Lula – Mito brasileiro

 

Curado, Lula entra em campanha: 2012 ou 2014?

Ricardo Stuckert/Instituto Lula

 

Algumas vezes tratei da questão do Herói e dos mitos, em particular na Grécia/Roma, num texto mais completo sobre o tema : A questão do Herói – Grécia sopra sobre nós, é longamente visto debatido desde a definição do herói, de como surge e nasce o Herói, sua educação, seus ritos iniciáticos, seus feitos até suas gestas. como definimos neste texto que ” herói seria o “guardião, o defensor, o que nasceu para servir”.

 

A leitura do texto indicado se faz fundamental para o correto entendimento da associação que faço entre os típicos heróis gregos/romanos/Egípcios/Hindus/Maias  que são a base de inspiração para os modernos recentes, como Batman, Superman ou Thor. A trajetória única o define, o que condiz perfeitamente de como eram vistos na antiguidade: Herói era um intermediário entre os Deuses e os Homens. Eram homens, mas sua extraordinária jornada os fazia parecer com deuses. Seus feitos eram conhecidos e celebrados pelos homens, suas falhas o tornam também humanos.

 

É quase impossível não enxergar em Lula todas as características típica destes seres mitológicos, sua riquíssima trajetória pessoal, desde o nascimento complicado, a mudança para São Paulo, seu rito iniciático, suas lutas, sua imensa transformação, a troca de nome “identidade secreta”, que o levará à comunhão com os seus. Os enfrentamentos heroicos que vão elevando mais e mais, até seu apogeu, maturidade, quando dirige seu povo.

 

Todos os feitos de Lula como sindicalista, líder das míticas greves do ABC, depois o homem que criou um partido no seio do povo, dos de baixo, liderou-o por várias eleições, até ser o primeiro Presidente de um país vindo do povo, que transformou o país de forma inacreditável. Lula ganhou o mundo, celebrado em qualquer ponto que vá no planeta, mas como qualquer homem, adoece, corre seus riscos, isto também faz parte de seu rito, da sua “dokimasía, do “conjunto de provas” por que passou esse espancador de trevas”.

 

A doença que enfrentou, sua superação também é parte do mito, é pouco provável que alguém fique indiferente diante de um Herói/Lula, as paixões que desperta, o amor a ele devotado pelo seu povo, que supera em muito o ódio invejoso dos poucos que o persegue. Este momento, em venceu à morte que lhe espreita, passa a ter a voz da sabedoria, suas novas falas serão cada dia mais carregadas de simbolismos, até nas frases mais simples.

 

 

Brasil e seus desafios

 

Reunião dos BRICS 2012 – foto de  Roberto Stuckert Filho/Presidência da República

 

Tenho me mantido distante da conjuntura nacional, pouco escrevendo sobre o Brasil, pois estava dedicado nos estudos sobre a Crise 2.0, mesmo que incidentalmente tenha escrito alguns posts localizando o Brasil e os BRICS neste contexto da Crise mundial. Esta semana voltei a tratar das questões locais, agora farei um apanhado geral, relacionando os artigos sobre Crise 2.0 e a Conjuntura Nacional.

 

Ainda em setembro de 2011 publiquei um post com as posições do BC brasileiro sobre a Crise( Crise 2.0: A visão do BC do Brasil), naquele momento que fizera uma importante inflexão na política de juros, que foi extremamente criticada, chamada de aventureira, mas fundamental para salvar o PIB de uma queda mais violenta. Ali ficou claro para que servem os “analistas” econômicos, TODOS foram desmoralizados, pois não enxergam um 1 cm à frente do nariz.

 

O tema do Brasil voltou forte com a entrada no debate da Presidenta Dilma sobre a Crise ( Crise 2.0: Tsunami Monetária ) , mas para melhor compreender a atual importância do Brasil no mundo, detalhei as questões no post: Crise 2.0: Momento Brasil, aqui, escrevemos:

“A evolução da balança comercial em 8 anos de Governo FHC foi de 78 Bilhões de dólares em (Fev94 à Jan95) para 108,3 Bilhões entre  (Fev02 à Jan03), pouco mais de 38% e, 8 anos. A relação PIB x Balança comercial seria em 94 de 13% caindo para 9,5% em 2002. Enquanto nos 8 anos de  Governo Lula saiu de 123,3 Bilhões e foi para 390 bilhões de dólares, sendo a relação PIB x Balança de 11% em 2003 subindo para 17%. Agora em 2011 atingiu os 18,6 %. O Mais importante em 2002 a relação exportação para EUA e UE era de 50,8 % do total, em 2012 caiu para 35,75%. ( Todos estes dados você pode pesquisar no site do Ministério da Indústria e Comércio)

Em apenas 9 anos a balança comercial saiu de 108,3 Bilhões de dólares (fev02 à jan/03) para 485,8 Bilhões. Com ampla diversificação de produtos e países com os quais o Brasil mantem relações comerciais. O complexo de vira-lata dos tucanos, foi derrotado pela ousada política exterior implementada pelos governos do PT. O maior reflexo disto é que a Presidenta Dilma é recebida com pompas pela mulher mais poderosa do mundo, Frau Merkel.

Outro aspecto importante Dilma saiu do Brasil criticando a Tsunami Monetária ( Crise 2.0: Tsunami Monetária) e ao se encontrar com Merkel não se curvou, ao contrário reafirmou todas as críticas, não temendo o interlocutor, mostrando que o Brasil tem soberania e força. Nos bastidores Frau Merkel pediu ajuda ao Brasil, para que convença os seus parceiros de BRICS a refinanciar o FMI”.

 

Esta nova realidade econômica do também foi fechada no artigo Crise 2.0: Questões do Brasil, ali afirmamos que:

“Óbvio que o Brasil tem muito a se preocupar, hoje ocupa o sexto posto da Economia Mundial, quase com o mesmo PIB do quinto,a França, tem muitas mazelas históricas, uma sociedade polarizada, um parlamento que mais parece um balcão de negócios, falta de visão de nação por parte da burguesia local. Há ainda desconfiança quanto ao projeto do PT, que se constituiu como o único partido nacional com projeto de poder e nação.

Os vários avanços econômicos, de incorporação de amplas parcelas que viviam à margem da cidadania, sem emprego ou renda, ainda não se traduziu em avanços políticos, o nível de negociação para implementar qualquer mudança nos três poderes é extremamente lento, desgastante e que emperra o salto para frente do país. Em alguns momento é um verdadeiro “milagre” o que se fez até agora, leia aqui para entender mais do que falo: Crise 2.0: Momento Brasil “.

 

E finalmente retomamos a análise da conjuntura nesta semana com o artigo : Conjuntura Política 2012 , nele tratamos da caracterização do atual momento mundial, a crise que leva uma radicalização à Direita, além de caracterizar o PT, o partido majoritário no Brasil, destacando ainda que seu maior adversário, PSDB, dominado até então por José Serra, que foi conscientemente para o extremismo de direita.

 

O espaço político e econômico que o Brasil conquistou no mundo, fruto da bem sucedida estrategia política dos governos do PT (Lula e Dilma), tornando o país um dos atores principais no cenário mundial, causa impacto também localmente. As mudanças na geografia econômica do país são visíveis, mas ainda não se traduziu na política representativa, a atávica presença de antigas elites no congresso é uma prova cabal, tanto no governo como na oposição.

 

O velho teima em se manter no poder, mesmo o país já representando o Novo lá fora. Mais do que urgente o Brasil precisa revolucionar suas representações, não dá para se ficar refém da negociação no varejo de cada novo projeto no congresso. Mas, por outro lado, é salutar que a democracia prevaleça, sem rupturas. Ao olharmos nossos parceiros principais, dos BRICS, o Brasil é onde a democracia está mais enraizada, estável, isto conta para uma liderança mundial.

 

Brasil deve enfrentar os seus desafios locais, aliada a uma constante ofensiva internacional, fortalecendo suas instituições, aperfeiçoando seus controles, incorporando mais pessoas ao mercado e combatendo a miséria, este é o eixo central que o Governo Dilma dever perseguir.

 

 

 

Outono

 

Luiz Guarnieri/Futura Press/Uol

 

Andando pelas ruas de São Paulo, o friozinho bate no rosto, parece que o outono chegou, desde ontem, temperatura caiu uns 10,12 graus, sinto que o ano “começou”, pelo menos para mim, e ele vai melhorando mais ainda até atingir o ponto alto em julho/agosto, com a temperatura bem baixa. Nesta época, a calma que o frescor causa, é um aliado para um maior equilíbrio, além de ser muito bom vestir casacos, sobretudos, as cobertas esquentando ao dormir. Trabalhar é mais gostoso, sair para almoçar, curtir um bom café.

 

Como escrevi hoje, está na hora de Voltar aos Clássicos, o clima frio nos faz ficar mais em casa, estimula que leiamos mais, acho que este ano voltarei a um antigo hábito de leituras de Shakespeare (Shakespeare – A paixão pelo Humano), é um alento, um novo fôlego e ânimo para sentir que a vida vai mudar e para melhor, voltar a respirar com mais certeza e esperança. Os últimos dois anos, não foram fáceis, agora tenho que pensar positivamente no presente e futuro.

 

O outono vem e com promessa de que serei mais uma vez feliz, como estas mudanças, aparentemente simples, influenciam nosso ser, alteram as expectativas, surpreendentemente  me vejo bem, forte, as nuvens carregadas, agora só para lembrar que teremos frio, não mais para lembrar tristeza ou preocupações, é muito bom sentir esta virada, mentalmente me fortalecer, e enfrentar os meses finais do meu maior desafio.

 

 

Lembro especialmente do Outono no Japão do Koyo, as folhas avermelhadas, a temperatura caindo significante depois do abafado verão, a mudança da paisagem, me marcou para sempre, passei a amar mais ainda a estação. A primeira que estive em São Paulo, também foi num Outono, estas coisa grudam na memória e tornam momentos inesquecíveis de nossas vidas. O outono passou a significar coisas boas, alegria.

 

Para finalizar, uma excelente música para homenagear a estação

 

 

 

 

 

 

Voltar aos clássicos

 

Rubens – o rapto de Europa

 

Depois das reflexões do texto Noturno, acordei mais leve, vontade de voltar a ler os meus amados clássicos, como agora quase tudo leio na tela, fiquei procurando pdf/ebooks de algumas obras, infelizmente, nem todas tem nestes formatos, ou livrarias tentam “vender”, imagino que a família de Ovídio deve receber os líquidos direitos autorais.

 

Nesta busca encontrei uma belíssima tradução de “Metamorfose”, feita por Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho, para seu trabalho de pós-graduação. Além da tradução um excelente análise da obra, ele cita Calvino, numa definição espetacular da obra de Ovídio:

“Em “Ovídio e a contigüidade universal”, Calvino afirma: “As metamorfoses sãopoema da rapidez, tudo deve seguir-se em ritmo acelerado, impor-se à imaginação,adquirir evidência, dissolver-se. É o princípio do cinematógrafo: cada verso como cadafotograma deve ser pleno de estímulos visuais em movimento”.

 

O deleite de ler e imaginar Metamorfose é maravilhoso, o ritmo, o poema, as informações tão caras, transformadas em versos, como estes do nascer do mundo:

 

“Antes do mar, da terra e céu que tudo cobre,

a natureza tinha, em todo o orbe, um só rosto

a que chamaram Caos, massa rude e indigesta;

nada havia, a não ser o peso inerte e díspares

sementes mal dispostas de coisas sem nexo.

 

Ou estes de aproximar deuses e homens, como se todos, em Roma habitasse, com suas classes e castas:

 

“Existe em céu sereno uma sublime via:

Láctea chamada, de brancura bem notável.

Por lá os deuses vão até a casa real

do grão Tonante. À destra e à esquerda, os átrios

dos nobres deuses são, de porta aberta, honrados.

Outros locais a plebe habita; à frente ilustres

deuses potentes seus palácios dispuseram.

Este lugar, se me permitem a expressão,

ousaria chamar Palatino celeste”.

 

A Morada do Sol visitado pelo incauto Fáeton belamente descrito, assim como a terra e os  que ele vivia, antes de ir ao pai,

 

O palácio do sol, sobre altas colunas,

em ouro e flamejante piropo esplendia,

reluzente marfim recobria-lhe o teto

e do bífore umbral saía luz argêntea.

A arte à matéria superava, pois Mulcíbero

aí, em torno à terra, cinzelou as águas,

o orbe terrestre e o céu que acima dele paira.

O mar cerúleos deuses tem, canoro Tríton,

o mutável Proteu e Egéon que comprime

o enorme dorso da baleia com seus braços;

Dóris e filhas; parte parece nadar,

parte seca os cabelos verdes nos escolho

sou monta um peixe; face igual elas não têm;

também, como convém a irmãos, não são diversas.

A terra nutre homens, vilas, selva e feras,

rios e ninfas e outras deidades do campo.

Em cima, estão a imagem de um céu refulgente

e seis constelações à destra, seis à esquerda.

 

( Metamorfose – Ovídio  I – 168/176 – tradução Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho)

 

São por livros assim que a vida vale a pena, ler, reler, reler, um longo aprendizado é só este o caminho, para nossa metamorfose.

 

Noturno

 

 

 

 

Noite, de castigo esperando o horário do remédio da Lelê, que tem hora exata para ser ministrado, revendo o dia, as coisas que fiz ou deveria fazer, o que tinha para ser escrito e não escrevi. Hoje foi um dia de pensar no momento e como serão os próximos meses no cenário político ( Conjuntura Política 2012 ) estou sinceramente pensando em ficar longe dos fatos vindouros, um certo desgaste pessoal, as forças faltando, preciso canalizar para o que realmente importa.

 

Pensando em ser discreto na intervenção política, participação cidadã, mas sem o mesmo vigor de 2010, preciso me concentrar na minha vida, os desafios que tenho em casa e no trabalho. De algum jeito as coisas(Brasil) estão se definindo de forma razoável e satisfatória, então melhor cuidar de mim, dos meus e atuar apenas pontualmente. Em relação aos temas mais de fundo, estratégicos, continuarei a me dedicar com mais entusiasmo, transformar a série Crise 2.0 em algo menos intenso, mas com mais fôlego, acredito que esta crise ainda vai perdurar por mais 2 anos, com grandes mudanças no mundo, de forma surpreendentemente rápida.

 

Estou aprendendo e, compreendendo, como a vida flui, como melhor viver, mesmo em situação extremamente adversa, mas ainda preciso crescer muito, ser mais tolerante e mais participativo em casa, sentir mais minhas meninas, separar os problemas da rua, conviver de forma mais leve em casa, a tarefa não é simples, mas é necessária. Tudo isto é uma reeducação, sopesar o que é melhor entre valores, modo de vida e ação, buscar caminhos mais firmes e de mais longo prazo, não entrar na correria como se tudo fosse acabar no dia seguinte.

 

Lembrança de 1996 no Japão, ouvindo Secret Garden, viajando na vida e pensamentos:

 

Conjuntura Política 2012

 

(Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Radicalização da Direita

 

A grave crise econômica nos países centrais, com perda significativa de emprego e renda, balançou os Estados e governos, são quase 4 anos de retrocesso econômico e empobrecimento, em particular do trabalhadores que perdem emprego e classe média que é mais achatada. Sem alternativa clara à esquerda, virou campo fértil para o extremismo de Direita, em particular o de caráter religioso e movimentos neofascistas.

 

O fenômeno da radicalização à direita, neofascista, é mundial, nos EUA a face mais radical é a religiosa, tratam Obama como “Bolchevique”, mesmo sendo o Governo Obama francamente de Direita, pode acreditar, está cada dia mais xenófoba e alguns estados aprovam leis mais restritivas aos imigrantes. Os candidatos das prévias republicanas lutam entre si para se definir quem é mais extremista.

 

Na França Sarkozi que já estigmatizara os muçulmanos, quis deportar em massa os ciganos, na atual campanha diz que o problema do desemprego no país é devido a imigração. O discurso do medo e xenofobia, leva que somados Sarkozy e Marine Le pen, são maioria nas pesquisas. O recente episódio com um membro da Al qaeda, foi um prato cheio para aumentar o discurso do ódio.

 

Espanha, mesmo quando governada pelo PSOE, restringiu os direitos dos estrangeiros, pois há um desemprego em massa, política esta radicalizada pela Direita, PP, com sua faceta carola com cheiro de extrema-direita. Os casos na Inglaterra do ano passado com distúrbios em bairros mais pobres com maior presença de estrangeiros e negros, após mais cortes de programa sociais do governo do partido liberal, direita.

 

Na Itália, os seguidos governos neofascistas e corruptos de Berlusconi, uma espécie de palhaço midiático, bilionário, levou o país ao abismo, uma crise generalizada, que só teve fim com a intervenção da UE, que o substituiu por um governo tecnocrata, ligados aos banqueiros. A democracia virou mero detalhe, mas mesmo assim a alternativa de Centro-Esquerda não consegue ter vantagem, nas sondagens para eleições vindouras.

 

A Alemanha consolidou a Direita, com uma ajuda de agrupamento extremistas, num amplo acordo que mantem Merkel no poder e uma maioria consolidada no parlamento. A Chanceler espalha sua força para além da fronteira alemã, intervindo diretamente na eleição francesa, com seu apoio decidido a Sarkozy. A Direita alemã governa sem oposição que lhe questione, a “agenda 2010” do social-democrata, Schroeder, facilitou seu trabalho.

 

No Brasil a esquerda brasileira (PT) ocupou um espectro mais amplo, tomou o centro do PSDB, sobrou apenas a Direita mais raivosa, fundamentalista a eles. Este deslocamento de forças e projetos, ainda não se deu por completo no imaginário popular, PT ainda é identificado como esquerda raivosa, muitos “absorveram” Lula, mas é fato que ainda temem o PT, isto é reforçado por um discurso extremamente preconceituoso de Serra na eleição passada, que afagava a Extrema-direita.

 

 

Eleições de 2012

 

 

O Brasil ganhou um peso e um destaque no mundo devido ao crescimento robusto do PIB, ao mesmo tempo que incorpora amplas massas ao mercado de consumo, tirando-as da extrema miséria ou da miséria, algo inédito não apenas aqui como no mundo, pelo pouco tempo, fruto de uma política bem focada. Semana passada o Estadão dava conta que apenas em 6 anos(2003-2009) foram 40 milhões de pessoas que passaram a fazer parte do mercado de consumo.

 

Mesmo num ano “ruim”, o PIB cresceu 2,7%, houve mais de 2 milhões de novos empregos, neste ano com  menor vigor, mas ainda numa curva positiva o emprego continua a crescer, como lembra Celso Ming, “o desempenho medíocre da indústria já não abala o mercado de trabalho. Seis meses de desaceleração da atividade industrial e cortes de pessoal nos setores automotivo, de eletrodomésticos e têxtil não tiveram efeito negativo na criação geral de vagas. A desocupação no País continua abaixo dos 6,0% da força de trabalho (5,7%, em fevereiro)”.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Governo, do ponto de vista econômico continua forte, suas tarefas de incentivar indústria e manter um ritmo de crescimento mesmo com uma crise mundial, amplamente analisada por nós, na série Crise 2.0, mas luta para consolidar um modelo de desenvolvimento, que continue a incorporar mais ao mercado de trabalho, renda e consumo.

 

São Paulo – Cenário Nacional

 

A mobilidade do PT rumo ao centro, aconteceu independente de Lula. Foi a realidade que o empurrou ao centro, para ter maior interlocução com outras forças que fazem o jogo político no Brasil, tirando do PSDB a hegemonia na sociedade. O Governo Dilma consolida esta tendência de centro-esquerda, atraindo ainda parte da classe média refratária à Lula. Óbvio que este caminho põe em risco as grandes conquistas e bandeiras da esquerda, o ambiente e jogo é mais complicado pois os grupos, os movimentos mais à esquerda são minoritários no PT e no governo.

Neste cenário, as eleições municipais tendem a ter um caráter mais focado na cidades, nos problemas locais, não apresentando características de disputa de projeto nacional, exceto São Paulo, a maior e mais rica cidade do país, bastião da oposição neoliberal, quase uma capitania hereditária. Deslocada, cidade e estado, do modelo e esforço nacional, sempre em choque com as medidas do governo federal desde 2003, São Paulo perdeu sua dinâmica, assiste ano a ano a perda de participação na riqueza nacional. Mesmo assim continua sob domínio do PSDB.

 

São Paulo terá a maior disputa de projetos, mais ainda porque o candidato derrotado da oposição foi empurrado para disputa local, nas suas palavras: “Para evitar que o PT se estabeleça”. Serra não é candidato a prefeito, não tem, como não tinha em 2004, nenhum projeto para cidade, seu obje
tivo é dar caráter nacional a disputa e ficar em evidência, para 2014. A mesquinharia não tem limites, mesmo dentro de seu partido, sua rejeição aumenta, todos os caciques o apoiaram nas prévias, ele passou com apenas 4 % de vantagem, sua avaliação é que venceria por 70 a 30, deu 52 a 48.

 

Serra que foi oriundo da esquerda nos anos 60, chegou a ser presidente da UNE, gestão que ele não concluiu devido ao golpe militar, exilou-se no Chile, também saindo de lá com o golpe de 1973, voltou ao Brasil e fez um sólido caminho rumo ao centro, depois à direita, acabando vergonhosamente abraçando a extrema-direita. Com um discurso de ódio, de nenhum respeito às instituições, jamais cumpriu um mandato eletivo, seu projeto único é a presidência, mas cada dia com um projeto mais conservador, marcado pelas bandeiras neofascistas ou de temas de costumes, como aborto e religião, virou um carola em público, beijando santos.

 

Dissocio-me dos que acham que Serra era agente, ou coisa do tipo, prefiro acreditar que ele cruzou a fronteira e foi para extrema-direita, de forma consciente e objetiva.Ainda em 2010 escrevi um texto caracterizando esta inflexão à Direita do Serra, os mesmos elemento e tipo de campanha já estão sendo armados, não resta alternativa à Serra, senão se diferenciar pelo extremismo de direita. O texto segue atual:

 

Inflexão à Direita


“Foi trazida de contrabando ao palco eleitoral deste ano uma inflexão da candidatura de centro-direita, representada por Serra, à Direita mais raivosa com algumas nuances Neofascistas, o debate foi empobrecido por temas de costumes (aborto, religião) e não políticos totalizantes como a questão do estado, da economia, perspectiva da relação do Brasil com o G20 e qual agenda para entrarmos noutro patamar de país que emerge do ambiente pós-crise de Setembro de 2008.

Rebaixado o debate político, talvez pela leitura de que seria impossível derrotar a candidatura do governista nos marcos de um debate programático mais elevado, mais ainda pela total falta de projeto alternativo ou que pudesse efetivamente se diferenciar, a opção foi reduzir e insuflar uma campanha que beirou ao ódio aos temas relacionados aos costumes.

Esta campanha muito lembrou a sucessão Clinton nos EUA em 2000, em que Al Gore, representante do governista, enfrentou um dura campanha difamatória, com estes temas moralistas, em particular o comportamento sexual de Clinton. A agenda política foi esquecida e num movimento esquizofrênico patrocinada pela Direita “pentecostal” levou Bush Jr a “ganhar” a eleição no Supremo.

Aqui a tentativa de tornar público o passado de Dilma para demonstrar que ela fez a luta armada, que era terrorista, combinada com a necessidade de dizer que ela era um “poste”, que seria manipulada por José Dirceu, por Lula, como se uma Mulher não fosse capaz de assumir o poder e dirigir o destino do país. Criou-se um caldo de cultura reacionário, apelativo, que muitas vezes fez submergir velhas forças de extrema-direita que sempre existiram em SP, mas que estava condenada ao gueto. A velha TFP, que auxiliou o Bispo de Guarulhos, com seus panfletos absolutamente vis, não por acaso impressos numa gráfica de membros do alto comando do PSDB, não deixam dúvida de onde partiu e se incentivou este caminho. É o que chamo de abrir a “Caixa de Pandora” do ódio, preconceitos regionais e de posições sobre sexo, aborto e vida.

Efetivamente estes temas que não deveriam ser o centro do debate político tomou proporções inesperadas e foi usado como arma constante pela candidatura Serra.  A tática do medo, do desprezo, desrespeito por Dilma foi um dos aspectos mais odioso desta campanha”. (  publicado em Debate pós-eleitoral: não a agenda “Mico” 16/11/2010)

Nu

 

Rembrant

 

“o que se tem, é tudo que se precisa” (Filosofia Zen)

 

As palavras nem sempre traduzem o que efetivamente sentimos, ou o que queríamos expressar de verdade, passar para o papel, ou ao computador, há uma perda clara, pois acabamos racionalizando, ponderando, mediando, medindo os termos. Mesmo nos momentos tensos, que a emoção mais aflora, subtraímos a crueza do que vivemos, tirando assim o discurso mais direto e preciso. Mesmo, no meu caso, que escrevo imediatamente aqui, raramente com qualquer revisão, lendo depois,penso, não era exatamente isto que deveria ser, mas fica sendo.

 

Motivado pelo lado mais frágil da vida, a doença, ou a possibilidade de ir-se sem volta, como se toda nossa fraqueza, se tornasse mais visível, nos açoitando ou assustando, naquela situação de eterno desassossego, o único desafogo, que me resta é escrever, o diálogo, ou melhor o monólogo, vai saindo, com facilidade, às vezes, ou com certa dificuldade, mas em comum é que se torna dolorido ficar sem escrever, sem dizer algo. Uma parte do cérebro comanda os dedos e as palavras, a outra manda medir o que se expõe, as duas partes se unem para exorcizar a dor, a cor, a flor, o prazer de ter feito.

 

Metodicamente os textos fluem, cada um com seu tamanho, minuciosamente refletido na cabeça, mesmo que aleatoriamente, os parágrafos, os termos usados obedecem a uma lógica certeira, como se desse uma coerência ao caótico pensar. O turbilhão de sentimentos não atrapalha o método, ao contrário, ajuda, personaliza uma forma de fazer e ser, meu corpo e mente se abrem, como se em praça pública me despisse, mostrando o que sou, como sou, sem poder mais esconder qualquer parte do meu ser, talvez pedindo comiseração, apoio, afeto.

 

A nudez não me assusta, a pele, os pelos, o pudor cobre, veste, mas o interior, as ideias e sentimentos estão livres para viver, criar, pensar, sem medo do ridículo, dos julgamentos. A culpa ou expiação não me seguem ou punem, tudo o que vivo é tão carne viva, que nada mais me oprime, nem mais o medo de morrer, pois  agora sei que já vivo pelo que escrevi, a mensagem do que sou. A longevidade conseguida à pulso, o extremo que me libertou, me fez saber quem eu sou, sem receio de dizer: Hoje estou triste, amanhã não sei, quem sabe feliz.