Olhar 43

 

 

 

É, chegamos lá, aos 43 invernos, parece simples, fácil, muitas vezes foi, mas como a vida tem dinâmica própria, somos sujeitos a muitas viradas de humor das Moiras. Nossos fios dos nossos destinos fiados por elas, indicando o que nos acontecerá, por toda uma existência. Pensar assim, alivia, dará uma visão mais leve da vida, pois não ficamos nos atormentando com o que nos acontecerá. Como já escrevi antes aqui:

“As três irmãs são as Parcas (Nona, Décima e Morta),  Moiras(Cloto, Láquesis e Átropos) para os gregos, que determinavam a  sorte do homem: Nona tecia o fio da vida, Décima cuidava de sua extensão e caminho, Morta cortava o fio. As sortes(ou azares), se vê descrito, como ter uma madrasta avarenta, os ditos populares tão bem versados. As três sinas se transmutam para : Morte, Saudade e Dor”. ( Gabriela – Elomar )

 

Saindo da poesia e vindo para a mundo concreto, posso dizer que os primeiros 43 foram bons que venham mais, os bons combates da vida, em todos eles, em que estive presente, não me omite. Busquei o lado justo, correto e o mais honesto possível, lealdade com os amigos, companheiros de luta e de trabalho. Minha sensação é de dever cumprido, com muitas faltas, mas com mais acertos. Tudo que conquistei foi fruto de árduo trabalho, dedicação, sem qualquer facilidade, dependendo sempre do meu desempenho e suor, o que muito me orgulha.

 

Também é verdade que os últimos dois anos minha vida entrou num ciclo de muita dor, medo, talvez os mais difíceis de minha existência, a doença de minha filha, em muito abalou minha confiança, certeza, agora, com sua dura luta se tornando vitoriosa, começo a recuperar um pouco o brilho e a alegria de viver. O aprendizado, cruel, doloroso, não tem nada de normal ou necessário, apenas acontece na vida, ninguém fica melhor por ter sofrido muito, a vida não é para sofrer, não neste nível, mas quando se passa por isto, a força que se tem, internamente, supre as fraquezas externas.

 

Hoje, vamos comemorar, rir, ser felizes, sem nos descuidarmos do amanhã, do que somos, do que queremos ser na vida, meus amigos, familiares, companheiros de luta e trabalho, obrigado por todo carinho, em particular por estes dois anos tão complicados, a força que recebi e incentivo foram fundamentais.

 

Para os mais jovens, deixo meu olhar 43, de verdade…naquela época, nem imaginava como seria o dia de hoje.

 

“E pra você eu deixo apenas
Meu olhar 43,
Aquele assim meio de lado
Já saindo
Indo embora”

(RPM – Olhar 43)



#VaiBrasil : Sarah e Kitadai, Judô brasileiro campeão

 

 

Kitadai e Sarah, Medalhas e brigadeiros para comemorar - Foto: Jorge Luiz Rodrigues - O Globo

Depois de uma bela abertura das Olimpíadas que uniu humor, rock e criatividade, todas expectativas se voltaram para o dia seguinte, o primeiro dia oficial dos jogos. A delegação brasileira começou sua caminhada, tendo como objetivo geral ganhar 15 medalhas, uma delegação de 258 atletas. Parece modesto, mas é o que possível, muito ainda há para se fazer, algumas categorias o Brasil já domina bem o ciclo olímpico, noutras estar aprendendo.

 

O desafio maior é o financiamento dos atletas e esportes, sem ser paternalista, mas ao mesmo tempo buscando massificar o esporte como pratica social, de incentivo ao desenvolvimento social e humano. Poucos atletas, que não estejam vinculados, por exemplo ao futebol, conseguem se manter de sua atividade, ou ter patrocínios que financiem profissionalmente suas vida. Podemos lembrar do voleibol, tanto masculino como feminino, que tem uma vida própria, com campeonatos e uma ampla visibilidade.

 

Outros esportes, considerados individuais, como judô, que é tradicional no Brasil, muito pela influência da comunidade japonesa, mas ganhou um tempero local incrível, produziu grandes campeões olímpicos como Aurélio Miguel, Ouro em Seul e Bronze em Atlanta, Rogério Sampaio em Barcelona. A luta se disseminou nas escolas, ganhou dimensão nacional, com centros formadores em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Cresceu muito nos últimos anos, tornando-se uma escola respeitada no mundo.  A pioneira medalha de bronze Chiaki Ishii foi o começo de nossa trajetória.

 

Este ano, o Brasil chegou a Londres com boas perspectivas no judô, encabeçando a lista de favoritas, por liderar seus rankings, Leandro Guilheiro, duas vezes Bronze, Mayra Aguiar, também é líder. Esta é a equipe se suas posições no ranking mundial:

Ligeiro: Sarah Menezes (48kg / 2a do ranking mundial) / Felipe Kitadai (60kg/11o)
Meio-leve: Erika Miranda (52kg / 3a) / Leandro Cunha (66kg/4o)
Leve: Rafaela Silva (57kg/3a) / Bruno Mendonça (73kg/10o)
Meio-médio: Mariana Silva (63kg/14a) / Leandro Guilheiro (81kg/1o)
Médio: Maria Portela (70kg/8a) / Tiago Camilo (90kg/6o)
Meio-pesado: Mayra Aguiar (78kg/1a) / Luciano Correa (100kg/15o)
Pesado: Maria Suelen Altheman (+78kg/7a) / Rafael Silva (+100kg/3o)

 

A grande aposta era a pequena guerreira Sarah Menezes, judoca de 22 anos, de Teresina, Piauí, um dos estados mais pobres do Brasil. Sarah, tem uma trajetória incomum, mesmo se destacando no judô, não abandonou sua cidade, longe dos grandes centros e das principais equipes, com mais recursos técnicos e financeiros. A Confederação Brasileira de Judô e o Ministério do Esportes, resolveram ajudar a ideia de Sarah de permanecer em Teresina. O bolsa atleta e o envio de equipamentos para que ela tivesse condições de treinar forte.

 

O treinador Expedito Falcão, que descobriu Sarah Menezes, virou auxiliar da Técnica da Seleção Brasileira do judô feminino,  Rosicleia Campos, o que deu mais confiança a atleta, que vinha numa constante melhora nos seus resultados, nos últimos 2 anos, depois de uma participação nas olimpíadas de Pequim. Ela conquistou duas medalhas de bronze no Campeonato Mundial (Tóquio, em 2010, e Paris, em 2011), bronze nos Jogos Pan-Americanos (Guadalajara, em 2011), conseguiu uma medalha de prata no Campeonato Mundial (Paris, 2012).

 

A grande vitória de Sarah Menezes, a primeira medalha de Ouro feminina no Judô, mostra o crescimento do esporte, também entre as mulheres.  Ketleyn Quadros havia ganho a importante medalha de bronze em Pequim, um bom prenúncio do que estava por vir. Mayra Aguiar melhorou muito seu desempenho e lidera o ranking mundial, será nossa grande esperança de mais uma medalha nesta olimpíada.

 

No Masculino, o tímido Felipe Kitadai, surpreendeu com um grande desempenho e ganhou a medalha de bronze, no dia em que completou 23 anos, fazendo do Judô, por enquanto, o esporte mais vencedor do Brasil. Kitadai se desenvolveu no judô em São Paulo, no projeto futuro. Atleta da Sogipa, e apoiado pelo Ministério dos Esportes com a Bolsa Atleta. Longe de ser favorito, mas soube ter garra e vontade para ir ao pódio, como ele mesmo disse no dia seguinte: “Tenho medo de dormir e acordar sem a medalha, que me digam ‘hoje você tem que lutar de novo”, de acordar e que tudo seja só um sonho”.

 

O Judô brasileiro é amplamente vencedor, desde Munique são 17 medalhas, 3 Ouro, 3 de pratas e 11 de bronze, o que torna o Brasil o oitavo maior vencedor mundial da categoria, em Olimpíadas, como segue abaixo:

 

Munique 1972
Los Angeles 1984
Seul 1988
Barcelona 1992
Atlanta 1996
Sydney 2000
Atenas 2004
Pequim 2008
Londres 2012

 

 

The Climb

O sabor da viagem – Luana e Letícia
My faith is shaken
But I, gotta keep trying.
Gotta keep my head held high
( The Climb – Jessi Alexander e Jon Mabe)

As meninas de férias, enquanto trabalho, dá uma sensação de mais distância, uma saudade, pois, quando estão em aulas, todos estamos ocupados. Ontem a Lelê viajou, foi para Campos do Jordão, já na saída, meu coração ficou apertado, depois ligou a noite, toda feliz, empolgada, deu uma certa tranquilidade, acalmou um pouco. Temos feito alguns passeios e viagens nestes dias, muito divertido, como o bate e volta ao Guarujá, ou a ida a Fortaleza, ocupamos o mês, curtimos juntos este período.
Quando voltávamos do Guarujá, trânsito pesado, a noite já caindo, elas cansadas pela viagem, ficamos ouvindo músicas, conversando um pouco, então tocou uma canção que era a cara da Lelê, na época que ela adoeceu, eu ouvia muito no carro, indo ou voltando do hospital, chorava, chorava….pode ser que Miley Cyrus, seja apenas uma cantora destas milhares, que aparecem e somem, criadas pela disney, mas a canção me toca profundamente, lembra de coisa tão duras, as lições que aprendemos, nas piores condições.
Ali, na estrada, voltando de um dia tão especial, teve um sabor diferente, as duas comigo, lindas sorridentes, lembrando que sempre teremos uma outra montanha para escalar, como diz a música, mas com as vitórias q tivemos, mostra que também há uma esperança, feita com amor e carinho.
“There’s always gonna be another mountain
I’m always gonna want to make it move
Always gonna be an uphill battle
Sometimes I’m going to have to lose
Ain’t about how fast I get there
Ain’t about what’s waiting on the other side
It’s the climb”
( The Climb – Jessi Alexander e Jon Mabe))

Crise 2.0: A Pletora do Capital

 

 

Espanha, não há vagas - Foto: JAVIER LIZÓN (EFE)

 

A primeira questão que deve ficar claro para quem lê esta série sobre a Crise 2.0, é que a Crise se dá no pico da produção de Capital, na superprodução, como nos lembra Marx, a “crise é a pletora do Capital”, no pleno sentido médico, da superabundância, portanto, para que não haja dúvida sobre o movimento e a linha que seguimos aqui, este esclarecimento é fundamental. Partindo deste ponto, olhamos o mundo, sua conjuntura desde o centro do sistema, de onde o Capital determina todas as relações econômicas, políticas e sociais..

 

A grande crise que atingiu o coração do sistema, se deu precisamente nos EUA, por volta de meados de 2005, tendo seu ponto “visibilidade”  no final de 2007 até setembro de 2008, período que corresponde a quebra de todos os principais bancos de crédito imobiliário e o Lehman Brothers que tinha se especializado em alavancar as hipotecas, num movimento especulativo sem fim. Desde 2005 até hoje, os EUA têm um déficit de 5 milhões de empregos, descontada a inflação, os preços e o PIB dos EUA apenas este ano será maior que o daquele ano, mesmo assim há dúvidas nesta recuperação. São 7 anos de queima de capital, condição fundamental para se retomar um novo ciclo de produção capitalista, caso não haja uma ruptura revolucionária neste “vale”.

 

Noutro centro do Capital, a Europa, mais especificamente a Zona do Euro, ainda mais particularmente a Alemanha, parece se livrar dos efeitos da crise, é mais uma falsa ideia, a Crise é precisamente lá, enquanto os países secundários caem desesperadamente, mais a Alemanha cresce, ao meu ver, mais fica encurralada. Os países mais pobres,de baixo PIB, como Irlanda, Portugal e Grécia, que juntos não chegam a 4% da economia do Euro, mesmo causando certo estrago não abalaria a Europa como um todo.

 

Mas a questão não se restringiu a eles, o efeito em cadeia agora levou ao solo Espanha e ameaça também derrubar de vez a Itália, agora sim, economia com alto porte, que representam mais de 25% do PIB da UE. A Alemanha, seu sócio menor, a França, dirigem os rumos da Crise, com um desequilíbrio violento na lógica de funcionamento da Zona do Euro, os países se tornaram completamente dependentes da Alemanha, sua poderosa indústria e de seus bancos, em parte também da França. Os banqueiros dos dois países são credores majoritários das dívidas de Espanha e Itália, assim como eram de Irlanda, Portugal e Grécia. Aqueles empréstimos dados a estes países no fundo servem apenas para garantir os créditos de Alemanha e França.

 

O que observamos agora na Espanha ( Crise 2.0: Espanha em Chamas – um Roteiro ), não é a Crise do Capital, sim seus efeitos danosos, o corte violento de forças produtivas e de valor. O desemprego massivo, que saltou de 7,95% em 2007 para 24,65% , entre os jovens chegou aos 53,28%, agora em junho de 2012, é a parte visível da miséria que os trabalhadores são submetidos pelo Capital. 400 mil imóveis foram retomados de 2009 até junho de 2012, 300 mil por inadimplemento  de hipotecas e 100 mil por não pagamento de aluguéis, gerando um imenso contingente de famílias que subdividem casas e apartamentos, no pior dos casos os sem tetos. Situação análoga ao que acontece em Atenas com mais de 50 mil sem tetos.

 

Dados do El País

 

 

As províncias e regiões autônomas entram em pré-falência, pois o Governo Central retomou para si o orçamento, além de cortar ou determinar cortes locais, o ambiente beirou ao caos esta semana, quando os índices de prêmio de risco e de yeld bateram recordes. Houve um pequeno alívio com a promessa do BCE de intervir, não para salvar Espanha, mas para Salvar o EURO, o Capital, que fique bem claro.  Como diz o Presidente da UE, o português Durão Barroso falando sobre a Grécia e os planos de austeridade, foi direto ao ponto  “A palavra-chave é: entregar, entregar, entregar. O principal assunto é: implementação para entregar resultados”.

 

Diante do quadro extremamente deteriorado a Alemanha não pode mais se colocar à margem, apenas se alimentando da desgraça geral, uma ação coordenada pelo BCE, citada pelo Le Monde, teve uma resposta lacônica do porta-voz de Merkel: “O presidente do BCE disse que a instituição fará tudo que for necessário para preservar o euro e o governo fará tudo que for politicamente necessário para preservar o euro”, afirmou Georg Streiter, porta-voz do governo alemão, durante coletiva de imprensa. “O BCE está fazendo sua parte e o governo federal está fazendo sua parte”.

 

Por outro lado, segundo El País, o  corrupto banco inglês Barclays( manipulava as taxas com a conivência do BC inglês), retira capital de sua filial espanhola, com temor de que a Espanha saia da Zona do Euro. Os ratos são os primeiros a fugirem do navio à deriva. Mas o que demonstra é que a situação é limite, com pouca margem de manobra. O centro do poder, a Alemanha, tem que se mexer, não tem como ser diferente. Um resgate total e humilhante da Espanha, pode causar rupturas internas, com revolta nas províncias, como também externa, num ódio extremado ao Euro.

 

As Curvas da Estrada de Santos

 

Uma natureza exuberante - Foto do Flicker : Fhotobnauta

Ano passado fiz um pequeno post sobre o maior cantor brasileiro,Roberto Carlos e eu, e minha implicância com ele, fruto muitas vezes da imaturidade, e também da fase ruim, que ele passou durante a segunda metade dos anos 80 e 90. Mas o resgate de suas maravilhosas músicas, seu carisma, charme, forma única de cantar e encantar, são superiores a qualquer momento desigual de sua longa carreira. Algumas de suas canções, em vários momentos de nossas vidas, ficam marcadas a nos lembrar para sempre. Estas marcas, em nosso imaginário é o que tornam eterno e perene na cultura popular.

 

Este começo é apenas para lembrar de como é grandiosa a música “As curvas da estrada de Santos”(1969), ainda garoto no interior do Ceará, ouvia e ficava imaginando como seria esta estrada. Apenas em 1979, o filho de um amigo do meu pai, veio para nossa cidade, visitar seus pais e trouxe seus filhos, um deles nasceu e morou em Santos, tinha minha idade, enquanto jogávamos bola, ele me contou como era bonito sair de São Paulo e ir até Santos, descer a serra. Poucos detalhes, mas aguçou minha curiosidade.

 

Muitos anos depois, já morando em São Paulo, no meu primeiro emprego, fomos convocados a ir a Santos, ajudar a finalizar um grande na antiga Telesp da Washington Luís. Parece que foi ontem, saímos cedo, era outubro de 1989, pegamos uma kombi, fomos pela Anchieta, tudo era novidade, pedi para ir no banco da frente, pois queria ver o caminho. Passamos ao lado daquelas fábricas das famosas greves do ABC, era quase um filme para mim, dia não muito frio, o tempo não estava fechado.

 

Pouco depois o início da descida, as fantásticas curvas, a música na minha cabeça, o carro avança lentamente, muitos caminhões, num determinado momento, a visão da baixada santista, linda, imensa, o contraste maluco de Serra, Cidade e Mar. A paisagem da serra, ali da Anchieta é mais bela ainda, é como se a estrada respeitasse a mata, as curvas coladas às pedras, quase talhadas à mão. Entendi, neste instante, o que Roberto Carlos cantava, nem era a estrada original da música, mas a natureza era a mesma.

 

Por coincidências da vida, em 1990, morei por quatro meses no Guarujá, então subia e descia muitas vezes, ia pela Imigrantes, uma estrada mais “fria”, menos emocional, quase reta, as rochas perfuradas em enormes túneis, não tem o mesmo charme e força da Anchieta, muito menos da antiga estrada, mas a visão de cima da serra de todo o litoral, continua a me deixar apaixonado. Muitas vezes voltando do Rio de Janeiro, a rota dos aviões tem a aproximação pela proa de Santos, é uma visão linda demais.

 

Neste fim de semana, desci ao Guarujá, contei no post (@migos que viram Amigos ), mais uma vez vi o litoral daqui de cima, mostrei as minhas filhas, de como tudo aquilo é lindo, como conheci, as minhas viagens por ali, moradia no Guarujá, os passeios em Santos, mais ainda, a música do Roberto mais alta nos meus ouvidos. A música tem minha idade, do mesmo ano que nasci, diz muito, né?

 

Várias maneiras de interpretar “As Curvas da Estrada de Santos”

 

Roberto Carlos em 1969, a original

 

 

No Acústico (2000)

 

 

Caetano Veloso

 

 

Elis Regina – Espetacular a versão jazzista

 

Crise 2.0: Espanha em Chamas – um Roteiro

 

 

Guindos e Rajoy, desastrados condutores da Crise na Espanha

Hoje resolvi rever todos os escritos desta série sobre a Crise 2.0, que trata da questão da Espanha, fiquei espantado como a coisa evoluiu de forma linear com a mesma dinâmica do que se deu em Portugal e Grécia( que acompanhei didaticamente aqui). Todos os lances de aprofundamento e piora do ambiente econômico e social. As coisas vão caindo como naquele jogo de dominó que derruba pedra a pedra.

 

O primeiro artigo em que faço referência aos PIGS,  ainda em 06 de julho de 2011, são extremamente atuais e revisam o caminho do desastre que estes países se meteram, assim escrevi: “Olhando mais profundamente percebemos claramente os indicadores que levaram as economias periféricas da zona do Euro à bancarrota:

1)      Para entrar na zona do Euro: Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia foram “agraciadas” com generosos empréstimos. Enricaram artificialmente;

2)     Cada um ao seu modo “gastou” o dinheiro recebido sem parcimônia, Portugal e Espanha comprando empresas na América Latina, posto que não podiam comprar na Europa;

3)     Estes países tinham um desenvolvimento tecnológico muito abaixo em relação aos países centrais com baixa produtividade, e padrão salarial inferior;

4)     Padrão de vida destes países sempre foi muito inferior aos de França/Alemanha/Inglaterra, como poderiam ter moeda comum?

5)      Engenharia de Maastricht foi inflá-los artificialmente, ajuste fiscal pesado, combinado com endividamento, tudo ia “bem” até 2008;

6)     Com a explosão da crise em 2008 os bancos exigiram liquidez imediata e q a conta vem sendo cobrada agora PIGS(Portugal,Irlanda,Grécia e Espanha) Têm que pagar

7)      As explosões sociais na Espanha, Grécia, com certeza chegaram a Portugal, a conta é alta, os sacrifícios serão enormes;

 

Economias falidas

 

O reflexo deste imenso endividamento é a degola das economias mais periféricas, como Grécia, Portugal, Irlanda e mais presente Espanha. Estes países que receberam grande inversão de capitais para se adequarem à zona do Euro, hoje estão totalmente insolventes, tecnicamente falidos, vivendo da esperança de aporte da Alemanha e do FMI.

 

Abaixo, uma sequência de posts que vão demonstrando a progressiva queda espanhola, que, por mera coincidência, se acentuou coma posse de Mariano Rajoy, que venceu as eleições sem apresentar qualquer plano de governo, estes primeiros artigos são relacionados ao ambiente de crise e formação do G0verno da Direita, com viés de Extrema-Direita. Rajoy representa a ala mais conservadora, com vínculos com ordens religiosas radicais, assim como o o Rei do País, que também se situa no mesmo espectro ideológico:

 

  1. Crise 2.0:Um fantasma ronda a Europa: Dissolução do Euro?
  2. Crise 2.0: A queda da Zona do Euro
  3. Crise 2.0: Direita, Volver!!
  4. Crise 2.0:”ambiciosas e surpreendentes”
  5. Crise 2.0: Privatizadores, agora privatizados
  6. Crise 2.0: Uma realeza decadente
  7. Crise 2.0: A desarmada espanhola
  8. Crise 2.0: Espanha e os Skrotinhos

 

Por volta de abril deste ano, com a Grécia totalmente destruída, as nuvens se carregam sobre a Espanha, o “Deus Mercado” se preparou para “vampirizar” a próxima vítima. O Presidente, Rajoy, parte para uma turnê internacional desastrosa, vai ao G8, depois Paris e finalmente Cúpula do Euro, enquanto que internamente o Bankia, quarto maior banco faliu, precipitando a crise bancaria, como você pode ler abaixo( de brinde o D Juan – literal em todos os sentidos – caçando elefantes, a decadência vista como nunca):

 

  1. Crise 2.0: Espanha, outra Grécia?
  2. Crise 2.0: O Caçador de elefantes
  3. Crise 2.0: Espanha em queda
  4. Crise 2.0: Espanha submissa
  5. Crise 2.0: Espanha – A Nau da Insensatez
  6. Crise 2.0: Espanha em Luta

 

O desastre anunciado, com o salvamento do Bankia, uma opção ideológica, pois o Presidente do Banco, era nada mais nada menos que o Ex-Chefe do FMI, Rodrigo Rato, figura de grande destaque da ala radical da Direita do PP, que em menos de dois anos afundou de vez o banco. O governo correu a salvá-lo, achando que o rombo seria de 4,5 bilhões, mas, quando fez sua auditoria, se deparou com 23 bilhões de  prejuízo, o fundo de resgate estatal não passava de 9 bilhões.

 

Imediatamente, o Governo Rajoy planejou aumentar em 10 bilhões de Euros nos cortes de austeridade, só que agora localizados em Saúde e Educação. Uma onda de protestos se seguiu, mas Rajoy continuo no caminho do salvamento do Bankia, ao mesmo tempo começou a pedir uma linha de crédito de resgate apenas para os banqueiros espanhóis:

 

  1. Crise 2.0: Estre
    sse na Espanha
  2. Crise 2.0: Espanha – Resgate ou Queda
  3. Crise 2.0: A “Sangria” da Espanha
  4. Crise 2.0: Espanha, como salvar os banqueiros
  5. Crise 2.0: O Resgate Light da Espanha
  6. Crise 2.0: Operação Resgate da Espanha
  7. Crise 2.0: Espanha – Fim da Crise(?), Começo da Miséria!
  8. Crise 2.0: O Day after Espanhol
  9. Crise 2.0: Espanha – Mais Dinheiro aos Banqueiros, o Céu não é o Limite!

 

A decadência que se seguiu ao pedido de resgate parcial, foi enorme, em poucos dias todos os parâmetros da economia entraram em colapso, veio a público a gigantesca fuga de capitais, além da desconfiança do que estava por de trás do pedido de resgate parcial. A operação parecia simples, o BCE resgataria diretamente os bancos falidos, monitorando-os, e os cerca de 100 bilhões de Euros não entraria na conta da Dívida espanhola. Mas nem assim houve calmaria, aliás piorou o ambiente

 

  1. Crise 2.0: O “Vendaval Espanhol”
  2. Crise 2.0: Espanha – Precisa do Resgate Total
  3. Crise 2.0: A Rendição da Espanha?
  4. Crise 2.0: O que significa o Resgate espanhol?
  5. Crise 2.0: Espanha – Só há remédio(Euros) para Bancos
  6. Crise 2.0: A Espanha Entregue
  7. Crise 2.0: Espanha sob Intervenção da Troika?
  8. Crise 2.0: Espanha, Miséria nas Ruas

 

Finalmente nas duas últimas semanas a Economia espanhola implodiu, por trás do acordo de Resgate Parcial, a Troika exigiu um draconiano pacote que  pôs a nu todo o pais. Com ampla maioria no congresso Rajoy impôs as medidas mais restritivas de toda história da democracia do país. Um pacote gigante com 21 leis, conhecido como Teusoraço, foi aprovado em menos de dois dias.

A fúria tomou conta das ruas das maiores cidades da Espanha, centenas de milhares de pessoas em protesto, mas o pior o “Mercado” não acreditou no cumprimento das metas, e passa a exigir o Resgate total, como se lê abaixo:

 

  1. Crise 2.0: A Espanha Nua
  2. Crise 2.0: A Luta de Classes na Espanha
  3. Crise 2.0: Para onde vai a Espanha?
  4. Crise 2.0: O caminho do desastre espanhol
  5. Crise 2.0: Espanha ajoelhada diante da Troika
  6. Crise 2.0: Espanha, não há saída honrosa
  7. Crise 2.0: Espanha a Esmolar na Europa

 

 

São 38 artigos com uma dura cronologia de um país em esfacelamento social, político e econômico, o desenrolar da crise, seu contexto geral, acompanhado dia a dia aqui, se torna um documento essencial para entender como age o Capital, não há medidas racionais, mas cortar aquilo que lhe atrapalhe o movimento de valorização. Pouco importa os milhões jogado na miséria ou à própria sorte. Este é o ponto central, não há qualquer comiseração, só dor e desgraça.

 

Crise 2.0: Espanha a Esmolar na Europa

 

Luis de Guindos, Ministro das Finanças da Espanha, pedindo esmolas na Europa

A experiência de acompanhar, aqui  a série sobre a Crise 2.0, a decadência da Grécia, era um duro aprendizado, pois foi feita com longa agonia, mês a mês, o país era submetido a extrema humilhação, com a entrega em doses homeopáticas dos valores do resgate, em particular o dinheiro para cobrir salários e despesas do Estado. Exceto a ajudas aos 4 maiores banqueiros , de 18 bilhões de Euros, que foi entregue sem embaraços. Até nas eleições havia ameaça de não entregar, caso a esquerda vencesse.

 

Ainda no meio da crise que abalava e paralisava o país, Papadreoun, o inepto premier socialista, foi a Bruxelas e ficou esperando duas horas para se entrevistar com Merkel, não satisfeita, a Chancelar alemã exigiu sua renuncia imediatamente. Impuseram um Primeiro Ministro biônico, PapaDEMos, cuja missão fundamental era obrigar o parlamento grego a assinar os termos draconianos do Plano de Austeridade, em nome do resgate total, ou TODOS os partidos assinavam ou não haveria ajuda. Historiei aqui várias vezes estes humilhantes e dramáticos acontecimentos.

 

Quase como um filme repetido, as mesmas cenas se repetem com a Espanha, nos últimos 2 meses venho escrevendo/denunciando o verdadeiro absurdo que se está a fazer com um país livre, dirigido por um tolo, Rajoy, eleito fruto da combinação de repúdio aos socialistas e pelo boicote dos indignados. Sem qualquer plano de governo, ou proposta, se deixou tutelar pelos técnicos alemães enviados por Merkel, após as eleições. Com ampla maioria congressual, Rajoy, atentou contra o povo espanhol como jamais visto numa democracia.

 

Mesmo o país mergulhado numa crise sem precedentes, com altíssima taxas de desemprego, de 1 em cada 4 trabalhadores, com a 23% da população vivendo no limite da pobreza, Rajoy, impôs dois cortes violentos no orçamento, atacando principalmente os gastos em Saúde, Educação e Seguridade. Mesmo com toda política de agradar à imposição da Troika, o “Deus Mercado” não lhe deu refresco, neste 7 meses o prêmio de risco aumentou em quase 60%, os títulos da dívida pública são oferecidos com resgate de mais 7,6% ao ao ano. Tecnicamente o país faliu, prova disto é a fuga de capitais que atingiu 300 bilhões de Euros em 1 ano, apenas na sua gestão 200 bilhões.

 

As várias crises se somaram na Espanha: Dívida Pública, Dívida das Províncias e por fim a quebra dos bancos. O Estado sem dinheiro para resgatá-los conseguiu um resgate parcial, desde que novos cortes fosse feitos, o que está sendo rigorosamente cumprido, com a aprovação do Tesouraço na última sexta, dia 20 de julho. Mesmo assim todos os indicadores pioraram, nada voltou a um termo aceitável. O inepto Rajoy despachou seu Ministro das Finanças, Luis Guindos, ex-número 2 do FMI, da gestão de Rodrigo Rato, para esmolar pela Europa. De pires na mão Guindos foi a Paris e pede de forma humilhante uma reunião com o Ministro das finanças da Alemanha.

 

Segundo a mídia o governo espanhol está à beira do pedido final de resgate total, o que significará os mesmo problemas descrito nos primeiros parágrafos, quando falamos da Grécia , nas palavras do jornal espanhol El Economista “O governo da Espanha está considerando a possibilidade de pedir um pacote de resgate total, que permitiria ao país honrar sua dívida e evitar um colapso financeiro “iminente”, caso o Banco Central Europeu não retome a compra de títulos espanhóis para ajudar a reduzir os custos de financiamento. Na semana passada, a Espanha obteve a aprovação da União Europeia para um plano de ajuda de até 100 bilhões de euros para os bancos espanhóis”.

 

O Jornal diz ainda  que “a ajuda seria temporária e ficaria em vigor até a criação de uma órgão supervisor do setor bancário da zona do euro e o lançamento do Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM, na sigla em inglês), que ofereceriam soluções de mais longo prazo.  “Os analistas são unânimes: se a pressão sobre os títulos espanhóis continuar e o Tesouro perder acesso ao mercado… a Espanha não será capaz de lidar com o grande volume de dívidas que vence em outubro, algo em torno de 28 bilhões de euros”, disse a reportagem. O ministro da Economia, Luis de Guindos, viaja hoje à Alemanha, onde espera convencer o colega Wolfgang Schäuble a orientar os emissários alemães do BCE para que permitam que a instituição retome a compra de papéis soberanos da Espanha no mercado, de acordo com o jornal. “A reunião é importante porque o prazo da Espanha está acabando”.

 

Mesmo com a situação humilhante as fontes governamentais ainda são arrogantes em falar de “resgate temporária”, só que ao mesmo tempo, Guindos se ajoelhará diante dos pés do Ministro alemão para que interceda junto ao BCE. Francamente, este fracassado governo da extrema-direita espanhola já deveria ter vindo abaixo, é uma combinação de incompetência com tosca arrogância inútil. Por outro lado, a própria UE já se prepara para o pior cenário, o mais provável: o Default espanhol.

 

Segundo a agência Dow Jones  “O ministro de Finanças de Luxemburgo, Luc Frieden, disse que os membros da zona do euro estão preparados para responder rapidamente e ajudar a Espanha, em meio ao aumento nos custos de financiamento para o país. Mas afirma que não existe no momento nenhum plano em andamento para um resgate total ao governo espanhol. O país recebeu este mês a primeira parte da ajuda ao seu sistema bancário. “Em épocas tão difíceis como as que nós vivemos agora, é preciso acompanhar a situação permanentemente, diariamente, e estar pronto para agir a qualquer momento”, disse Frieden em uma entrevista para a Bloomberg News. “As decisões políticas no caso da Espanha, e também da Grécia, foram tomadas para que nós sejamos capazes de agir rapidamente. Isso é essencialmente importante agora e nos próximos meses”, acrescentou.

 

Apenas para começar a guerra mais terrível de nervos, assim como foi a praticada com a Grécia, “o  ministro luxemburguês comentou ainda que uma reunião do grupo de ministros de Finanças da zona do euro (Eurogrupo) antes do encontro programado, em setembro, não é necessária. Aqui no Brasil, lembramos de como era humilhante ver os nossos ministros da Economia sendo enxovalhados por técnicos burocratas do FMI, aquelas cartas de intenções que tanto machucaram nossa soberania. Irlanda, Portugal, Grécia e agora Espanha são expostos ao ridículo, que ano mesmo estamos?

 

O chicote da Troika que açoita irlandeses, portugueses, gregos, começa a experimentar o couro espanhol…espetáculo de horrores…