Mercadões e seus Sabores

 

 

Grande Bazar - Istambul

 

Uma coisa que me atrai em cidades grandes são os mercadões, apenas de ver as cores e as coisas vendidas ali, penso nos séculos passados e suas histórias ali passados, os encontros e desencontros da vida. Os rústicos quiosques de venda, ou os produtos ali do lado de fora, com o entrar e sair de compradores e curiosos. Os cheiros das frutas ou condimentos, das comidas vendidas dão o toque a mais. Aquela mistura de gentes, de lugares tão distintos ali, se confraternizando e vivendo as diferenças.

 

Ontem estava vendo um filme, cujo cenário era Istambul, a linda cidade que une Ocidente e Oriente, o Istmo, que de tantas histórias fez dela uma das mais importantes do mundo, mas o que mais curti foi ver o seu imenso mercadão. Recente, dois amigos, de lugares e experiências diferentes, estiveram em Istambul e me contaram exatamente a mesma impressão que tiveram daquele lugar imenso, colorido e misterioso. Ouvi de um de outro, me deu uma vontade de ir conhecer a cidade e seu mercadão. No filme, várias vezes vi as imagens dos produtos, das pessoas ali misturadas, confesso que me senti lá, sem nunca ter ido.

 

 

Ver-o-Peso e suas muitas especiárias

Minha primeira experiência com mercadão foi em Belém, no Ver-o-Peso, tinha quase 9 anos, meu pai me levou na viagem durante as férias de julho de 1978. Ao chegar em Belém fiquei na casa de tios de minha mãe, pois parte da família de meu avô tinha migrado para o Pará na década de 40 e 50, um foi levando o outro e ali se estabeleceram, e parte deles virou comerciante no já famoso Ver-o-Peso, o maior entreposto da Amazônia. Fiquei maravilhado, as frutas, ervas, plantas medicinais, especiárias, aquele colorido, nos olhos de um menino cheio de vontade de conhecer o mundo, foi uma experiência inesquecível.

 

 

O novo Mercado Central de Fortaleza e seu artesanato

 

Algum tempo depois, conheci o mercadão  de Fortaleza, quando me mudei para lá. Tinha uma tia que trabalhava nos correios e morava na Costa Barros e costumava passar no antigo mercado central, ainda em frente da catedral, agora fica ao lado. Era uma aventura passar por dentro, sinto o cheiro de batida e rapadura, como se estive andando por lá agora, são memórias de 30 anos atrás que se reavivam, quando penso em mercadão. Era, como todos mercadão, confuso, sons altos, negociações de preços, pechinchar era a ordem, lá se vendia de tudo, Fortaleza ainda não era cheia de turistas como hoje. Mas lá se via gente de várias lugares do Brasil e do mundo, o que me levou a uma conclusão: O lugar mais simples da cidade, é o mais universal.

 

 

Mercado Central de SP e as muitas frutas

Depois conheci vários mercadões, como o de São Paulo, antes de ser reestilizado, ainda mais cru, o vai e vem, as fruta que nunca tinha conhecido ali vendidos, o peixe vindo da Ceasa, aquelas ruelas de sotaques estranhos para mim, algo parecido com português, denunciando as origens distintas, dos donos de barracas, descendentes de estrangeiros, mesmo vivendo no Brasil e de mais de uma geração mantinham palavras e costumes de seus pais e avós. Depois virou point turístico, o famoso sanduíche de mortadela, os pasteis, mais parecido com cenário de novela, mas ainda vale a pena ir, quem não conhece o local.

 

 

Mercadão de BH e seus muitos Queijos

Outros mercados que fui conhecendo nas minhas viagens pelo Brasil e fora dele, o de Belo Horizonte é um exemplo de local maravilhoso de visitar, comer mexidão, provar queijos e doces, andar pelas galerias à toa. Trabalhei em BH algumas vezes, sempre que podia, ia ao mercadão, o prazer de andar por lá, comprar, provar os produtos, ouvir os sotaques locais, parar e ouvir as histórias, os folclores da cidade, da política, quase me sentia no interior, de tanta amizade e proximidade das pessoas, uma praça pública de alegria e sorrisos, no meio da confusão de gentes.

 

 

Mercadão de Santiago seus restaurantes

No Chile, em Santiago, fui também ao Mercadão local, me senti em “casa” com aqueles produtos, as variedades de coisas, os restaurantes convidativos, os sons, tudo parecia tão próximo de mim. Naquele povo que vendia, que gosta de conversar, nada lembra loja, ou shopping, em mercadão o que vale é o papo, mesmo em língua diferente, as pessoas se comunicam, se apresentam, não vendem uma marca, mas sim o amor que colocam nos seus produtos, pode ser o mais simples ou o mais sofisticado, além de ser primordial negociar, lhe fazer desconto, para que se saía feliz.

 

Tenho certeza que você também teu o seu Mercadão favorito, que tal nos contar?

Bourne e o Novo Estado

 

Jason Bourne e o Novo Estado

Estes dias serão inteiros de expectativas sobre as eleições, principalmente aqui em São Paulo, berço da polarização política do Brasil dos últimos 18 anos. Quase impossível escapar ileso sem entrar no tema, por mais que nos afastemos dele, sem participar ativamente da campanha. Declarei, desde antes, meu voto no candidato do PT, o Ex-Ministro da Educação do Governo Lula e de Dilma, com a certeza de que São Paulo precisa de uma grande mudança depois de 8 anos de Serra/Kassab. Fiquemos por aqui.

 

Devido a série sobre a Crise, que denomino de Crise 2.0, tenho dedicado meu pouco tempo a ler e estudar, principalmente economia e política internacional, para produzir os textos do tema. A tarefa é árdua, há uma mundança de paradigma no Estado, que é a parte mais visível do sistema. Para chegar a determinadas formulações tem sido no cinema, que tenho aprendido as melhores lições de mutação do Estado, a aparente ficção embute um novo conceito de Estado. Como escrevi recentemente um apanhado mais completo expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado.

 

Estes dias revi os filmes da série Bourne ( Identidade, Supremacia e Ultimato), pois recentemente vi no cinema o excelente filme paralelo à trama de Bourne, que resenhei no post  O Legado Bourne, Estado Repressão , lá fiz uma observação final, que dizia assim: A relação “política” do filme não é nada sutil, o que em parte é muito positiva, pois desnuda o Estado, o modelo atual, que os ideólogos teimam em tornar permanente, mas os conflitos humanos, sociais batem de frente, pode ser, apenas, em mais um agente fora do controle ou na teimosia de não se submeter aos seus controles.

 

Agora revendo os originais do Bourne, me dei conta de como, filme a filme, a trama vai se moldando à realidade dos EUA, uma entrevista do diretor do filme, Doug Liman,  no DVD de Identidade Bourne, ele diz que o filme estava pronto em agosto de 2001, que estavam preparando a fase de teste de aceitação do filme, que consiste em chamar grupos para opinar sobre cenas e efeitos, nele tinha algumas cenas com explosões de prédios, quando aconteceu o 11 de Setembro eles tiveram que refilmar algumas destas cenas. O que se percebe é uma atenuação inicial do filme 1, para os demais.

 

As sequências já demonstram características bem mais clara do Novo Estado, o controle geral das comunicações mundiais, em que uma palavra chave, aciona a várias agências de “defesa” dos EUA, o que para muitos parece mera ficção, infelizmente não é. O roteiro do primeiro e do segundo filme é muito voltado para repressão interna, tendo pano de fundo um projeto secreto de super agentes da CIA, que acaba dando errado por um erro elementar, Bourne falha na sua missão, fica descontrolado quando perde a memória(até isto fazia parte do programa). O que se percebe é que o foco são relações internas da agência, as vítimas são do “sistema”.

 

No terceiro filme, as mãos livres, do Estado Gotham City, faz com que a ação(mortes) não se restrinja aos membros descontrolados das agências, mas qualquer um que possa representar riscos a ela, como o caso do jornalista do The Gardian, há uma mudança de qualidade, neste aspecto, no modelo de Estado, de como ele passa a agir, os programas secretos estão fora de controle de qualquer ente público eleito, a burocracia interna e perene, do modelo de agências, passa a não mais prestar contas, a não ser a ideologia, repressiva, que domina o novo Estado.

 

Os três filmes não estão sob a influência da grande Crise que atinge o coração do sistema, que afeta não apenas a Economia, mas aprofunda o modelo de Estado, no filme Legado Bourne, se percebe que a Burocracia continua agir por si, mas enfrenta restrições orçamentárias, parece, querer apagar os erros mais grosseiros, se possível culpar alguém. Aguardo ansiosamente o Novo Bourne, pois a roupagem já vem com os efeitos pós-crise, o que nos ajudará a entender como ela se processa, com os cortes nos orçamentos amplos de defesa, menos no orçamento de inteligência e de repressão.

 

A conferir!

 

The Bourne Ultimatum – Soundtrack

 

Looper: Assassinos do Futuro

 


Algumas vezes, aqui, expressei a maravilhosa sensação que é ir ao cinema, de ver um filme, nem sempre me importando quanto ao que vou efetivamente ver. Pois, há uma magia de estar naquela sala escura, que é muito difícil de explicar, que transforma os sentimentos, uma doce emoção que percorre o corpo, uma elevação, que, talvez, seja uma espécie de transe, causado pelo ambiente, como se participasse de um ritual, estando ali, tudo parece ser especial e, é. Ano, após ano, a paixão se renova, não importa a tecnologia ou conforto da sala, mas o ato já é gigantesco.

 

Na última sexta, não foi diferente, fui ao cinema, sem filme certo para assistir, acabei optando por “Looper: Assassinos do Futuro”, parte da escolha foi por Bruce Wills, um ator nem sempre valorizado, principalmente por uma série de escolhas equivocadas na carreira, no entanto, nos últimos anos, parece, que resolveu rever seus papeis e tem feito ótimos filmes como 16 Quadras, Xeque-Mate, Red. Aliás, desde O Sexto Sentido, houve um redirecionamento dos seus roteiros e de suas atuações. O tema parecia interessante,  uma mistura de futuro e com punição no presente.

 

Em rápidas palavras, o mundo, em 2044, é dominado por um grupo que parece uma máfia, que controlam cidades, até países, o complexo sistema de poder tem nos Loopers, uma guarda de  matadores de elite, que é contratada pelos líderes para eliminar os criminosos do futuro. A punição, destes criminosos, é voltar no tempo, 30 anos, e ao chegar ao presente, são exterminados, uma limpeza, tudo de forma rápida e simples, sem vestígios ou cobranças. Estes assassinos contratados, têm seus contratos terminados quando mantam a si mesmos, quando mandados do futuro.

 

Este retorno é o limite de vida, depois de “demitidos”, se sabe que se viverá por 30 anos, uma redenção só que ao contrária, uma prisão puniria por este tempo, mas a o tempo passa a ser a escravidão de cada um deles. O dinheiro acumulado no presente, será gasto com farras, drogas, mas com uma certeza, a data fatal, não haverá escapatória, o dilema é forte, não há dúvida, apenas a certeza da volta e o fim. A trama gira nas possibilidades de se quebrar este paradigma, uma trama bem elaborada, complexa e bem filmada.

 

Além de Bruce Wills, os ótimos Joseph Gordon-Levitt ( Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge) e Emily Blunt (O Diabo Veste Prada), estão no centro da trama, com direção e roteiro de Rian Johnson. Uma ótima diversão, uma visão futurista bem próxima do presente, já mostrada nos filmes Batman e na série Bourne, que parece tomar conta dos estúdios, a perda de crença no Estado, uma perspectiva sombria.

Asclépio – o Deus da Medicina

 

Estátua de Asclépio no museu do Teatro de Epidauro, Grécia

 

Ontem tratamos do Mito de Apolo, no nosso estudo publicado no post Apolo – O Exegeta Nacional, deliberadamente uma das facetas mais importantes do Deus Sol, sua relação com a medicina, cura,  a mântica. Apolo que como dissemos era médico excelente, exercia sua cura pela purificação. Mas a medicina terá, não em Apolo, sua divindade, sim em Asclépio( Esculápio para os latinos), o filho de Apolo com a mortal Corônis, desta trágica união nasce o mito, que foi herói-deus, pois era filho de mortal com um imortal.

 

Apaixonado por Corônis , Apolo a seduziu e a engravidou, mas a jovem temendo na velhice ser abandonada, pois o Deus permaneceria jovem e belo, o renega. Grávida, casa-se com Ísquis, com ódio, Apolo o mata, ao mesmo tempo pede a sua irmã gêmea, Ártemis que mate Corônis. Assim como no caso de Dionísio, que Zeus, fulmina Sêmele, mas retira o bebê antes de nascer, Apolo, faz o mesmo com e retira Asclépio do ventre materno, ela já morta. Leva-o para que o Centauro Quirão seja seu preceptor.

 

Asclépio cresce forte e aprende com Quirão as artes da cura, no Monte Pélion, onde vivia, sua fama se espalhou de que ressuscitava  os mortos. Asclépio se estabeleceu em Epidauro, local que seu pai,Apolo, Médico era cultuado. Em Epidauro, Asclépio criou uma verdadeira escola médica,  mesmo de caráter mágico, os avanços eram espantosos para época. Bem depois os descendentes do Deus, os Asclepíades, tornaram a arte da medicina em ciência, o mais famoso deles foi Hipócrates, o pai da medicina. São também filhos de Asclépio, Panacéia e Higia, a saúde.

 

Os templos de Epidauro, era consagrados ao Deus e ao Heróis, num deles,  tinha um grande labirinto, que segundo Junito de  Sousa Brandão  o  “Thólos (edifício abobadado, rotunda) de Epidauro, famoso por sua luxuriosa ornamentação e seu misterioso Labirinto. Neste, provavelmente, era “guardada” a serpente, réptil que tinha para os antigos o dom da adivinhação, por ser ctônia, e que simbolizava a vida que renasce e se renova ininterruptamente, pois, como é sabido, a serpente enrolada num bastão era o atributo do deus da medicina”.

 

No outro consagrado ao Deus, o Hieron, era onde se desenvolvia a técnica de cura de Asclépio, a Nooterapia,  a cura pela mente, A cura, primeiro era do médico, depois do paciente, se dava em limpar a mente, ter pensamento são. As curas incríveis era fruto de uma formulação mais filosófica, de profundo pensar, que se traduzia nas palavras grafadas no pórtico principal:

“Puro deve ser aquele que entra no Templo perfumado.

E pureza significa ter pensamentos sadios”

 

Esta técnica e formulação, nos explica Junito que “em épocas mais recuadas só havia cura total do corpo em Epidauro, quando primeiro se curava a mente. Em outros termos, só existia cura, quando havia metánoia, ou seja, transformação de sentimentos. Será que os Sacerdotes de Epidauro julgavam que as hamartíai (as faltas, os erros, as démesures) provocavam problemas que levavam ao “encucamento” e este agente mórbido, esta incubação “detonava” as doenças? De qualquer forma, a missão de cura em Epidauro era uma das missões, porque, basicamente, a cidade do deus-herói-Asclépio era um Centro espiritual e cultural. Dado que as causas das doenças eram principalmente mentais, o método terapêutico era essencialmente espiritual, daí a importância atribuída à nooterapia, que purifica e reforma psíquica e fisicamente o homem inteiro. Procurava-se, a todo custo, através do gnôthi s’autón (conhece-te a ti mesmo) que o homem “acordasse” para sua identidade real.

 

A genialidade grega, nos espanta até hoje, não importa o campo, como bem observa o mestre junguiano “as curas não eram efetuadas com medicamentos, mas tão-somente com o juízo e a intervenção divina, bem como com a insubstituível metánoia. Essas técnicas, os Sacerdotes de Asclépio, muito mais pensadores profundos que médicos, as conheciam muito bem, porque haviam feito um grande progresso no que tange à psicossomática e à nooterapia. Ao que parece, partiam eles do princípio de que a Harmonia e a Ordem divina exercem influência decisiva sobre a saúde psíquica e corporal. Recomendavam sempre aos doentes que “pensassem santamente”, por isso estavam convencidos de que, quando nossa consciência se mantém em estado de pureza e harmonia, o físico torna-se, necessariamente, são e equilibrado”.

 

Os avanço depois foram significativos em Epidauro, com a introdução de remédios obtidos nas plantas e ervas, além da cirurgias. Mesmo com a dominação dos romanos,  e a generalização do uso da Medicina, muito mais ainda por conta das guerras e feridos, houve a introdução de conceitos de higiene, hidroterapia, dietética, purgantes, mas o fundamental continuo sendo respeitada a fórmula : “Purifica tua mente e teu corpo estará curado”.

 

Do ponto de vista do mito, Asclépio foi temido, por suas ressurreições de mortos e temendo pelo desequilíbrio terreno, Zeus atende o pedido de Plutão, fulminando o médico. Sobreviveu a divindade e a Medicina.

 

 

Apolo – O Exegeta Nacional

 

Apolo e as Ninfas, de François Girardon (1666-73), na Gruta de Apolo, em Versalhes

 

Algumas vezes comecei a escrever sobre o Deus Apolo, mas sempre de forma inconclusa ou incompleta, pois o complexo mito precisa de um longo descrever, depois de Zeus, foi o deus mais influente na Grécia, assim como em Roma, um dos poucos deuses que mantém o mesmo “nome” nas duas mitologias. Em certa medida, sabemos muito de Apolo, sem o sabermos, pois a vasta inspiração deste deus levou ao apogeu da Grécia Antiga. Em rápidas palavras, Apolo foi: Engenheiro e Arquiteto, Escultor, Matemático, toda ciência exata, mas ao mesmo tempo médico, curadeiro, além de ser ele aquele que responde aos pedidos em Delfos sobre o futuro, mesmo que forma oblíqua, daí epiteto Lóxias (λοξός) .

 

Apolo reuniu em si vários deuses, suplantando-os ou absorvendo seus cultos, o Febo(luminoso),  que no começo será prateado, lunar, tornou-se maior, o Sol, tomando de Hélio, o antigo deus, para si a dividade da Luz, em todo seu esplendor.  Como bem observa Junito de Sousa brandão : “Apolo pós-homérico vai progressivamente reunindo elementos diversos, de origem nórdica, asiática, egéia e sobretudo helênica e, sob este último aspecto, conseguiu suplantar por completo a Hélio, o “Sol” propriamente dito. Fundindo, numa só pessoa e em seu mitologema, influências e funções tão diversificadas, o deus de Delfos tornou-se uma figura mítica deveras complicada. São tantos os seus atributos, que se tem a impressão de que Apolo é um amálgama de várias divindades, sintetizando num só deus um vasto complexo de oposições”.

 

E nos diz mais ainda, que o crescimento da dividade apolínea se deu porque “tal fato possivelmente explica, em terras gregas, como o futuro deus dos Oráculos substituiu e, às vezes, de maneira brutal, divindades locais pré-helênicas: na Beócia, suplantou, por exemplo, a Ptóos, que depois se tornou seu filho ou neto; em Tebas, particularmente, sepultou no olvido o culto do deus-rio Ismênio e, em Delfos, levou de vencida o dragão Píton. O deus-Sol, todavia, iluminado pelo espírito grego, conseguiu, se não superar, ao menos harmonizar tantas polaridades, canalizando-as para um ideal de cultura e sabedoria”.

 

Apolo, em grego Απόλλων(Apóllon), traz no nome, consoante Junito, várias explicações, como um corruptela do Dórico Ápella ou  Apellaí – Assembléia do Povo, que era como Esparta o via, um Guia, líder do povo. Rapidamente Apolo se torna o “Exegeta Nacional”. Filho de Zeus com Leto(Némesis), tem como gêmea Ártemis, ambos deuses caçadores. Porém, o deus, tem uma longa transformação, do seu mito original, quase como um “primeiro-ministro” de Zeus, tanto no Olimpo, como na Terra. Sua força em toda Grécia o fez ter mais de 200 epítetos, ou figurar nos mais diversos mitos e ações humanas.

 

Teremos Apolo defendendo Orestes, quando este mata Clitemnestra, sua mãe, cessando a lógica de que os crimes de sangue têm que ser vingados, refletida nas leis e proibições do legislador Sólon. Assim descreve Junito: “toda “mancha” produzida por um crime de morte era como que uma “nódoa maléfica, quase física”, que contaminava o génos inteiro. Matando e purificando-se, substituindo a morte do homicida pelo exílio ou por julgamentos e longos ritos catárticos, como foi o sucedido com Orestes, assassino de sua própria mãe, Apolo contribuiu muito para humanizar os hábitos antigos concernentes aos homicídios”[…]não menos importante do deus foi contribuir com sua autoridade para erradicar a velha lei do talião, isto é, a vingança de sangue pessoal, substituindo-a pela justiça dos tribunais. Buscando “desbarbarizar” velhos hábitos, as máximas do grandioso Templo Délfico pregam a sabedoria, o meio-termo, o equilíbrio, a moderação. O gnôthi s’autón, “conhece-te a ti mesmo” e o medèn ágan, “o nada em demasia” são um atestado bem nítido da influência ética e moderadora do deus Sol.

 

Mesmo não sendo deus da agricultura, ele protege as sementes e a lavoura. Deus dos pastores, em particular dos rebanhos de carneiros, contra os lobos, de onde vem um dos seus mais famosos epítetos, Lício( λύκος). Protetor dos campos, das cidades, mais especificamente das casas,  guardião de sua soleira. No mar protege os marinheiros, quando se transforma em Delfim.

 

Ele é médico, sendo pai de Asclépio, a quem deu a arte da cura, mas ia muito mais além, conforme Junito, “Médico infalível, o filho de Leto exerce sua arte bem além da integridade física, pois é ele um kátharsi (Kathársios), um purificador da alma, que a libera de suas nódoas. Mestre eficaz das expiações, mormente as relativas ao homicídio e a outros tipos de derramamento de sangue, o próprio deus submeteu-se a uma catarse no vale de Tempe, quando da morte de Píton”. Ainda na arte da cura, ele muitas vezes o faz através do “encantamento, da melopéia oracular, chamado, por isso mesmo, pai de Orfeu, que tivera com Calíope, Apolo foi transformado, desde o século VIII a.C, em mestre do canto, da música, da poesia e das Musas, com o título de Museguétes, “condutor das Musas”: as primeiras palavras do deus, ao nascer, diz o Hino homérico (Ap. I, 131-2) foram no sentido de reclamar “a lira e seu arco recurvado”, para revelar a todos os desígnios de Zeus”.

 

Sua enorme beleza, chamava a atenção, amou e foi amado por várias ninfas e mortais, mas nem sempre com felicidade,tendo longa prole e dissabores, mais uma vez recorremos ao grande Junito, para um painel amplo de suas relações:

“Com Talia foi pai dos Coribantes, demônios do cortejo de Dioniso; com Urânia gerou o músico Lino e com Calíope teve o músico, poeta e cantor insuperável, Orfeu. Seus amores com a ninfa Corônis, de que nascerá Asclépio, terminaram tragicamente para ambos, como se verá mais adiante: a ninfa será assassinada e o deus do Sol, por ter morto os Ciclopes, cujos raios eliminaram Asclépio, foi exilado em Feres, na corte do rei Admeto, a quem serviu como pastor, durante um ano. Com Marpessa, filha de Eveno e noiva do grande herói Idas, o deus igualmente não foi feliz. Apolo a desejava, mas o noivo a raptou num carro alado, presente de Posídon, levando-a para Messena, sua pátria. Lá, o deus e o mais forte e corajoso dos homens se defrontaram. Zeus interveio, separou os dois contendores e concedeu à filha de Eveno o privilégio de escolher aquele que desejasse. Marpessa, temendo que Apolo, eternamente jovem, a abandonasse na velhice, preferiu o mortal Idas.

Com a filha de Príamo, Cassandra, o fracasso ainda foi mais acentuado. Enamorado da jovem troiana, concedeu-lhe o dom da mantéia, da profecia, desde que a linda jovem se entregasse a ele. Recebido o poder de profetizar, Cassandra se negou a satisfazer-lhe os desejos. Não lhe podendo tirar o dom divinatório, Apolo cuspiu-lhe na boca e tirou-lhe a credibilidade: tudo que Cassandra diz
ia era verídico, mas ninguém dava crédito às suas palavras. Em Cólofon, o deus amou a adivinha Manto e fê-la mãe do grande adivinho Mopso, neto de Tirésias. Mopso, quando profeta do Oráculo de Apolo em Claros, competiu com outro grande mántis, o profeta Calcas. Saiu vencedor, e Calcas, envergonhado e, por despeito, se matou.

Pela bela ateniense Creúsa, filha de Erecteu, teve uma paixão violenta: violou-a numa gruta da Acrópole e tornou-a mãe de Íon, ancestral dos Jônios. Creúsa colocou o menino num cesto e o abandonou no mesmo local em que fora amada pelo deus. Íon foi levado a Delfos por Hermes e criado no Templo de Apolo. Creúsa, em seguida, desposou Xuto, mas, como não concebesse, visitou Delfos e tendo reencontrado o filho, foi mãe, um pouco mais tarde, de dois belos rebentos: Diomedes e Aqueu. Com Evadne teve Íamo, ancestral da célebre família sacerdotal dos Iâmidas de Olímpia. Castália, filha do rio Aquelôo, também lhe fugiu: perseguida por Apolo junto ao santuário de Delfos, atirou-se na fonte, que depois recebeu seu nome e que foi consagrada ao deus dos Oráculos. As águas de Castália davam inspiração poética e serviam para as purificações no templo de Delfos. Era dessa água que bebia a Pítia”.

 

Um dos mais interessantes aspectos do seu mito é como se apodera de Delfos, o centro do mundo, o umbigo(onfalo), local de poder da arte adivinhatória, o local que se cultuava Géia a deusa primeva, o matriarcado ali garantido pela guardiã do templo, uma dragão fêmea, Delfine. Depois transformada no dragão Píton, que na verdade era uma serpete, símbolo das forças ctônicas, das potencias telúricas, a terra primitiva de Géia, Apolo, a luz solar, a força Patriarcal, destrona as forças telúricas, das trevas.  Na magistral descrição de Junito, sobre o que seria o culto à Apolo em Delfos:

“Embora ainda se ignore a etimologia de Delfos, os gregos sempre a relacionaram com delphýs, útero, a cavidade misteriosa, para onde descia a Pítia, para tocar o omphalós, antes de responder às perguntas dos consulentes. Cavidade se diz em grego stómion, que significa tanto cavidade quanto vagina, daí ser o omphalós tão “carregado de sentido genital”. A descida ao útero de Delfos, à “cavidade”, onde profetizava a Pítia e o fato de a mesma tocar o omphalós, ali representado por uma pedra, configuravam, de per si, uma “união física” da sacerdotisa com Apolo. Para perpetuar a memória do triunfo de Apolo sobre Píton e para se ter o dragão in hono animo (e este é o sentido dos jogos fúnebres), celebravam-se lá nas alturas do Parnaso, de quatro em quatro anos, os Jogos Píticos” […] De qualquer forma, a presença do deus patriarcal no Parnaso, a partir da Época Geométrica, é confirmada pela substituição de estatuetas femininas em terracota por estatuetas masculinas em bronze”.

 

A conquista de Delfos, além da clara substituição do matriarcado em decadência, tem um caráter político mais amplo, será amplamente usado no sentido filosófico, que ultrapassa a questão religiosa, por ser oblíquo em suas respostas, cabe ao intérprete o seu melhor entendimento. Assim resume Junito: “De qualquer forma, “Os Oráculos” traduziam a vontade todo-poderosa de Delfos, porque, para todo o mundo grego, Apolo foi decididamente o árbitro e o garante da ortodoxia. Os oráculos délficos são conhecidos por textos literários, particularmente do historiador Heródoto (séc. V a.C.) e por inscrições. Algumas respostas de Lóxias, sobretudo as mais antigas, redigidas em hexâmetros datílicos, ficaram célebres por causa de seu sentido obscuro e ambíguo.

Sirva de exemplo a resposta do Oráculo ao famoso rei da Lídia, Creso (séc. VI a.C.), que, em guerra contra Ciro, rei da Pérsia, interrogou a Pítia a respeito da “destruição de um grande império”. A Pitonisa respondeu com absoluta precisão: Se Creso cruzar o rio Hális, destruirá um grande império. O império destruído não foi o de Ciro, como supunha Creso, mas seu próprio reino. O deus não mentiu, mas a resposta foi terrivelmente ambígua. A respeito dessa particularidade do Oráculo de Delfos, vale a pena mencionar o fr. 247 de Heráclito: “O deus soberano, cujo oráculo está em Delfos, nem revela, nem oculta coisa alguma, mas manifesta-se por sinais”. Ou seja: Apolo não esconde a verdade, apenas faz que se lhe compreenda a vontade“.

 

A grandiosidade  de Delfos é que servia de unidade nacional, mesmo as  dissenções internas , tinha no oráculo uma local de respeito e que todas cidades-estado se encontravam no respeito ao “espírito grego“. Platão, no seu livro República, explica quais os principais  os deveres de um verdadeiro legislador, primeiro peça ao deus  Apolo que os guie para criar as leis do Estado, porque “esse deus, exegeta nacional, intérprete tradicional da religião, se estabeleceu no centro e no umbigo da Terra, para guiar o gênero humano”.

Deuses Gregos e seus Casamentos

 

Zeus e Hera

 

Neste momento de reflexão, sobre os novos rumos, como descrito no post Qvo Vadis?, voltei aos estudos da Grécia, lembrei de uma dificuldade recorrente para que gosta do tema é a fragmentação, os vários mitos são tratados em variadas obras, ou apenas mencionados, que apenas com muito estudo se consegue uma visão mais ampla, neste blog, concentrei alguns estudos dos mitos gregos na Categoria: Mitologia. Relendo os vários artigos vejo que há enormes lacunas, normal, pelo pouco tempo do blog e das dificuldades naturais que o tema apresenta.

 

Seguindo o caminho do mestre Junito de Sousa Brandão, copiei, alguns resumos de uniões e casamentos dos deuses, dos seus maravilhosos livros : Mitologia Grega, em três volumes. Assim acredito que estes resumos, ajudem como fonte de consulta para uma visão mais geral dos Mitos, ou ainda, de como se relacionaram, deuses, heróis e mortais. As varias uniões e seus descendentes, mostram a estreita relação de uma religião viva, os seres mitológicos intimamente ligados ao “povo”. Junito basicamente condensa as lições de cosmogonia de Hesíodo, Homero e das contribuições de Ovídio, para traças estes “casamentos”.

 

1) A linhagem dos Deuses  – Úrano – Cronos – Zeus

 

De Úrano a Zeus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2) A importante descendência de Zeus – Leda – linhagem de heróis da guerra de Tróia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3) Linhagem de Posidon – Mares, Oceanos, e monstros


 

 

4)Linhagem  de Hélio – Sol, a Luz

 

 

Importante também publicar as divindades gregas e seus equivalentes latinos, muitas vezes, nos deparamos com a nomenclatura romana, até porque nossa língua é neolatina, além do fato de Roma ter dominado o mundo, seu império se impôs politicamente, militarmente, claro que culturalmente, mesmo que sua cosmogonia seja uma grosseira adaptação dos deuses gregos. A “tradução” não apenas roubou a força do mito, mas empobreceu, em muitos casos, o próprio mito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por fim Zeus, já muitas vezes resenhado por nós como no post: Zeus Pai: O Deus Estado, merece um destaque especial por ser o auge da cosmogonia grega, e sua uniões como nos lembra Junito, tinham caráter de consolidar em si todo o poder, quase que sugando a força dos outros mitos. Nas palavras de Junito: “Zeus consolidou seu poder, tornando-se o pai dos deuses e dos homens. Repartiu suas honras com os outros Imortais e iniciou seu reinado para sempre. Seus múltiplos casamentos refletem-lhe o poder de fecundação. Nova era se abre para Hesíodo: com Zeus está a Dique, a nova Justiça. E a Terceira e última Geração Divina: o estágio olímpico de Zeus (Teogonia – versos 886-964).

 

A lista de suas uniões divinas e com mortais:

 

A) Uniões com deusas

 

Zeus e Métis foram pais de Atená

Zeus e Têmis geraram as Horas e as Moîras

Zeus e Eurínome geraram as Cárites

Zeus e Deméter geraram Core ou Perséfone

Zeus e Mnemósina geraram as Musas

Zeus e Leto geraram Apoio e Ártemis

Zeus com sua “legítima” esposa Hera gerou Hebe, Ares, Ilítia (e Hefesto?)

 

B) União com mortais(antigas “divindades” que perderam status)

 

Zeus e Maia geraram Hermes

Zeus e Sêmele geraram Dioniso

Zeus e Alcmena geraram Héracles

Zeus e Dânae geraram Perseu

Zeus e Europa geraram
Minos, Sarpédon e Radamanto

Zeus e Io geraram Épafo

Zeus e Leda geraram Pólux e Helena, Castor e Clitemnestra.

 

Espero que assim ajude a ter por onde começar a pesquisar, buscando os mitos e suas relações diversas com outros mitos, suas tão grandiosas aventuras.

Batman: Capitalismo ou Barbárie?

 

 

Neste fim de semana, finalmente vi a última parte da trilogia de Batman, O Cavaleiro das Trevas, a versão definitiva do herói adulto. Separando assim, os antigos seriados, quase comédia (O Batman “Gordinho” ), dos vários e irregulares filmes feito para cinema, desde final dos anos 80. Houve pelo menos três tentativas distintas de retratar o HQ, a primeira delas com um show de Jack Nicholson, que fazia o Coringa, depois Tim Burton, um ambiente gótico, mas não convincente. A última com Robin e uma representação mais juvenil.

 

Quando Christopher Nolan assumiu o comando de Batman, DC Comics estava decidida a enfrentar a legião Marvel com um herói mais “velho” com um apelo mais forte, buscou a versão mais carregada e destrutiva, uma visão de barbárie permanente, em alguma medida próxima dos conflitos de Wolverine e de X-Men. A reconstrução da origem da história de Bruce Wayne, com a morte dos pais, seu primeiro sumiço, com retorno no julgamento/absolvição do criminoso, parte dali sua descrença total na justiça estatal e no Estado de Direito.

 

Para uma melhor compreensão da minha visão sobre Batman, na série o Cavaleiro das Trevas, é preciso ler(ou reler) o texto A questão do Herói – Grécia sopra sobre nós, ali, com amplos detalhes, traço o conceito de Herói, desde seu nascimento, sua educação, seus ritos iniciáticos, de como assume “identidade secreta”, quando se torna protetor de sua cidade e/ou povo, as anormalidade físicas e espirituais, por fim sua queda e a morte. O conceito complexo da questão do Herói, está presente em Batman, não aquele anterior “juvenil”, mas na sua mais ousada e plena forma, do Cavaleiro das Trevas.

 

Depois da primeira experiência de descida à caverna, um claro rito iniciático do pequeno Bruce, ele fará um novo mergulho, como numa segunda catábase, no oriente. Esta nova experiência, moldará definitiva o adulto, atormentado e amargurado Bruce Wayne.  Seu treino/ preparação pela Liga da sombras, com valores radicais de purificação humana, nem que para isto significa uma longa matança, indiscriminada, não identificando culpados ou inocentes, tratado a todos como um bloco único, apodrecidos pela corrupção, caos social e nenhuma perspectiva de saída política. A ordem e os planos da Liga eram caros demais ao jovem rico, de uma família que fazia da filantropia, uma tentativa de amenizar o caos.

 

 

Este novo Batman, quase conceitual, se deve graças ao desenho de Frank Miller quando recriou o herói com uma visão mais sombria, um homem atormentado psicologicamente, preso ao passado de culpas e desejo sádico de vingança. Que dar pouco ou nenhum crédito aos Estado de Direito, agindo por conta própria, usando de seu poder para se tornar um “vigilante” social, que combate o crime a corrupção não respeitando ou reconhecendo os limites legais. Numa frase lapidar do filme dois, o Coringa sendo interrogado na prisão por Batman é bem direto: “Você e Eu somos foras da lei, não reconhecemos nenhum limite, somo iguais”. Aqui começa a problema conceitual de Batman.

 

A visão ultraliberal do roteiro de Miller, coincide com a Direita radical dos Estados Unidos, que se mostrou recentemente no Tea Party, o Estado é “inimigo” do povo, serve apenas para manter uma burocracia corrupta e falida. O heroísmo individualista, que pune os corruptos, não os levando ao julgamento legal, ou tribunais, no limite, os elimina fisicamente. A inspiração da “Liga das Sombras”, ainda mais radical que propõe a limpeza total e ampla de Gotham City(EUA), como se fosse purificar a humanidade, de tão corrupta e decadente civilização. A doutrina do império, mesmo com seu liberalismo exacerbado não tolera os radicais, ainda que coincida o diagnóstico de que Gotham e a civilização precise de uma limpeza.

 

O Batman é a expressão de um estado de exceção, a Lei Dent, equivale ao Patriot Act 1, que regeu os EUA pós a queda das torres gêmeas, todas as garantias individuais estavam suspensas, o aparelho estatal visível nos filmes coincide também com a do império, só se enxerga a polícia e o poder coercitivo do Estado. As fundações privadas comandam as redes sociais de proteção, não o Estado, a Fundação Wayne sustenta hospitais, escolas e creches. A prisão de Blackgate, pode ser a mesma de Guatánamo, os presos tanto numa como em outra estão sujeitos ao regime de exceção, não cabendo progressão de pena, revisão, ou qualquer prerrogativa de Direitos Humanos.

 

A metáfora vai mais fundo, se no segundo episódio o caos total assombrou Gotham, assim como as queda das torres gêmeas assustou Nova York, o hiato de 7 ou 8 anos de uma aparente “paz” forçada pela lei Dent/Act 1, só terminará simbolicamente com a queda da bolsa de valores, a quebra dos bancos alimentadas pela ampla especulação, ou no filme a invasão direta, com transferências de valores, da maior empresa: Wayne Enterprise. A arte imita a vida, o herói é novamente chamado, para evitar a queda total. A leitura do conflito é bem definida, o poder do capital, também pode destruí-lo.

 

Poucas vezes um filme de ação, aventura conseguiu ser tão instrutivo. Bane, o anti-herói toma o poder em nome do povo, uma caricatura de “socialista” ou dos “Occupys”. Todos são convidados a tomarem o poder, mas ali, na visão tipicamente de criar um caos, uma barbárie, com tribunais de exceção com um louco, Crane, como juiz supremo, a condenação se dá em segundos, morte ou morte, pois o exílio é o caminho da morte.  A bomba de Neutro, apocalíptica é armada. Nada ou ninguém será capaz de desmontar, a redenção de Gotham/Nova York, é certa, nem que seja pela sua destruição completa.

 

O filme é grandioso, como foram as primeiras partes da trilogia, mas é um aviso claro, não se trata de aventura, diversão, mas de ideologia, sem ideologia, uma surda luta, quase paranoica que  diz: EUA estão mal, mas o que vem de fora é pior, a Liga das Sombras, pode ser uma Al Qaeda ou qualquer coisa do gênero. Assim, Tea Party, Batman, o anti-Estado, se junta ao Comissário Gordon, Democrata, o Estado, para se livrar da barbárie. Mas o que sobrará disto tudo?