Crise 2.0: UE – De Cúpula em Cúpula

 

 

Rajoy e Merkel - Nem a Direita se entende mais - Foto: EFE

Mais uma reunião de cúpula da UE em Bruxelas e muitas expectativas sobre as velhas questões que se avolumam, é  a quarta reunião desde 2011, quando Grécia e Espanha entraram em espiral de queda. Por uma coincidência esta série sobre a crise, ganhou força justamente com os artigos sobre a reunião de Setembro do ano passado, aquela que Merkel e Sarkhozy demitiram Papandreou, o primeiro ministro grego e impuseram um capacho ligado ao Goldman Sachs, Papademos. Dali, o Crise 2.0, cresceu e vem acompanhando com mais interesses estes encontros.

 

Li vários jornais europeus sobre a reunião e, mais uma vez o El País, consegue colocar a questão no seu devido lugar, a matéria ” Cinco Chaves para reunião”, é um primor, desde o título até as matérias internas, com propriedade diz que o Resgate da Espanha é o centro do debate sendo ele uma e principal chave do Encontro de líderes. Vejamos o que dizem: “A UE, com seu exército de 15 mil eurocratas e lobistas que pululam em torno das instituições, deixou definitivamente ser chato em 9 de maio de 2010 e, em seguida, tornou-se o alvo dessa maldição chinesa: “Que você viva em tempos interessantes” . Naquele dia (e da noite) começou a primeiro das 25 de cúpula para salvar a zona do euro a partir de uma crise que começou como uma pedra no sapato-Grécia, 2,5% do PIB da zona euro, e foi ampliado para engolir a Irlanda , Portugal e Espanha, que já foram resgatados e pôr em perigo a zona do euro. O  XXVI Episódio XXVI desta  corrida para salvar o euro vem em meio a um oásis (ou uma miragem, vamos ver): os mercados estão calmos, por uma vez parece não querer mais problemas, e na reunião de Chefes de Estado e de Governo impor um impasse , um olhar longe esperando por você nas próximas semanas para esclarecer o futuro imediato da Grécia e do segundo resgate da Espanha, os dois grandes elefantes na sala, todo ver o mundo, mas ninguém quer falar”.

 

Didaticamente o jornal divide em 5 pontos as questões : 1 )  Espanha – Esperando Rajoy – os analistas acham que o segundo resgate será pedido ainda outubro, mas Rajoy tenta despistar, é o jogo de quem vai piscar primeiro: Troika ou Espanha;  2) Grécia – O rapto da Europa, a sorte da Grécia seria definida depois de mais um acordo coma Troika, dando mais uns anos para que ela se adapte às regras do déficit fiscal da UE; 3) A União Bancária – questão já discutida em Junho, mas sem um cronograma, lembro que Setembro de 2011 aprovaram a União Fiscal, que até agora não deu em nada; 4) O longo prazo, as relações internas da UE, com a mudança de liderança e o crescente isolamento da Alemanha, os riscos de uma ruptura no seio da burocracia; 5)  Paris x Berlim – decorre da questão anterior, com a chegada de Hollande houve um novo equilíbrio, mas Berlim passará por eleições no próximo ano, o que pode mudar mais uma vez.

 

A conclusão é melancólica do El País: “Na reunião de Junho, com a máxima tensão nos mercados parecia optar por uma conjugação de esforços e mutualização dos prejuízos. Mas depois ele voltou atrás, e na reunião de hoje tende a deixar as coisas como elas estão, com alterações mínimas além de deixar o BCE entra em cena. E a Espanha -Sempre a Espanha- tem que se desculpar e pedir o resgate, é claro”.

Greve Geral na Grécia contra Planos da Troika - Foto: El País

Parece claro que a questão da Espanha é que vai prevalecer, o FMI comunicou ontem que estava oferecendo ajuda para um resgate da Espanha e Itália, como forma de facilitar as negociações, o que enfureceu Monti. A lógica é explícita, depois da “queda” espanhola, a Itália entra em foco, o FMI apenas se anteciparia, mas ainda tem que vencer a resistência espanhola em pedir o resgate, pois Rajoy sabe o seu significado, o governo local passa a ser mera figura decorativa, a soberania acaba de vez, todo poder passar às mãos da Troika, assim como acontece em Portugal, Irlanda e Grécia.

 

O ambiente externo à cúpula é de tensão, na Espanha a greve de três dias, dos estudantes secundarista, hoje recebe a adesão dos pais aos protestos. Na terça próxima, 23 de Outubro, o #25S , convocou mais uma vez o cerco ao parlamento, pois entrará em votação o orçamento 2013, com mais cortes e ajustes indicados pela Troika no seu Plano de Austeridade. Na Grécia, também hoje, começa uma nova Greve Geral, a segunda contra o governo eleito em junho, em menos de mês. Ontem uma grande manifestação de Advogados e Médicos, em Atenas foi duramente reprimida.

 

E pensar que a bem pouco tempo diziam que a Luta de Classes tinha acabado…Sigamos!!!

Bourne e o Novo Estado

 

Jason Bourne e o Novo Estado

Estes dias serão inteiros de expectativas sobre as eleições, principalmente aqui em São Paulo, berço da polarização política do Brasil dos últimos 18 anos. Quase impossível escapar ileso sem entrar no tema, por mais que nos afastemos dele, sem participar ativamente da campanha. Declarei, desde antes, meu voto no candidato do PT, o Ex-Ministro da Educação do Governo Lula e de Dilma, com a certeza de que São Paulo precisa de uma grande mudança depois de 8 anos de Serra/Kassab. Fiquemos por aqui.

 

Devido a série sobre a Crise, que denomino de Crise 2.0, tenho dedicado meu pouco tempo a ler e estudar, principalmente economia e política internacional, para produzir os textos do tema. A tarefa é árdua, há uma mundança de paradigma no Estado, que é a parte mais visível do sistema. Para chegar a determinadas formulações tem sido no cinema, que tenho aprendido as melhores lições de mutação do Estado, a aparente ficção embute um novo conceito de Estado. Como escrevi recentemente um apanhado mais completo expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado.

 

Estes dias revi os filmes da série Bourne ( Identidade, Supremacia e Ultimato), pois recentemente vi no cinema o excelente filme paralelo à trama de Bourne, que resenhei no post  O Legado Bourne, Estado Repressão , lá fiz uma observação final, que dizia assim: A relação “política” do filme não é nada sutil, o que em parte é muito positiva, pois desnuda o Estado, o modelo atual, que os ideólogos teimam em tornar permanente, mas os conflitos humanos, sociais batem de frente, pode ser, apenas, em mais um agente fora do controle ou na teimosia de não se submeter aos seus controles.

 

Agora revendo os originais do Bourne, me dei conta de como, filme a filme, a trama vai se moldando à realidade dos EUA, uma entrevista do diretor do filme, Doug Liman,  no DVD de Identidade Bourne, ele diz que o filme estava pronto em agosto de 2001, que estavam preparando a fase de teste de aceitação do filme, que consiste em chamar grupos para opinar sobre cenas e efeitos, nele tinha algumas cenas com explosões de prédios, quando aconteceu o 11 de Setembro eles tiveram que refilmar algumas destas cenas. O que se percebe é uma atenuação inicial do filme 1, para os demais.

 

As sequências já demonstram características bem mais clara do Novo Estado, o controle geral das comunicações mundiais, em que uma palavra chave, aciona a várias agências de “defesa” dos EUA, o que para muitos parece mera ficção, infelizmente não é. O roteiro do primeiro e do segundo filme é muito voltado para repressão interna, tendo pano de fundo um projeto secreto de super agentes da CIA, que acaba dando errado por um erro elementar, Bourne falha na sua missão, fica descontrolado quando perde a memória(até isto fazia parte do programa). O que se percebe é que o foco são relações internas da agência, as vítimas são do “sistema”.

 

No terceiro filme, as mãos livres, do Estado Gotham City, faz com que a ação(mortes) não se restrinja aos membros descontrolados das agências, mas qualquer um que possa representar riscos a ela, como o caso do jornalista do The Gardian, há uma mudança de qualidade, neste aspecto, no modelo de Estado, de como ele passa a agir, os programas secretos estão fora de controle de qualquer ente público eleito, a burocracia interna e perene, do modelo de agências, passa a não mais prestar contas, a não ser a ideologia, repressiva, que domina o novo Estado.

 

Os três filmes não estão sob a influência da grande Crise que atinge o coração do sistema, que afeta não apenas a Economia, mas aprofunda o modelo de Estado, no filme Legado Bourne, se percebe que a Burocracia continua agir por si, mas enfrenta restrições orçamentárias, parece, querer apagar os erros mais grosseiros, se possível culpar alguém. Aguardo ansiosamente o Novo Bourne, pois a roupagem já vem com os efeitos pós-crise, o que nos ajudará a entender como ela se processa, com os cortes nos orçamentos amplos de defesa, menos no orçamento de inteligência e de repressão.

 

A conferir!

 

The Bourne Ultimatum – Soundtrack

 

Crise 2.0: UE – Fim da Classe Média?

 

 

A desigualdade cresce na Europa - foto STEVEN GOVERNO / GLOBAL IMAGENS

 

O esforço intelectual para escrever sobre a crise é imenso e, muitas vezes, penso ser maior do que minha capacidade de elaboração. Nos mais de 250 artigos aqui,na série sobre a Crise 2.0, busquei trabalhar algumas ideias e trazer aos que me leem um panorama mais amplo possível sobre os rumos da economia mundial. De certo que nem sempre consegui atingir o objetivo, mas tenho tentado. O que mais procuro é aproximar a analise da realidade concreta, mas, com certeza, viver longe da Europa, por exemplo, pode dificultar uma compreensão mais acurada do que se passa.

 

Procuro trabalhar com diversas fontes, as mais antagônicas e usar minha experiência para filtrar os exageros e no final opinar de forma mais precisa sobre os fenômenos analisados. Outro dia, conversando com um amigo sobre a questão da crise ele veio dizer que o Crise 2.0 estava exagerando, que a situação da Espanha não era tudo aquilo que vinha escrevendo, pois ele tinha amigos que lá moravam, não era tudo isto. Ouvi, como sempre faço, mas, por coincidência ao chegar em casa leio um email de um amigo que dizia o oposto, que a Espanha estava muito pior. Concluí, o caminho que trilhei está mais próximo da realidade, pois os extremos opostos não estão satisfeitos.

 

Hoje, o El País, o grande diário espanhol, traz um rico debate sobre o futuro da Europa, são entrevistas, artigos e matérias, com lideranças da Europa e do resto do mundo, um amplo painel de ideias, que deveria ser lido por todos os amigos que acompanham esta série. Há uma longa entrevista com François Hollande, Presidente da França, que chega a ser melancólica, em poucos meses de governo já se depara com índices altos de desaprovação, além de se ver preso à armadilha da Troika, a austeridade, política central imposta pela Alemanha de forma irresistível à toda UE.

 

Uma das matérias sobre o futuro da Europa traz a realidade cinco famílias de classe média na Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Itália, os países mais ricos da Europa, demonstrando o declínio do famoso padrão de vida europeu, que, segundo a matéria era sustentando pelo Estado Bem-Estar Social, com suas bases saídas da segunda guerra e moldado pelo Plano Marshall, que serviu de contraponto ao leste europeu. Com a queda da ex-URSS, muitos dos valores e funções deste modelo começaram a ser questionados, mas apenas com o advento da grande crise, efetivamente, será quebrado.

 

Segundo,os professores  Sara Baliña e José A. Herce, da Escuela de Finanzas Aplicadas AFI, afirmam que “quando a crise entrar em sua reta final, serão pouquíssimos os países que poderão exibir ou que terão mantido os padrões de vida que sua população tinha antes de 2008″. “É inquestionável que a combinação de alguns anos, os próximos, de crescimento econômico reduzido e desemprego elevado vai provocar uma alteração estrutural das pautas de comportamento e gastos das famílias”, escrevem os professores”. (A erosão da classe média – El País, via Estadão, 17/10/2012)

 

O relato das famílias é particularmente comovente, o caso de Luis e Hortensia, casal espanhol de 57 e 48 ano de idade, ambos desempregados, que veem seu padrão de vida minguar mês a mês com a poupança sendo gasta, vivem da aposentadoria proporcional de Luis, de cerca de 1400 Euros, que são divididos em 600 Euros para pagar a hipoteca do apartamento, 300 Euros para pagar empréstimos . Lhes sobram 500 Euros, que são administrados com cuidado, acabam de cortar Tv a cabo/Internet e telefone que consumia 90 Euros. Nas palavras de Luis: Eu trabalhava e morava com alguma confiança, mas tudo mudou”, diz ele. “Emocionalmente, você se sente muito mal. Ainda tenho um pouco de suco para dar, não acho que é só o que me aconteceu. Em 57 anos, eu não tenho nenhuma opção para encontrar trabalho” (El País , 17/10/2012).

 

Mesmo, a prospera Alemanha, sofre com a desigualdade, que embora não esteja enfrentando os problemas sociais mais terríveis de Espanha, Grécia ou Portugal, o clima já não é de otimismo, pois os dados apontam para uma realidade complexa, o aumento do fosso entre os super Ricos e os pobres, segundo o El País, “ A cada ano, o Federal Statistical Institute estabelece quantas pessoas estão em risco de cair na pobreza, isto é, quantas pessoas têm menos dinheiro do que a média da sociedade. Apesar do crescimento econômico, o número aumentou ligeiramente em 2011. 15,1% da população está enfrentando o problema da pobreza. Segundo a definição de peritos em estatística, no caso, uma família com uma pessoa, este problema começa a partir de uma receita líquida de menos de 848 € por mês. Na Alemanha, um em cada sete crianças com menos de 15 anos que vivem de ajuda social. Na ex-RDA, é de um em quatro, na capital, Berlim, um em cada três.

Na Alemanha, a pobreza e a riqueza são herdadas; concordam tanto os economistas e especialistas em educação. Portanto, o pesquisador de mercado de trabalho mais conhecido no país, Joachim Möller, lança a seguinte advertência: “Quando a frustração dos pobres torna-se o álcool, letargia e crime, toda a sociedade sofre. Isso é algo que vemos na América. ” Mas “milagre trabalho” do país parece estar ainda longe de atingir uma situação” (El País 17/10/2012).

 

Em nossos trabalhos, em particular sobre o  novo Estado, Estado Gotham City, já enfrentamos esta questão sobre o fim do Estado de Bem-Estar Social, seu desmonte e as consequência do empobrecimento, este estudo em quatro artigos:

1) Definição geral do que é o Novo Estado, expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado e mais seis pequenos ensaios que dão sustentação a tese;

2) Desta definição passei a analisar os atores em luta, primeiro o comportamento do grande capital, em especial o capital financeiro, a fração burguesa que domina as ações do Capital, aqui escrito no artigo – Crise 2.0: Novo Estado e o Capital;

3) O segundo vetor são os novos movimentos de resistência ao Novo Estado, que surgiu durante a crise, movimento, na maioria das vezes de negação geral, sem apontar saída, vistos aqui – Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados;

4)  E o terceiro vetor é sobre  Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS que tratamos das alternativas ao eixo central do capital (EUA, UE e Japão), surgida por iniciativa do Brasil, os BRICS, que se consolidou na atuação conjunta pós 2007;

 

A realidade começa a se tornar nua e crua aos antigos estados de bem-estar social, em poucos anos serão sombra do que foram, se nada for feito, é só questão de tempo.

Educação Começa em Casa

 

Pedro e Fátima: método simples e eficaz de educar - Liberdade e responsabilidade individual

Ontem, no dia dos professores, lembrei-me de uma longa tradição familiar na Educação ( À Dona Tereza, Minha Mestra ), que passa de geração em geração, numa sequência de minha avô(segunda esposa de meu avô), passando por minha mãe, irmãs, esposa e agora minha sobrinha. Parece um carma, uma missão, que, espero, também abraçarei, penso que ao me aposentar das coisas que faço hoje, vou dar aulas, uma coisa que sempre gostei, nem que seja em trabalho voluntário, nada muito formal.

 

Por conta deste post, relembrei alguns fatos da infância, de como fomos criados em casa. Somos cinco irmãos, um sexto morreu com 1 ano de idade. Minha mãe desde que se casou com meu pai, em 1963, trabalhava uma coisa não muito comum para época, mais ainda numa pequena cidade do interior do Ceará, aliás, meu pai era “mau” visto por “deixar” que ela trabalhasse. Lembro que quando minha mãe foi fazer curso superior, nos fins de semana, numa cidade maior, Sobral, meu pai ouviu mais bobagens, mas ele sempre dizia: Se vocês não confiam em suas mulheres, é problema de vocês.

 

Desta casa, que pai e mãe trabalhavam fora, vivíamos com nossas próprias responsabilidades, no começo dos anos 70, sem TV a perturbar, tínhamos nossas obrigações, a maior dela: Estudar. Desde cedo meu pai dizia que até o fim do ensino médio era responsabilidade dele nos manter, se fôssemos além aos estudos ele também assumiria, mas se não quiséssemos estudar, tinha que trabalhar. A regra era clara e simples. O que era muito bom, cada um tinha que assumir seus estudos, seus erros e acertos. Não me lembro da mamãe nos inquirindo sobre provas ou notas escolares, menos ainda sobre lições de casa, parecia que estava tudo dentro daquele “contrato”.

 

No geral, todos foram bem, sem que nossos pais tivessem preocupações maiores, nossas opções de vida, sempre esteve vinculada à aquela regra elementar: Estudar, estudar, se parar, trabalhar. Foram ensinamentos simples e exatos, sem traumas ou dramas de consciência, sem precisar consultar analistas ou psicólogos, a crueza ou a simplicidade prática dos meus pais, não deu espaço para revolta na época, nem depois. O que acabou sendo muito para todos nós, cada um deu suas cabeçadas, mas, aprendemos e relembramos do princípio fundamental.

 

Nossa geração, nascemos numa escadinha 64/65/67(Joaquim Arnobio que faleceu)/68/69 e 1972, viveu aqueles anos militares sem entender bem o que se passava no mundo, nos anos 80 morando em Fortaleza, mudamos bastante nossas visões da vida. O contato com a realidade de uma cidade grande com as dificuldades, a luta por melhores condições de vida, emprego foi mudando um a um. A consciência social e de justiça ganhou corpo em cada um de nós, politicamente nos achando.

 

Daquele núcleo de vida espontânea, de responsabilidades individuais, a noção elementar que recebemos, mudou muito, é certo que em casa, com nossas famílias formadas, carregamos os ensinamentos, mas já com outras preocupações, de buscar saber o dia a dia na escola de nossos filhos, de acompanhar as notas e desempenho. Muitas vezes tenho a sensação que neste aspecto, mudamos para pior, passamos a tutelar demais a vida de nossas crianças, mas, entendo, que o mundo mudou demais.

 

As questões que ficam é se haveria espaço, hoje, para uma criação tão “liberal”? Ou os valores de classe média, cheia de culpas, nos feitos paranoicos? Fomos tão felizes naquela época, sem as pressões ou cobranças, alimentamos tantas expectativas de riqueza, realização profissional de nossos filhos que os estressamos mais do necessário. Isto tudo vale a pena? Estamos fazendo bem para eles?

Crise 2.0: Educação na UE – Geração Perdida

 

O Fracasso da Educação na UE - EMILIO MORENATTI (EFE)

As grandes crises desarrumam não apenas a economia dos países, mas, principalmente a vida das pessoas, em curto espaço de tempo, sistemas montados por décadas caem de forma irresistível em um ou dois anos de uma crise violenta como esta. Hoje a UNESCO divulga seus dados sobre Educação e a conclusão é alarmante, em particular na Europa, mais especificamente nos países mais atingidos pela crise, um grande retrocesso se deu em curto período, o que tende a piorar futuramente com os planos de Austeridade que se voltam contra Educação e Saúde.

 

Os dados espanhóis, tratados no El País, hoje, é o retrato mais fiel das opções econômicas e políticas, 1 em cada 3 jovens (15 a 24 anos) abandonou a escola sem completar o ensino médio, a media da UE é 1 em cada 5. O que, segundo o jornal, levou “os  responsáveis ​​pelo relatório, a classificar como “preocupantes” o número de abandono escola na Espanha, dado que é um país “duramente golpeado” pela crise e onde o desemprego juvenil superior a 50% em março deste ano . A falta de qualificação profissional dos jovens europeus, os  leva a desperdiçar o seu potencial, os faz perder as oportunidades de emprego e os impede de ajudar seu país de volta à prosperidade”, diz o estudo, que afirma que, em tempos de crise, a  Educação é a ferramenta é “mais essencial do que nunca.”

 

A maior prova de que a Educação é fundamental neste momento  de crise é que entre 2007 e 2009 as taxas de desemprego entre os jovens dispararam, mais ainda entre os que abandonaram os estudos prematuramente. Diz ainda o relatório, reproduzido pelo El País: “pelo menos um quarto da juventude espanhola, que deixou os estudos no final do primeiro ciclo do ensino secundário e um quinto dos que saíram depois escola continuam a procurar emprego. ” O alerta  final é que “A criação de empregos por si só não vai nos ajudar a sair da crise”, diz o relatório, porque “a Europa deve formar jovens com competências adequadas, a experiência prévia e capacidade de adaptação a novas tecnologias.”

 

Apenas em 2012 o orçamento para Educação na Espanha sofreu um corte de mais de 10 bilhões de Euros, com corte de 50 mil trabalhadores em educação ligados ao Governo Central e com mais 50 mil nas províncias, um quadro que tende a agravar-se nos próximos anos. Com baixa educação, não há como pensar num país que consiga competir com os demais parceiros, a sua produtividade é sempre mais baixa, sendo relegada à funções secundárias na cadeia produtiva, o que torna a recuperação ainda mais difícil.

 

Hoje, na Espanha, começa uma jornada de greve estudantil secundarista de três dias, justamente contra os cortes promovidos pelo governo central, da extrema-direita, liderado por Rajoy. A greve convocada pelo estudantes foi amplamente apoiada pela associação dos pais, o que levou a 70% de adesão, principalmente em Madri e nas grandes cidades. O Ministro da Educação, condenou a greve, chamando os grevistas de “Esquerdistas Radicais” e que a greve atinge apenas 20% dos estudantes. A reação no parlamento foi clara, condenando o ministro, que a cada vez que fala se torna “ainda mais incapacitado ao cargo”.

 

Numa reportagem da BBC sobre os jovens na Europa, eles denominam como “geração perdida” ou “desperdiçada”, assim iniciada: “Por causa da crise econômica e das medidas de austeridade adotadas por alguns governos de países ricos, um número crescente de jovens profissionais qualificados, na faixa dos 20 a 30 anos, estão desempregados. Frustrados, após terem se esforçado tanto para conseguir um diploma, eles vivem de bicos, da ajuda da família ou pensam em emigrar. A BBC Brasil ouviu a história de alguns desses jovens que fazem parte do que a imprensa e economistas de seus países vêm chamando de “geração perdida” ou “geração desperdiçada”

 

O panorama é francamente desolador, vale a pena ler os relatos que a BBC colheu em várias cidades europeias, problema muito comum a todos eles:  “Jovens com nível universitário trabalham com faxina e entrega de pizza“.

À Dona Tereza, Minha Mestra

 

 

Em minha casa por coincidência da vida as mulheres viraram professoras. Começou com minha mãe, que desde muito jovem foi ser professora e era diretora de escola estadual, por longos anos, de 1963 até 1995, como cinco filhos, nos anos 70 voltou aos estudos e graduou-se em Letras e Pedagogia. Sempre foi nosso exemplo de dedicação e amor à Educação pública. D. Fátima era/é uma defensora intransigente da escola pública, dos seus alunos, da necessidade de se dedicar ao ensino, com amor e carinho.

 

Minhas irmãs, Hermínia, a mais velha e Luciete a mais jovem, trilharam o caminho da nossa mãe, fizeram Letras e Pedagogia, ambas trabalham em escolas públicas estaduais e municipais, com o mesmo afinco, seguem o exemplo de Dona Fátima. Luciete é diretora de escola infantil, com prêmios por alfabetizar crianças antes do ciclo básico. A irmã do meio, Benedita, fez Engenharia Elétrica, mas acabou passando num concurso para dar aulas na antiga Escola Técnica Federal, hoje Instituto Federal de Educação Superior(IFCE), fez mestrado ainda em Engenharia e, recentemente, terminou doutorado em Geografia. Por fim, Mara, minha esposa, dentista, também é professora, fez especialização e agora Mestrado, dá aulas em especializações de Odonto. Minha cunhada, Jaqueline Nobre, também é professora e diretora de escola municipal. Parece sina da família, um dia quem sabe não assuma uma sala de aula?

 

Dia do Professor em nossa família é uma festa, muita gente ensinando e principalmente aprendendo, ou seja, é um dia especial, mas minha homenagem, é para minha avó “torta”, a madrasta do meu pai, que foi minha professora, na quinta série do primeiro grau. A Dona Tereza era uma excelente e rígida professora de português, no começo tinha um certo medo, por ser quase minha avó, não podia decepcioná-la, muito menos achar que teria moleza. Era momento decisivo nos meus 10 anos de idade, precisava mostrar serviço. Foi um grande aprendizado, sem que ela jamais confundisse os sentimentos.

 

Muitos anos depois, reencontrei-a, agora em julho, ela com 80 anos, quase sem enxergar direito, a abracei e pude agradecer aquelas lições. Emocionada me elogiou, com palavras carinhosas, de como me dedicara, que tinha sido um aluno exemplar. Pode parecer estranho e, é, pois não a chamava de vó, apenas de de Dona Tereza, o que talvez tenha facilitado a relação na sala de aula. Como morávamos em cidade pequena, todos sabiam da relação de parentesco, mas ela tinha fama de dura e exigente, meu irmão mais velho penou mais com ela.

 

À minha querida professora, quase avó, meus sinceros agradecimentos neste dia tão cheio de significados.

Crise 2.0: Beco sem Saída?

 

 

Protesto na Grécia - Pelado, nu com a mão no Bolso - Foto: AP

Semana passada os ministros de Economia de todo o mundo se reuniram em Tóquio para debater as perspectivas do mundo em crise, não com olho no caos presente, mas o que nos reserva nos próximos anos. A Reunião conjunta do FMI e Banco Mundial foi precedida de um documento do FMI analisando as economias e realinhando as suas estimativas de 2012 e 2013. Aqui, na série sobre a Crise 2.0, repercutimos este estudo, em particular na questão sobre o Brasil, no post Crise 2.0: Avanços e Limites do Brasil, segundo FMI.

 

Agora, findada a reunião, vamos tentar olhar a questão mais geral, seguiremos os dados gerais do FMI e seu ajuste para baixo do crescimento dos dois anos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ora, os números são inequívocos de que, no começo de 2012, o FMI projetou uma realidade de crescimento e de saída da crise, que não se cumpriu, ao contrário, na maioria dos casos, piorou. As principais economia mundiais, os EUA e a UE estão em posições delicadas, no caso dos EUA, o baixo crescimento não garantiu um ciclo virtuoso, que projete uma janaela de crescimento mais amplo, o desemprego continua muito alto assim como os salários tiveram baixa recuperação.

 

A UE sofre várias crises simultâneas, as maiores e significativas são as da Espanha e Itália. Ambas terão mais dois anos duríssimos, mesmo com os cavalares ajustes fiscais, a situação apenas se tornou mais dramática, com o desemprego crescente, fuga de cérebro e desagregação social. Até mesmo França e Alemanha começa a sentir o peso da crise do sul, as projeções são de crescimento baixo, no caso alemão, e de próximo de Zero, no caso francês. As baixas perspectivas lançam uma onda de pessimismo geral, como bem observa Celso Ming, na coluna do 08 de Outubro:

“As novas projeções sobre o desempenho da economia global do Fundo Monetário Internacional (FMI) são bem mais pessimistas. Em vez de ceder, a crise tende a se aprofundar, sem sinais de reversão. Não se vê disposição política entre os dirigentes do mundo para resolver o principal problema: o excessivo endividamento dos países avançados – principalmente dos Estados Unidos e de praticamente toda a área do euro”.

 

As políticas econômicas, hoje, são determinadas pelos BC( FED, BCE e BoJ), que jogam juros ao limite da irresponsabilidade, agindo por conta própria, pela absoluta falta de líderes políticos com capacidade e disposição de pensar à frente, apontando para um novo acerto mundial, isto parece fora de questão, Ming observa que, exceto Brasil e BC Alemão não há críticas à política de emissão de moedas e juros:

“O FMI está entre as instituições globais que cobrem de elogios essa atitude até agora inusitada dos bancos centrais, como esforço consistente capaz de estancar o colapso econômico mundial.

Por motivos diferentes, as ortodoxas autoridades do Banco Central da Alemanha (Bundesbank) e as bem menos ortodoxas do governo brasileiro são as únicas que condenam sistematicamente essas políticas. Os alemães denunciam a disposição do BCE de agir como emprestador de última instância aos tesouros dos países da área do euro como fonte de problemas presentes (encorajamento a mais despesas irresponsáveis por parte dos governos) e futuros (sobretudo mais inflação).

Enquanto isso, a presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, denunciam essa política monetária expansionista como causadora de distúrbios cambiais. Tanto para a presidente como para o ministro, além de não tirar a economia mundial da encalacrada, esse jogo dos bancos centrais gera efeitos colaterais perversos”.

 

Parece-nos, mais uma vez que a crise perdurará por mais tempo no horizonte, alguns economistas falam que apenas em 2018 todos os ajustes teriam seus efeitos desejados e um novo ciclo se abriria, ou seja 14 anos de cris( 2005 a 2018).  Num último esforço, Celso Ming faz uma provocação, sobre as soluções parciais dos BCs:

“Outro jeito de analisar o mesmo fenômeno é ponderar que, embora não tenha removido o impasse central, a atuação dos grandes bancos centrais impediu um mergulho no imponderável. Também pode-se dizer que, em compensação, vem amortecendo o ajuste, agora sem prazo visível para se completar. Esse é o tipo do sempre adiado desfecho que o Fausto de Goethe condena quando adverte: “Melhor um fim com terror do que um terror sem fim”.

Com base nesse princípio, alguém ainda perguntará se um fim mais rápido da crise, ainda que mais doloroso, não seria melhor do que esse arrastar sem fim, mesmo que aparentemente menos dolorido. Nesse caso, a política dos grandes bancos centrais terá contribuído para o adiamento de uma solução”.

 

Ou seja, até um arguto analista burguês, percebe o tamanho da piaba, imaginem vocês do lado dos trabalhadores, o tamanho do rombo em suas vidas. É preciso lutar e mudar URGENTE!