A Garota da Capa Vermelha

 

Recontar a estória de Chapeuzinho Vermelho é sempre um desafio, principalmente quando se afasta do mundo da fábula e não voltada ao público infantil, mas foi isto o que se propôs o filme ” A Garota da Capa Vermelha” (Red Riding Hood), no meio daquela avalanche da série  Crepúsculo, o filme foi visto com desconfiança como mais uma estória de lobisomem, vampiros. Na época não fui ao cinema ver, nem mesmo aluguei na locadora, havia um certo preconceito em não ver. Ainda bem que superei e vi ontem, achei surpreendente.

 

A referência à fábula é o pretexto, mas a diretora Catherine Hardwicke, responsável por assinar a direção de CrepúsculoAos Treze, vai muito além, faz um filme estranho e belo, num ambiente pesado, uma vila perdida, chamada de Daggerhorn,  entre nas montanhas e florestas, que é coberta de neve e frio, que escurece cedo, como a vida miserável daquelas famílias de lenhadores, ferreiros e caçadores, que vivem do medo de ser atacado por lobos e sua versão homem-monstro, lobisomem. Os horizontes são estreitos demais, assim como os dias de inverno.

 

Valerie (Amanda Seyfried) vive naquele ambiente dividindo com o amigo/amor de infância Peter (Shiloh Fernandez), as pequenas aventuras na floresta, com pequenas caças. Já adolescente, Peter vira um grande lenhador e Valerie uma bela moça, o amor aflora entre eles, mas a garota é prometida em casamento a um outro jovem, com mais “futuro”, o ferreiro Henry( Max Irons) . O destino parece cruel separando o jovem casal. Para complicar a situação, a  irmã mais velha de Valerie é assassinada por um lobisomem, depois de mais de vinte anos, que volta a assustar o vilarejo.

 

Entra em cena, o Padre Salomon, interpretado por Gary Oldman(em grande forma), a paranoia da idade das trevas do “homem de Deus”, vem com seus soldados combater o mal, que assusta a aldeia. O ambiente da idade media, das bruxas, lobisomem, das torturas em nome de Deus, chega junto com ele. Agora o vilarejo terá um medo a mais a enfrentar, além do lobisomem, a força da igreja que pune e mata a quem julga pecador. A população se verá no meio do fogo cerrado entre o bem e o mal, ficando indefesa aos caprichos de ambos. Na frase lapidar do Padre Salomon,: “nem sempre se é justo quando se combate o mal”.

 

A presença do lobisomem é que vai discutir os valores morais e de fé do povoado, cada personagem vira herói/vilão, o medo e assombro que toma conta de todos, a busca por suspeito vai marcar a desgraça deles. As relações privadas, os terríveis segredos familiares, a violência, em contradição, com a pequena comunidade, que, em tese, seria mais simples a vida e as regras de convivência. Mas nada daquilo sobrevive ao medo e à luta dos extremos, entre deus e o diabo, num povoado minúsculo, vira gigante, ganha dimensões universais.

 

A capa vermelha, que é o manto posto após o rompimento do  sangue virginal, da inocência perdida, tanto da fábula como do filme, são bem explorados, o lobo que habita no inconsciente coletivo, assim como os medos e lendas, em qualquer comunidade. As soluções da diretora foram acima da media, consegue prender a atenção, sem cair na pieguice dos filmes da franquia “vampiros vegan”.  Outro acerto do elenco que traz a grande Julie Christie, como a Vovô e a bela Virginia Madsen, como a mãe de Valerie.

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2 respostas em “A Garota da Capa Vermelha

  1. Adorei esse filme justamente por tudo o que vc pontuou, Arnóbio.

    E aquele final é a cereja em cima do bolo, concorda?!

    Nada de inocência perdida e blablabla, apenas uma mulher ciente das suas escolhas. Para mim a Valerie é mais uma personagem feminina dessa nova safra que ao meu ver tem em Lisbeth Salander como ícone.

    Por sinal, quando fará uma resenha da trilogia Millennium???

  2. Adorei esse filme, tive um certo preconceito com o filme, mas outro dia não tinha nada de interessante na TV e ele estava passando na tv por assinatura resolvi assitir e foi uma surpresa positiva, não sabia que a diretora era a mesma de crépusculo, que pra mim é um filme muito ruim.

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