara forças em Gales e Escócia. A morte de Henrique Percy enfraquece sobremaneira as forças contestadoras.

Mas a estratagema de João de Lencaster é mais decisiva para por fim a guerra, ele chama os lideres rebeldes para formalizar um acordo de paz duradouro que acabe com a guerra que dura quase 100 anos com longas perdas e instabilidade do trono inglês. Os rebeldes enfraquecidos aceitam, ao chegar ao encontro, aceitam dispersar suas forças, João os prende acusando-os de conspiração.

LENCASTRE — A paz foi anunciada; ouvem-se vivas.

MOWBRAY — Mais ruidosos seriam, se tivéssemos vencido.

ARCEBISPO — A paz é como uma conquista: com nobreza as duas partes se submetem; nenhuma delas perde.

LENCASTRE — Ide, milorde, e dispersai também o nosso exército.

(Sai Westmoreland.)

E, meu bom lorde, se acordais, façamos desfilar ante nós ambas as tropas, porque vejamos que homens nós teríamos de combater.

ARCEBISPO — Ide, meu bom Lorde Hastings, fazei-os desfilar antes de se irem.

(Sai Hastings.)

LENCASTRE — Espero, lordes, que hoje à noite havemos de dormir juntos.

(Volta Westmoreland.)

Primo, por que causa ainda se acha parado o nosso exército?

WESTMORELAND — Os chefes, aos quais destes outras ordens, não querem dispersar sem vos ouvirem.

LENCASTRE — Conhecem seu dever.

(Volta Hastings.)

HASTINGS — Milorde, nossas forças já se foram. Como novilhos livres, debandaram para este, oeste, norte e sul; ou como crianças depois da escola, correm todos em direção de casa ou dos folguedos.

WESTMORELAND — Boas novas, Lorde Hastings. Como prêmio, eu te prendo, traidor de alta traição; e vós, Lorde Arcebispo, e vós, Mowbray, por traição capital a ambos detenho.

MOWBRAY — Semelhante conduta é justa e honrosa?

WESTMORELAND — Vossa sublevação o é, por acaso?

ARCEBISPO — Faltareis, desse modo, ao juramento?

LENCASTRE — Não jurei coisa alguma; apenas disse que iria corrigir alguns abusos de que vos lamentáveis. Por minha honra! com consciência cristã hei de fazê-lo. Mas vós, rebeldes, heis de ter a paga que se deve à traição e a atos quejandos. Com simpleza a esses homens aliciastes, e ora mais loucamente os dispersastes. Persigamo-los, pois! Toca a rebate! Não somos nós, é Deus que hoje combate. Para o cepo os traidores sigam breve, que é o leito onde a traição expirar deve.

 

Henrique IV, com pouco mais de 50 anos, a maioria deles vividos em meio às guerras, está muito adoentado, reúne os filhos e confessa-lhes os vários crimes que cometera, de como fora demagogo com o povo antes de se tornar Rei, como traíra seus aliados, com o objetivo de chegar ao poder. Logo a seguir morre, o jovem Henrique assume o trono como Henrique V.

REI HENRIQUE — Ó Deus! Se se pudesse ler o livro do destino e as mudanças ver do tempo: montanhas que se aplainam, continentes — enfarados da sólida estrutura — fundirem-se no mar! Ou, noutras épocas, ver a úmida cintura dos oceanos larga para as costelas de Netuno, e as chacotas da sorte, e a variedade de licores da taça da inconstância! Se se visse tudo isso, o mais risonho mancebo, ao contemplar a estrada ingente, os perigos passados, os desgostos em perspectiva, o livro fecharia e a chamar pela morte se deitara. Dez anos não passaram desde que Ricardo com Northumberland se regalavam juntos, como amigos. E, dois anos depois, se combatiam! Há oito anos esse Percy era a pessoa mais chegada à minha alma; em meus trabalhos, como irmão, me ajudava; punha a vida e a afeição a meus pés; foi mesmo a ponto de lançar a Ricardo um desafio. Qual de vós lá se achava? (A Warwick.) Primo Nevil, lembra-me agora, vós, quando Ricardo, com os olhos marejados, posto em xeque já por Northumberland, disse as palavras que proféticas ora se tornaram: “Northumberland, escada de que o primo Bolingbroke se serve para vir até o meu trono…” ainda que eu não tivesse — Deus o sabe — semelhante intenção; mas o infortúnio tanto o Estado abaixou, que eu e a gra
ndeza nos vimos compelidos a beijar-nos: “Há de chegar o tempo”, continuou, “há de vir tempo em que este crime hediondo romperá qual postema”. Desse jeito prosseguiu, predizendo os fatos de hoje e a divisão de nossos sentimentos.

(…)

REI HENRIQUE — Ó meu filho! Foi Deus quem te inspirou para levá-la, porque o amor de teu pai acrescentasses advogando tua causa desse modo. Chega-te, Henrique, assenta-te em meu leito e ouve — assim penso — os últimos conselhos que posso respirar. Deus é que sabe, meu filho, por que vielas e caminhos tortuosos eu cheguei até à coroa, não ignorando eu próprio quão pesada me foi sempre à cabeça. Bem mais calma desce ela para ti, com mais respeito da opinião, por estar ratificada, que as manchas da conquista irão comigo para o sepulcro. Em mim, se afigurava somente honra pilhada com mão forte; tive de suportar que muita gente me fizesse lembrado o havê-lo obtido com a ajuda que me deram, causa sempre de contendas, de golpes sanguinosos, numa paz ilusória. Esses temores arrogantes — tu o sabes — arrostei-os com assaz perigo, pois o meu reinado não passou de uma cena em que essa idéia fosse desenvolvida. Minha morte vai mudar isso tudo, pois o que era compra, te passa agora por maneira mais digna, por direito hereditário. Contudo, embora estejas mais seguro, não te achas ainda firme, pois as queixas não murcharam de todo. Os meus amigos — que teus deverão ser — somente há pouco se privaram de dentes e de garras; à sua ajuda brutal devendo o trono, receava sempre vir a ser deposto pela força que tinham. Dividi-os, a fim de evitar isso, e era meu plano conduzi-los agora à Terra Santa, para que o ócio e o repouso não lhes dessem vagar de examinar-me mui de perto. Toma por norma, Henrique, ocupar esses espíritos inquietos em contendas distantes, porque a ação longe da pátria perder faça a memória do passado. Mais te diria; mas tão gastos se acham meus pulmões, que falar não me é possível. A coroa… que Deus me perdoe à alma, e te conceda usá-la com mais calma.

PRÍNCIPE — Meu gracioso senhor, foi por vós ganha e usada; agora a obtenho; legítimo direito nela eu tenho. A defendê-la correrei primeiro, ainda mesmo que a ataque o mundo inteiro.

 

A trama paralela, ficcional, é dominada por Falstaff que recebera como prêmio de ter lutado ao lado de Henrique contra os rebelados, o título de “Cavaleiro Real”. Com isto passa a usar o título para aplicar seus freqüentes golpes, além de dizer ser amigo o Rei que sobe ao trono.

FALSTAFF — Olá, gigante, que disse o doutor de minhas águas?

PAJEM — Disse, senhor, que, em si mesmas, as águas eram boas e sadias, mas que a pessoa a que pertenciam devia ter mais doenças do que ele suspeitava.

FALSTAFF — Homens de toda a espécie encontram prazer em zombar de mim. O cérebro desse estúpido composto de argila que se denomina homem não é capaz de inventar coisa alguma que provoque o riso, além do que eu invento ou do que se inventa a meu respeito; não somente sou espirituoso por mim mesmo, como também a causa de que outros venham a ter espírito. Andando deste modo diante de ti, pareço uma porca que houvesse esmagado todos os leitões, com exceção a um. Se o príncipe não te pôs a meu serviço apenas para que eu sobressaísse pelo contraste, é que careço completamente de juízo.

LORDE JUIZ — Sir John, eu vos mandei intimar antes de vossa expedição a Shrewsbury.

FALSTAFF — Com licença de Vossa Senhoria, ouvi dizer que Sua Majestade voltou indisposto do país de Gales.

LORDE JUIZ — Não estou falando agora de Sua Majestade; não atendestes à minha intimação.

FALSTAFF — Além disso, ouvi dizer que Sua Alteza ficou também atacado dessa infame apoplexia.

LORDE JUIZ — Bem; o céu dará remédio a isso. Mas permiti que vos fale, por obséquio.

FALSTAFF — Essa apoplexia, no meu fraco pensar, é uma espécie de letargia, com licença de Vossa Senhoria; uma espécie de adormecimento no sangue, uma zoeira dos demônios.

LORDE JUIZ — Mas a que vem isso, afinal? Seja ela o que for.

FALSTAFF — Provém de tristezas, do estudo e de perturbações do cérebro. Li em Galeno a causa de seus efeitos: é uma espécie de surdez.

LORDE JUIZ — Acho que é disso que estais sofrendo, porque não ouvis o que vos falo.

FALSTAFF — Perfeitamente, milorde, perfeitamente; mas, com vossa licença, o que me aflige mais é a doença de não escutar, de não prestar atenção.

LORDE JUIZ — Um castigo nos calcanhares faria melhorar essa desatenção dos ouvidos; não se me dava de ser o vosso médico.

 

Os irmãos de Henrique, João e Clarence, aconselham-no a se afastar do seu passado de farras e bebedeiras, rompendo com seus antigos amigos, pois a má-fama do jovem era conhecida por toda a corte. Henrique atende aos irmãos e renega publicamente Falstaff.

 

FALSTAFF — Deus salve tua graça, rei Hal, meu real Hal!

PISTOLA — Os céus te guardem e te preservem, augusto garfo da Fama!

FALSTAFF — Deus te proteja, meu doce menino.

REI HENRIQUE V — Falai a esse homem vão, Lorde Juiz.

LORDE JUIZ — Sabeis o que dizeis? Estais no juízo?

FALSTAFF — Meu rei, meu Jove! É a ti que eu falo, amor!

REI HENRIQUE V — Não te conheço, velho; vai rezar. Como vão mal as cãs num galhofeiro! Muito tempo sonhei com um homem destes, profano e velho, inchado pela orgia; mas, desperto, renego do meu sonho. Diminui o teu corpo, aumenta a graça, deixa a gula; compreende que o sepulcro vai abrir para ti boca três vezes maior que para os outros. Não repliques com uma dessas chalaças de bufão; não presumas que eu seja o que já fui, pois Deus bem sabe — e o mundo há de notá-lo — que me livrei de minha antiga forma e outro tanto farei com os companheiros.

 

Comentário sobre o Livro

 

A continuação de Henrique IV é um tanto quanto melancólica, o frescor da juventude rebelde de Henry, suas bebedeiras e chistes, são substituídas pelo rigor palaciano. Interessante ver como são feitos e preparados os golpes, a vilania de dar a palavra e logo trair o combinado.

Ainda as reflexões do velho Rei, que tanto lutara pelo poder, de forma a não respeitar os inimigos, muito menos os amigos. Agora, ainda cedo, chega ao leito de morte vencido pelas dores das guerras e solidão de não contar com os rostos dos amigos que, na sede de conservar a coroa, matara.

Henrique IV, Parte II

Crise 2.0: Sem Rumos

 

 

 

 

 

“Se fosse ò fogo infernal,

lá iria todo o mundo!

A estoutra barca, cá fundo

,me vou, que é mais real”

(Auto da barca do Inferno -Gil Vicente)

 


A península ibérica está mergulhada na Crise 2.0, nem lembra aqueles anos “gloriosos “” do dinheiro fácil que da noite para o dia, tornaram Portugal e Espanha em novos ricos e poderosos, saíram comprando tudo na América Latina, gastando a rodo. Os conquistadores dos Séculos XV a XIX voltaram triunfantes para este lado do mundo, mais arrogantes ainda.

Compraram tudo, em particular na telefonia e bancos, parecia que o novo século que se avizinhava seria deles novamente, mandando e desmandado na América Latina, graças às privatizações de araque. Voltaram a ter poder e influenciar na política e no dia a dia de países como Brasil, Argentina e México.

Eis que me deparo com um artigo “Novos Rumos” do ex-presidente português, que levou Portugal a Zona do Euro, hoje se alinha com a Esquerda contra a decadência total de Portugal, leiamos os trechos, mais eloqüentes do lamento e autocrítica:

 

I- Questão da Crise e captura da esquerda ao neoliberalismo

“Não podemos assistir impávidos à escalada da anarquia financeira internacional e ao desmantelamento dos estados que colocam em causa a sobrevivência da União Europeia.

A UE acordou tarde para a resolução da crise monetária, financeira e política em que está mergulhada.

As correntes trabalhistas, socialistas e sociais-democratas adeptas da 3ª via, bem como a democracia cristã, foram colonizadas na viragem do século pelo situacionismo neo-liberal.”

II- Democracia em risco

“Os obscuros jogos do capital podem fazer desaparecer a própria democracia, como reconheceu a Igreja. Com efeito, a destruição e o caos que os mercados financeiros mundiais têm produzido nos últimos tempos são inquietantes para a liberdade e a democracia. O recente recurso a governos tecnocratas na Grécia e na Itália exemplifica os perigos que alguns regimes democráticos podem correr na actual emergência

Não podemos saudar democraticamente a chamada “rua árabe” e temer as nossas próprias ruas e praças. Até porque há muita gente aflita entre nós: os desempregados desamparados, a velhice digna ameaçada, os trabalhadores cada vez mais precários, a juventude sem perspectivas e empurrada para emigrar. Toda essa multidão de aflitos e de indignados espera uma alternativa inovadora que só a esquerda democrática pode oferecer.”

III- Lutar contra os novos planos neoliberais

“Em termos mais concretos, temos de denunciar a imposição da política de privatizações a efectuar num calendário adverso e que não percebe que certas empresas públicas têm uma importância estratégica fundamental para a soberania. Da mesma maneira, o recuo civilizacional na prestação de serviços públicos essenciais, em particular na saúde, educação, protecção social e dignidade no trabalho é inaceitável. Pugnamos ainda pela defesa do ambiente que tanto tem sido descurado.

Nesse sentido, apelamos à participação política e cívica dos cidadãos que se revêem nestes ideais, e à sua mobilização na construção de um novo paradigma”.

 

O texto faz parte de um conjunto de iniciativas dos grupos de esquerda de Portugal, que se opõem a política de ajuste imposta ao país pela “troika” (FMI, BCE e Comissão Europeia), grupo junta parte do PS, Bloco de Esquerda e intelectuais.

Seria cômico se não fosse trágico, Portugal que foi tal altiva e que celebrou as privatizações no Brasil, por exemplo, agora reclama da “imposição política de privatizações”, a vida “opera” milagres. O medo de Portugal é, inclusive, que as empresas brasileiras sejam as grandes compradoras dos combalidos grupos de lá. Que irônico que é a vida.

 

Crise 2.0:"ambiciosas e surpreendentes"

 

 

A Crise 2.0 é tão cruel com a Espanha, que mesmo tendo eleito um governo de Direita, claramente identificado com o “Deus Mercado” ela continua sendo punida de forma impiedosa. Esta punição tem sido feita pelo mercado com as elevadas taxas de redescontos para novos títulos da dívida espanhola.

Nesta semana a Espanha renegociou títulos de “curtíssimos prazos” os de 3 meses pagou 5,1% de juros e os de 6 meses 5,2%. Na semana passada os de 10 anos foram com taxas anualizadas em mais de 7%, um caos, para combalida economia do país. Apenas para comparar, Portugal e Grécia que faliram completamente pagaram respectivamente 4,9% e 4,1% por seus títulos, ambos países estão sob custódia do BCE e do FMI, dando maior confiabilidade aos seus títulos.

Mas a maior explicação para esta desconfiança é culpa do eleito, que mesmo sendo de um partido claramente mercadista, fez uma campanha sem programa, sem anunciar nenhuma medida que tomaria, contou apenas com o imenso desgaste dos “socialistas”.

Obviamente que os agentes do mercado representado pelas suas “fúrias”, as agências, mandou um recado duro ao Sr Rajoy, que ele tem que dizer a que veio, não pode esperar mais um mês para mostrar seu programa de austeridade, que ele tem um prazo de apenas 15 dias, coisa que ele aceitou fazê-lo. Fitch e Standard Poor’s (S&P) exigem medidas que ele tome “ambiciosas e surpreendentes” . E a Fitch explica:

“surpreender positivamente os investidores com um ambicioso e radical programa de reformas“. Segundo a agência, Rajoy terá de “legislar para tomar medidas adicionais com vistas a cumprir os objetivos de déficit”. (Estadão, 23/11/2011)

Na outra ponta a Executiva-mor da Zona do Euro, Merkel, também ameaçou seu colega espanhol, que ele não pode protelar, senão a Espanha se torna inviável:

Merkel, em um telegrama enviado a Rajoy, pediu que as reformas que estão por ser feitas ocorram “sem demora”. Segundo a chanceler alemã, Rajoy “recebeu do povo um mandato claro para decidir e colocar em prática rapidamente as reformas necessárias neste período difícil para Espanha e Europa“.(Estadão de Hoje, 23/11/2011).

O círculo se fecha de forma inexorável, até a reunião de cúpula da EU dia 09/12, Rajoy pode ir, mesmo sem ter assumido o cargo. A Catalunha que já vem fazendo ajuste fiscal pesado desde 2009 anunciou novo corte de 10% de todos seus gastos, que incluirá demissão de funcionários e redução de salários, além de aumentar as tarifas de água, transporte, saúde e das mensalidades e tarifas das universidades. Este é o caminho que é apontado para o Governo Central.

Imagine a tragédia de um país que já tem 23% de desempregados, entre os jovens chega aos 50%, paga um dos menores salários mínimos da Europa, com a economia em queda, a receita que vão aplicar é: Mais cortes e sacrifícios ao já sofrido povo espanhol.