Reflexões de um ano que não acaba

 

 

 

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte? ( Traduzir-se  –  Ferreira Gullar)


 

Muito difícil escrever um último artigo deste ano, para fechar várias frentes de temas que comecei, as reformulações e caminhos do blog. Até ano passado ainda não tinha encontrado um formato claro do por que escrever este blog, as coisas da minha vida apressaram e a “ferro e fogo” moldaram de forma urgente. Cada tema do blog é uma parte de mim, de minha personalidade.

 

As ideias iniciais eram tão somente passar para este espaço antigos escritos, fichas de leituras e apontamentos de livros, alguns pensamentos dispersos que estavam se perdendo em cada vez que limpava as gavetas de casa, trabalho e da vida. Era um momento de registrar melhor memórias do que fiz e passei, uma forma de no futuro minhas filhas soubessem mais didaticamente quem eu sou, quem eu fui, principalmente.

 

O ano de 2010, com o acirramento eleitoral e a Doença da minha filha, dei uma primeira virada no blog. Se, por um lado a campanha eleitoral despertou a necessidade de escrever mais sobre política, debates, engajamento e intervenção. Noutra mão, a doença da minha filha me desarmou, mudou radicalmente minha vida, meus pensamentos, passei viver à deriva, ao sabor do vento, sem um norte, sem chão. Foi muito difícil vencer 2010.

 

Porém, este ano, resolvi dar uma guinada, já em janeiro, logo após a posse da Dilma, as primeiras polêmicas, percebi o quanto este ano seria complicado, a mudança da conjuntura mundial com o agravamento da Crise, que já no governo Lula, lá por Agosto/2010, ele começou um processo de freio na economia, aumento de juros, mas não foi compreendido pela militância mais organizada, que passa a atribuir à Dilma boa parte dos problemas sem vislumbrar o que passa no mundo.

 

Ao longo do ano resolvi, da minha forma, escrevendo muito sobre a Crise atual, que se prolonga por 3 anos e meio no centro do capitalismo,  que chamo de Crise 2. 0, são mais de 50 artigos, uma visão construída em Marx, partilhando a análise com a militância sobre o “balé” do grande Capital e de seus representantes. Talvez esta seja a minha maior contribuição, não sendo uma imposição de verdade, mas uma busca de entender o processo mundial, seus reflexos aqui. Até entender como países como o Brasil, ainda não caíram diante do mergulho radical das economias centrais, grande mérito tem Lula e Dilma, mas até quando, sem uma nova saída do Capital e, sem uma revolução no centro, o país resiste à crise?

 

Muito mais além disto, consegui escrever sobre minha vida no exterior, as Crônicas do Japão , foi maravilhoso recontar uma bela passagem da minha vida, acho que aquilo de escrever sobre o Japão, foi quase que morar de novo lá, foi um trabalho que me deu muito prazer, gosto de reler e reviver aquele momento.

Mantive a produção também voltada à vários posts de reflexões, literatura, que tanto me satisfaz, contar sobre filmes, livros, mitos gregos. Busquei diversificar os temas que escrevo e dar um caráter mais amplo ao blog, o que no fundo apenas diz: Todo dia busco saber que sou Eu, mas estou longe de me encontrar(ainda bem).

 

Claro que agradeço imensamente aos amigos que têm a paciência de me ler, me corrigir nos muitos erros de português, de imprecisões de informações, tudo contribui para um blog melhor, mas principalmente me torne uma pessoa melhor, que enfrente melhor meus demônios e diatribes. Meu muito obrigado, quem em 2012 continuemos juntos a debater e crescer, sem medo das diferenças, que aprendamos com elas.

 

 

 

Crise 2.0: Uma realeza decadente

 

 

 

 

Num famoso embate durante a XVII Conferência Ibero-Americana, em Santiago, Chile, no ano de 2007, o Rei Juan Carlos da  Espanha interrompeu o Presidente da Venezuela Hugo Chavez e disse: ¿Por qué no te callas?. A indelicadeza sem par naquela reunião virou hit dos conservadores no mundo, pois nem sabiam do que tratava. Chavez estava a reclamar da atuação de Aznar, ex-presidente da Espanha que apoiara o golpe de estado na Venezuela, em parceria com os EUA.

Passados pouco mais de quatro anos deste incidente infeliz, ontem, o mesmo D. Juan Carlos, alquebrado pela situação da Espanha, um dos países mais atingidos pela Crise 2. 0, amplamente tratado por nós em vários artigos desta série, veio a público mais uma vez, agora por ter sido obrigado abrir às contas da realeza espanhola.

Além da grave crise que abate a Espanha, com milhões de desempregados, economia paralisada, baixa expectativa de saídas de curto prazo, a casa real foi atingida em cheio com os escândalos protagonizados por Inaki Urdangarin, marido da princesa Izabel, a caçula do Rei. Urdangarin era presidente do Instituto Noos, sem fins lucrativos, mas que manipulava fundos públicos e privados e foi acusado formalmente em 6 de fevereiro deste ano pelo Juiz José Castro, instrutor do caso. Urdangarin e seu sócio Diego Torres prestaram depoimento e tiveram seus siligos quebrados.

Iñaki Urdangarin, duque de Palma, está sendo acusado de corrupção pelo juiz José Castro. Foto: EFE

Unaki Udangarin

 

Esta crise na casa real não podia vir em pior momento, o Rei autoritário da ordem de silêncio, teve que abrir o bico e revelou toda dimensão da boa vida que a família goza, independente da situação de miséria que o país passa:

  1. Juan Carlos recebe 292 mil Euros anuais de salário, livres de qualquer imposto;
  2. O Rei tem 507 funcionários à sua disposição, sendo 80 apenas na casa real;
  3. Os seis membros da família contam com71(SETENTA e UM) motoristas;
  4. A despesa direta da família Real é de 8,4 Milhões de Euros, excluídos 140 milhões pagos pelo estado para manutenção da casa Real, 57 milhões de Euros para veículos, 6 milhões com salários de funcionários;
  5. Todas as despesas de viagens do Rei e família são pagos pela chancelaria. A Família Real é isenta de paga tarifas públicas: Água, Luz ou gás.

Deve ter sido humilhante ao Rei se expor ao vexame de vir prestar contas à gentalha, mas olhando outras monarquias europeias até que os gastos são modestos, apenas, o bon vivant, príncipe Charles recebe salário mensal de 1,5 milhões de Euros, é uma vida impressionante que não coaduna com a realidade do mundo.

Crise 2.0: um novo ciclo se abre?

 

(Marcio Pochmann – Pres do IPEA)

O Sr Marcio Pochmann, um dos mais brilhantes intelectuais e formuladores de políticas públicas do Brasil, que muito acertadamente preside o IPEA, ontem postou no Twitter, um curto pensamento, mas que diz muito do que venho escrevendo:

“Subida do Brasil no ranking mundial das economias revela transformação mais profunda no capitalismo global. A crise atual agiliza isso”.

Longe de ser uma ideia vulgar ou ufanista é apenas o reconhecimento de que a atual Crise 2. 0 vai mudar quase que radicalmente o mapa da Economia mundial, ontem comecei a escrever sobre este novo desenho, ver Crise 2.0: Um novo desenho econômico, em que faço um contraponto a um artigo do excelente Celso Ming, mesmo discordando muito dele, reconheço sempre sua capacidade e ótimos artigos.

Estas mudanças, assim como em 1929, tornam o mundo diferente do que conhecíamos de forma rápida e inesperada, atentemos que o Capital jamais “para”, a Crise de Superprodução, como bem define Marx ( Crise 2.0: Marx e a Crise ), é um início de um novo ciclo, mas quando a crise se prolonga, como as do Século XIX ou a de 29, se abre a perspectiva de uma revolução social, ou uma nova adequação do Capital.

Ora, se assim pensamos, afastada a possibilidade de uma revolução, sempre ressaltando que é minha visão, como será este novo desenho? A subida do Brasil neste ranking, mas não só a dele, a China acaba de ocupar o Segundo posto, ultrapassando o Japão, a Rússia e a Índia, acredito que em dois anos ultrapassem a Itália, começa uma mudança mais profunda na economia mundial.

O Capital precisa, neste novo ciclo, explorar de forma mais intensa estas novas economias, na sua luta de vida e morte pela recomposição da taxa de lucro, não existe Capital sem lucro. A face “desumana” que os países periférico tão bem conhecem é apresentada de forma letal na velha Europa, a inconclusa União dos estados, pagará seu preço. Aqueles que países que aderiram ao Euro, sem a mesma dinâmica Alemã, sentem o peso da desigualdade, se tornam presa fácil neste momento.

Populações inteiras, como as da Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda são submetidas a enorme desemprego e privações, para se ter ideia da tragédia o Natal Grego foi de compras 25%  menores que em 2010. As emigrações aumentam nestes países de forma dramática, segundo a EuroNews a situação vai se complicando:

“Segundo o instituto alemão de estatística, na primeira metade do ano, o número de imigrantes oriundos da Grécia aumentou 84% e de Espanha 49.

Para além da Alemanha, as novas rotas da emigração europeia dirigem-se para o hemisfério sul e a nova vaga de emigrantes é altamente qualificada.

Da Irlanda partiram este ano 50 mil pessoas. Já na Grécia fala-se de 11% da população e da fuga de mais de 9% dos médicos”.

Estes números demonstram que Alemanha, por conseguinte a velha Europa, tem pouca margem de manobra, o ataque que o Capital fará aos padrões de vida europeu será inescapável, sempre do meu ponto de vista, para este novo ciclo do Capital, estas novas economia darão a dinâmica, pois partem de padrão salarial diferente, consequentemente poderão ser favorecidos neste crescimento.

Basta vermos os números da renda per capita destes países comparadas às economias centrais. A saída será, em parte, para estes países, garantia de incorporar novas massas ao consumo, os salários menores e benefícios também são atrativos, além de possibilidade de realizar obras de infraestrutura em larga escala. Exceto Brasil, China, Rússia e mesmo Índia vivem sob um complexo sistema político pouco democrático, o que facilita imposição estatal a estes projetos.

Por outro esta realidade pressionará simultaneamente às velhas economias que se adequem aos novos tempos, não é a toa que os “tecnocratas” do Goldaman Sachs já atuam diretamente na Espanha(ministro da Economia), Itália e Grécia( primeiros-ministro) e na presidência do BCE. Os planos são os mesmo, corte de previdência, benefícios e corte nos gastos sociais.

Qual a reação dos trabalhadores na Europa/EUA? e nas “novas economias”? A luta de classes continua aberta…

 

 

 

Crise 2.0: Um novo desenho econômico

 

 

Crise 2. 0 afeta não apenas a economia mas o cérebro dos analistas, principalmente os mais ideologicamente ligados ao grande capital, alguns que tenho citado constantemente por seus excelentes artigos, que nos dão ótimas dicas sobre o desenvolvimento da Crise, de vez em quando “incorporam” os santos liberais. Hoje foi a coluna do Celso Ming, em que trata a questão do Brasil como a 6ª Economia mundial.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Realmente, aquilo que escrevi ontem, em tom de chiste no Twitter, de que os jornalões de hoje viriam melancólicos com a nova classificação do Brasil, se confirmou plenamente. A leitura da coluna de Ming, a quem reputo mais seriedade no trato de assuntos internacionais do que quase a totalidade dos colunistas, não resiste ao brilho do Governo Petista, queiramos ou não FHC nos levou da 8ª Economia para 12ª posição, estes mesmo nada diziam, mas leiamos as suas lamurias.

Para começar o rosário de lamentações, ele quer proibir comemorações do feito, pois há, “O risco é o de que agora o governo de Brasília e o cidadão médio deem mostras de subdesenvolvimento e recebam a informação com doses excessivas de autolouvação – e, assim, se perca o senso de realidade”. Depois emenda “Também em economia, o brasileiro tende a se considerar maioral. E, como no futebol, continua nutrindo a sensação de campeão do mundo. Lá pelas tantas, sobrevém a lavada de 4 a 0 do Barcelona em cima do Santos para devolvê-lo ao rés do chão. Assim, é preciso ver com objetividade notícias assim e a confirmação que virá mais cedo ou mais tarde”.

Ora, então crescer não é uma coisa tão boa, vi ontem vários achando que não se pode realmente se ufanar, o que concordo, mas também não se pode deixar de orgulhar-se do feito, em menos de 10 anos, após o desastroso segundo mandato do “apagão” de FHC e enfrentando todas as adversidades de uma crise violenta que se arrasta e perdura por 3 anos e meio, como não comemorar?

Mas o velho Ming vai mais longe e usa uma argumentação primária, quase burra para justificar por que o Brasil virou a 6ª Economia, chega a ser risível:

“Tamanho do PIB é como tamanho de caneca. E o Brasil é um canecão. Tem quatro vezes a população do Reino Unido e 35 vezes a sua área territorial. Natural que, mais dia menos dia, ultrapasse o tamanho da economia de países bem mais acanhados em massa consumidora e extensão”.

Caneca, canecão ou canequinha, se assim o fosse como o Japão com seu mísero território poderia ser rico? Ou a imensa Índia não está entre os primeiros. Nesta hora, este tipo de argumentação é típica de quem não tem nenhuma melhor, pega um incauto que ler pouco, sem atenção.

Depois desfila todas nossas mazelas, que já existiam em escala muito maior nos governos anteriores, mas ele repisa aqui: “A economia brasileira ainda é um garrafão de mazelas: baixo nível de escolaridade, concentração de renda, bolsões de miséria, déficit habitacional, grande incidência de criminalidade, infraestrutura precária, enorme carga tributária, burocracia exasperante, Justiça lenta e pouco eficiente, corrupção endêmica… e por aí vai.

No final concede algo positivo: “É claro que isso não é tudo. O potencial é extraordinário não só em recursos naturais, como também em capacidade de inovação e de flexibilidade da brava gente”.

Este pensamento é quase um senso comum, que atinge não apenas os ideólogos burgueses, como Ming, mas uma gama da esquerda, tanto a que circunda o Governo, como a extrema, que têm em comum uma lógica profundamente complexa que se resume a uma frase: “Para toda Solução, eles têm um Problema


Natalis Solis x Natalis Domini

 

(Bergognone, Ambrogio (c. 1500) Virgin of the Veil; Milan)

 

Acabamos de comemorar o Natal e na maioria das veze sem sabermos de onde vem tal data. Assumimos o Natal como data do nascimento de Cristo, aquela bela história de que havia o decreto de recenseamento das colônias italianas, imposto por Augusto. Eis então que José se desloca com sua jovem esposa, Maria, até sua terra, Belém para lá registrar-se, ao chegar a mãe dá à luz ao rebento no dia 25 de Dezembro.

Indo um pouco mais fundo, porém, descobrimos que o sincretismo religioso imposto pela igreja cristã, em especial a católica, através dos séculos, usou antigos cultos pagãos para atrair e também apagar estas crenças. Especificamente no caso do nascimento de Jesus, o Nazareno, foi usado o dia 25 para se fundir com a comemoração do Natalis Solis, nascimento de Mitra, o deus Salvador (outra fusão), vencedor e invencível que nasceu de um rochedo.

(Mitra, o Sol Invencível)

 

O Natalis Solis era comemorado dia 25 de Dezembro logo a seguir do inicio do Solstício de inverno, para comemorar o renascimento do Sol. Logo, com a religião cristã tornando-se dominante no império romano, o Natalis Solis transmuta-se para Natalis Domini(Nascimento de Cristo), substituindo e superando o culto pagão.

Cristo também vira Luz e muita vez é visto como Sol, outro “deus pagão”. Ora, sendo Jesus o Sol, nada mais natural que Maria, sua mãe terrena seja vista como a Lua, ou como a própria Terra, no dizer do mestre Junito de Sousa Brandão que afirma Desmitificando e dessacralizando o mito, a Igreja o sublimou, revestindo-o com nova indumentária”.

Cita ainda as palavras de do Papa Inocêncio III: É para a Lua que deve olhar todo aquele que se acha enterrado na sombra do pecado e da iniqüidade. Tendo perdido a graça divina, o dia desaparece. Não há mais sol. Que se dirija a Maria: sob sua influência, milhares encontram diariamente seu caminho para Deus”. A simbologia é perfeita: Cristo é o sol; Maria, a lua.

Estas histórias, longe de afastar a fé de cada um, para mim, são a forma de que tenhamos uma visão crítica sobre religião, estado. Haja vista que a fusão perigosa do estado e religião, que na maioria das vezes é usada para apagar os sentimentos populares, suas raízes e fé. O sincretismo das religiões estatais não consegue apagar alguns comportamentos repetidos dos antigos cultos pagãos, por exemplo, o do noivo que conduz a noiva em seus braços para ultrapassar a soleira de sua nova casa, que nos ritos antigos era a forma desta ser aceita pelo deus do “lar”.

 

Crise 2.0: Marx e a Crise

 

“a crise constitui sempre o ponto de partida de grandes investimentos novos e forma assim, do ponto de vista de toda a sociedade, com maior ou menos amplitude, nova base material para o novo ciclo de rotações” (Marx – O Capital – Vol III)

O objetivo desta série sobre a Crise 2.0 foi desde o início suprir uma lacuna, grave, na esquerda, pelo menos blogueira, de acompanhamento quase que semanal ou diário do que acontece de mais importante na luta de classes, em particular sob a ótica mais perversa, a lógica destrutiva do Capital.

 

Conceito de Crise

 

Superprodução ou Escassez?

 

A crise de superprodução, ao contrário do que se supõe, não está relacionada a escassez de produção, ou de crise agrícola, esta fase foi superada há mais de 150 anos. As crises são fundamentalmente concentradas no coração do capital, e refletem as relações econômicas dadas em determinado momento do ciclo amplo de produção, sempre no pico, jamais no vale da curva senoidal.

Como bem assinala José Martins e Coggiola no livros “Dinâmica da Globalização( Mercado Global e Ciclos Econômicos de 1970 a 2005)”:

“No ponto mais alto da fase expansiva, e imediatamente depois da crise, quando a economia capitalista entra na fase de crescimento lento, parte do capital adicional começa a ser expulso da produção porque a taxa média de lucro não compensa seu investimento, o desemprego aumenta na mesma proporção em que a inversão cai. É o momento em que os capitalistas iniciam nova e mais pesada ofensiva sobre as condições de vida e de trabalho dos assalariados”.

 

Crise Terminal, mas o Capital não acaba


Outro mito, que devemos combater, é do misticismo de que as crises, ou esta em particular, é “Terminal”, de que o capitalismo vai acabar, que ele se destruirá inexoravelmente. Esta crença, quase religiosa, me faz lembrar os milenaristas ou outras seitas que marcam data para o fim do mundo, mas que quando não acontece fica ser ter o que dizer. Pensar que o capitalismo acaba por si desarma os trabalhadores e nos leva à barbárie.

Marx já trata no Manifesto Comunista da questão social da crise, em suas palavras:

Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos fabricados como também uma grande parte das próprias forças produtivas já criadas. Uma epidemia, que em qualquer época teria parecido um paradoxo, desaba sobre a sociedade – a epidemia da superprodução. A sociedade vê-se subitamente reconduzida a um estado de barbárie momentânea”.

Depois complementa

O sistema burguês tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio. E de que maneira consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas; de outro, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que leva isso? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios para evitá-las”

 

A Volta à Marx

 

Afastadas estas duas tendências, crise de escassez e terminal, podemos analisar com mais rigor científico o fulcro da crise, a tendência a diminuição da taxa de lucro e de como o capital trava uma luta de morte para recompô-la, não economizando meios e saídas para retomar as taxas de lucros vigentes. Os ciclos econômicos acabam permeados por perturbações e lutas intrínsecas entre capitalistas e destes contra os trabalhadores para que o “Gral” (o lucro) seja garantido.

Nas palavras de Marx , na “Teoria da mais-valia”:

” existe destruição de capital nas crises, pela depreciação de massas de valor, que as impede de voltar a se renovar mais tarde, na mesma escala, seu processo de reprodução como capital. É a queda ruinosa dos preços das mercadorias. Não se destrói valores de uso. O que perdem alguns, ganham outros. Mas, consideradas como massa de valor que atuam como capitais, vêem-se impossibilitadas de se renovar nas mesmas mãos como capital. Os antigos capitalistas se arruínam”

A crise acaba sendo um remédio grave, mas é regulador da tentativa de recomposição das taxas de lucros, os capitalistas literalmente queimam capital excedente, de superprodução de valor, muitas vezes aqui expressos em capital “especulativo”, reposiciona as empresas, bancos, nações inteiras neste “salvamento” do objeto mágico que lhe dar vida: O lucro.

 

Analisar atual crise sem ter em mente os grandes ensinamentos do maior expert em capitalismo não nos ajuda muito no enfrentamento cada vez mais violento das condições que impõe o estado burguês, totalmente submisso ao grande capital. Os governos na crise expõem nitidamente quem realmente MANDA no Estado, exemplos mais do que óbvios estamos todo artigo lembrando.

 

 

PS: Recomendo a leitura deste livro em anexo, muito do meu pensamento econômico e conhecimento de Marx devo ao velho companheiro e amigo José Martins e suas famosas “análise de conjuntura” do NEP – 13 de Maio, ou do nosso grupo de leitura e estudos do Capital, que apenas ele e eu fomos até o fim.

DINÂMICA DA GLOBALIZAÇÃO Mercado Mundial e Ciclos Econômicos (1970-2005)

 

 

Crise 2.0:Ah, os banqueiros!!

 

 

A Crise 2. 0 que teve início nos EUA em 2008, com de alguns dos principais bancos, que praticamente engessou o fluxo de capital e créditos mundiais, custou cerca de 5 trilhões ao Governo Americano, com perdas líquidas de 2 trilhões, atingiu a Europa e o mundo. Mas, apenas em 2011 é que se generalizou no velho continente, virando uma crise das dívidas públicas, ou mais precisamente da falência dos estados soberanos ante aos bancos. (Crise Mundial 2.0 (2008-2011)

Dias atrás escrevi sobre a Crise 2. 0: O tamanho do rombo do refinanciamento dos títulos de governos, bancos e empresas no mundo para 2012, algo em torno de 10,5 Trilhões de dólares. Uma enormidade diante de um “mercado” cada dia mais restritivo de crédito e cada vez mais voraz no seu apetite.

 

A Crise continuará em 2012

 

(Mario Draghi – o dono do cofre)

Agora estes números ficam mais mastigados na Zona do Euro, que precisará a bagatela de 1,351 Trilhões de Euros (1,75 Trilhões em Dólares), porém com uma série de agravantes, quase 500 bilhões vencem no primeiro trimestre de 2012, estes valores são das dívidas públicas, aqui não se tem o que devem  bancos e empresas.

“Os dados são de um relatório do Deutsche Bank, que considera os vencimentos de bônus e cupons, além dos títulos com vencimento inferior a um ano, das dívidas da Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, Grécia, Áustria, Portugal, Finlândia e Irlanda”.(Estadão, 22/12/2012)

A reportagem do Estadão traz uma série de novos números e seus impactos nos já pressionados governos europeus. A crise das dívidas dos governos tende a piorar ainda mais na Europa, em particular no primeiro trimestres

“Em 2012, o país com o maior volume de vencimentos de bônus é a Itália, com € 371 bilhões ao longo do ano. Em seguida vem a França, com € 309 bilhões, seguida da Alemanha, com € 249 bilhões. A Espanha precisa pagar € 145 bilhões.

O período mais crítico para os países da zona do euro, cujos governos enfrentam dificuldades de financiamento desde o início da crise grega, em meados de 2009, será o primeiro trimestre. Somente em fevereiro de 2012 os vencimentos de dívida da Itália somam € 63 bilhões. Para a Espanha, uma das maiores concentrações é em abril, quando vencem € 26 bilhões em dívidas”.

 

Ora, por outro lado o (Super)Mário, versão um, do BCE, distribuiu aos seus ex-colegas de banca,  489 Bilhões de Euros, para que estes recomprem títulos dos governos em crise e ampliar o escasso crédito na Europa. Draghi ex-banqueiro do Goldman Sachs, agora número do BCE, entende bem como tratar seus parceiros.

No entanto, nem com a enxurrada de dinheiro, o eterno apetite do “Deus Mercado” não foi satisfeito, o valor foi superior ao esperado, na verdade mais que o dobro do que era especulado. Porém, passada as primeiras horas de euforia, se percebeu que não era emissão de títulos e sim emissão de moedas e que segundo Celso Ming Esse novo despejo de dinheiro não resolve o principal problema de fundo da área do euro: persistência de endividamento insustentável por grande parte dos países do bloco. Tampouco tira o euro do terreno de areia movediça em que está atolado por insuficiência de fundamentos (falta de unidade fiscal e política entre os Estados da Eurolândia)”.

Mesmo com muito, eles acham pouco, as cortinas se fecham mais uma vez..