Minha Fórmula 1

 

Senna, Prost, Mansel e Piquet

 

 

As primeiras lembranças que tenho de Fórmula 1 são de uma TV National Color, com imagem mais ou menos colorida, entre os chuviscos do sinal, não de chuva na pista, o ano, possivelmente 1978, ainda em Bela Cruz, onde nasci. Aquela imagem de um domingo de manhã, depois da missa, eu era “coroinha”do Padre Odécio, ajudava na missa do sábado às 18 horas, que me atrapalhava de ver “Daniel Boone”, na Disneylândia. Aos domingos às 9 lá estava eu cochilando durante o sermão.

 

Então, raramente via TV dia de domingo pela manhã, Padre Odécio judiava de nós, tinha que chegar à 8 para tocar o sino, preparar a missa, depois tinha que contar quantas hóstia que fora servida, ele desconfiava que as freiras entregava menos hóstia do que cobravam, portanto contávamos e depois da missa tínhamos que prestar contas. Saía da igreja umas 11, quase na hora do almoço. Quando conseguia não ir à missa, uma raridade, ia brincar na casa de amigos, TV era algo secundário, mas na casa do Walter(peru) eles gostavam de ver corrida de carro, daí vi aquela coisa num monitor, era quase só barulho.

Ronnie Peterson

 

O primeiro piloto que me chamou atenção foi Ronnie Peterson, o “sueco voador”, dirigia em 1978 um lindo carro preto, a Lotus, ou melhor John Player Team Lotus, um colosso, nas raras vezes que a TV funcionava a contento dava para admirar a beleza daquele carro. Por uma fatalidade Peterson morreu num acidente dia 11 de setembro de 1978, no GP da Itália, dia 10, logo na largada houve um grave acidente e o carro dele pegou fogo. Ele ainda foi resgatado com vida, mas faleceu no dia seguinte. Mesmo assim foi vice-campeão mundial, ficou atrás apenas de Mario Andretti, outra lenda, que era o primeiro piloto da equipe.

 

Emerson Fittipaldi

 

 

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Emerson Fittipaldi – no Copersucar

 

Emerson Fittipaldi era o grande nome brasileiro naquela época, tinha sido campeão duas vezes em 1972 (Lotus) e 1974( Mclaren),mas um erro de estratégia de sua vitoriosa carreira, ele resolveu montar equipe própria, a Copersucar-Fittipaldi, em 1976. Em 1975 ele tinha sido vice-campeão, era do primeiro time de pilotos, mesmo assim foi construir uma equipe nacional, sob os auspícios da ditadura. Naquele ano de 1978, o Copersucar não fazia tanto sucesso.

 

Anos depois Emerson Fittipaldi, vai desbravar novo mercado de pilotos brasileiros, correndo na CART, Fórmula Indy, nos EUA, a chegada dele lá se deu num momento de grande desenvolvimento da categoria. O grande Emerson, venceu um campeonato, além de duas lendárias 500 milhas de Indianapolis, a primeira num duelo sensacional e inesquecível com Al Unser. O talento do Rato é reconhecido no mundo todo, sua técnica e precisão o tornou famoso e respeitado, um verdadeiro mestre.

 

Nelson Piquet

 

 

Eis que em 1979, já tendo tomado gosto pelas corridas, que via de vez em quando, Padre Odécio não dava folga, surgiu meu maior ídolo na Fórmula 1, Nelson Piquet.  Depois de estrear em 1978, num carro alugado por três provas, no ano seguinte ele disputa com terceiro carro da Brabham. Em 1980 é vice-campeão, numa ótima disputa com Alan Jones, perdeu o título na penúltima corrida, quando abandonou.

 

Em 1981, o ano de Piquet será brilhante, nesta época já acompanha todas as corridas, lembro com disputou ponto a ponto com o argentino Carlos Reutemann, outro excelente piloto. Nelson Piquet com grande regularidade e determinação venceu o campeonato com apenas 1 ponto de vantagem, se sagrando o segundo brasileiro campeão do mundo. O Brasil passou a ser visto como celeiro de grandes pilotos. O carro era envelopado de Parmalat, que dava o nome Parmalat Racing team, Equipe Brabham, motor Ford Cosworth V8.

 

O ano de 1982 foi o da transição dos motores CosWorth V8 para os motores Turbo, carro e equipe contaram com a ajuda do acertador de carros, Nelson Piquet. O campeonato foi ruim, o campeão terminou em 11º. Porém, o carro estava ajustado para 1983, mais um ano espetacular, Piquet ganha seu segundo título e se coloca lado-a-lado do grande Emerson Fittipaldi.

 

Os anos seguintes foram os da decadência da Brabham, e também o surgimento do maior piloto brasileiro, Ayrton Senna, que dominaria a Fórmula 1. Mas antes, em 1987 Piquet foi mais uma vez campeão, num campeonato todo dominado pela sua equipe Williams, com motor Honda Turbo V6. Uma intensa disputa entre Piquet e seu companheiro Nigel Mansel, a experiência dele foi fundamental para equilibrar a luta interna da equipe inglesa, contra o possível favorecimento do colega inglês.

 

Os últimos anos de Piquet na Fórmula 1 foram de ajustes de carros e equipes, e um brilhante 3º lugar em 1990 com a nova equipe Benetton. Ele ainda se arriscou a correr na Fórmula Indy, se destacando nos treinos para Indianapolis , porém um grave acidente o tirou da prova e do mundo das corridas competitivas.

 

 

Ayrton Senna

 

Ayrton Senna

 

A chegada de Ayrton Senna na fórmula 1, em 1984, na pequena Toleman, surpreendeu o mundo, ele no ano anterior na F3 inglesa tinha ganhado tudo e o autódromo era conhecido como Silvastone em sua homenagem. Logo na quinta prova, ele chega em 2º em Monaco, sob chuva intensa, Ayton estava ultrapassando todo mundo, aí a direção de prova acabou o GP quando ele estava próximo de passar Alain Prost. Como castigo, Prost, perdeu o campeonato por meio ponto, se a prova tivesse continuado e ele chegasse em segundo teria sido campeão, pois ao invés dos 4,5 pontos , teria recebido 6.

 

Nos anos seguintes Senna usou todo seu talento na Lotus, que já estava em decadência, mesmo assim ele
foi 4º em 85 e 86 e 3º em 87. A grande mudança veio com sua ida para equipe de ponta, a Mclaren.  Foram 6 campeonatos brilhantes, cheios de emoções e glórias, três campeonatos: 1988, 1990 e 1991. Vice-Campeão em 1989 e 1993 e um 4º em 1992. Ele formou a maior dupla, a meu ver, da Fórmula 1, com o francês, Alain Prost, talentoso e tetra-campeão mundial. o alto nível dos dois, a extrema competitividade se tornou selvagem, com batidas propositais e ambiente de guerra.

 

Em 1988 Senna foi mais regular, vencendo o campeonato pelo critério de descarte de resultados, se fosse somados todos o pontos Prost teria vencido. Pontos válidos deu Senna 90 a 87, nos pontos totais deu Prost 105 a 94. Juntos venceram 15 da 16 provas. Ayton entrava no clube dos brasileiros campeões, um legítimo herdeiro de Fittipaldi e Piquet. Senna era diferente dos dois, que eram extremamente técnicos, ele era, além de técnico, um ousado piloto, uma leitura perfeita da competição e um arrojo impressionante.

 

O ano de 1989 foi o mais traumático da Fórmula e que se cometeu a maior injustiça, que eu lembre. O campeonato todo foi disputado, com uma ferocidade nunca vista. O GP do Japão foi um marco, até ali, Prost liderava, mas Senna estava no encalço, com grande chance de reverter a vantagem. Durante a corrida, numa tentativa de ultrapassagem, Prost jogou o carro em cima de Senna, que caiu fora da pista, com ajuda dos fiscais voltou, numa corrida incrível venceu, o que parecia impossível, mas manobrados pelo francês Balestre, presidente da FIA, Senna foi desclassificado, perdendo a chance de ser campeão.

 

Em 1990, Senna dá o troco, na mesma pista, logo na largada bate seu Mclaren, na agora Ferrari de Prost. Um triste fim de campeonato, Senna dominou o ano e ganhou seu segundo título. Em 1991, se torna tri-campeão, e faz um desabafo sobre o que acontecera nos dois anos anteriores:

“Eu acho que o que aconteceu em 1989 foi imperdoável e eu nunca irei esquecer isso. Eu me empenho em lutar até hoje. Você sabe o que aconteceu aqui: Prost e eu batemos na chicane, quando ele virou sobre mim. Apesar disso, eu voltei à pista, ganhei, e eles decidiram contra mim, o que não foi justo. E o que aconteceu depois foi “teatro”, mas eu não sei o que pensei. Se você faz isso, você será penalizado, multado e talvez perca sua licença. Essa é a forma correta de trabalhar? Não… Em Suzuka no ano passado eu pedi aos organizadores para trocar o lado da pole. Não foi justo, porque o lado direito é sempre o sujo. Você se esforça pela pole e é penalizado por isso. E eles dizem: “Sim, sem problema.” E depois o que acontece? Balestre dá a ordem para não mudar nada. Eu sei como o sistema funciona e eu pensei que foi mesmo uma m****. Então eu disse a mim mesmo: “Ok, aconteça o que acontecer, eu vou entrar na primeira curva antes – Eu não estava preparado para deixar o outro (Alain Prost) chegar na curva antes de mim. Se eu estou perto o suficiente dele, ele não poderá virar na minha frente – e ele será obrigado a me deixar seguir.” Eu não me importo em bater; eu fui para isso. E ele não quis perder a chance, virou e batemos. Foi inevitável. Tinha que acontecer. “Então você deixou isso acontecer”, alguém diria. “Por que eu causaria isso?”. Se você se ferrar cada vez que estiver fazendo o seu trabalho limpo, conforme o sistema, o que você faz? Volta para trás e diz “Obrigado”? De jeito nenhum! Você deve lutar para o que você acha que é certo. Se a pole estivesse colocada na esquerda, eu teria chegado na frente na primeira curva, sem problemas. Que foi uma péssima decisão manter a pole na direita, e isso foi influenciado pelo Balestre, isso foi. E o resultado foi que aconteceu na primeira curva. Eu posso ter contribuído, mas não foi minha responsabilidade”

 

Os anos de 1992 e 1993 são de mudanças na fórmula 1 e a Mclaren não acompanha, mesmo assim Ayrton se destaca, com um 4º e um vice-campeonato. Em 1994 a grande mudança para Williams, que dominava a Fórmula 1 nos anos anteriores. Senna finalmente podia guiar aquele carro vencedor. As duas provas iniciais foram vencidas pelo novo e ousado piloto alemão Michael Schumacher, um erro de Senna em Interlagos e uma batida na largada de Aida, no Japão tirou-o da disputa.

 

O GP seguinte seria de San Marino, em Ímola, nesta época, eu já não acompanhava Fórmula 1, mais ou menos em 1990 depois das disputas de Senna-Prost, perdi o gosto, via esporadicamente. Mas naquele domingo, um 1º de maio, acordei na hora que começou aquela corrida, ainda na cama fiquei vendo e vi o fatal acidente, na hora nem pensei que ele tinha sido fatal. Como Senna tinha batido, saí para fazer a feira. Porém no carro os primeiros boletins davam conta da gravidade. Infelizmente, passei o resto do dia na TV.

 

A morte de Senna, foi um fim de minha relação com a Fórmula 1, raramente hoje, vejo qualquer prova. Apesar de não ter sido um fã ardoroso de Senna, como disse, gostava mais de Piquet, via nele como um excepcional piloto, superior a todos de sua geração, garra, inteligência, determinação, aliada à técnica e ousadia, sua obstinação o tornava completo. Depois dele veio Schumacher e uma época meio triste, sem competitividade, o alemão é, sem dúvida, o maior piloto de todos os tempos, mas a Fórmula 1 dos anos 70/80 foram as melhores, pelo menos para mim. Época que piloto fazia uma baita diferença, além de uma grande concentração de gênios: Prost, Senna, Piquet, Fittipaldi, Nick Lauda.

 

E a música que Senna gostaria de ser lembrado : The Cure – Boys Don’t Cry

 

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