Dalton Trevisan: A Fuga dos Holofotes

 

A vida peculiar de Dalton Trevisan - Foto: Edição/247

 

Neste tempo de internet, celebridades, ou melhor subs, instantâneas, li uma matéria sobre Dalton Trevisan, e achei estupenda. Ele acabou de ser premiado com a maior honraria da língua portuguesa, o Prêmio Camões, que é um justo reconhecimento de sua vasta obra. Aos 87 anos, vive em Curitiba quase clandestinamente, longe de holofotes, exercendo um belo direito de ser diferente, preservando sua vida de curiosos e caçadores de celebridades, neste caso, se aplica a ele. A própria matéria, da Revista Época, não conseguiu entrevista, se é que tentou entrevistá-lo.

 

A fama de recluso, longe até do amigos, levou ao apelido de “Vampiro de Curitiba”, criando todo um ar especial de mistério sobre sua personalidade, que torna ainda mais poderosa sua pena, seus escritos. Mas o que me chamou a maior atenção foi que ele simplesmente se recusa a ir à entrega do prêmio, por um fato que devemos pensar profundamente, de que o escritor é invisível, sua relação com o leitor é o que ele escreve, do outro lado é o que o leito ler, não cabendo “interação” maior.

 

Chegou-se a noticiar que a fundação que lhe deu o Prêmio tinha dificuldade em entregar-lhe os 270 mil reais, pois não era fácil encontrá-lo, é mito. Mas o fato real é que ele se comunica com a sua editora via telegrama, e que para chegar até a ele é via Editora, que lhe repassa. Ele se desloca ao local, que é perto de sua casa, por caminhos diferentes, recebe suas comunicações e devolve o que lhe pedem. Quase como um  agente secreto, fiquei imaginando a cena, não deixa de ser engraçado, neste tempo atual.

 

No Jornal Estado de S Paulo, o crítico literário Silviano Santiago, presidente do júri e colunista do Sabático, a escolha foi unânime. “Em primeiro lugar, pela contribuição dele à arte do conto. Não há dúvida de que temos uma belíssima tradição do conto no Brasil. E ele conseguiu uma voz muito pessoal.” Acrescentou ainda  Santiago, sobre o método de trabalhar a língua: “É um trabalho em prosa muito difícil, semelhante ao que se tem quando se faz um soneto, um poema curto. Mas no caso de Dalton, ele faz da dificuldade sua própria poética. A ponto de seus últimos contos serem praticamente poemas, haicais, tal a concisão, a secura, a necessidade de buscar o essencial.”

 

Por fim, o crítico nos fala sobre a reclusão auto-imposta pelo Escritos, diferindo da busca comum pela fama:  “Isso que é bonito no Dalton. Ele nunca gostou de holofote, nunca gostou de se apresentar na mídia. É um homem de 86 ou 87 anos, que dedicou sua vida inteira a fazer literatura longe de tudo. Ele não aparece, não quer aparecer, não dá entrevistas. A gente discutiu que, de certa forma, é a mídia que faz os escritores. Chegou o momento de ver quem escreve bem e quem está pondo para a frente a arte literária.”

 

Uma forma diferente e que serve para pensarmos sobre a extrema exposição que estamos nos submetendo, não restando quase nada de reserva.

Crise 2.0: Espanha – Resgate ou Queda

 

Crise é dos Bancos, que eles paguem por ela - Foto AP

A situação da Espanha se aproxima rapidamente do caos, nestas últimas semanas aqui na série Crise 2.0, venho acompanhando esta degradação, que agora parece se tornar caótica, este mês de maio foi desastroso, para que não me acompanha e, mesmo que já me ler, aqui estão os últimos post sobre a crise espanhola, percebam que a vem num crescendo, quase uma avalanche de notícias ruis:

  1. Crise 2.0: Espanha submissa
  2. Crise 2.0: Espanha – A Nau da Insensatez
  3. Crise 2.0: Espanha em Luta
  4. Crise 2.0: Estresse na Espanha

 

A Espanha é a quarta Economia da Zona do Euro, uma queda, ou mesmo uma operação resgate, praticamente joga por terra o atual fundo de estabilização da Europa, os valores espanhóis, farão pensar que a Grécia era apenas uma quitanda falindo, e a Espanha uma rede de supermercado. As implicações seriam muito maiores do que foi a quebra de todo sistema bancário dos EUA em 2008, com consequências terríveis para o próprio país, que já vive em situação gravíssima, com altos índices de desemprego e rápido empobrecimento da população.

 

O articulista Thomas Landon Jr,  do New York Times, escreveu um artigo muito sombrio acerca da Espanha, que aponta exatamente nos termos que escrevi acima, queda ou resgate é caos na Europa, há poucas margens de manobras, vejamos alguns trechos do que ele escreveu:

“a Espanha ofusca rapidamente a Grécia como o foco da crise da dívida na zona do euro. O salvamento europeu da Espanha, a quarta maior economia da zona do euro após Alemanha, França e Itália, está se tornando uma possibilidade mais visível. A cada dia que passa, cresce a turbulência com a nacionalização pelo governo do gigante espanhol em empréstimos hipotecários Bankia, a fuga de dinheiro para fronteiras mais seguras e um agravamento da recessão.

Um resgate, se houver, sobrecarregará os recursos do novo fundo de salvamento de 700 bilhões da Europa que deve ficar disponível neste verão europeu. E deixará pouca margem para salvamentos adicionais. Ontem, a Comissão Europeia pressionou a Espanha para tomar medidas para acalmar o mercado, e Lael Brainard, um subsecretário do Departamento do Tesouro americano, chegou a Madri para conversar com autoridades espanholas como parte de um tour pela região”.

 

Ele vai apontando o agravamento da economia espanhola neste último mês: “Desde que a nacionalização do Bankia, em 9 de maio, deu sinais da gravidade do estado do setor bancário espanhol, e chamou uma nova atenção para a limitada capacidade do governo de amparar os bancos e impedir a fuga de capitais do país, o primeiro-ministro Mariano Rojoy tem insistido em que a Espanha não precisará de um salvamento ao estilo grego. Nenhum chefe de Estado saudaria semelhante intervenção, porque, como Atenas, Dublin e Lisboa descobriram, esses resgates vêm tipicamente acompanhados de exigências de cortes orçamentários mais profundos e um redobrado rigor fiscal”.

 

Aqui o centro do problema é apontado: “Economistas estimam que se a Espanha for obrigada a sair dos mercados de bônus pelos elevados custos de captação e tiver de depender de recursos da Europa e do Fundo Monetário Internacional para sobreviver, o custo poderia alcançar 500 bilhões por vários anos”. Por fim, ainda nos diz que os empréstimos do BCE a juros baixos em Dezembro e Fevereiro, teve efeito devastador na Espanha, devido ao comportamento dos banqueiros espanhóis:  “Os bancos espanhóis têm sido, de longe, os participantes mais agressivos no programa de empréstimos baratos, tendo tomado mais de 300 bilhões do BCE. E boa parte desse dinheiro foi gasta em bônus do governo espanhol”.

 

Em síntese pegaram dinheiro barato do BCE e estão especulando no próprio país, com juros altíssimo, cada vez oferecendo prazos mais curtos de resgate de títulos. Há títulos de 3 meses, 6 meses, quando o normal seria de 1 ano, 18 meses, 3, 5 e 10 anos. A ciranda de curtíssimo prazo amplia a instabilidade, houve ainda uma corrida desenfreada para sacar Euros nos bancos em crise, tudo pressionando ao mesmo tempo. Até o discurso da Austeridade radical que o Governo da Extrema-Direita espanhola fazia, começa a mudar, não há saída para mais apertos.

 

É fundamental ler Celso Ming, que também vem dando especial atenção à questão Espanha, e o velho liberal jogou a toalha, pede a estatização dos bancos, como única saída, ou o país explode, ele começa assim a coluna de hoje: “a Espanha afunda na areia movediça. Esta quarta-feira foi mais um dia de agonia, de perda de depósitos nos bancos e de queda do valor dos títulos soberanos”. Depois de chorar as pitangas sobre o que Rajoy, “vacilante”, não, analisa o que agora pretende:

“Não se pode obrigar o já sangrado Tesouro da Espanha a fazer maciças transfusões de capital. Esticaria a corda do déficit público para além do suportável. Rajoy sugeriu que a recapitalização dos bancos fosse feita por meio de emissão de títulos públicos, proposta que teria duas consequências. Primeira, puxaria o endividamento para níveis perigosos. Segunda, como os bancos não precisam de mais títulos (de mais ativos), mas de mais dinheiro vivo, o despejo desses bônus no mercado implicaria sua desvalorização e novo esticamento dos juros. Se o Banco Central Europeu (BCE) recomprasse esses títulos, estaria financiando despesas do Tesouro da Espanha – algo inadmissível. Esse precedente obrigaria o BCE a recomprar títulos públicos a cada operação de resgate de banco”.


Percebendo que nada disso se faz sem mudar o caráter da UE, Ming vai direto ao ponto, propondo a socialização das perdas dos banqueiros, pelo Estado, que tantas vezes é desprezado, que interessante:  “Outra opção que parece contar com o apoio da Comissão Europeia seria levar um fundo europeu a subscrever a elevação de capital dos bancos, o que esbarra no veto da Alemanha. Mas pode ser a saída inevitável, com efeitos importantes. Grandes bancos espanhóis seriam controlados pelo bloco. Seriam bancos públicos, mas com controle partilhado pelos sócios do euro e, obviamente, com supervisão também da área do euro. Mas não seria este um novo passo decisivo rumo à integração, desta vez financeira?”

 

Quando tudo parece acabar para os trabalhadores, sempre dar para pendurar nas suas costas mais sacrifícios para pagar as farras d
e um punhado de banqueiros, eis para que serve o Estado, na visão “liberal”.

O Efeito das Imagens no Blog

 

Imagem Google

Muitas vezes as maiores dificuldades de escrever um post é achar uma imagem, ou uma música, para deixar o que foi escrito mais forte, nem sempre é fácil, até mesmo as citações, que também são frequentes aqui, não dão tanto trabalho, muitas delas são lembranças de livros ou poesias que guardo vivas em mim, ou em determinada página de livro que facilmente localizo. Mas as imagens são muito complicadas, pois é preciso dar crédito, fonte, nem sempre se acha no google, mas além disto é difícil combinar imagem x texto x música, a equação precisa ser bem fechada.

 

Porém, em alguns casos, as imagens são tão perfeitas e significativas, que o texto nem importa tanto, fico ali admirado, caramba como consegui algo tão intenso, esqueço até o que escrevi, pois me impacta tanto que fico ali olhando, pensando na força que a imagem tem. Hoje foi um dia iluminado, neste sentido, estava escrevendo mais uma vez sobre Hamlet, mas não conseguia, ao final, nenhuma imagem que me agradasse, tava difícil, as opções eram o mais do mesmo, sempre Hamlet com a caveira, em variadas versões desde Laurence Olivier até Wagner Moura, passando por Mel Gibson, tava complicado, pois queria algo diferente, realmente que abarcasse o texto, que desse mais intensidade ao que escrevera.

 

Quase desistindo, fiz uma última tentativa e encontrei a imagem espetacular, incrível como foi perfeita, pegou na veia, explodiu e multiplicou o significado especial do texto, confira o post e julgue por si: A “loucura” dos grandes , ela se tornou gigante, fiquei radiante, só a imagem merecia um post todo, explicando os detalhes dela.  Vou reproduzir  e dizer algumas coisa que vejo:

De uma representação de Hamlet, pela Saratoga Shakespeare Company

 

Esta foto é de um poster de divulgação de uma encenação da peça, em  julho de 2010, no festival de verão de Saratoga, uma pequena cidade da Califórnia, EUA, fiquei maravilhado, eles fazem um festival desde 2002, com várias peças de Shakespeare, ao ar livre num parque da cidade. Em 2010, foi Hamlet a escolhida, e que cartaz, inacreditável o bom gosto, a expressão do rosto, os olhos, o anel em forma de caveira, as mãos quase encobrindo o rosto. Precisa dizer mais? A inveja é não ter visto a peça, quem sabe ache no youtube.

 

Esta foto me lembrou imediatamente uma outra que usei no post: Cyborgs – Gênese, que guardam algumas semelhanças tanto de forma, quanto de conteúdo, a imagem é de divulgação de uma encenação moderna do  Prometeu Acorrentado, Prometeu 06, confiram que explendor:

 

Prometeu 06, a partir de textos de Ésquilo e Heiner Müller

 

Incrivelmente forte e cheia de símbolos, a foto é do grupo português de teatro experimental “Escola da Noite”, que adaptou Prometeu, com enxertos de Kafka e de “A libertação de Prometeu” de Heiner Müller, um espetáculo de multimídia com imagens de Paulo Côrte-Real e a música original de António Andrade. O ator único era António Jorge, parece que foi uma grande montagem no Teatro de Coimbra, em 2006. A foto é genial, instigante.

 

São estas fotos que dão vida ou superam em muito qualquer palavra, tornam o blog mas interessante, nem que seja visualmente.

A "loucura" dos grandes

De uma representação de Hamlet, pela Saratoga Shakespeare Company

“O olho da inteligência um argueiro o turva”. (Hamlet – W. Shakespeare)

Por tantas vezes escrevi sobre Hamlet, a mais importante obra de Shakespeare, ou até da língua inglesa. Mas acredito que nunca vai se esgotar, dali saí sempre novas e reparadoras lições para alma, para nossa vida. A leitura da obra pode ser feita das mais diversas maneiras, assim como a sua apresentação no palco, na rua, no cinema, simplesmente não se esgota, cada vez se abre uma nova e mais sensacional perspectiva. Das mais de vinte vezes que li, a sensação é de que é a primeira vez.

Mas a introdução é apenas para lembrar que uma possível leitura é sobre o viés da Loucura, mas não qualquer uma, mas a que atormenta o Poder, que advém dele, que aprisiona ou amedronta quem lhe cerca. Muitas vezes pode ser na paranoia de enxergar inimigos em todo lugar e pessoa, típica de ditadores, como Stalin, que dizimou toda a sua geração de grandes revolucionários russos, assim como a outra que se seguiu. Qualquer um representava perigo, risco para sua necessidade de mais poder.

Espalhada pelo livro, vimos como Cláudio e seu primeiro-ministro Polônio, cercam Hamlet e lógico, como era muito delicada a questão, melhor alegar que ele foi acometido de Loucura, acompanhe o que diz o Polônio, absolutamente maravilhado com as peripécias e discursos filosóficos do príncipe:

Polônio

“Apesar de ser loucura, revela método. […] Como são agudas, não raro, as suas respostas! É uma felicidade da loucura, algumas vezes, felicidade que a razão e o bom senso não alcançam com a mesma facilidade”.

 

Do lado do Rei, pressente o risco e o perigo de alguém tão popular e, nobre,  passar-se por louco, mais ainda revelar seus crimes terríveis, para Cláudio, não há nada de poético, na aparente Loucura, mas apenas um jogo de alto risco, que pode lhe derrubar, não havendo porque dar mais espaço, se por um lado é bom alimentar que a loucura o tomou, por outro é preciso frear, antes que lhe seja fatal:

Claudio

“Na alma dele algo a melancolia está chocando; e não duvido que o produto possa causar algum perigo, que é preciso prevenir. […] É sempre ousada a loucura dos grandes não vigiada”.

 

Ora, Hamlet, joga bem, enfrenta seus demônios, a loucura é uma grande máscara, para que através dela possa falar as verdades que possam lhe libertar da opressão e ódio que lhe consume. A intensa trama, a combinação de real/imaginário, o próprio Hamlet mostra seu método de ação:

Hamlet

“A loucura acerta; nunca os sentidos ficam subjugados pela paixão, a ponto de falharem totalmente na escolha”.

 

Bem mais à frente, o jovem príncipe, já sem mais qualquer saída, revela plenamente o que é sua “loucura”, desmascarando seus inimigos, para que saibam quem realmente é “louco”, como segue.

Hamlet falando à Laertes :

“Tudo o que fiz, que a vossa natureza por ventura ofendesse, e a honra e o caráter, proclamo-o: foi loucura. Foi Hamlet que a Laertes magoou? Jamais. Se Hamlet de si mesmo se abstrai e, sem ser ele,causa a Laertes uma ofensa, Hamlet não foi o causador, pode afirmá-lo. Quem foi, então? Sua loucura. Logo, Hamlet está do lado do ofendido; seu maior inimigo é a própria doença. Deixai, senhor,que, em face dos presentes, o franco renegar de maus intentos me absolva ante vossa alma generosa”.

Neste últimos dias, um personagem da república, Senhor Gilmar Mendes, saiu como se “louco” fosse, mas, ao contrário de Hamlet, com fins pouco nobres, apenas encobrir suas diatribes, seu comportamento desproporcional ao que o cargo lhe impõe. Esquecendo-se juiz, que é seu mais alto cargo, virou parte, tomou partido na contenda, desqualificou a si e a seus pares, como observei ao Luis Nassif, parafraseando Shakespeare – Na “loucura”, tem um método. O comportamento é incompatível ao importante que hora ocupa, trazendo riscos institucionais indevidos, a troco de que?

Como tem sido comum, nesta quadrada, a grande mídia lhe deu ampla divulgação, amplificando seus ataques, tomando como verdade, situação pouco verossímil, movida por seu intenso ódio ao Ex-Presidente Lula e a seu partido, usando as declarações cada vez mais açodadas como combustível a uma oposição estéril em proposta, um triste espetáculo, que nada ajuda ao país, não engrandece as instituições democráticas, serve apenas a um ego inflamado e pobre, do próprio Gilmar. Há que goste, que ache que tenhamos pelear, prefiro buscar a razão, voltar aos debate que interessa.

Realmente Hamlet nos dar excelente lições, a maior delas é a racionalidade, equilíbrio, mesmo na aparente “loucura”, é neste caminho que sigo, persisto e insisto, qualquer outra coisa é a derrota, que só interessa a quem está fora do poder.

“O resto é silêncio”. ( Hamlet – W. Shakespeare)


Crise 2.0: Quem paga a conta?

 

Quem paga a conta da Crise? foto AFP

Relatamos muitas vezes aqui na série Crise 2.0, sobre o sofrimento dos trabalhadores diante da Crise, a mais profunda desde 1929. O desespero por emprego, ou para manter seus ganhos, em flagrante contradição com os exageros e desrespeito dos ricos e governos diante da situação crítica dos países. Estes casos acontecem por exemplo na Espanha ou Itália, mais ainda na Grécia, mostrando que o tecido social europeu se rompe a olhos vistos.

 

Recentemente escrevi sobre a situação dos impostos na Grécia, que há uma imensa sonegação, aliada a isenções absurdas como ao setor marítimo que garantia na Constituição que não paga imposto, mesmo sendo ele responsável por quase 50% do PIB. Os ricos na Grécia, em regra, sonegam de forma ampla, mais ou menos 8,5 Bilhões de Euros, o que dá a metade do deficit fiscal do país. Apenas em 2 anos mais de 70 bilhões de Euros saíram dos bancos gregos, boa parte dele, cerca de 40 bilhões rumaram para Suíça e/ou paraísos fiscais.

 

Entre Janeiro de 2010, início da hecatombe grega, até outubro de 2011, nada menos que 11% dos médicos do país foram embora, este exemplo é similar em outras categorias profissionais, os mais qualificados acabam deixando o desespero de um país sem futuro. Em pouco mais de 9 meses se formou um contingente de sem tetos em Atenas que chega a 50 mil pessoas, os bancos tomaram 25 mil casas, até dezembro de 2011, por inadimplência. As filas aos sopões crescem vertiginosamente, até a igreja ortodoxa, quase estatal, enfrenta dificuldades para pagar o salário dos padres, que também tiveram redução no valor dos mesmos.

 

A troika, aprovou um resgate de 130 bilhões de Euros, que são dados em doses homeopáticas ao governo grego, ainda impondo um premier fantoche, ontem descobrimos que parte deste dinheiro na verdade é usado para salvar banqueiros locais. O Fundo Helênico de Estabilização Financeira( HFSF), nome local do Fundo de Estabilidade Europeu, deu 18 Bilhões de Euros aos quatro maiores bancos: “Segundo o HFSF, o National Bank of Greece recebeu 7,43 bilhões de euros, o Alpha Bank recebeu 1,9 bilhão de euros, o EFG Eurobank Ergasias recebeu 3,97 bilhões de euros e o Piraeus Bank recebeu 4,7 bilhões de euros”. (Agência Dow Jones)

 

Agência Dow Jones diz ainda: “Esse capital restaura o nível de adequação de capital desses bancos e garante o acesso deles a provisões de financiamentos de liquidez do Banco Central Europeu (BCE) e do Sistema do Euro”, diz o Fundo no comunicado oficial. “Os bancos agora têm recursos financeiros suficientes para ajudar a economia real”. Essas quatro grandes instituições respondem por quase 80% dos ativos do sistema bancário grego. A Linha de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF, na sigla em inglês) já transferiu 25 bilhões de euros em bônus para o HFSF, dos quais esses 18 bilhões de euros liberados ontem servirão como empréstimos-ponte até que essas instituições concluam uma recapitalização formal, ainda este ano”.

 

A lógica é a mesma da Espanha como escrevemos ontem no post Crise 2.0: Estresse na Espanha, sobre a conta que pagou o Governo de Direita, dito liberal, para salvar apenas um banco, o Bankia, 23,5 Bilhões de Euros, chegamos ao extremo, que os governos não têm dinheiro para Saúde, Educação, os cortes são cada vez maiores, mas consegue vultantes somas, para agraciarem os coitados dos banqueiros, como se estes não fossem a fonte e raiz de TODA a Crise.

 

Mas como tudo parece pouco a Diretora-Geral do FMI ainda manda uma mensagem sórdida para o povo grego:  “Christine Lagarde, disse que tem pouca simpatia por aqueles que criticam o programa de austeridade do país, preferindo concentrar-se com o sofrimento de crianças famintas na África. Ela afirmou ainda que os gregos poderiam se ajudar se “todos pagassem seus impostos”. Pelo menos Hollande deu-lhe uma dura resposta:  “É verdade que há muitos gregos ricos que sonegam impostos e isso não deve ser aceitável”, afirmou. “Mas eu não acho que essa é a melhor maneira de se dirigir aos gregos: ‘Você tem de olhar para a sua situação comparada com os africanos, cujas vidas são mais duras que as suas'”, completou”.( As informações são da Dow Jones)

 

É fato que todas as Crise são depositadas nas contas dos trabalhadores, mas os crimes dos ricos(ampla sonegação, evasão divisas, Falência de bancos, entre outros), não podem lhes ser atribuídos.

 

Crise 2.0: Estresse na Espanha

 

Bankia - Um saco sem fundo

A turnê internacional de Mariano Rajoy terminou em Bruxelas, acompanhamos seu esforço desesperado aqui na série Crise 2.0, de se cacifar, mostrar-se importante, diante do mundo e na própria Espanha. O fracasso se comprovou com a seguida piora da Economia da Espanha, com a crise dos saques aos bancos, que levou em apenas um dia os clientes sacarem mais de 1 bilhão de Euros do recém-estatizado Bankia. Mesmo assim Rajoy continuou sua viagem.

 

Ao regressar, ainda desarrumando as malas, encontrou o país em polvorosa, a greve nacional de Educação contra os cortes violentos nos gastos sociais. Mas o pior continua a vir da economia, em particular dos bancos. A conta do Bankia parece um saco sem fundo, começou com 4,5 bilhões de Euros dados por Zapatero, Ex-Presidente, do PSOE, em 2010. A injeção de capital a algumas fusões acalmou temporariamente a situação, mas a crise se aprofundou em 2011, o desemprego e a inadimplência cresceu assustadoramente.

 

No início do mês de maio, o presidente do Bankia, pediu que o banco fosse estatizado, pois estava insolvente. O Governo “liberal” do PP, assume a conta, que a princípio seria simples, o governo perderia os 4,5 bilhões anteriores, e poria mais 4,8 bilhões, que foi feito por decreto presidencial. Em menos de uma semana um segundo decreto elevou a fatura aos 6,2 bilhões suplementares. E Guindos, Ministro da Fazenda, fechou a conta, dizendo que o valor final seria de 7,5 bilhões de Euros. A conta subiu de 9,3 aos 12 bilhões. Valor que supera o esforço de corte em Saúde e Educação que alcançará os 10 bilhões de Euros.

 

No dia 18 de maio houve uma corrida desenfreada aos caixas do Bankia, suas ações caíram quase 30 %, mas ontem veio a facada final: A controladora do Bankia pediu 19 Bilhões de Euros, fora os 4,5 de 2010, totalizando os astronômicos 23,5 Bilhões de Euros. Apenas para comparação o Proer de FHC, atualizado, daria o mesmo, mas que foi para toda banca nacional, este valores se referem apenas a um único banco. A fatura da banca espanhola pode chegar aos 70 bilhões de Euros. No Parlamento uma luta surda entre o PP e oposição para que não haja uma CPI que investigue os crimes por trás da quebra, está estampado no El País de hoje.

 

O líder do PSOE, perguntou: “Nós concordamos com a nacionalização da Bankia. Mas desde então muita coisa aconteceu, e isso representa um dilema muito diferente de três semanas atrás. Vimos que as coisas eram muito piores do que disse inicialmente. O que aconteceu para que passou de 4.500 para 23.000 milhões em duas semanas? Por que não o número 23.000 e algum outro? Se não as aparências e explicações, não vamos continuar a apoiar [a ajuda] Bankia “. No mesmo El País nos informa que, apenas um ex-executivo do Bankia recebeu 14 milhões de Euros de indenização, Aurelio Izquierdo, que foi para o Banco Valencia que também está sendo Estatizado, isto explica muito dos rombos.

 

As consequências são as piores possíveis o Yeld espanhol está a mais de um mês acima dos 6%, o que indica insolvência geral, mas ontem explodiu e se mantém acima de 6,5%, a luz vermelha assusta não apenas a Espanha, se bater em 7%, o país entra numa espiral de crise muito maior do que a grega, Segundo Estadão de hoje: “Os dividendos dos títulos da Holanda e Finlândia caíram ontem para mínimas recordes, ao mesmo tempo em que os papéis alemães se aproximaram do menor nível recorde, em meio aos temores crescentes relacionados à saúde do sistema bancário da Espanha. A insegurança vinda de Madri incentivou a busca dos investidores pela segurança dos bônus de economias que não estão na linha de contágio da crise de dívida soberana da zona do euro”.

 

Celso Ming, em sua coluna “A Espanha sob Ataque”, no conta que “A imprensa espanhola não vacilou em definir este dia como “segunda-feira negra”. Nem foi tanto pela queda das cotações da Bolsa de Madri (2,17%), mas pelo salto dos juros. O valor dos títulos soberanos da Espanha caiu a seu nível mais baixo desde setembro do ano passado. O rendimento (yield) avançou para 6,5% ao ano, já mais próximo do nível que os analistas entendem ser o limiar da insustentabilidade (7% ao ano). E que diante do desastre: O presidente do governo, Mariano Rajoy, veio a público, em entrevista não programada, para dizer duas coisas: (1) que não pediria recursos oficiais à área do euro para socorrer os bancos espanhóis; e (2) que os dirigentes do bloco têm de dirimir de uma vez as dúvidas sobre seu futuro. “Precisamos de declarações claras em defesa do euro e da sustentabilidade das dívidas da zona do euro”, disse (Estadão 29/05/2012).

 

Ao final do artigo Ming diz: “ O que é retirada de depósitos em alguns países passou a ser o oposto em outros. Nesta segunda-feira, o governo da Suíça, conhecido refúgio financeiro global, se viu tão atolado em movimento de entrada de recursos que anunciou que estuda a instituição de controles na entrada de capitais”.

 

É o estresse sem fim na Espanha, nem a turnê de Rajoy respeitou. Pelo menos uma coisa positiva, Rajoy saiu exaltando Merkel e seu plano de ajustes, voltou declarando Hollandista, se sentiu abandonado pela chanceler alemã.

As Meninas Gigantes

 

Minhas Meninas,meu coração - imagem do Google

 

Depois do dia tenso, mas com a alegria da tarde, que relatei no post Pequenas Mensagens, no início da noite a pequena Lelê, que acordou às 6, assistiu aulas até às 12, comeu e foi para o hospital e permaneceu por 5 horas fazendo quimioterapia, já são mais de 80 sessões, chegou em casa sorridente, mas faminta. Mas, ao ver aquele sorriso, mesmo tão cansada, relaxei plenamente. Ela queria comer Strogonoff de frango, lá fui eu ao supermercado comprar os ingrediente fresquinhos, para que ela comesse o melhor possível, qualquer esforço que faço, sempre é pouco, diante de tudo que ela passa.

 

Fizemos um gostoso jantar, Lelê comeu como gente grande, muito, se deliciou, não aparentou qualquer cansaço, estava feliz e forte. Caramba, vendo tudo aquilo, nem sei o que pensar quando reclamo de qualquer coisa, por tudo que enfrenta, aí sorri? Brincou, assistiu TV, mas deu 21, foi para cama dormir, nem precisamos pedir, ela se preparou sozinha, escovou dentes, tomou remédios, mas aí me chamou, acho que ela adora quebrar meu coração…pediu para cantar música de ninar, queria lembra de quando era bebê e me fazia cantar TODAS as músicas que sabia e ela não dormia. Discretamente, chorei, fico emocionado com as coisas dela.

 

Esqueço qualquer coisa que acontece no “mundo real”, política, futebol, trabalho, toda e qualquer dedicação que possa dar, farei com prazer, não posso me sentir cansado ou ter preguiça, a luta que enfrenta é uma enormidade, inominável. Raramente reclama, a rotina é intensa, atividades escolares, extra-curriculares, esporte, preparação de seus 15 anos, dentro de um tratamento violento como é de Leucemia, apenas os FORTES, em todos os aspectos, conseguem passar por isto, sendo firme, disciplinado e mantendo a cabeça no lugar, buscando se feliz.

 

As coisas que digo sobre a Lelê, na verdade são bem pequenas, como também sobre sua irmãzinha, Luana, que enfrenta um certo abandono, mesmo inconsciente, nosso. As duas são pequenas gigantes, nós acabamos diminuídos por jamais imaginarmos que geramos meninas tão valentes, perseverantes e destemidas. Claro que as provações e amarguras que a Lelê passa, são maiores, as marcas no corpo são visíveis, não apenas as picadas das agulhas, as punções, as cicatrizes, as mudanças do organismo, enfim este conjunto todo. Mas, em outra mão, a irmã sofre as mesmas angustias e sentimentos de dor, na alma, na cabecinha dela. São duas heroínas, cada uma ao seu modo.

 

Apenas me curvo, diante de tão belas meninas, que nos enchem de orgulho e amor, obrigado por me ensinarem a ser gente, humano, real, vivo.