Educação Começa em Casa

 

Pedro e Fátima: método simples e eficaz de educar - Liberdade e responsabilidade individual

Ontem, no dia dos professores, lembrei-me de uma longa tradição familiar na Educação ( À Dona Tereza, Minha Mestra ), que passa de geração em geração, numa sequência de minha avô(segunda esposa de meu avô), passando por minha mãe, irmãs, esposa e agora minha sobrinha. Parece um carma, uma missão, que, espero, também abraçarei, penso que ao me aposentar das coisas que faço hoje, vou dar aulas, uma coisa que sempre gostei, nem que seja em trabalho voluntário, nada muito formal.

 

Por conta deste post, relembrei alguns fatos da infância, de como fomos criados em casa. Somos cinco irmãos, um sexto morreu com 1 ano de idade. Minha mãe desde que se casou com meu pai, em 1963, trabalhava uma coisa não muito comum para época, mais ainda numa pequena cidade do interior do Ceará, aliás, meu pai era “mau” visto por “deixar” que ela trabalhasse. Lembro que quando minha mãe foi fazer curso superior, nos fins de semana, numa cidade maior, Sobral, meu pai ouviu mais bobagens, mas ele sempre dizia: Se vocês não confiam em suas mulheres, é problema de vocês.

 

Desta casa, que pai e mãe trabalhavam fora, vivíamos com nossas próprias responsabilidades, no começo dos anos 70, sem TV a perturbar, tínhamos nossas obrigações, a maior dela: Estudar. Desde cedo meu pai dizia que até o fim do ensino médio era responsabilidade dele nos manter, se fôssemos além aos estudos ele também assumiria, mas se não quiséssemos estudar, tinha que trabalhar. A regra era clara e simples. O que era muito bom, cada um tinha que assumir seus estudos, seus erros e acertos. Não me lembro da mamãe nos inquirindo sobre provas ou notas escolares, menos ainda sobre lições de casa, parecia que estava tudo dentro daquele “contrato”.

 

No geral, todos foram bem, sem que nossos pais tivessem preocupações maiores, nossas opções de vida, sempre esteve vinculada à aquela regra elementar: Estudar, estudar, se parar, trabalhar. Foram ensinamentos simples e exatos, sem traumas ou dramas de consciência, sem precisar consultar analistas ou psicólogos, a crueza ou a simplicidade prática dos meus pais, não deu espaço para revolta na época, nem depois. O que acabou sendo muito para todos nós, cada um deu suas cabeçadas, mas, aprendemos e relembramos do princípio fundamental.

 

Nossa geração, nascemos numa escadinha 64/65/67(Joaquim Arnobio que faleceu)/68/69 e 1972, viveu aqueles anos militares sem entender bem o que se passava no mundo, nos anos 80 morando em Fortaleza, mudamos bastante nossas visões da vida. O contato com a realidade de uma cidade grande com as dificuldades, a luta por melhores condições de vida, emprego foi mudando um a um. A consciência social e de justiça ganhou corpo em cada um de nós, politicamente nos achando.

 

Daquele núcleo de vida espontânea, de responsabilidades individuais, a noção elementar que recebemos, mudou muito, é certo que em casa, com nossas famílias formadas, carregamos os ensinamentos, mas já com outras preocupações, de buscar saber o dia a dia na escola de nossos filhos, de acompanhar as notas e desempenho. Muitas vezes tenho a sensação que neste aspecto, mudamos para pior, passamos a tutelar demais a vida de nossas crianças, mas, entendo, que o mundo mudou demais.

 

As questões que ficam é se haveria espaço, hoje, para uma criação tão “liberal”? Ou os valores de classe média, cheia de culpas, nos feitos paranoicos? Fomos tão felizes naquela época, sem as pressões ou cobranças, alimentamos tantas expectativas de riqueza, realização profissional de nossos filhos que os estressamos mais do necessário. Isto tudo vale a pena? Estamos fazendo bem para eles?

Anúncios

À Dona Tereza, Minha Mestra

 

 

Em minha casa por coincidência da vida as mulheres viraram professoras. Começou com minha mãe, que desde muito jovem foi ser professora e era diretora de escola estadual, por longos anos, de 1963 até 1995, como cinco filhos, nos anos 70 voltou aos estudos e graduou-se em Letras e Pedagogia. Sempre foi nosso exemplo de dedicação e amor à Educação pública. D. Fátima era/é uma defensora intransigente da escola pública, dos seus alunos, da necessidade de se dedicar ao ensino, com amor e carinho.

 

Minhas irmãs, Hermínia, a mais velha e Luciete a mais jovem, trilharam o caminho da nossa mãe, fizeram Letras e Pedagogia, ambas trabalham em escolas públicas estaduais e municipais, com o mesmo afinco, seguem o exemplo de Dona Fátima. Luciete é diretora de escola infantil, com prêmios por alfabetizar crianças antes do ciclo básico. A irmã do meio, Benedita, fez Engenharia Elétrica, mas acabou passando num concurso para dar aulas na antiga Escola Técnica Federal, hoje Instituto Federal de Educação Superior(IFCE), fez mestrado ainda em Engenharia e, recentemente, terminou doutorado em Geografia. Por fim, Mara, minha esposa, dentista, também é professora, fez especialização e agora Mestrado, dá aulas em especializações de Odonto. Minha cunhada, Jaqueline Nobre, também é professora e diretora de escola municipal. Parece sina da família, um dia quem sabe não assuma uma sala de aula?

 

Dia do Professor em nossa família é uma festa, muita gente ensinando e principalmente aprendendo, ou seja, é um dia especial, mas minha homenagem, é para minha avó “torta”, a madrasta do meu pai, que foi minha professora, na quinta série do primeiro grau. A Dona Tereza era uma excelente e rígida professora de português, no começo tinha um certo medo, por ser quase minha avó, não podia decepcioná-la, muito menos achar que teria moleza. Era momento decisivo nos meus 10 anos de idade, precisava mostrar serviço. Foi um grande aprendizado, sem que ela jamais confundisse os sentimentos.

 

Muitos anos depois, reencontrei-a, agora em julho, ela com 80 anos, quase sem enxergar direito, a abracei e pude agradecer aquelas lições. Emocionada me elogiou, com palavras carinhosas, de como me dedicara, que tinha sido um aluno exemplar. Pode parecer estranho e, é, pois não a chamava de vó, apenas de de Dona Tereza, o que talvez tenha facilitado a relação na sala de aula. Como morávamos em cidade pequena, todos sabiam da relação de parentesco, mas ela tinha fama de dura e exigente, meu irmão mais velho penou mais com ela.

 

À minha querida professora, quase avó, meus sinceros agradecimentos neste dia tão cheio de significados.