Crise 2.0: Separatismo Espanhol

 

 

Rajoy, o desastrado Presidente Espanhol ( Foto: El País)

Nada parece estar tão ruim que não possa piorar, isto cabe como uma luva para Espanha, os dados mensais ou trimestrais sobre a economia do país vão se tornando cada vez mais críticos. Nestes últimos dias aqui, na série sobre a Crise 2.0, estou dedicando mais atenção a “mãe de todas as batalhas do Euro”( Crise 2.0:UE – do Amor ao Ódio e Crise 2.0: UE, O Grande Jogo!), a possível/provável queda integral da Espanha, se pedir o resgate, a perda do que sobrou de soberania, dará mais força aos que querem a ruptura do país.

 

Os dados de ontem , sobre a correção do Déficit público de 2011, que subiu de 8,5% para 9,4%, hoje se completam com a informação de que a queda do PIB  no 3º trimestre foi de 1,7%, ainda maior que do 2º Trimestre, que foi de 1,3% , com um agravante, o PIB comparado de 2011 é menor, então a queda é mais acentuada. Com este números divulgados pelo BC espanhol, ainda precisa ser confirmado pelo Governo, a trajetória ruim vai continuar, pois as políticas aplicadas, em particular pelo governo de Rajoy é de mais recessão.

 

A agência Down Jones publicou as explicações do BC para o aprofundamento da crise, é devido aos ” esforços para reduzir os gastos do setor público tiveram um efeito de contração (na economia) durante os meses do meio do ano”, afirmou o banco central. “Nós vemos quedas no consumo e nos investimentos em todos os níveis do governo acima dos vistos em trimestres anteriores”. Ou seja, mais recessão, que  gera mais crise, e se retroalimentam, o que , segundo o BC espanhol “não pode ser descartada a possibilidade de o governo não atingir a meta de déficit orçamentário deste ano, que é de 6,3% do PIB, em boa parte por causa de deficiências na receita fiscal”.

 

É um momento extremamente grave, com lideranças tradicionais, da Direita e Centro sem saída, as eleições nas províncias comprovam o declínio dos maiores partido, principalmente do PSOE, que paga um preço maior pela crise, mas atinge também o PP, nas regiões autônomas as forças pela soberania regional vai ganhando mais músculos. A próxima eleição na região mais rica e mais rebelde, a Catalunha, se confirmadas as projeções levará a uma encruzilhada final, com grande chance de uma ruptura e surgimento de um Estado Catalão.

 

A crise aprofundou as diferenças, o país à beira do caos, com alto risco de perder sua soberania para Troika, internamente com as regiões autônomas se rebelando, difícil enxergar uma saída negociada. Hoje, no Senado, Rajoy, fez um discurso apelando ao diálogo com Artur Mas, o líder Catalão, de que todos perderão em caso de ruptura. Mas, como sempre o ameaçou, “ou aceita o pacto fiscal ou arque com as consequência”. Rajoy, nos parece, um elefante numa loja de cristais, acaba falando de forma desastrada, o que acirra os ânimos, até quando, teoricamente, propôs o diálogo.

 

Os separatistas se animaram com o exemplo do Reino Unido que aceitou o novo referendo escocês, assim, a Catalunha que o seu próprio plebiscito, o Governo Central e os tribunais recusam peremptoriamente. São muitas frentes de embates, para um governo tão fraco, os efeitos da crise funcionam como bomba relógio, a qualquer momento explode, ou externamente, com o pedido de resgate, ou internamente com a separação de ricas províncias.

 

Acompanhemos!!.

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Crise 2.0: UE, O Grande Jogo!

 

Cristobal Montoro, Ministro Espanhol, Eurogrupos, más notícias. Foto: LUIS SEVILLANO El País

 

O clima azedo da cúpula da UE é apenas mais um capítulo da Crise que assola de forma drástica o velho continente, conforme estamos tratando aqui, na série sobre a Crise 2.0. O que parecia um vinho de primeira, a Zona do Euro, agora mais parece um vinagre de terceira, os conflitos cada vez piores, demonstram a incapacidade dos atuais líderes de ir em frente, no último post, Crise 2.0:UE – do Amor ao Ódio, vimos que a guerra Hollande x Merkel se acirrou, mais ainda porque a Alemanha está em processo eleitoral, e a Chanceler corre riscos se “amolecer”.

 

A resolução principal, foi jogar para o Eurogrupo uma decisão sobre a questão das dívidas, mas especificamente se a ajuda diretamente aos bancos, dos países em situação mais precária, sem onerar ainda mais as finança públicas destes países. O Eurogrupo, seu comitê executivo, via EuroStat, anunciou uma revisão dos números de 2011, em particular os da Espanha, tornando ainda mais sombria sua situação. O déficit público anunciado, já alarmante, 8,5% do PIB, na verdade foi pior, 9,4%, uma trágica coincidência, o mesmo da Grécia, só perdeu para o da Irlanda que foi de 13,4%. O motivo foi uma série de ajuda aos bancos e não pagamento de obrigações tanto do Governo Central como das províncias.

 

Os dados divulgados servem para pressionar o governo Rajoy, para que faça o pedido de resgate, pois as condições são completamente desfavoráveis. Entretanto, é preciso dizer que a situação geral é de déficit fiscal acima dos 3% estabelecido pela UE, dos 27 membros, nada menos que 17 estão com o mesmo problema, de Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal. Conta a favor da Espanha, que em 2011, a relação PIB x Dívida Pública era menor, por exemplo do que a da Alemanha ( 69,3% x 80,5%). Os dados gerais são: A Espanha ainda estava abaixo da média da UE (82,5%) eo euro (87,3%) e países como a Alemanha (80,5%) e França (86%) . Os países com maiores níveis de dívida pública em 2011 foram a Grécia (170,6% do PIB), Itália (120,7%), Portugal (108,1%), Irlanda (106,4%) e Bélgica (97,8 %). No outro extremo, mentira Estônia (6,1%), Bulgária (16,3%), Luxemburgo (18,3%), Romênia (33,4%), Suécia (38,4%) e Lituânia (38, 5%).

 

Os Dados de 2012, devido o resgate dos bancos espanhóis, que pela regra atual, entrará na conta do Governo Espanhol levando sua dívida pública a mais de 90% do PIB, tornando inviável uma reação de curto prazo. Este é o centro do problema, se o resgate for feito diretamente aos bancos, A Espanha ainda terá uma relação PIB x Dívida, abaixo do 80%, norma da UE, mas se não houver acordo, a dívida subirá a patamares inaceitáveis.  Malandramente, segundo o Estadão do dia 19 de Outubro: “Mas no mês passado a Alemanha, Holanda e Finlândia reabriram o acordo de junho, dizendo que precisava haver uma separação entre o “legado” de dívida tóxica –aquela que tem pesado por tempos sobre os bancos da Espanha e da Irlanda— dos futuros problemas no setor. A recapitalização direta por meio do ESM só seria possível para a agitação que houver quando a nova autoridade de supervisão estiver implementada, disseram os ministros das Finanças dos três países.

A chanceler alemã, Angela Merkel, pressionou em relação a esse ponto em uma cúpula da UE nesta sexta-feira.”Não haverá nenhuma recapitalização direta retroativa. Se a recapitalização for possível, só será possível para o futuro, então acho que quando o supervisor bancário estiver funcionando não teremos mais problemas com os bancos espanhóis. Pelo menos espero que não”, disse ela em entrevista à imprensa”.

 

O que no fundo se quer é jogar ao Estado Espanhol, irlandês ou grego o Lixo Tóxico, salvando não apenas parte da banca espanhola, no caso específico, mas principalmente os banqueiros alemães que têm ali enterrados mais de 20% de toda dívida do país. Um resgate seletivo, a parte boa já estaria capitalizada e a parte ruim, se tornaria crédito podre, que a Espanha, como Estado, assumiria o pagamento aos credores.  Assim se desvenda o por quê de Merkel se opor aos acordos, como típica representante da banca alemã ela luta por eles, pouco se importando o impacto no já sofrido povo espanhol.

 

A própria União Bancária e orçamento controla do esta no centro do embate de Merkel e Hollande,  “pois a chanceler alemã,  exigiu uma autoridade mais forte para a Comissão Europeia vetar orçamentos nacionais que violem as regras da UE, mas o presidente francês, François Hollande, disse que a questão não está na agenda, e a prioridade é avançar com uma união bancária europeia. Falando ao Parlamento alemão horas antes da cúpula, Merkel tentou desacelerar a corrida para criar um único supervisor bancário, afirmando que a qualidade é mais importante que a velocidade.

A Alemanha, relutante em ver seus bancos sob supervisão externa, insiste que uma supervisão europeia deve cobrir apenas grandes bancos estrangeiros e rejeita qualquer garantia de depósito conjunto que possa levar países mais ricos a ajudar os bancos em seus parceiros mais fracos” (Estado de S Paulo, 20/10/2012).

 

Nem há tanto mistério assim, muitas vezes apenas precisamos desembaralhar as cartas para entendermos quem tem a mão do jogo. Quem defende quem e o que.

Crise 2.0:UE – do Amor ao Ódio

 

A luta aberta nas ruas de Atenas, ontem, mais uma Greve Geral

 

Ao final de mais uma cúpula dos líderes da UE, se percebe o clima de derrota generalizado, uma reunião que delega à outra a decisão que esta não toma, por absoluta falta de acordo. Mais uma vez, tem sido assim, desde que Hollande assumiu a presidência da França, houve um duro e ácido debate entre Merkel e ele, com a Chanceler alemã impondo-lhe mais uma derrota. Quem nos acompanha aqui, na série sobre a Crise 2.0, já compreendeu o que tem de fundo neste embate entre os dois países. O artigo de ontem Crise 2.0: UE – De Cúpula em Cúpula, já apontava estas questões.

 

A Alemanha com seu poder econômico inconteste, esmaga as posições políticas contrárias, por mais que uma aliado dileto, a Espanha, esteja para explodir, Merkel permanece insensível ao que se passa no restante da UE. Age como se todos os países devem continuar a lhe prestar vassalagem, não como engrenagem de uma união política e econômica. Mais de uma dezena de artigos aqui já demonstrei como a Alemanha cresceu e se reposicionou graças a UE, que nos momentos mais complicados de sua unificação, lhe foi completamente solidária, mas que, agora, com seu poder recomposto, trata os demais parceiros como delinquentes e irresponsáveis.

 

Esquece a Alemanha que a UE lhe garantiu mercado cativo aos seus produtos, sem barreiras, além de franquear o controle de fluxo de capitais, tudo isto se deu graças a relação de União, princípio norteador da UE, mas que Merkel faz questão de pisotear, como sua viagem provocação à Grécia na semana passada, agindo como antigos imperadores romanos ia visitar suas “colônias”, apenas para lhes mandar um recado: Eu Mando. Os sátrapas locais agiram de forma violenta reprimindo os manifestantes, com polícia e ajuda dos neonazistas locais.

 

Ontem, em Bruxelas, não foi diferente, o duro embate Hollande x Merkel, sobre as bases de resgate espanhol, disfarçado de “União Bancária”, uma forma mais branda de lhe emprestar dinheiro do resgate, que era defendida por Hollande, foi rechaçada por Merkel. A proposta de união bancária foi jogada para 2014, uma sinalização que teremos mais 15 meses de mais tragédias locais. Esta claro, que não sobrará outro caminho à Espanha que não seja o do Resgate e a entrega do poder local para Troika. A resolução de ontem foi passar ao Eurogrupo (reunião do ministros da Economia da UE) a tarefa de coordenar os novos resgates e, inclusive, exigir mais garantias da Espanha.

 

Merkel usou de uma tática já conhecida, chega a reunião com uma posição extremada, era contra a União bancária, assim como era contra o EuroBônus, bate a reunião inteira, divide os que defendem as posições contrárias e no final repassa as decisões para órgãos que nada decidem. No caso do EuroBônus jogou para o BCE, nunca mais se voltou ao tema, o BCE usou a resolução e promoveu 3 QEs em 1 ano. Agora, no caso da união bancária, recairá para o Eurogrupo a decisão, o que parece não sairá do lugar. Esta dinâmica, mata politicamente a UE, pois acirram as diferenças e se torna claro quem manda, voltando, ao presente, os antigos ódios regionais.

 

Sobra, neste meio, figuras patéticas como Monti, o premier Biônico da Itália,  que aparentemente apazígua, intervindo no embate França x Alemanha, mas que no fundo apenas favorece a posição do mais forte, Alemanha. Este ganhar tempo, atinge de forma mais cruel a Espanha e Grécia, cujos governos locais estão falidos, dirigidos por capachos, mas que até na desonra geral, tentam manter alguma sobriedade. Ontem os gregos fizeram sua quinta greve geral em 2012, e os estudantes secundaristas ocuparam Madri, o caminho do desespero pela sobrevivência neste pequeno recorte de uma cena em Atenas, ontem:

“Anne Yannikou , uma advogada de 30 anos. O protesto tinha sido dissolvido, mas ainda havia tempo para mais prisões. Com sua jaqueta de algodão fino, Yannikou não é  a imagem típica de anarquistas atirando pedras. Mas, enquanto observava os últimos grupos se  enfrentando com a polícia, ponderou em voz alta: “Se apenas um pequeno grupo lutar não vai a lugar nenhum. Se todas as pessoas que vieram antes, e foi muito, muito mais do que o outro dia, enfrentar a polícia, se obtém melhores resultados. ” E onde levará os confrontos violentos? “Eu me considero uma pessoa educada, mas eu acho que não há mais violência. Tenho um filho e tive que ir morar com meu namorado. Mas a cada mês nós percebemos que não temos como subsistir. Estão roubando nossas vidas “, argumenta”. (El País, 19/10/2012)

 

Chocante e revoltante, bem-vindos ao Caos, uma típica criação mitológica grega, além da tragédia.

Crise 2.0: UE – De Cúpula em Cúpula

 

 

Rajoy e Merkel - Nem a Direita se entende mais - Foto: EFE

Mais uma reunião de cúpula da UE em Bruxelas e muitas expectativas sobre as velhas questões que se avolumam, é  a quarta reunião desde 2011, quando Grécia e Espanha entraram em espiral de queda. Por uma coincidência esta série sobre a crise, ganhou força justamente com os artigos sobre a reunião de Setembro do ano passado, aquela que Merkel e Sarkhozy demitiram Papandreou, o primeiro ministro grego e impuseram um capacho ligado ao Goldman Sachs, Papademos. Dali, o Crise 2.0, cresceu e vem acompanhando com mais interesses estes encontros.

 

Li vários jornais europeus sobre a reunião e, mais uma vez o El País, consegue colocar a questão no seu devido lugar, a matéria ” Cinco Chaves para reunião”, é um primor, desde o título até as matérias internas, com propriedade diz que o Resgate da Espanha é o centro do debate sendo ele uma e principal chave do Encontro de líderes. Vejamos o que dizem: “A UE, com seu exército de 15 mil eurocratas e lobistas que pululam em torno das instituições, deixou definitivamente ser chato em 9 de maio de 2010 e, em seguida, tornou-se o alvo dessa maldição chinesa: “Que você viva em tempos interessantes” . Naquele dia (e da noite) começou a primeiro das 25 de cúpula para salvar a zona do euro a partir de uma crise que começou como uma pedra no sapato-Grécia, 2,5% do PIB da zona euro, e foi ampliado para engolir a Irlanda , Portugal e Espanha, que já foram resgatados e pôr em perigo a zona do euro. O  XXVI Episódio XXVI desta  corrida para salvar o euro vem em meio a um oásis (ou uma miragem, vamos ver): os mercados estão calmos, por uma vez parece não querer mais problemas, e na reunião de Chefes de Estado e de Governo impor um impasse , um olhar longe esperando por você nas próximas semanas para esclarecer o futuro imediato da Grécia e do segundo resgate da Espanha, os dois grandes elefantes na sala, todo ver o mundo, mas ninguém quer falar”.

 

Didaticamente o jornal divide em 5 pontos as questões : 1 )  Espanha – Esperando Rajoy – os analistas acham que o segundo resgate será pedido ainda outubro, mas Rajoy tenta despistar, é o jogo de quem vai piscar primeiro: Troika ou Espanha;  2) Grécia – O rapto da Europa, a sorte da Grécia seria definida depois de mais um acordo coma Troika, dando mais uns anos para que ela se adapte às regras do déficit fiscal da UE; 3) A União Bancária – questão já discutida em Junho, mas sem um cronograma, lembro que Setembro de 2011 aprovaram a União Fiscal, que até agora não deu em nada; 4) O longo prazo, as relações internas da UE, com a mudança de liderança e o crescente isolamento da Alemanha, os riscos de uma ruptura no seio da burocracia; 5)  Paris x Berlim – decorre da questão anterior, com a chegada de Hollande houve um novo equilíbrio, mas Berlim passará por eleições no próximo ano, o que pode mudar mais uma vez.

 

A conclusão é melancólica do El País: “Na reunião de Junho, com a máxima tensão nos mercados parecia optar por uma conjugação de esforços e mutualização dos prejuízos. Mas depois ele voltou atrás, e na reunião de hoje tende a deixar as coisas como elas estão, com alterações mínimas além de deixar o BCE entra em cena. E a Espanha -Sempre a Espanha- tem que se desculpar e pedir o resgate, é claro”.

Greve Geral na Grécia contra Planos da Troika - Foto: El País

Parece claro que a questão da Espanha é que vai prevalecer, o FMI comunicou ontem que estava oferecendo ajuda para um resgate da Espanha e Itália, como forma de facilitar as negociações, o que enfureceu Monti. A lógica é explícita, depois da “queda” espanhola, a Itália entra em foco, o FMI apenas se anteciparia, mas ainda tem que vencer a resistência espanhola em pedir o resgate, pois Rajoy sabe o seu significado, o governo local passa a ser mera figura decorativa, a soberania acaba de vez, todo poder passar às mãos da Troika, assim como acontece em Portugal, Irlanda e Grécia.

 

O ambiente externo à cúpula é de tensão, na Espanha a greve de três dias, dos estudantes secundarista, hoje recebe a adesão dos pais aos protestos. Na terça próxima, 23 de Outubro, o #25S , convocou mais uma vez o cerco ao parlamento, pois entrará em votação o orçamento 2013, com mais cortes e ajustes indicados pela Troika no seu Plano de Austeridade. Na Grécia, também hoje, começa uma nova Greve Geral, a segunda contra o governo eleito em junho, em menos de mês. Ontem uma grande manifestação de Advogados e Médicos, em Atenas foi duramente reprimida.

 

E pensar que a bem pouco tempo diziam que a Luta de Classes tinha acabado…Sigamos!!!

Crise 2.0: UE – Fim da Classe Média?

 

 

A desigualdade cresce na Europa - foto STEVEN GOVERNO / GLOBAL IMAGENS

 

O esforço intelectual para escrever sobre a crise é imenso e, muitas vezes, penso ser maior do que minha capacidade de elaboração. Nos mais de 250 artigos aqui,na série sobre a Crise 2.0, busquei trabalhar algumas ideias e trazer aos que me leem um panorama mais amplo possível sobre os rumos da economia mundial. De certo que nem sempre consegui atingir o objetivo, mas tenho tentado. O que mais procuro é aproximar a analise da realidade concreta, mas, com certeza, viver longe da Europa, por exemplo, pode dificultar uma compreensão mais acurada do que se passa.

 

Procuro trabalhar com diversas fontes, as mais antagônicas e usar minha experiência para filtrar os exageros e no final opinar de forma mais precisa sobre os fenômenos analisados. Outro dia, conversando com um amigo sobre a questão da crise ele veio dizer que o Crise 2.0 estava exagerando, que a situação da Espanha não era tudo aquilo que vinha escrevendo, pois ele tinha amigos que lá moravam, não era tudo isto. Ouvi, como sempre faço, mas, por coincidência ao chegar em casa leio um email de um amigo que dizia o oposto, que a Espanha estava muito pior. Concluí, o caminho que trilhei está mais próximo da realidade, pois os extremos opostos não estão satisfeitos.

 

Hoje, o El País, o grande diário espanhol, traz um rico debate sobre o futuro da Europa, são entrevistas, artigos e matérias, com lideranças da Europa e do resto do mundo, um amplo painel de ideias, que deveria ser lido por todos os amigos que acompanham esta série. Há uma longa entrevista com François Hollande, Presidente da França, que chega a ser melancólica, em poucos meses de governo já se depara com índices altos de desaprovação, além de se ver preso à armadilha da Troika, a austeridade, política central imposta pela Alemanha de forma irresistível à toda UE.

 

Uma das matérias sobre o futuro da Europa traz a realidade cinco famílias de classe média na Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Itália, os países mais ricos da Europa, demonstrando o declínio do famoso padrão de vida europeu, que, segundo a matéria era sustentando pelo Estado Bem-Estar Social, com suas bases saídas da segunda guerra e moldado pelo Plano Marshall, que serviu de contraponto ao leste europeu. Com a queda da ex-URSS, muitos dos valores e funções deste modelo começaram a ser questionados, mas apenas com o advento da grande crise, efetivamente, será quebrado.

 

Segundo,os professores  Sara Baliña e José A. Herce, da Escuela de Finanzas Aplicadas AFI, afirmam que “quando a crise entrar em sua reta final, serão pouquíssimos os países que poderão exibir ou que terão mantido os padrões de vida que sua população tinha antes de 2008″. “É inquestionável que a combinação de alguns anos, os próximos, de crescimento econômico reduzido e desemprego elevado vai provocar uma alteração estrutural das pautas de comportamento e gastos das famílias”, escrevem os professores”. (A erosão da classe média – El País, via Estadão, 17/10/2012)

 

O relato das famílias é particularmente comovente, o caso de Luis e Hortensia, casal espanhol de 57 e 48 ano de idade, ambos desempregados, que veem seu padrão de vida minguar mês a mês com a poupança sendo gasta, vivem da aposentadoria proporcional de Luis, de cerca de 1400 Euros, que são divididos em 600 Euros para pagar a hipoteca do apartamento, 300 Euros para pagar empréstimos . Lhes sobram 500 Euros, que são administrados com cuidado, acabam de cortar Tv a cabo/Internet e telefone que consumia 90 Euros. Nas palavras de Luis: Eu trabalhava e morava com alguma confiança, mas tudo mudou”, diz ele. “Emocionalmente, você se sente muito mal. Ainda tenho um pouco de suco para dar, não acho que é só o que me aconteceu. Em 57 anos, eu não tenho nenhuma opção para encontrar trabalho” (El País , 17/10/2012).

 

Mesmo, a prospera Alemanha, sofre com a desigualdade, que embora não esteja enfrentando os problemas sociais mais terríveis de Espanha, Grécia ou Portugal, o clima já não é de otimismo, pois os dados apontam para uma realidade complexa, o aumento do fosso entre os super Ricos e os pobres, segundo o El País, “ A cada ano, o Federal Statistical Institute estabelece quantas pessoas estão em risco de cair na pobreza, isto é, quantas pessoas têm menos dinheiro do que a média da sociedade. Apesar do crescimento econômico, o número aumentou ligeiramente em 2011. 15,1% da população está enfrentando o problema da pobreza. Segundo a definição de peritos em estatística, no caso, uma família com uma pessoa, este problema começa a partir de uma receita líquida de menos de 848 € por mês. Na Alemanha, um em cada sete crianças com menos de 15 anos que vivem de ajuda social. Na ex-RDA, é de um em quatro, na capital, Berlim, um em cada três.

Na Alemanha, a pobreza e a riqueza são herdadas; concordam tanto os economistas e especialistas em educação. Portanto, o pesquisador de mercado de trabalho mais conhecido no país, Joachim Möller, lança a seguinte advertência: “Quando a frustração dos pobres torna-se o álcool, letargia e crime, toda a sociedade sofre. Isso é algo que vemos na América. ” Mas “milagre trabalho” do país parece estar ainda longe de atingir uma situação” (El País 17/10/2012).

 

Em nossos trabalhos, em particular sobre o  novo Estado, Estado Gotham City, já enfrentamos esta questão sobre o fim do Estado de Bem-Estar Social, seu desmonte e as consequência do empobrecimento, este estudo em quatro artigos:

1) Definição geral do que é o Novo Estado, expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado e mais seis pequenos ensaios que dão sustentação a tese;

2) Desta definição passei a analisar os atores em luta, primeiro o comportamento do grande capital, em especial o capital financeiro, a fração burguesa que domina as ações do Capital, aqui escrito no artigo – Crise 2.0: Novo Estado e o Capital;

3) O segundo vetor são os novos movimentos de resistência ao Novo Estado, que surgiu durante a crise, movimento, na maioria das vezes de negação geral, sem apontar saída, vistos aqui – Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados;

4)  E o terceiro vetor é sobre  Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS que tratamos das alternativas ao eixo central do capital (EUA, UE e Japão), surgida por iniciativa do Brasil, os BRICS, que se consolidou na atuação conjunta pós 2007;

 

A realidade começa a se tornar nua e crua aos antigos estados de bem-estar social, em poucos anos serão sombra do que foram, se nada for feito, é só questão de tempo.

Crise 2.0: Beco sem Saída?

 

 

Protesto na Grécia - Pelado, nu com a mão no Bolso - Foto: AP

Semana passada os ministros de Economia de todo o mundo se reuniram em Tóquio para debater as perspectivas do mundo em crise, não com olho no caos presente, mas o que nos reserva nos próximos anos. A Reunião conjunta do FMI e Banco Mundial foi precedida de um documento do FMI analisando as economias e realinhando as suas estimativas de 2012 e 2013. Aqui, na série sobre a Crise 2.0, repercutimos este estudo, em particular na questão sobre o Brasil, no post Crise 2.0: Avanços e Limites do Brasil, segundo FMI.

 

Agora, findada a reunião, vamos tentar olhar a questão mais geral, seguiremos os dados gerais do FMI e seu ajuste para baixo do crescimento dos dois anos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ora, os números são inequívocos de que, no começo de 2012, o FMI projetou uma realidade de crescimento e de saída da crise, que não se cumpriu, ao contrário, na maioria dos casos, piorou. As principais economia mundiais, os EUA e a UE estão em posições delicadas, no caso dos EUA, o baixo crescimento não garantiu um ciclo virtuoso, que projete uma janaela de crescimento mais amplo, o desemprego continua muito alto assim como os salários tiveram baixa recuperação.

 

A UE sofre várias crises simultâneas, as maiores e significativas são as da Espanha e Itália. Ambas terão mais dois anos duríssimos, mesmo com os cavalares ajustes fiscais, a situação apenas se tornou mais dramática, com o desemprego crescente, fuga de cérebro e desagregação social. Até mesmo França e Alemanha começa a sentir o peso da crise do sul, as projeções são de crescimento baixo, no caso alemão, e de próximo de Zero, no caso francês. As baixas perspectivas lançam uma onda de pessimismo geral, como bem observa Celso Ming, na coluna do 08 de Outubro:

“As novas projeções sobre o desempenho da economia global do Fundo Monetário Internacional (FMI) são bem mais pessimistas. Em vez de ceder, a crise tende a se aprofundar, sem sinais de reversão. Não se vê disposição política entre os dirigentes do mundo para resolver o principal problema: o excessivo endividamento dos países avançados – principalmente dos Estados Unidos e de praticamente toda a área do euro”.

 

As políticas econômicas, hoje, são determinadas pelos BC( FED, BCE e BoJ), que jogam juros ao limite da irresponsabilidade, agindo por conta própria, pela absoluta falta de líderes políticos com capacidade e disposição de pensar à frente, apontando para um novo acerto mundial, isto parece fora de questão, Ming observa que, exceto Brasil e BC Alemão não há críticas à política de emissão de moedas e juros:

“O FMI está entre as instituições globais que cobrem de elogios essa atitude até agora inusitada dos bancos centrais, como esforço consistente capaz de estancar o colapso econômico mundial.

Por motivos diferentes, as ortodoxas autoridades do Banco Central da Alemanha (Bundesbank) e as bem menos ortodoxas do governo brasileiro são as únicas que condenam sistematicamente essas políticas. Os alemães denunciam a disposição do BCE de agir como emprestador de última instância aos tesouros dos países da área do euro como fonte de problemas presentes (encorajamento a mais despesas irresponsáveis por parte dos governos) e futuros (sobretudo mais inflação).

Enquanto isso, a presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, denunciam essa política monetária expansionista como causadora de distúrbios cambiais. Tanto para a presidente como para o ministro, além de não tirar a economia mundial da encalacrada, esse jogo dos bancos centrais gera efeitos colaterais perversos”.

 

Parece-nos, mais uma vez que a crise perdurará por mais tempo no horizonte, alguns economistas falam que apenas em 2018 todos os ajustes teriam seus efeitos desejados e um novo ciclo se abriria, ou seja 14 anos de cris( 2005 a 2018).  Num último esforço, Celso Ming faz uma provocação, sobre as soluções parciais dos BCs:

“Outro jeito de analisar o mesmo fenômeno é ponderar que, embora não tenha removido o impasse central, a atuação dos grandes bancos centrais impediu um mergulho no imponderável. Também pode-se dizer que, em compensação, vem amortecendo o ajuste, agora sem prazo visível para se completar. Esse é o tipo do sempre adiado desfecho que o Fausto de Goethe condena quando adverte: “Melhor um fim com terror do que um terror sem fim”.

Com base nesse princípio, alguém ainda perguntará se um fim mais rápido da crise, ainda que mais doloroso, não seria melhor do que esse arrastar sem fim, mesmo que aparentemente menos dolorido. Nesse caso, a política dos grandes bancos centrais terá contribuído para o adiamento de uma solução”.

 

Ou seja, até um arguto analista burguês, percebe o tamanho da piaba, imaginem vocês do lado dos trabalhadores, o tamanho do rombo em suas vidas. É preciso lutar e mudar URGENTE!

Crise 2.0: Avanços e Limites do Brasil, segundo FMI

 

Reunião do FMI em Toquio (foto Claudia Sarmento - O Globo)

Quem apenar ler as manchetes dos jornais do Brasil, entra me pânico, afinal o FMI diz que o PIB brasileiro vai crescer “apenas” 1,5% em 2012. Parece regra geral da grande mídia local “assustar” e criar um clima de desespero geral, deixando para matérias internas alguma verdade, que inclusive negam a manchete principal. Quem nos acompanha aqui, na série sobre a Crise 2.0, sabe que temos que ir muito além das manchetes e das matérias, buscar formar um pensamento crítico e mais completo do acontece no mundo e os efeitos da enorme Crise.

 

O Estadão, talvez o único jornal brasileiro que realmente escreva com propriedade sobre a crise, mesmo com o viés ideológico diferente dos nossos, a despeito da flagrante contradição entre o que escrevem no caderno de economia e o de política, sempre o lemos e trazemos ao debate suas matéria e análises, que nos ajudam a entender a realidade geral. Agora, na reunião do FMI e BIRD em Tóquio, o jornal mandou um enviado para acompanhar e escrever sobre os debates dos ministros da economia mundial. Vejamos o que nos diz a matéria central, feita pelo repórter Ricardo Leopoldo:

“O Fundo Monetário Internacional (FMI) fez uma sensível redução da estimativa de crescimento do Brasil em 2012. A projeção passou de uma alta de 2,5%, feita recentemente em julho, para uma elevação de 1,5%, um pouco inferior à previsão do Banco Central, que há quase duas semanas passou para 1,6% sua estimativa. Tal desaceleração expressiva do País não foi sentida apenas na economia local, mas provocou impactos expressivos na América Latina, pois conforme o FMI foi responsável em grande medida pela perda de vigor da região, que registrou uma velocidade do PIB ao redor de 3% na primeira metade de 2012.

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Para a instituição, não foi somente o contágio da crise internacional, sobretudo a recessão na zona do euro, que fez com que o País desacelerasse tanto em tão pouco tempo. “A retomada do crescimento foi abaixo do esperado no Brasil – uma importante causa do desempenho regional mais fraco – devido a condições externas precárias e à transmissão mais lenta da distensão da política monetária desde agosto de 2011 como resultado do aumento da inadimplência, depois de muitos anos de rápida expansão do crédito”, apontou o FMI. A necessidade de aperto dos juros em 2011 pelo BC para conter a inflação e a adoção de medidas macroprudenciais naquele ano para reduzir a forte expansão de alguns segmentos de crédito também foram apontados pelo FMI como elementos que contribuíram para a maior desaceleração do PIB do País neste ano”.

 

O FMI, ainda alerta, segundo a matéria para os riscos : “Preços de imóveis elevados ou em ascensão ou o crescimento do peso da dívida para as famílias, especialmente no Brasil, requerem contínua vigilância pelos formuladores de políticas”, destacou. Segundo o FMI “o boom de consumo tem sido um grande componente do forte desempenho do crescimento” nos últimos anos, mas “a demanda doméstica e os investimentos continuam relativamente baixos”. “Reformas (estruturais) poderão colocar o foco de forma útil em desenvolvimentos adicionais no pilar das contribuições definidas do sistema de pensões, racionalização do sistema tributário e desenvolvimento de instrumentos financeiros de longo prazo.”

Para o FMI, essas reformas estruturais serão importantes para o País incrementar a oferta. De acordo com o Fundo, muitas economias da América Latina devem realizá-las para reforçar o PIB no médio prazo. “No Brasil, os gargalos de infraestrutura são uma restrição ao crescimento. As recentes (decisões do governo) de realizar concessões públicas ao setor privado para desenvolver a crítica infraestrutura de rodovias e ferrovias é um passo para frente bem vindo, mas o aumento do investimento público também é necessário.”

 

O Outro lado dos números

 

Entretanto, numa segunda matéria, o repórter traz as mais significativas constatações, de que o Brasil apresentou os números mais sólidos do fundamentos econômicos do que as maiores economias mundias. Esta  matéria é importante porque, em regra, a mídia ideologizada, procura esquecer, martelando apenas na “piora” do quadro, ou da inviabilidade do Governo petista, pois apenas se preocupa com a Ideologia, sem se importar com os demais aspectos, políticos, sociais e econômicos.

 

Leiamos o longo relato do enviando do Estadão:

Embora tenha registrado um desempenho do PIB abaixo do seu potencial em 2011, o que certamente também ocorrerá em 2012, o Brasil dá sinais de vigor das suas contas do Poder Executivo, ratificados pela avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI). O Monitor Fiscal divulgado nesta segunda-feira confirma que a dívida pública mantém a tendência cadente para os próximos anos, seja ela medida pelo conceito líquido, como prefere o governo, ou bruto como apreciam mais as agências internacionais de rating. Além disso, a trajetória do resultado nominal também é de queda. Os números estimados pelo FMI para o País mostram indicadores melhores do que os registrados por várias nações avançadas, entre elas os EUA, Japão, França e, em alguns casos, é mais favorável do que o apurado pela Alemanha.

De acordo com o FMI, as projeções do resultado nominal do Brasil ficaram entre as que apresentaram maior evolução em relação às estimativas realizadas pelo Fundo em abril deste ano. Na ocasião, a instituição previa que o déficit nominal de 2012 atingiria 2,3% do PIB, mas agora apresenta um resultado negativo de 2,1% do produto interno bruto. Para 2013, o avanço da projeção foi ainda mais expressivo, pois baixou de um déficit de 2,4% para 1,6% do PIB. Estes resultados são mais positivos do que a média mundial, de déficit de 4,2% e 3,5% do PIB para 2012 e para o ano seguinte, respectivamente. No caso dos EUA, as projeções são de 8,7% e 7,3% do PIB para o biênio, na zona do Euro atingem 3,3% e 2,6% do produto interno bruto, respectivamente, e na França variam de 4,7% e 3,5% do PIB. Os números nacionais são muito melhores que os estimados pelo FMI para o Japão, de 10% do produto interno bruto para 2012 e 9,1% do PIB em 2013.

Alemanha

As projeções do FMI para a dívida bruta do governo são mais favoráveis do que as registradas pela Alemanha, um país de centenária tradição fiscalista. O indicador deve chegar a 64,1% do PIB em 2012, abaixo dos 65,1% do produto interno bruto estimados pelo Monitor Fiscal de abril. Para 2013, a redução da estimativa é de 1,9 ponto porcentual do PIB, o que faz com que caia de 63,1% para 61,2% do produto interno bruto. O FMI projeta uma rota de queda continua desse passivo do governo até 2017, quando deverá atingir 54% do produ
to interno bruto.

No caso da economia alemã, contudo, ocorreram altas das estimativas realizadas pelo Fundo para a dívida bruta. Para este ano, a projeção de abril era de 78,8% do PIB, mas agora subiu para 83,0% do produto interno bruto. Em 2013, o governo de Angela Merkel deverá ter que administrar uma dívida pública cerca de 20 pontos porcentuais do PIB maior do que apurado pelo Brasil. As estimativas do FMI apontam que tal indicador deve subir de 77,1% para 81,5% do PIB no ano que vem.

Hipóteses

O FMI não explica em detalhes no Monitor Fiscal porque as contas do Brasil devem continuar apresentando um desempenho positivo nos próximos anos. Mas algumas hipóteses podem ser ponderadas. Uma delas é a geração constante de um nível expressivo de superávit primário de uma década para cá, o que contou com a colaboração de uma taxa média de crescimento do PIB muito próxima de 4% entre 2003 e 2010. De um ano para cá, no entanto, o produto interno bruto registra resultados fracos, mas a redução dos juros em 5 pontos porcentuais desde agosto de 2011 ajuda bem a diminuir o pagamento do serviço financeiro da dívida pública, dado que uma boa parte dela ainda está vinculada à variação da taxa Selic, como as Letras do Tesouro Nacional. Este tipo de papel já foi responsável por cerca de um terço do passivo mobiliário do Poder Executivo, mas deve fechar este ano numa marca ao redor de 24% do total.

Solvência

No caso da dívida pública líquida, a trajetória declinante também é mantida nos próximos seis anos, ressaltam as projeções do FMI. Para 2012, a estimativa é de atingir 36,4% do PIB, número que deverá cair para 32% do produto interno bruto em 2013, continuando em redução até 2017, quando chegará a 26,6% do PIB. De acordo com o Fundo, o Brasil alcançará a psicológica marca de 30,1% do PIB deste indicador em 2014, o que é visto por especialistas como um sinal de que o País estará em condições plenas de solvência.

Mas o Fundo Monetário Internacional assume as estimativas do governo para a geração do superávit primário até 2017. O FMI projeta uma poupança do Orçamento, sem gastos com juros, de 3,1% do PIB neste ano, de 3,4% do produto interno bruto em 2013, que deve atingir 3,2% do PIB em 2014. De 2015 a 2017, o FMI prevê que seria registrado um número equivalente a 3,1% do produto interno bruto a cada ano.

“Os objetivos de superávit primário das autoridades devem ser alcançados neste ano devido a ajustadores de despesa de capital”, afirma o Fundo, sem informar quais seriam tais ‘ajustadores’. “Indo para frente, as autoridades (do governo) continuam a focalizar a meta de 3,1% do PIB de superávit primário”, destaca o Monitor Fiscal.

“No Brasil, a redução das receitas motivada pela desaceleração da atividade da economia e o impacto dos incentivos fiscais estão sendo compensados em parte por receitas (extraordinárias), e maiores dividendos vindos de empresas estatais”, ponderou o Fundo.

 

É fato que a crise se acentuou em todo o mundo, aprofundando as mazelas e tornando mais complicada a sua saída, no entanto, o Brasil, vai navegando firme, no meio das águas turvas. Claro que o país acaba pagando um peso maior pelos eventos externos, mas, nos parece, que internamente procura se ajustar, sem punir o povo e os trabalhadores, em contraste ao que  acontece na Europa, em particular Espanha, Itália, Portugal, Grécia, que aceitaram os planos da troika (FMI, UE e BCE) e tiram a pele do seu povo.