O Poeta do Amor – Vinicius de Moraes

 

Os geniais Vinicius e Tom

 

“De  todos nós(poeta), Vinicius foi o único que viveu como Poeta” ( Carlos Drummond de Andrade)

 

Impressionante como um dia (19/10/1913 – Jamais Morreu) apareceu e cresceu um Poeta, um Dionísio, ali na Gávea, no mais brasileiro de todos os lugares do Brasil, o Rio de Janeiro. Assim como Públio Ovídio, se dedicou a escrever e cantar o amor e a poesia, que nos redime e nos lembra: Somos Humanos, viemos com uma missão especial ao mundo, a terra, viemos Amar. Apenas o poeta consegue nos lembrar desta grandiosa missão, que abandonamos a todo momento, a qualquer dificuldade da vida.

 

A poesia brotou cedo, nosso deus/poeta do vinho e do mel, tem uma trajetória única, Advogado, Diplomata, mas os versos, sempre falou mais alto na mente e coração, depois o corpo e alma  o fizeram se dedicar completamente a sua missão, transformar em lirismo o Amor. Uma virada completa, o abandono da gravata, do terno e o risco de viver da doce “malandragem”, um espanto para época. O mundo finalmente resgatou o Dionísio, assim se tornou mais belo, louco e alegre, como é próprio do Ditirambo.

 

A vasta obra de Vinicius e seus amores, teve início no momento mágico do Rio de Janeiro, dos anos 50, com o encontro dos geniais Tom Jobim, João Gilberto, os pais daquilo que virou a Bossa Nova. O inquieto poeta e  a necessidade de conhecer o novo o levaria aos braços dos jovens Baden Powell e sua descoberta da artes mágicas da Bahia. As parcerias com Carlos Lyra e Toquinho completam um panorama de tanta riqueza cultural e sons. Chico Buarque, Pixinguinha e quem se  aproximasse mais teria um verso e uma música, era uma profusão criativa de espantar.

 

As letras, as músicas, a bela voz, seus homéricos e conhecidos porres criativos. As várias mulheres com quem amava e casava, numa competição com Pablo Picasso, era sua eterna fonte de inspiração e inquietude. Segue em 5 blocos o espetacular “Mosaicos – A Arte de Vinicius de Moraes”, programa produzido pela TV Cultura em 2009, faz um panorama destes parceiros e suas lindas histórias com o poeta. Recomendo também o documentário mais longo sobre Vinicius

 

De difícil demais escolher uma música, são pelo menos duas ou três dezenas de clássicos, mas como hoje é sexta escolho duas tanto que mais me aprazem.

 

 

Samba de Bênção – Vinicius de Moraes e Toquinho

 

 

Pela Luz dos Olhos Teus – Vinicius de Morais

 

 

 

Vinicius de Moraes – Parte 1/5

 

 

Vinicius de Moraes – Parte 2/5

 

 

Vinicius de Moraes – Parte 3/5

 

 

Vinicius de Moraes – Parte 4/5

 

 

Vinicius de Moraes – Parte 5/5

 

 

Vinicius de Moraes – Documentário completo

 

Crise 2.0: UE – Fim da Classe Média?

 

 

A desigualdade cresce na Europa - foto STEVEN GOVERNO / GLOBAL IMAGENS

 

O esforço intelectual para escrever sobre a crise é imenso e, muitas vezes, penso ser maior do que minha capacidade de elaboração. Nos mais de 250 artigos aqui,na série sobre a Crise 2.0, busquei trabalhar algumas ideias e trazer aos que me leem um panorama mais amplo possível sobre os rumos da economia mundial. De certo que nem sempre consegui atingir o objetivo, mas tenho tentado. O que mais procuro é aproximar a analise da realidade concreta, mas, com certeza, viver longe da Europa, por exemplo, pode dificultar uma compreensão mais acurada do que se passa.

 

Procuro trabalhar com diversas fontes, as mais antagônicas e usar minha experiência para filtrar os exageros e no final opinar de forma mais precisa sobre os fenômenos analisados. Outro dia, conversando com um amigo sobre a questão da crise ele veio dizer que o Crise 2.0 estava exagerando, que a situação da Espanha não era tudo aquilo que vinha escrevendo, pois ele tinha amigos que lá moravam, não era tudo isto. Ouvi, como sempre faço, mas, por coincidência ao chegar em casa leio um email de um amigo que dizia o oposto, que a Espanha estava muito pior. Concluí, o caminho que trilhei está mais próximo da realidade, pois os extremos opostos não estão satisfeitos.

 

Hoje, o El País, o grande diário espanhol, traz um rico debate sobre o futuro da Europa, são entrevistas, artigos e matérias, com lideranças da Europa e do resto do mundo, um amplo painel de ideias, que deveria ser lido por todos os amigos que acompanham esta série. Há uma longa entrevista com François Hollande, Presidente da França, que chega a ser melancólica, em poucos meses de governo já se depara com índices altos de desaprovação, além de se ver preso à armadilha da Troika, a austeridade, política central imposta pela Alemanha de forma irresistível à toda UE.

 

Uma das matérias sobre o futuro da Europa traz a realidade cinco famílias de classe média na Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Itália, os países mais ricos da Europa, demonstrando o declínio do famoso padrão de vida europeu, que, segundo a matéria era sustentando pelo Estado Bem-Estar Social, com suas bases saídas da segunda guerra e moldado pelo Plano Marshall, que serviu de contraponto ao leste europeu. Com a queda da ex-URSS, muitos dos valores e funções deste modelo começaram a ser questionados, mas apenas com o advento da grande crise, efetivamente, será quebrado.

 

Segundo,os professores  Sara Baliña e José A. Herce, da Escuela de Finanzas Aplicadas AFI, afirmam que “quando a crise entrar em sua reta final, serão pouquíssimos os países que poderão exibir ou que terão mantido os padrões de vida que sua população tinha antes de 2008″. “É inquestionável que a combinação de alguns anos, os próximos, de crescimento econômico reduzido e desemprego elevado vai provocar uma alteração estrutural das pautas de comportamento e gastos das famílias”, escrevem os professores”. (A erosão da classe média – El País, via Estadão, 17/10/2012)

 

O relato das famílias é particularmente comovente, o caso de Luis e Hortensia, casal espanhol de 57 e 48 ano de idade, ambos desempregados, que veem seu padrão de vida minguar mês a mês com a poupança sendo gasta, vivem da aposentadoria proporcional de Luis, de cerca de 1400 Euros, que são divididos em 600 Euros para pagar a hipoteca do apartamento, 300 Euros para pagar empréstimos . Lhes sobram 500 Euros, que são administrados com cuidado, acabam de cortar Tv a cabo/Internet e telefone que consumia 90 Euros. Nas palavras de Luis: Eu trabalhava e morava com alguma confiança, mas tudo mudou”, diz ele. “Emocionalmente, você se sente muito mal. Ainda tenho um pouco de suco para dar, não acho que é só o que me aconteceu. Em 57 anos, eu não tenho nenhuma opção para encontrar trabalho” (El País , 17/10/2012).

 

Mesmo, a prospera Alemanha, sofre com a desigualdade, que embora não esteja enfrentando os problemas sociais mais terríveis de Espanha, Grécia ou Portugal, o clima já não é de otimismo, pois os dados apontam para uma realidade complexa, o aumento do fosso entre os super Ricos e os pobres, segundo o El País, “ A cada ano, o Federal Statistical Institute estabelece quantas pessoas estão em risco de cair na pobreza, isto é, quantas pessoas têm menos dinheiro do que a média da sociedade. Apesar do crescimento econômico, o número aumentou ligeiramente em 2011. 15,1% da população está enfrentando o problema da pobreza. Segundo a definição de peritos em estatística, no caso, uma família com uma pessoa, este problema começa a partir de uma receita líquida de menos de 848 € por mês. Na Alemanha, um em cada sete crianças com menos de 15 anos que vivem de ajuda social. Na ex-RDA, é de um em quatro, na capital, Berlim, um em cada três.

Na Alemanha, a pobreza e a riqueza são herdadas; concordam tanto os economistas e especialistas em educação. Portanto, o pesquisador de mercado de trabalho mais conhecido no país, Joachim Möller, lança a seguinte advertência: “Quando a frustração dos pobres torna-se o álcool, letargia e crime, toda a sociedade sofre. Isso é algo que vemos na América. ” Mas “milagre trabalho” do país parece estar ainda longe de atingir uma situação” (El País 17/10/2012).

 

Em nossos trabalhos, em particular sobre o  novo Estado, Estado Gotham City, já enfrentamos esta questão sobre o fim do Estado de Bem-Estar Social, seu desmonte e as consequência do empobrecimento, este estudo em quatro artigos:

1) Definição geral do que é o Novo Estado, expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado e mais seis pequenos ensaios que dão sustentação a tese;

2) Desta definição passei a analisar os atores em luta, primeiro o comportamento do grande capital, em especial o capital financeiro, a fração burguesa que domina as ações do Capital, aqui escrito no artigo – Crise 2.0: Novo Estado e o Capital;

3) O segundo vetor são os novos movimentos de resistência ao Novo Estado, que surgiu durante a crise, movimento, na maioria das vezes de negação geral, sem apontar saída, vistos aqui – Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados;

4)  E o terceiro vetor é sobre  Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS que tratamos das alternativas ao eixo central do capital (EUA, UE e Japão), surgida por iniciativa do Brasil, os BRICS, que se consolidou na atuação conjunta pós 2007;

 

A realidade começa a se tornar nua e crua aos antigos estados de bem-estar social, em poucos anos serão sombra do que foram, se nada for feito, é só questão de tempo.

Crise 2.0: Educação na UE – Geração Perdida

 

O Fracasso da Educação na UE - EMILIO MORENATTI (EFE)

As grandes crises desarrumam não apenas a economia dos países, mas, principalmente a vida das pessoas, em curto espaço de tempo, sistemas montados por décadas caem de forma irresistível em um ou dois anos de uma crise violenta como esta. Hoje a UNESCO divulga seus dados sobre Educação e a conclusão é alarmante, em particular na Europa, mais especificamente nos países mais atingidos pela crise, um grande retrocesso se deu em curto período, o que tende a piorar futuramente com os planos de Austeridade que se voltam contra Educação e Saúde.

 

Os dados espanhóis, tratados no El País, hoje, é o retrato mais fiel das opções econômicas e políticas, 1 em cada 3 jovens (15 a 24 anos) abandonou a escola sem completar o ensino médio, a media da UE é 1 em cada 5. O que, segundo o jornal, levou “os  responsáveis ​​pelo relatório, a classificar como “preocupantes” o número de abandono escola na Espanha, dado que é um país “duramente golpeado” pela crise e onde o desemprego juvenil superior a 50% em março deste ano . A falta de qualificação profissional dos jovens europeus, os  leva a desperdiçar o seu potencial, os faz perder as oportunidades de emprego e os impede de ajudar seu país de volta à prosperidade”, diz o estudo, que afirma que, em tempos de crise, a  Educação é a ferramenta é “mais essencial do que nunca.”

 

A maior prova de que a Educação é fundamental neste momento  de crise é que entre 2007 e 2009 as taxas de desemprego entre os jovens dispararam, mais ainda entre os que abandonaram os estudos prematuramente. Diz ainda o relatório, reproduzido pelo El País: “pelo menos um quarto da juventude espanhola, que deixou os estudos no final do primeiro ciclo do ensino secundário e um quinto dos que saíram depois escola continuam a procurar emprego. ” O alerta  final é que “A criação de empregos por si só não vai nos ajudar a sair da crise”, diz o relatório, porque “a Europa deve formar jovens com competências adequadas, a experiência prévia e capacidade de adaptação a novas tecnologias.”

 

Apenas em 2012 o orçamento para Educação na Espanha sofreu um corte de mais de 10 bilhões de Euros, com corte de 50 mil trabalhadores em educação ligados ao Governo Central e com mais 50 mil nas províncias, um quadro que tende a agravar-se nos próximos anos. Com baixa educação, não há como pensar num país que consiga competir com os demais parceiros, a sua produtividade é sempre mais baixa, sendo relegada à funções secundárias na cadeia produtiva, o que torna a recuperação ainda mais difícil.

 

Hoje, na Espanha, começa uma jornada de greve estudantil secundarista de três dias, justamente contra os cortes promovidos pelo governo central, da extrema-direita, liderado por Rajoy. A greve convocada pelo estudantes foi amplamente apoiada pela associação dos pais, o que levou a 70% de adesão, principalmente em Madri e nas grandes cidades. O Ministro da Educação, condenou a greve, chamando os grevistas de “Esquerdistas Radicais” e que a greve atinge apenas 20% dos estudantes. A reação no parlamento foi clara, condenando o ministro, que a cada vez que fala se torna “ainda mais incapacitado ao cargo”.

 

Numa reportagem da BBC sobre os jovens na Europa, eles denominam como “geração perdida” ou “desperdiçada”, assim iniciada: “Por causa da crise econômica e das medidas de austeridade adotadas por alguns governos de países ricos, um número crescente de jovens profissionais qualificados, na faixa dos 20 a 30 anos, estão desempregados. Frustrados, após terem se esforçado tanto para conseguir um diploma, eles vivem de bicos, da ajuda da família ou pensam em emigrar. A BBC Brasil ouviu a história de alguns desses jovens que fazem parte do que a imprensa e economistas de seus países vêm chamando de “geração perdida” ou “geração desperdiçada”

 

O panorama é francamente desolador, vale a pena ler os relatos que a BBC colheu em várias cidades europeias, problema muito comum a todos eles:  “Jovens com nível universitário trabalham com faxina e entrega de pizza“.

Crise 2.0: Beco sem Saída?

 

 

Protesto na Grécia - Pelado, nu com a mão no Bolso - Foto: AP

Semana passada os ministros de Economia de todo o mundo se reuniram em Tóquio para debater as perspectivas do mundo em crise, não com olho no caos presente, mas o que nos reserva nos próximos anos. A Reunião conjunta do FMI e Banco Mundial foi precedida de um documento do FMI analisando as economias e realinhando as suas estimativas de 2012 e 2013. Aqui, na série sobre a Crise 2.0, repercutimos este estudo, em particular na questão sobre o Brasil, no post Crise 2.0: Avanços e Limites do Brasil, segundo FMI.

 

Agora, findada a reunião, vamos tentar olhar a questão mais geral, seguiremos os dados gerais do FMI e seu ajuste para baixo do crescimento dos dois anos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ora, os números são inequívocos de que, no começo de 2012, o FMI projetou uma realidade de crescimento e de saída da crise, que não se cumpriu, ao contrário, na maioria dos casos, piorou. As principais economia mundiais, os EUA e a UE estão em posições delicadas, no caso dos EUA, o baixo crescimento não garantiu um ciclo virtuoso, que projete uma janaela de crescimento mais amplo, o desemprego continua muito alto assim como os salários tiveram baixa recuperação.

 

A UE sofre várias crises simultâneas, as maiores e significativas são as da Espanha e Itália. Ambas terão mais dois anos duríssimos, mesmo com os cavalares ajustes fiscais, a situação apenas se tornou mais dramática, com o desemprego crescente, fuga de cérebro e desagregação social. Até mesmo França e Alemanha começa a sentir o peso da crise do sul, as projeções são de crescimento baixo, no caso alemão, e de próximo de Zero, no caso francês. As baixas perspectivas lançam uma onda de pessimismo geral, como bem observa Celso Ming, na coluna do 08 de Outubro:

“As novas projeções sobre o desempenho da economia global do Fundo Monetário Internacional (FMI) são bem mais pessimistas. Em vez de ceder, a crise tende a se aprofundar, sem sinais de reversão. Não se vê disposição política entre os dirigentes do mundo para resolver o principal problema: o excessivo endividamento dos países avançados – principalmente dos Estados Unidos e de praticamente toda a área do euro”.

 

As políticas econômicas, hoje, são determinadas pelos BC( FED, BCE e BoJ), que jogam juros ao limite da irresponsabilidade, agindo por conta própria, pela absoluta falta de líderes políticos com capacidade e disposição de pensar à frente, apontando para um novo acerto mundial, isto parece fora de questão, Ming observa que, exceto Brasil e BC Alemão não há críticas à política de emissão de moedas e juros:

“O FMI está entre as instituições globais que cobrem de elogios essa atitude até agora inusitada dos bancos centrais, como esforço consistente capaz de estancar o colapso econômico mundial.

Por motivos diferentes, as ortodoxas autoridades do Banco Central da Alemanha (Bundesbank) e as bem menos ortodoxas do governo brasileiro são as únicas que condenam sistematicamente essas políticas. Os alemães denunciam a disposição do BCE de agir como emprestador de última instância aos tesouros dos países da área do euro como fonte de problemas presentes (encorajamento a mais despesas irresponsáveis por parte dos governos) e futuros (sobretudo mais inflação).

Enquanto isso, a presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, denunciam essa política monetária expansionista como causadora de distúrbios cambiais. Tanto para a presidente como para o ministro, além de não tirar a economia mundial da encalacrada, esse jogo dos bancos centrais gera efeitos colaterais perversos”.

 

Parece-nos, mais uma vez que a crise perdurará por mais tempo no horizonte, alguns economistas falam que apenas em 2018 todos os ajustes teriam seus efeitos desejados e um novo ciclo se abriria, ou seja 14 anos de cris( 2005 a 2018).  Num último esforço, Celso Ming faz uma provocação, sobre as soluções parciais dos BCs:

“Outro jeito de analisar o mesmo fenômeno é ponderar que, embora não tenha removido o impasse central, a atuação dos grandes bancos centrais impediu um mergulho no imponderável. Também pode-se dizer que, em compensação, vem amortecendo o ajuste, agora sem prazo visível para se completar. Esse é o tipo do sempre adiado desfecho que o Fausto de Goethe condena quando adverte: “Melhor um fim com terror do que um terror sem fim”.

Com base nesse princípio, alguém ainda perguntará se um fim mais rápido da crise, ainda que mais doloroso, não seria melhor do que esse arrastar sem fim, mesmo que aparentemente menos dolorido. Nesse caso, a política dos grandes bancos centrais terá contribuído para o adiamento de uma solução”.

 

Ou seja, até um arguto analista burguês, percebe o tamanho da piaba, imaginem vocês do lado dos trabalhadores, o tamanho do rombo em suas vidas. É preciso lutar e mudar URGENTE!

Crise 2.0: Avanços e Limites do Brasil, segundo FMI

 

Reunião do FMI em Toquio (foto Claudia Sarmento - O Globo)

Quem apenar ler as manchetes dos jornais do Brasil, entra me pânico, afinal o FMI diz que o PIB brasileiro vai crescer “apenas” 1,5% em 2012. Parece regra geral da grande mídia local “assustar” e criar um clima de desespero geral, deixando para matérias internas alguma verdade, que inclusive negam a manchete principal. Quem nos acompanha aqui, na série sobre a Crise 2.0, sabe que temos que ir muito além das manchetes e das matérias, buscar formar um pensamento crítico e mais completo do acontece no mundo e os efeitos da enorme Crise.

 

O Estadão, talvez o único jornal brasileiro que realmente escreva com propriedade sobre a crise, mesmo com o viés ideológico diferente dos nossos, a despeito da flagrante contradição entre o que escrevem no caderno de economia e o de política, sempre o lemos e trazemos ao debate suas matéria e análises, que nos ajudam a entender a realidade geral. Agora, na reunião do FMI e BIRD em Tóquio, o jornal mandou um enviado para acompanhar e escrever sobre os debates dos ministros da economia mundial. Vejamos o que nos diz a matéria central, feita pelo repórter Ricardo Leopoldo:

“O Fundo Monetário Internacional (FMI) fez uma sensível redução da estimativa de crescimento do Brasil em 2012. A projeção passou de uma alta de 2,5%, feita recentemente em julho, para uma elevação de 1,5%, um pouco inferior à previsão do Banco Central, que há quase duas semanas passou para 1,6% sua estimativa. Tal desaceleração expressiva do País não foi sentida apenas na economia local, mas provocou impactos expressivos na América Latina, pois conforme o FMI foi responsável em grande medida pela perda de vigor da região, que registrou uma velocidade do PIB ao redor de 3% na primeira metade de 2012.

[…]

Para a instituição, não foi somente o contágio da crise internacional, sobretudo a recessão na zona do euro, que fez com que o País desacelerasse tanto em tão pouco tempo. “A retomada do crescimento foi abaixo do esperado no Brasil – uma importante causa do desempenho regional mais fraco – devido a condições externas precárias e à transmissão mais lenta da distensão da política monetária desde agosto de 2011 como resultado do aumento da inadimplência, depois de muitos anos de rápida expansão do crédito”, apontou o FMI. A necessidade de aperto dos juros em 2011 pelo BC para conter a inflação e a adoção de medidas macroprudenciais naquele ano para reduzir a forte expansão de alguns segmentos de crédito também foram apontados pelo FMI como elementos que contribuíram para a maior desaceleração do PIB do País neste ano”.

 

O FMI, ainda alerta, segundo a matéria para os riscos : “Preços de imóveis elevados ou em ascensão ou o crescimento do peso da dívida para as famílias, especialmente no Brasil, requerem contínua vigilância pelos formuladores de políticas”, destacou. Segundo o FMI “o boom de consumo tem sido um grande componente do forte desempenho do crescimento” nos últimos anos, mas “a demanda doméstica e os investimentos continuam relativamente baixos”. “Reformas (estruturais) poderão colocar o foco de forma útil em desenvolvimentos adicionais no pilar das contribuições definidas do sistema de pensões, racionalização do sistema tributário e desenvolvimento de instrumentos financeiros de longo prazo.”

Para o FMI, essas reformas estruturais serão importantes para o País incrementar a oferta. De acordo com o Fundo, muitas economias da América Latina devem realizá-las para reforçar o PIB no médio prazo. “No Brasil, os gargalos de infraestrutura são uma restrição ao crescimento. As recentes (decisões do governo) de realizar concessões públicas ao setor privado para desenvolver a crítica infraestrutura de rodovias e ferrovias é um passo para frente bem vindo, mas o aumento do investimento público também é necessário.”

 

O Outro lado dos números

 

Entretanto, numa segunda matéria, o repórter traz as mais significativas constatações, de que o Brasil apresentou os números mais sólidos do fundamentos econômicos do que as maiores economias mundias. Esta  matéria é importante porque, em regra, a mídia ideologizada, procura esquecer, martelando apenas na “piora” do quadro, ou da inviabilidade do Governo petista, pois apenas se preocupa com a Ideologia, sem se importar com os demais aspectos, políticos, sociais e econômicos.

 

Leiamos o longo relato do enviando do Estadão:

Embora tenha registrado um desempenho do PIB abaixo do seu potencial em 2011, o que certamente também ocorrerá em 2012, o Brasil dá sinais de vigor das suas contas do Poder Executivo, ratificados pela avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI). O Monitor Fiscal divulgado nesta segunda-feira confirma que a dívida pública mantém a tendência cadente para os próximos anos, seja ela medida pelo conceito líquido, como prefere o governo, ou bruto como apreciam mais as agências internacionais de rating. Além disso, a trajetória do resultado nominal também é de queda. Os números estimados pelo FMI para o País mostram indicadores melhores do que os registrados por várias nações avançadas, entre elas os EUA, Japão, França e, em alguns casos, é mais favorável do que o apurado pela Alemanha.

De acordo com o FMI, as projeções do resultado nominal do Brasil ficaram entre as que apresentaram maior evolução em relação às estimativas realizadas pelo Fundo em abril deste ano. Na ocasião, a instituição previa que o déficit nominal de 2012 atingiria 2,3% do PIB, mas agora apresenta um resultado negativo de 2,1% do produto interno bruto. Para 2013, o avanço da projeção foi ainda mais expressivo, pois baixou de um déficit de 2,4% para 1,6% do PIB. Estes resultados são mais positivos do que a média mundial, de déficit de 4,2% e 3,5% do PIB para 2012 e para o ano seguinte, respectivamente. No caso dos EUA, as projeções são de 8,7% e 7,3% do PIB para o biênio, na zona do Euro atingem 3,3% e 2,6% do produto interno bruto, respectivamente, e na França variam de 4,7% e 3,5% do PIB. Os números nacionais são muito melhores que os estimados pelo FMI para o Japão, de 10% do produto interno bruto para 2012 e 9,1% do PIB em 2013.

Alemanha

As projeções do FMI para a dívida bruta do governo são mais favoráveis do que as registradas pela Alemanha, um país de centenária tradição fiscalista. O indicador deve chegar a 64,1% do PIB em 2012, abaixo dos 65,1% do produto interno bruto estimados pelo Monitor Fiscal de abril. Para 2013, a redução da estimativa é de 1,9 ponto porcentual do PIB, o que faz com que caia de 63,1% para 61,2% do produto interno bruto. O FMI projeta uma rota de queda continua desse passivo do governo até 2017, quando deverá atingir 54% do produ
to interno bruto.

No caso da economia alemã, contudo, ocorreram altas das estimativas realizadas pelo Fundo para a dívida bruta. Para este ano, a projeção de abril era de 78,8% do PIB, mas agora subiu para 83,0% do produto interno bruto. Em 2013, o governo de Angela Merkel deverá ter que administrar uma dívida pública cerca de 20 pontos porcentuais do PIB maior do que apurado pelo Brasil. As estimativas do FMI apontam que tal indicador deve subir de 77,1% para 81,5% do PIB no ano que vem.

Hipóteses

O FMI não explica em detalhes no Monitor Fiscal porque as contas do Brasil devem continuar apresentando um desempenho positivo nos próximos anos. Mas algumas hipóteses podem ser ponderadas. Uma delas é a geração constante de um nível expressivo de superávit primário de uma década para cá, o que contou com a colaboração de uma taxa média de crescimento do PIB muito próxima de 4% entre 2003 e 2010. De um ano para cá, no entanto, o produto interno bruto registra resultados fracos, mas a redução dos juros em 5 pontos porcentuais desde agosto de 2011 ajuda bem a diminuir o pagamento do serviço financeiro da dívida pública, dado que uma boa parte dela ainda está vinculada à variação da taxa Selic, como as Letras do Tesouro Nacional. Este tipo de papel já foi responsável por cerca de um terço do passivo mobiliário do Poder Executivo, mas deve fechar este ano numa marca ao redor de 24% do total.

Solvência

No caso da dívida pública líquida, a trajetória declinante também é mantida nos próximos seis anos, ressaltam as projeções do FMI. Para 2012, a estimativa é de atingir 36,4% do PIB, número que deverá cair para 32% do produto interno bruto em 2013, continuando em redução até 2017, quando chegará a 26,6% do PIB. De acordo com o Fundo, o Brasil alcançará a psicológica marca de 30,1% do PIB deste indicador em 2014, o que é visto por especialistas como um sinal de que o País estará em condições plenas de solvência.

Mas o Fundo Monetário Internacional assume as estimativas do governo para a geração do superávit primário até 2017. O FMI projeta uma poupança do Orçamento, sem gastos com juros, de 3,1% do PIB neste ano, de 3,4% do produto interno bruto em 2013, que deve atingir 3,2% do PIB em 2014. De 2015 a 2017, o FMI prevê que seria registrado um número equivalente a 3,1% do produto interno bruto a cada ano.

“Os objetivos de superávit primário das autoridades devem ser alcançados neste ano devido a ajustadores de despesa de capital”, afirma o Fundo, sem informar quais seriam tais ‘ajustadores’. “Indo para frente, as autoridades (do governo) continuam a focalizar a meta de 3,1% do PIB de superávit primário”, destaca o Monitor Fiscal.

“No Brasil, a redução das receitas motivada pela desaceleração da atividade da economia e o impacto dos incentivos fiscais estão sendo compensados em parte por receitas (extraordinárias), e maiores dividendos vindos de empresas estatais”, ponderou o Fundo.

 

É fato que a crise se acentuou em todo o mundo, aprofundando as mazelas e tornando mais complicada a sua saída, no entanto, o Brasil, vai navegando firme, no meio das águas turvas. Claro que o país acaba pagando um peso maior pelos eventos externos, mas, nos parece, que internamente procura se ajustar, sem punir o povo e os trabalhadores, em contraste ao que  acontece na Europa, em particular Espanha, Itália, Portugal, Grécia, que aceitaram os planos da troika (FMI, UE e BCE) e tiram a pele do seu povo.

 

Crise 2.0: Obama x Romney

 

Romney e Obama lado a lado, há diferenças? (Foto: Reuters)

Como fizemos nas eleições francesas, espanholas e gregas, acompanhamos o desenrolar delas, procurando aqui, na série sobre a Crise 2.0,  aprofundar as ideias e analisar as perspectivas de cada candidato, suas ideias e  propostas. Estamos iniciando a análise sobre as eleições dos EUA, justamente com o primeiro debate presidencial, que pôs frente a frente Obama x Romney, fiz um recorte geral dos pontos que achei mais intensos do embate.

 

Apenas com uma crise mundial com toda sua extensão é capaz de revelar as mazelas do sistema de produção capitalista, assim de forma cristalina, sem precisar de “traduções” ou de “interpretações” mais sofisticada. Acrescente a isto, um debate presidencial no coração do sistema, os EUA, as verdades se tornam mais cruas e diretas, é uma oportunidade única de efetivamente de se saber como estar a saúde do gigante, os presidenciáveis não podem dosar o remédio, tem que, pelo menos tentar, dizer as coisas como elas são.

 

Na Quarta, o primeiro debate, na Universidade do Colorado, em Denver,entre Barack Obama vs Mitt Romney foi um show, as questões da econômicas dominaram o debate e a lavagem de roupa sujas foi didática e instrutiva. Romney tentou se afastar do fantasma radical do Tea Party que acompanha o Partido Republicano, segurou seu ultraliberalismo, mas não consegue disfarçar para quem vai governar. Já Obama, busca se livrar da imagem de fracasso diante da crise, inflando números da gestão, mostrando se campeão de proteção da classe média. Aliás, a estrela da campanha e do debate é o afago à classe média, ou que eles denominam de americano médio.

 

Obama concede que os EUA têm 23 milhões de pessoas sem empregos, a despeito dos números oficiais apontarem 13 milhões (8,2% da PEA), uma significativa diferença entre os levantamentos. Então ele diz que criou 5 milhões de vagas, o que é negado pelos números que não chegam aos 2,8 milhões. Recentemente entrei no cadastro do Ministério do Trabalho dos EUA e lá tem a evolução do empregos dos últimos 10 anos, com detalhes impressionantes, segmentação de sexo, cor, raças e etnias, faixa etária e distribuição regional.

 

Mitt Romney aproveitou o número de desemprego e levantou a decadência da economia, lembrou dos 43 milhões de americanos que recebem os Food Stamps ( Bolsa Família), que aumentou em 10 milhões  nos últimos 5 anos, que Obama não agiu pelo emprego, pois aumentou impostos. Aqui um número para os brasileiros que acham que não há impostos nos EUA, a taxação é de 36% e será elevada aos 40%. Obama rebateu dizendo que fez uma devolução padrão para 98% dos americanos de 2600 dólares, que inclusive disse, podiam usar este dinheiro para comprar uma TV nova ou novo computador.

 

Romney atacou a questão dos impostos às empresas, a elevação da taxação para as maiores, Obama responde dizendo que as pequenas e médias empresas, 97%, tiveram diminuição de impostos. A tréplica de Romney é que estes 3% empregam 25% dos trabalhadores. Além disto, falou que a política fiscal levou ao fechamento de 122 pequenos bancos ou instituições de crédito do país. Obama disse que os bancos estavam falidos, porque tiveram comportamento irracional, que levaram à crise que o país vive.

 

Romney falo o déficit público tinha aumentando mais na gestão Obama do que os somados os 4 últimos presidentes juntos, que vai subir mais em  1 trilhão em janeiro com o fim do arranjo fiscal que se vence em dezembro e não foi reformado. Aqui o ponto alto de Obama, quando responde forma mais que forte: Vou lembrar aos eleitores que vocês ( Republicanos) fizeram duas guerras ( Afeganistão e Iraque) e pagaram com “Cartão de Crédito”, a fatura venceu no meu governo” , mais sinceridade, impossível. Claro que Obama manteve a máquina de guerra funcionando, mas o peso/custo se tornou inviável, nem serviu como saída para crise.

 

Sobre saúde e educação as diferenças são mais sensíveis, Romney é contra o SUS, quer fim do que ele denomina Obama Medical, que a só as empresas e livre concorrência resolve, Obama responde que os planos de saúdes se tornaram inviáveis ao americano médio, valores impagáveis, que o misto de ação estatal mais planos privados ajudaria mais do que simplesmente entregar às empresas privadas. Obama provocou Romney a defender o fim do “Obama Medical”, como faz seus assessores e partidários.

 

O que de mais importante, pelo menos para mim, é que Romney usa a mesma tática de Rajoy, se apresenta como o cara contra tudo que estar aí, sem plano de governo. Obama o provocou várias vezes a mostrar o seu “plano secreto”, pois aquele é o momento de se saber quem vai dirigir o país. Lembremos o que acontece na Espanha, eleito sem programa, Rajoy age como se não tivesse compromisso, aprofundando mais a derrocada. O que me parece, é que tanto Obama, quanto Romney representam o Novo Estado, o Estado Gotham City, apenas as nuance são diferentes. Aproveito estes debates para recolher mais informações e detalhes que não saem em jornais.

Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS

 

BRICS e o impasse para o Novo Estado (Foto: Saurabh Das / AP Photo)

Esta semana tenho me dedicado a fundamentar o conceito sobre o “Novo” Estado, o que vem sendo gestado na atual crise,  que também defini como Crise de ciclo longo, ou depressão, não apenas uma crise cíclica. De tal sorte, para este grau de crise, todos os elementos combinados de queima de Forças Produtivas mais remodelação do Estado se faz necessário. Quem nos ler aqui, na série sobre a Crise 2.0, sabe do esforço teórico de encadear os fatos e reproduzir de forma simples, dentro de uma lógica política bem definida.

 

A questão do Estado, ou o novo estado ou ainda o Estado Gotham City, é a afirmação política e econômica, do grande Capital diante da Crise, os artigos anteriores têm o seguinte objeto:

 

1) Definição geral do que é o Novo Estado, expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado e mais seis pequenos ensaios que dão sustentação a tese;

2) Desta definição passei a analisar os atores em luta, primeiro o comportamento do grande capital, em especial o capital financeiro, a fração burguesa que domina as ações do Capital, aqui escrito no artigo – Crise 2.0: Novo Estado e o Capital;

3) O segundo vetor são os novos movimentos de resistência ao Novo Estado, que surgiu durante a crise, movimento, na maioria das vezes de negação geral, sem apontar saída, vistos aqui – Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados;

4) Para fechar, esta série, dentro da série, trataremos das alternativas ao eixo central do capital (EUA, UE e Japão), surgida por iniciativa do Brasil, os BRICS, que se consolidou na atuação conjunta pós 2007, é este o objeto deste novo artigo;

 

Vou começar pelo fim, uma conclusão geral sobre a alternativa apresentada pelo  BRICS, ou melhor pelo Brasil, mais particularmente a política do PT. A afirmação é: O PT, o Brasil e por conseguinte os BRICS, não se opõem ao Novo Estado, não criam outro Estado, diferente, mas objetivamente atuam como “Empate”, algo como os serigueiros que não permitiam o corte das árvores na Amazônia. O que na prática significa um embaraço geral ao centro do Capital, pois eles entraram em crise juntos, mas já não podem usar do restante do planeta, como antes, para exportar sua crise, ou, mais precisamente, sua saída, o Novo Estado.

 

A questão ganha contornos dramáticos quando lemos que , segundo o FMI “a economia global leverá pelo menos dez anos para sair da crise financeira iniciada em 2008, afirmou o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard” (Agência de notícias Reuters). Ora, dez anos numa economia tão interligada pode gestar novos centros de poderes, se o centro não os dominar completamente, como é o caso da China, e numa perspectiva maior os BRICS. Mas o que têm feito este bloco diante da Crise? de que forma forma atingidos?

 

Do ponto de vista da economia, vejo diferenças grandes, no combate à Crise, como descrevi no artigo Crise 2.0: Como Combater a Crise? UE/EUA x BRICS , em que comparo as políticas traçadas pelos BRICS, este “bloco econômico, informal, denominado de BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), tem se caracterizado por buscar alternativas diferentes da optada pelos EUA e pela UE para combater a crise. Desde 2008 buscam mais integração comercial e principalmente enfrentar a crise de forma comum, com incentivo ao emprego, grandes obras públicas, fortalecimento do mercado interno e a alternativa de financiamento produtivo.

O ambiente geral é complicado, se em 2007/2008 os EUA caíram economicamente, mas a Zona do Euro se manteve, com um detalhe a mais, a Zona do Euro é a maior financiadora da China, cerca de 25% do investimentos gerais, 15% do Brasil. Com a Crise de 2011 houve um fechamento de torneiras dos financiamentos externos, tão essenciais a estes países, devido a baixa poupança interna. Além disto, as importações da UE da China caíram 7% em 2012. O mesmo se deve repetir com o Brasil.

Os BRICS têm sido aguerridos  e por mais que tenham sobrevivido a atual crise, não estão imunes, recentemente se reuniram na Índia, buscando uma maior convergência de ações e intercâmbio, para que possam, de forma mais efetiva, protegerem suas economias e manter o crescimento econômico dos últimos anos. As duas políticas acertadas neste recente encontro são: 1) No comércio entre os BRICS, usar as próprias moedas; 2) Criar um banco de investimento do grupo; São medidas que dinamizam o comércio entre estes países, pois em parte não se precisa usar Dólar/Euro nas transações. O banco comum ajuda na questão de financiamento, diminuindo a dependência e do humor do mercado mundial.

Mais ainda, os BRICS se unem contra a chuva de trilhões imposta pelos EUA(FED) e UE(BCE), mais duas QE ( emissão massiva de moedas) que incentiva a especulação com as moedas locais, impondo sua valorização, causando um desequilíbrio das contas e tornando os produtos destes países mais “baratos” diante da produção local. O fluxo de capital com caráter especulativo desarruma as contas públicas de países como o Brasil.

O quadro se agrava, mas tanto Brasil, como China se mexem de forma sólida, dão a dinâmica aos demais, a Índia enfrenta com mais dificuldades a crise. Esta última semana a China lançou mais um pacote, a exemplo do PAC, aqui do Brasil, lá, segundo a Reuters  ”A China aprovou mais de US$ 150 bilhões em 60 projetos de infraestrutura para estimular a economia diante do maior desaquecimento em três anos, o que aumenta as esperanças de que o motor do crescimento mundial talvez tenha uma melhora a partir do quarto trimestre. Ações e futuros de aço saltaram diante do plano – um dos mais ambiciosos que a China revelou neste ano – de construir estradas, portos e pistas de aeroportos”.

A Saída apontada pelos BRICS é totalmente diferente das implementadas nos EUA e UE, mostrando que há sim, alternativas para combater a crise. O que falta na Europa, principalmente nos países mais afetados pela crise, são forças políticas para seguir este modelo, romper com o Euro e a Troika”.

 

Do ponto de vista do Estado, a China usa de conceitos de economia estatal centralizada, combinando com mercado e empresas privadas, o Estado é definidor de suas ações, uma ampla e competente burocracia vai levando o gigantesco barco, com mais de 1, 4 bilhões de habitantes, sinceramente não sei que outra for
mação política daria conta de tanta gente e tantas contradições. Os elementos da democracia, tal qual conhecemos no ocidente, dificilmente encontraremos no oriente, isto vale para China, Coréia do Sul ou Japão, são regimes muito específicos, mas que a democracia, na forma ocidental, sirva como parâmetro. O Novo Estado se faz presente pela Força e repressão, quando exército e forças de seguranças, usa de violência, para que os trabalhadores cumpram os contratos fabris de forma aviltante.

 

Índia com seu regime de castas, desigual, com divisão religiosa potencialmente explosiva e os seus mais de 1 bilhão de habitantes, está sendo gerido por uma nova elite política e intelectual que tentar dar uma unidade política a um país gigantesco que não parece disposto a assumir valores ocidentais, como seus. A entrada de grandes empresas dinamizou a economia do país, mas o atraso histórico e a crise começam a minar seu crescimento. A Rússia, com seu poder energético e uma frágil democracia, dominado por uma ex-burocratas da antiga URSS, que, durante o processo de privatização ficaram bilionários, mas vivem das lutas autoritárias entre eles pelo controle do Estado e as riquezas ainda geridas por ele. Parte do Novo Estado se afirmou na Rússia, mesmo fazendo parte dos BRICS, o Estado é claramente o identificado com o Centro do Capital, até no modelo do grupo de elite que o gere.

 

O Brasil foi extremamente penalizado nos anos 80, devido a crise da dívida, só efetivamente se readequando na gestão Itamar, quando lançou sua dolarização, uma moeda ancorada no Dólar, aquilo que era uma tática temporária virou ancora do poder. FHC, usando do prestígio da estabilidade conduziu uma série de desmontes do Estado, rumo ao Novo Estado, muitas características do que se propõe hoje, foi implementado no Brasil, sem grande resistência, os anos de hiperinflação, desarranjo econômico foi preponderante para baixa resistência.

 

Vários elementos estranhos ao ordenamento jurídico local, como as famigeradas agências, forma incorporados ao Estado, uma construção artificial do modelo dos EUA, diante de uma constituição de modelo europeu. Esta “ginástica”, sem mediação, levou ao esvaziamento do Estado, em particular no setor de Infraestrutura, como Energia, Estradas, Portos, Aeroportos e Comunicações. O que levou o Brasil, nas crises cíclicas, de 97, 98 e 99, a ficar sem política de Estado, redundando no apagão elétrico e na completa dependência do FMI.

 

Os governos Lula e Dilma houve uma readequação da atuação do Estado, mas sem mexer ou retomar o estado, não se opondo ao “Novo Estado. Os vários avanços econômicos no Brasil, de incorporação de amplas parcelas que viviam à margem da cidadania, sem emprego ou renda, ainda não se traduziu em avanços políticos, o nível de negociação para implementar qualquer mudança nos três poderes é extremamente lento, desgastante e que emperra o salto para frente do país.

 

O impasse é a marca deste período, a grande crise, talvez, tenha bloqueado uma politica mais afirmativa, de ruptura com o modelo FHC, do Novo Estado, isto em parte atrasa o Brasil, o  que nos parece de extrema urgência, só assim, pode-se efetivamente chegar em outro patamar de país e nação. O que foi feito nestes últimos 10 anos, não nos parece pouco, visto que, a pouco tempo, pensava-se em atrelar o Brasil ao EUA, como forma inexorável de vencermos nossas mazelas, com o PT se mostrou o contrário, isto é MUITO.

 

O Novo Estado, parece, se impor de forma desigual, no mundo, do lado dos BRICS houve bloqueio e empates, não a ruptura com a sua lógica.