Crise 2.0: Lições da Europa

 

(Foto: Yiorgos Karahalis/Reuters)

É comum nesta série sobre a Crise 2.0 usar textos de grandes economistas, ou de analistas, mesmo os que discordo, para debatermos a questão da Crise de forma mais ampla, trazer ao que me leem uma visão das diversas correntes de pensamento e no “diálogo” com eles fazer um corte Marxista e de classe.

 

Semana passada usei um texto de Paul Krugman( “Sofrer sem ganhar” )para debatermos as várias ideologias na análise da crise ( Crise 2.0: “Sofrer sem ganhar” ), ontem o mesmo Krugman publicou um texto ainda mais provocativo aos neoliberais em geral e aos analistas da crise em particular. Um grande texto que vale ser lido na íntegra no Estadão ( O que aflige a Europa? ). Krugman estava em Portugal semana passada sendo homenageado e escreve da Europa.

 

Mais uma vez pinçaremos alguns trechos para comentarmos, pois não adianta reproduzir um texto, que não foi escrito para nós, mas o mais importante é debatê-lo.Vamos ao Krugman: “As coisas vão muito mal por aqui, com o desemprego ultrapassando a marca dos 13%. A situação é ainda pior na Grécia, na Irlanda e também na Espanha, e a Europa como um todo parece estar escorregando de volta à recessão”.

 

Visão Republicana (EUA)

 

(Foto AP)

Aí faz a pergunta fundamental: Por que a Europa se converteu no paciente doente da economia mundial? E com esta pergunta traça as respostas, falsas, dadas pela extrema-direita republicana(EUA) e as da Alemanha, via Merkel. Acompanhemos:

“A versão republicana – ela consiste num dos temas centrais da campanha de Mitt Romney – diz que a Europa está em má situação porque fez demais para ajudar aos pobres e desafortunados, e que estaríamos testemunhando os últimos estertores do Estado de bem estar social”.


Ele porém desconstrói este pensamento mostrando que os países que mais investem em Estado de Bem Estar Social como a Suécia, hoje é um dos mais próspero na Europa em crise. Por outro lado o conjunto de países europeus mais afetados pela crise, são os que o Welfare State é uma sombra pálida do passado:

“Vamos analisar os 15 países europeus que atualmente usam o euro (excluindo Malta e Chipre), e organizá-los de acordo com a proporção do seu PIB que era investida em programas sociais antes da crise. Será que os principais países problemáticos (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália) se destacam por contarem com Estados de bem estar desproporcionalmente grandes? Não, este não era o caso deles; somente a Itália figurava entre as cinco posições mais altas deste ranking e, ainda assim, seu Estado de bem estar era menor do que o alemão.

Assim, o problema não foi provocado por Estados de bem estar excessivamente grandes”.


Esta é a mesma conclusão que chegamos em vários momentos desta série Crise 2.0, em que afirmamos categoricamente, não foi o peso do Estado que levou estes países à crise, ao contrário, foi a ausência dele. Piorando mais ainda na perspectiva de saída da crise, por falta de políticas públicas para reativar a economia. Demonstramos ainda que os EUA, via FED em particular usou instrumentos de Estado para combater a crise ( Crise 2.0: EUA saíram da crise? ).

 

Visão Merkel (Alemanha)

 

 

Krugman vai mais além, contrapondo o modelo alemão(by Merkel) e seus “castigos” aos parceiros da Zona do Euro, demonstrando como são falsas as premissas de Merkel, leiamos:

“A seguir, a versão alemã, segundo a qual tudo não passa de uma questão de irresponsabilidade fiscal. Esta história parece se encaixar no caso grego, e só. A Itália apresentou déficits nos anos anteriores à crise, mas estes foram apenas um pouco maiores do que os apresentados pela Alemanha (a imensa dívida da Itália é um legado de políticas irresponsáveis de muitos anos atrás). Os déficits de Portugal eram significativamente menores, enquanto Espanha e Irlanda chegavam a registrar superávits”.

 

E dá o ippon na questão da “irresponsabilidade”

“Ah, e os países que não usam o euro parecem poder arcar com grandes déficits e grandes dívidas sem passar por crises. Grã-Bretanha e Estados Unidos conseguem empréstimos de longo prazo a juros de aproximadamente 2%; o Japão, muito mais endividado do que qualquer país europeu, incluindo a Grécia, paga juros de apenas 1%.

Em outras palavras, a helenização do nosso discurso econômico, de acordo com a qual bastaria a todos nós um ou dois anos de déficits para nos tornarmos outra Grécia, é completamente infundada”.

 

Moeda e Padrão Produtivo

 

 

Porém a questão central do artigo, que também tem sido objeto de nosso esforço, é demonstrar que o Euro é uma construção artificial. Krugman, põe como centro a  questão monetária, ou seja ,imposição de uma moeda forte a todos os países:

“Ao introduzir uma moeda única desprovida das instituições necessárias para garantir o funcionamento desta moeda, a Europa reinventou na prática os defeitos do padrão ouro – defeitos que desempenharam um papel importante ao precipitar e perpetuar a Grande Depressão”.

 

Porém, acertadamente, reconhece que o que realmente leva à crise é o padrão produtivo, apontado aqui:

 

“Mais especificamente, a criação do euro fomentou uma falsa sensação de segurança entre os investidores privados, desencadeando imensos e insustentáveis fluxos de capital destinados aos países de toda a periferia europeia. Como consequência da entrada destes fluxos, os custos e os preços aumentaram, a manufatura perdeu a competitividade, e países que apresentavam uma balança comercial relativamente equilibrada em 1999 começaram, em vez disso, a acumular imensos déficits comerciais. Foi então que a música parou”. (grifo nosso)

 

Apontamos várias vezes em
nossos artigos para esta questão do desequilíbrio, do padrão produtivo, a enxurrada de dinheiro “fácil”, ou melhor a “exportação de capitais”, no primeiro momento, elevou países à um padrão de consumo irreal, sustentando imensos déficits que eram absorvidos pelo Estado (Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda), porém com a crise a fonte secou, agora o padrão produtivo, em particular o da Alemanha, impõe um desequilíbrio fatal para estes países.

Estas reflexões de Krugman nos ajuda a continuar as pesquisas, demonstra que o caminho de nossas análises estão em linha com o que acontece, que o corte marxista e de classe é fundamental para pensarmos em outras alternativas fora deste sistema. Mais ainda, que sem estudar, debater, não chagamos a lugar algum, no máximo vamos reproduzir o que os ideólogos burgueses falam.

 

 

 

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