Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados

 

Indignados na Espanha - Força e Limites - Foto Claudio Álvarez/El País

 

Como parte da estrutura de análise sobre o “Novo Estado”, que denominamos de Estado Gotham City, resolvi definir de uma forma mais geral aqui, na série sobre a Crise 2.0, quais os principais vetores que balizam este conceito de Estado e poder. Começamos com um texto geral, Crise 2.0: O Novo Estado, com  as linhas gerais da formulação que venho elaborando nestes 15 meses em que venho acompanhando a monumental Crise de Superprodução de capitais.

 

Os quase 250 artigos dão uma visão completa da Crise, mas este novo conjunto de elaborações busca identificar quais os atos e fatos, dos atores na luta de classes, tomam para enfrentar a Crise e, como parte dela, a questão de um Novo Estado que vai sendo gestado. Do artigo inicial, que contem indicação de mais seis outros, comecei a rascunhar mais outros três outros, o primeiro deles : Crise 2.0: Novo Estado e o Capital, responde às questões históricas e correntes das políticas do grande capital, visando iniciar um novo ciclo longo do Capital.

 

Agora, neste post, a investigação caminhará para o lado dos trabalhadores e do povo em geral, que tem se organizado na Europa e EUA, nos visíveis movimentos de Indignados Occupys, entre outros. O que queremos verificar é se identificamos planos ou propostas claras de ruptura com o sistema, ou proposições dentro do sistema, que, de forma objetiva, apontem alguma saída da Crise. Por vários momentos na Série Crise 2.0, debati o papel dos Indignados e o que se propunham, de forma crítica e direta. Ainda em setembro do ano passado assim caracterizei-os:

“O país mais atingindo pela crise, sem dúvida, é a Grécia e para variar a classe trabalhadora foi “convidada” a pagar a conta. Os planos do governo, como sempre, punem os trabalhadores, cortando previdência e aposentadoria, flexibilizando mais ainda o emprego. Os trabalhadores gregos têm respondido de forma ativa, com grandes manifestações e greves. Sob constante ameaça de perder o “status” de integrante da Zona do Euro, a Grécia é o país da região que paga os piores salários. A resistência é heroica, lembra seu passado mitológico.

A Puerta Del Sol em Madri é o símbolo de luta e resistência dos trabalhadores e do povo espanhol. Ocupada desde maio, expandiu para todo o país e a Europa que as medidas de mais ajustes não serão aceitas. A combinação de desemprego e falta de perspectiva política levou a este amplo movimento a juventude, setor mais atingindo pela crise.

As rebeliões de Londres em julho, uma onda que misturava protesto e vandalismo, mostrou que a luta é a saída para as regiões mais excluídas do país, apesar da repressão violenta, do corte de comunicação via celular. Foram momentos que puseram a nu a situação precária que a classe trabalhadora inglesa enfrenta.

A recente ocupação de Wall Street é mais um indício de que a resistência chega ao coração do sistema. O amplo empobrecimento, os seguidos planos que salvam a pele dos bilionários não são digeridos pacificamente pelos trabalhadores e os estudantes.

As famosas manifestações da “Primavera Árabe”, que teve seu auge no Egito, foram para a Europa, mostraram ao povo que só a luta direta pode enfrentar a Crise 2.0. As ações dos governos, até hoje, foram para salvar os mais ricos, relegando aos trabalhadores, aos jovens e aos estudantes o ônus da crise. A classe trabalhadora luta e resiste em condições bastante precárias”. ( Crise 2.0 : A Resistência é possível? )

 

E logo depois, após os indignados espanhóis boicotarem as eleições espanholas, o que levou a uma ampla abstenção, entretanto deu uma esmagadora vitória para Direita espanhola, os setores ainda mais radicais do PP se aproveitaram da divisão no seio da esquerda e centro-esquerda e, mesmo sem programa, Rajoy assumiu o governo, tornando ainda pior as condições gerais dos trabalhadores e do povo espanhol, o que me levou a levantar alguns questionamentos, sobre a forma de atuação destes movimentos:

“Algumas questões incômodas que precisamos pensar sobre os indignados:

1)      A Primavera de Madrid/Barcelona se esvaziou?

2)     Ela desmascarou o governo “socialista”, mas também deu combustível para Direita?

3)     Movimento forjou qualquer plataforma ampla de alternativa de Poder, ou quem sabe de Governo?

4)     Quais os passos seguintes, se o novo governo é mais do mesmo?

5)    Apenas se indignar com os políticos pode levar a uma despolitização geral?

 

Preocupante que na Itália o desespero leva a uma aprovação de 80% ao novo Governo tecnocrata, não eleito, feito na cúpula repleto de tecnocratas ligados aos bancos. O movimento de 68 em Paris levou a um apoio maciço a De Gaule, que quase caíra, chegou a se refugiar numa base militar, meses depois foi reeleito de forma ampla.

Para mim fica claro que todos estes movimentos que questionam o poder estabelecido, mas que não se torna alternativa, nem de poder, nem de governo, acaba numa imensa frustração, alimentando assim a Direita, que com um discurso moralista, de técnicos, sem ligação com a utopia gerado naqueles movimentos, galvaniza a revolta para seus governos, fechando assim uma “vaga histórica” de período revolucionário, sem partido ou movimento que o leve até o fim. Crise 2.0: Direita, Volver!!

 

O que percebemos é que estes movimentos são fundamentais no questionamento geral e na resistência contra os planos de austeridade, na luta contra o “Novo Estado”, mas seus limites estão no vazio de propostas alternativas, no mês passado, as grandiosas manifestações em Madri, se espalharam pela Europa, levantando os trabalhadores da França, Portugal, Grécia e Alemanha, com poderosas marchas e enfrentamentos. Em Portugal se avizinha uma greve geral, na Grécia, menos de três meses do novo governo já houve uma greve geral.

 

A tônica do #25S e #29S, os indignados
espanhóis, foi bem captado pelo El País que assim narrou “Os Parlamentares, dentro do prédio do Congresso,  ouviram encolhidos o humor e os gritos vindo para eles vindos da rua. A barreira policial, as cercas, os tanques e oficiais a pé, com cães e a cavalo, não poderiam evitar o que o som e as imagens das ruas. A começar pela simplicidade de “ladrões”, ao coro de “lá é a caverna de Ali Baba”. Os cartazes  feitos à mão de centenas de manifestantes acenando a mais forte frase:  “Que se vão todos eles.” E outros, um sinal pequeno, com um “NÃO”, apenas um “não” na direção do Congresso dos Deputados.”

 

O teor da negação é o mesmo do ano passado, o que nos leva a pensar que, por enquanto, há apenas disposição de resistir, sem no entanto, se apresentar como alternativa de poder, o que torna perigoso, uma negação generalizada aos partidos e a política, abrindo mais espaço para despolitização e boicote, o que acaba favorecendo à Direita. O caminho do Syriza, o pequeno partido de esquerda grego que ousou enfrentar as forças políticas tradicionais e disputou firmemente as eleições com um amplo crescimento, se tornando alternativa clara aos governos da Troika, Recentemente, o Syriza, dirigiu a poderosa greve geral, que parou o país, nos parece, que este é rumo certo para o povo e para os trabalhadores, que pagam a dura conta da Crise.

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Uma resposta em “Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados

  1. O Syriza deu exemplo de luta e caminho, mas perdeu. Quem sabe na próxima? Por que os indignados não se filiam em peso a algum partido e partem para uma grande campanha de participação ativa na política? Não entendo esses caras. Portanto, não dou minha atenção a eles. Indignado sem proposta de poder é acessório da direita.

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