Ilíada, Livro I

 

Cartaz da peça Ilíada,Livro I

 

Estava relendo o Livro I da Ilíada, inspirado pelo iogurte “Grego”, e dentro dos meus estudos e publicações sobre a Grécia e Homero( Homero – Um Roteiro ) .Voltei a mergulhar no mundo antigo, peguei o meu tradicional livro com tradução de Carlos Alberto Nunes, para Edições de Ouro, comecei a ler e depois comparar com a outra tradução do poeta maranhense Manoel Odorico Mendes. As diferenças são enormes, não apenas de forma, prosa e verso, mas do próprio conteúdo, escolhas e métodos de transcrever os versos gregos, mas a beleza e o deleite que provoca é imenso.

 

Confiram os versos iniciais do canto I da Ilíada em cada tradução:

 

Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles

A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,

Verdes no Orco lançou mil fortes almas,

Corpos de heróis a cães e abutres pasto:

Lei foi de Jove, em rixa ao discordarem

O de homens chefe e o Mirmidon divino

Nume há que os malquistasse?O que o Supremo

Teve em Latona.Infenso um letal morbo

No campo ateia; o povo perecia,

Só porque o rei desacatara a Crises.

Com ricos dons remir viera a filha

Aos alados baixéis, nas mãos o cetro

E a do certeiro Apolo ínfula sacra.

Ora e aos irmãos potentes mais se humilha:

“Atridas, vós Aqueus de fina greva,

Raso o muro Priâmeo, assim regresso

Vos dêem feliz do Olimpo os moradores!

Peço a minha Criseida, eis seu resgate;

Reverentes à prole do Tonante,

Ao Longe-vibrador, soltai-me a filha.”

(Tradução de Manoel Odorico Mendes)

 

Canta-me a cólera  – ó deusa!  – funesta de Aquiles Pelida, causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos inúmeros e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados e como pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio desde o princípio em que os dois, em discórdia, ficaram cindidos, o de Atreu filho, senhor de guerreiros, e Aquiles divino. Qual, dentre os deuses eternos, foi causa de que eles brigassem? O que de Zeus e de Leto nasceu, que, com o rei agastado, peste lançou destruidora no exército. O povo morria, por ter o Atrida Agamémnone a Crises, primeiro, ultrajado, o sacerdote. Este viera, até às céleres naus dos Aquivos, súplice, a filha reaver. Infinito resgate trazia, tendo nas mãos as insígnias de Apolo, frecheiro infalível, no cetro de ouro enroladas. Implora aos Aquivos presentes, sem exceção, mas mormente aos Atridas, que povos conduzem:

“Filhos de Atreu, e vós outros, Aquivos de grevas bem feitas, dêem-vos os deuses do Olimpo poderdes destruir as muralhas da alta cidade de Príamo, e, após, retomardes a casa. A minha filha cedei-me, aceitando resgate condigno, e a Febo Apolo, nascido de Zeus, reverentes mostrai-vos”

(Tradução de  Carlos Alberto Nunes)

 

Em anexo o Canto I completo, na respectivas traduções

homero-iiiada Trad Carlos Alberto Nunes

ILÍADA-Canto-I-trad-Manoel-odorico-mendes

 

A versão integral e o estudo de Manoel Odorico Mendes

Ilíada – tradução Manoel Odorico Mendes

 

 

Procurando mais fontes na internet, encontrei um Blog IliadaHomero de um trabalho teatral no Paraná, apresentando o Canto I, um colosso, os versos são a da tradução de Odorico Mendes, o português usado é quase outra língua para os tempos atuais, mas a sonoridade é incrível.

 

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Não Olhe Para Trás

 

 

A frase continua martelando na minha cabeça: “Não olhe para trás”, o interdito imposto por Hades ao Herói Orfeu, conforme falamos no post Orfeu, de que ele vai sair do Infernum, desde que não se voltasse para trás, pois sua amada Eurídice, o seguia, mas não lhe era permitido desconfiar de estava atrás dele. Uma prova terrível, que era vencida com certa facilidade, mas a dúvida lhe assaltou, será que ela o seguia mesmo? Ele que enfrentara tantos riscos de ir até aquele lugar, o mundo das sombras, mas qual a certeza que Hades realmente lhe devolveu Eurídice. Já quase na saída, ele fraqueja e se volta.

 

A questão se torna maior, pois é o dilema terrível que nos persegue, o não olhar para trás, mais que a prova, a proibição que nos é imposta, para não ficarmos no eterno retorno de se voltar ao passado, preso à fatos ou momentos da vida, que na maioria das vezes não nos deixa a seguir em frente. Mesmo os problemas, cujas soluções não nos pareceu adequados, para o instante, não pode ter o peso de nos paralisar e continuar a viver, o desapego, ou melhor, o entendimento correto de que a vida em toda sua complexidade, segue, portanto o passado já não nos pertence, virou história, boa ou má.

 

A crueza da afirmação acima, é uma nota mental, hoje em especial, pois nesta data, um ano atrás perdi um sobrinho muito querido, com menos de 18 anos, uma tragédia terrível, um sofrimento atroz aos pais, aos familiares, uma violência que tornou menos doce nossas vidas(A vida segue, mas nem sempre). Recuando mais um ano, neste mesmo dia, a pequena Lelê, voltou a ser internada, tinha passado 75 dias, ficou 4 em casa e voltou a se internar por mais uma semana, o longo tratamento que ela se encontra, que caminha para seu final, assim esperamos ansiosos, no ensinou o valor de viver cada dia presente, com esperança de sempre um dia seguinte melhor.

 

Agora, as reflexões que fazemos, os nossos pesares, as dores que vivenciamos, o duro reconstruir e como nos readaptamos a cada situação, para manter fé na vida, nas pessoas, de que o dia de amanhã será melhor, não é simples, estas marcas estão na nossa pele, nos envelheceu, nos fez mais contidos, mais reticentes. Muitos valores tolos, se foram, o que é bom, mas o frescor de sonhos de uma primavera, já não é o mesmo. O tempo nos cura, ainda não sei se completamente, mas a sentença será sempre a mesma, com seu sentido psicológico e filosófico: Não olhe para trás.

 

 

 

Orfeu

 

 

Desde ontem venho pensando em voltar a tratar do mito de Orfeu, que falei de forma rápida, dentro de um contexto, quase incidental, no post Ciúme Mortal, sem entrar em maiores detalhes do complexo mitologema dele. A sua imensa paixão por Eurídice tantas vezes cantada, interpretada e recriada, prova da força e dimensão do mito, a imagem de sua cabeça, já sem o corpo, que fora despedaçado, ainda a repetir o nome de sua amada, que ecoa de um lado ao outro do rio Hebro, ficou na minha mente, nestes dias mais ainda, sem uma razão certa do por que.

 

Orfeu, filho de Calíope, a mais importante das nove musas, em enlace com rei Eagro, na muitas variações o rei é substituído por Apolo, o que seria seu pai mítico, em oposição ou complemento ao pai mortal. Logo Orfeu se identifica pelo lado materno com a música, o canto, pelo lado “paterno” com a lira e  a cítara, que se atribui a ele a introdução de mais duas cordas, totalizando as nove, em homenagens às musas. Seu enorme talento musical, tanto tocando instrumentos, como sua bela e suave voz, acalmava e enternecia os mais ferozes animais, a natureza parava para ouvi-lo, num transe único.

 

O herói trácio, teve longa iniciação nos mistérios, tendo vivido em várias partes do mundo, numa longa formação religiosa, que incluiu o Egito, que trouxe para Grécia a ideia da expiação das faltas e dos crimes,  o que no futuro, uma religião saída do judaísmo beberá da mesma fonte, além do conceito de vida eterna, imortalidade da alma, entre outras coisas, que o cristianismo absorveu do orfismo.  Orfeu fez parte da grande aventura dos argonautas( Jasão, Medéia e os Argonautas ), ao retornar dela, casou-se com sua metade da alma, a bela ninfa Eurídice. Um amor intenso e eterno, que teve sua convivência física abreviada quando o apicultor Aristeu tentou violar Eurídice, esta em fuga pisa numa serpente e é morta por sua picada.

 

Desesperado Orfeu, desce ao Hades, o mundo inferior, armado apenas com sua cítara e a bela voz, vai encantando a todos no infernum, os perigos cessam até que ele chega frente a frente com Plutão e Perséfones, que comovidos diante de tanto amor, permitem que ele leve sua esposa, mas com uma condição: Ele irá à frente sem poder olha para trás, só deve virar-se quando atingir o mundo dos vivos. Tomado pelo pavor de não ser seguido, assim como a esposa de Lot, ele olha para trás e verá sua esposa morrer pela segunda vez. Aqui está claro que se trata de um rito iniciático, uma catábase, uma descida, para cumprir um signo, conhecer a vida além da morte, que se completa com sua anábase, a subida, como o herói ainda não estava plenamente preparado ele olha para trás, atitude que o orfismo repudiará no futuro, pois ele tem o desprendimento total.

 

Como Junito nos ensina, há um longo significado do “olhar para trás”, mas precisamente  o tabu das direções,  como dos pontos cardeia, com simbologia tão rica, assim nos apresenta a questão o mestre: “O matriarcado sempre deu nítida preferência à esquerda: esta pertence à feminilidade passiva; a direita, à atividade masculina, já que a força está normalmente na mão direita e foi, através da força, da opressão, que a direita, o homem, execrou a esquerda, a mulher. O tabu dos canhotos sempre foi um fato consumado. Diga-se, aliás, de passagem, que um dos muitos epítetos do Diabo é Canhoto. A superioridade da esquerda estava, por isso mesmo, ligada ao matriarcado, entre outros motivos porque é a noite (oeste) que dá nascimento ao dia, lançando o sol de seu bojo, parindo-o diariamente. Daí, a cronologia entre os primitivos ser regulada pela noite, pela Lua; daí também o hábito, desde tempos imemoriais, da escolha da noite para travar batalha, para fazer reuniões, para proceder a julgamentos, para realizar determinados cultos, como os Mistérios de Elêusis e o solene autojulgamento dos reis da Atlântida”.. .

 

Donde dirá, ainda,  Junito:  “É assim que olhar para a frente é desvendar o futuro e possibilitar a revelação; para a direita é descobrir o bem, o progresso; para a esquerda é o encontro do mal, do caos, das trevas; para trás é o regresso ao passado, às hamartíai, às faltas, aos erros, é a renúncia ao espírito e à verdade.[…]Orfeu foi o homem que violou o interdito e ousou olhar o invisível. Olhando para trás e, por causa disso, perdendo Eurídice, o citaredo, ao regressar, não mais pôde tanger sua lira e sua voz divina não mais se ouviu. Perdendo Eurídice, o poeta da Trácia perdeu-se também, como indivíduo, como músico e como cantor. É que a harmonia se partiu”.

 

Como dissemos outrora sobre a morte de Orfeu, que ao perder Eurídice, ele se recusa a amar qualquer outra mulher, o que leva as  Mênades a despedaça-lo, o que também tem um profundo conteúdo iniciático, o jovem aprendiz é simbolicamente despedaçado, assim “renasce”, preparado para vida e uma nova jornada. Até a separação da cabeça, crânio também serve a este proposito, pois é nela que reside a psiquê, ou melhor o inconsciente, para os antigos a consciência morava no peito, precisamente no coração. Assim a alma, ter-se-ia liberada ao se separar corpo e cabeça, num rito único para os iniciados nos mistérios.

 

Derivado dos cultos à Orfeu uma rica coleção de ritos individuais, em oposição a religião estatal coletiva, dedicada a Apolo ( Apolo – O Exegeta Nacional), enquanto este prega o rito, quase sem fé uma união cívica, religião-estado-sociedade, com suas festas e tradições. No orfismo há uma valoração individual, nas ações terrenas que lhe garantirá um pós-morte digno de frequentar um patamar, que não a mansão dos mortos, uma escatologia, não vista no panteão grego. A purificação apolínea, de perdão ao homicídio, era uma continuidade do “bem viver”, enquanto a visão de purificar-se em Orfeu é pelo “bem morrer”. A superação cármica do destino traçado, mudando seu pós-vida.

 

Por fim o orfismo é muito comum confundido com o pitagorismo, isto se dá pelas semelhanças de alguns valores: Dualidade corpo-alma, crença na imortalidade da alma, punição do Hades(inferno, que os cristão absorveram) e prêmio do Paraíso(campos elísios, também na doutrina cristã). A necessidade de uma vida voltada a fazer o bem, para que o futuro seja agraciado com um lugar junto aos “eleitos”.  Mas a diferença se dará na forma de organização, as sociedade pitagoristas se reunião como seita, com conventos e ritos, muitos deles foram base para o cristianismo. A palavra do líder religioso era “lei”, não podia ser contestada.  Enquanto o orfismo era aberto, sem muita sofisticação, seus grêmios educacionais não impunham normas ou participação polític
a, o que no pitagorismo era fundamental, a intervenção na polis.

Asclépio – o Deus da Medicina

 

Estátua de Asclépio no museu do Teatro de Epidauro, Grécia

 

Ontem tratamos do Mito de Apolo, no nosso estudo publicado no post Apolo – O Exegeta Nacional, deliberadamente uma das facetas mais importantes do Deus Sol, sua relação com a medicina, cura,  a mântica. Apolo que como dissemos era médico excelente, exercia sua cura pela purificação. Mas a medicina terá, não em Apolo, sua divindade, sim em Asclépio( Esculápio para os latinos), o filho de Apolo com a mortal Corônis, desta trágica união nasce o mito, que foi herói-deus, pois era filho de mortal com um imortal.

 

Apaixonado por Corônis , Apolo a seduziu e a engravidou, mas a jovem temendo na velhice ser abandonada, pois o Deus permaneceria jovem e belo, o renega. Grávida, casa-se com Ísquis, com ódio, Apolo o mata, ao mesmo tempo pede a sua irmã gêmea, Ártemis que mate Corônis. Assim como no caso de Dionísio, que Zeus, fulmina Sêmele, mas retira o bebê antes de nascer, Apolo, faz o mesmo com e retira Asclépio do ventre materno, ela já morta. Leva-o para que o Centauro Quirão seja seu preceptor.

 

Asclépio cresce forte e aprende com Quirão as artes da cura, no Monte Pélion, onde vivia, sua fama se espalhou de que ressuscitava  os mortos. Asclépio se estabeleceu em Epidauro, local que seu pai,Apolo, Médico era cultuado. Em Epidauro, Asclépio criou uma verdadeira escola médica,  mesmo de caráter mágico, os avanços eram espantosos para época. Bem depois os descendentes do Deus, os Asclepíades, tornaram a arte da medicina em ciência, o mais famoso deles foi Hipócrates, o pai da medicina. São também filhos de Asclépio, Panacéia e Higia, a saúde.

 

Os templos de Epidauro, era consagrados ao Deus e ao Heróis, num deles,  tinha um grande labirinto, que segundo Junito de  Sousa Brandão  o  “Thólos (edifício abobadado, rotunda) de Epidauro, famoso por sua luxuriosa ornamentação e seu misterioso Labirinto. Neste, provavelmente, era “guardada” a serpente, réptil que tinha para os antigos o dom da adivinhação, por ser ctônia, e que simbolizava a vida que renasce e se renova ininterruptamente, pois, como é sabido, a serpente enrolada num bastão era o atributo do deus da medicina”.

 

No outro consagrado ao Deus, o Hieron, era onde se desenvolvia a técnica de cura de Asclépio, a Nooterapia,  a cura pela mente, A cura, primeiro era do médico, depois do paciente, se dava em limpar a mente, ter pensamento são. As curas incríveis era fruto de uma formulação mais filosófica, de profundo pensar, que se traduzia nas palavras grafadas no pórtico principal:

“Puro deve ser aquele que entra no Templo perfumado.

E pureza significa ter pensamentos sadios”

 

Esta técnica e formulação, nos explica Junito que “em épocas mais recuadas só havia cura total do corpo em Epidauro, quando primeiro se curava a mente. Em outros termos, só existia cura, quando havia metánoia, ou seja, transformação de sentimentos. Será que os Sacerdotes de Epidauro julgavam que as hamartíai (as faltas, os erros, as démesures) provocavam problemas que levavam ao “encucamento” e este agente mórbido, esta incubação “detonava” as doenças? De qualquer forma, a missão de cura em Epidauro era uma das missões, porque, basicamente, a cidade do deus-herói-Asclépio era um Centro espiritual e cultural. Dado que as causas das doenças eram principalmente mentais, o método terapêutico era essencialmente espiritual, daí a importância atribuída à nooterapia, que purifica e reforma psíquica e fisicamente o homem inteiro. Procurava-se, a todo custo, através do gnôthi s’autón (conhece-te a ti mesmo) que o homem “acordasse” para sua identidade real.

 

A genialidade grega, nos espanta até hoje, não importa o campo, como bem observa o mestre junguiano “as curas não eram efetuadas com medicamentos, mas tão-somente com o juízo e a intervenção divina, bem como com a insubstituível metánoia. Essas técnicas, os Sacerdotes de Asclépio, muito mais pensadores profundos que médicos, as conheciam muito bem, porque haviam feito um grande progresso no que tange à psicossomática e à nooterapia. Ao que parece, partiam eles do princípio de que a Harmonia e a Ordem divina exercem influência decisiva sobre a saúde psíquica e corporal. Recomendavam sempre aos doentes que “pensassem santamente”, por isso estavam convencidos de que, quando nossa consciência se mantém em estado de pureza e harmonia, o físico torna-se, necessariamente, são e equilibrado”.

 

Os avanço depois foram significativos em Epidauro, com a introdução de remédios obtidos nas plantas e ervas, além da cirurgias. Mesmo com a dominação dos romanos,  e a generalização do uso da Medicina, muito mais ainda por conta das guerras e feridos, houve a introdução de conceitos de higiene, hidroterapia, dietética, purgantes, mas o fundamental continuo sendo respeitada a fórmula : “Purifica tua mente e teu corpo estará curado”.

 

Do ponto de vista do mito, Asclépio foi temido, por suas ressurreições de mortos e temendo pelo desequilíbrio terreno, Zeus atende o pedido de Plutão, fulminando o médico. Sobreviveu a divindade e a Medicina.

 

 

Apolo – O Exegeta Nacional

 

Apolo e as Ninfas, de François Girardon (1666-73), na Gruta de Apolo, em Versalhes

 

Algumas vezes comecei a escrever sobre o Deus Apolo, mas sempre de forma inconclusa ou incompleta, pois o complexo mito precisa de um longo descrever, depois de Zeus, foi o deus mais influente na Grécia, assim como em Roma, um dos poucos deuses que mantém o mesmo “nome” nas duas mitologias. Em certa medida, sabemos muito de Apolo, sem o sabermos, pois a vasta inspiração deste deus levou ao apogeu da Grécia Antiga. Em rápidas palavras, Apolo foi: Engenheiro e Arquiteto, Escultor, Matemático, toda ciência exata, mas ao mesmo tempo médico, curadeiro, além de ser ele aquele que responde aos pedidos em Delfos sobre o futuro, mesmo que forma oblíqua, daí epiteto Lóxias (λοξός) .

 

Apolo reuniu em si vários deuses, suplantando-os ou absorvendo seus cultos, o Febo(luminoso),  que no começo será prateado, lunar, tornou-se maior, o Sol, tomando de Hélio, o antigo deus, para si a dividade da Luz, em todo seu esplendor.  Como bem observa Junito de Sousa brandão : “Apolo pós-homérico vai progressivamente reunindo elementos diversos, de origem nórdica, asiática, egéia e sobretudo helênica e, sob este último aspecto, conseguiu suplantar por completo a Hélio, o “Sol” propriamente dito. Fundindo, numa só pessoa e em seu mitologema, influências e funções tão diversificadas, o deus de Delfos tornou-se uma figura mítica deveras complicada. São tantos os seus atributos, que se tem a impressão de que Apolo é um amálgama de várias divindades, sintetizando num só deus um vasto complexo de oposições”.

 

E nos diz mais ainda, que o crescimento da dividade apolínea se deu porque “tal fato possivelmente explica, em terras gregas, como o futuro deus dos Oráculos substituiu e, às vezes, de maneira brutal, divindades locais pré-helênicas: na Beócia, suplantou, por exemplo, a Ptóos, que depois se tornou seu filho ou neto; em Tebas, particularmente, sepultou no olvido o culto do deus-rio Ismênio e, em Delfos, levou de vencida o dragão Píton. O deus-Sol, todavia, iluminado pelo espírito grego, conseguiu, se não superar, ao menos harmonizar tantas polaridades, canalizando-as para um ideal de cultura e sabedoria”.

 

Apolo, em grego Απόλλων(Apóllon), traz no nome, consoante Junito, várias explicações, como um corruptela do Dórico Ápella ou  Apellaí – Assembléia do Povo, que era como Esparta o via, um Guia, líder do povo. Rapidamente Apolo se torna o “Exegeta Nacional”. Filho de Zeus com Leto(Némesis), tem como gêmea Ártemis, ambos deuses caçadores. Porém, o deus, tem uma longa transformação, do seu mito original, quase como um “primeiro-ministro” de Zeus, tanto no Olimpo, como na Terra. Sua força em toda Grécia o fez ter mais de 200 epítetos, ou figurar nos mais diversos mitos e ações humanas.

 

Teremos Apolo defendendo Orestes, quando este mata Clitemnestra, sua mãe, cessando a lógica de que os crimes de sangue têm que ser vingados, refletida nas leis e proibições do legislador Sólon. Assim descreve Junito: “toda “mancha” produzida por um crime de morte era como que uma “nódoa maléfica, quase física”, que contaminava o génos inteiro. Matando e purificando-se, substituindo a morte do homicida pelo exílio ou por julgamentos e longos ritos catárticos, como foi o sucedido com Orestes, assassino de sua própria mãe, Apolo contribuiu muito para humanizar os hábitos antigos concernentes aos homicídios”[…]não menos importante do deus foi contribuir com sua autoridade para erradicar a velha lei do talião, isto é, a vingança de sangue pessoal, substituindo-a pela justiça dos tribunais. Buscando “desbarbarizar” velhos hábitos, as máximas do grandioso Templo Délfico pregam a sabedoria, o meio-termo, o equilíbrio, a moderação. O gnôthi s’autón, “conhece-te a ti mesmo” e o medèn ágan, “o nada em demasia” são um atestado bem nítido da influência ética e moderadora do deus Sol.

 

Mesmo não sendo deus da agricultura, ele protege as sementes e a lavoura. Deus dos pastores, em particular dos rebanhos de carneiros, contra os lobos, de onde vem um dos seus mais famosos epítetos, Lício( λύκος). Protetor dos campos, das cidades, mais especificamente das casas,  guardião de sua soleira. No mar protege os marinheiros, quando se transforma em Delfim.

 

Ele é médico, sendo pai de Asclépio, a quem deu a arte da cura, mas ia muito mais além, conforme Junito, “Médico infalível, o filho de Leto exerce sua arte bem além da integridade física, pois é ele um kátharsi (Kathársios), um purificador da alma, que a libera de suas nódoas. Mestre eficaz das expiações, mormente as relativas ao homicídio e a outros tipos de derramamento de sangue, o próprio deus submeteu-se a uma catarse no vale de Tempe, quando da morte de Píton”. Ainda na arte da cura, ele muitas vezes o faz através do “encantamento, da melopéia oracular, chamado, por isso mesmo, pai de Orfeu, que tivera com Calíope, Apolo foi transformado, desde o século VIII a.C, em mestre do canto, da música, da poesia e das Musas, com o título de Museguétes, “condutor das Musas”: as primeiras palavras do deus, ao nascer, diz o Hino homérico (Ap. I, 131-2) foram no sentido de reclamar “a lira e seu arco recurvado”, para revelar a todos os desígnios de Zeus”.

 

Sua enorme beleza, chamava a atenção, amou e foi amado por várias ninfas e mortais, mas nem sempre com felicidade,tendo longa prole e dissabores, mais uma vez recorremos ao grande Junito, para um painel amplo de suas relações:

“Com Talia foi pai dos Coribantes, demônios do cortejo de Dioniso; com Urânia gerou o músico Lino e com Calíope teve o músico, poeta e cantor insuperável, Orfeu. Seus amores com a ninfa Corônis, de que nascerá Asclépio, terminaram tragicamente para ambos, como se verá mais adiante: a ninfa será assassinada e o deus do Sol, por ter morto os Ciclopes, cujos raios eliminaram Asclépio, foi exilado em Feres, na corte do rei Admeto, a quem serviu como pastor, durante um ano. Com Marpessa, filha de Eveno e noiva do grande herói Idas, o deus igualmente não foi feliz. Apolo a desejava, mas o noivo a raptou num carro alado, presente de Posídon, levando-a para Messena, sua pátria. Lá, o deus e o mais forte e corajoso dos homens se defrontaram. Zeus interveio, separou os dois contendores e concedeu à filha de Eveno o privilégio de escolher aquele que desejasse. Marpessa, temendo que Apolo, eternamente jovem, a abandonasse na velhice, preferiu o mortal Idas.

Com a filha de Príamo, Cassandra, o fracasso ainda foi mais acentuado. Enamorado da jovem troiana, concedeu-lhe o dom da mantéia, da profecia, desde que a linda jovem se entregasse a ele. Recebido o poder de profetizar, Cassandra se negou a satisfazer-lhe os desejos. Não lhe podendo tirar o dom divinatório, Apolo cuspiu-lhe na boca e tirou-lhe a credibilidade: tudo que Cassandra diz
ia era verídico, mas ninguém dava crédito às suas palavras. Em Cólofon, o deus amou a adivinha Manto e fê-la mãe do grande adivinho Mopso, neto de Tirésias. Mopso, quando profeta do Oráculo de Apolo em Claros, competiu com outro grande mántis, o profeta Calcas. Saiu vencedor, e Calcas, envergonhado e, por despeito, se matou.

Pela bela ateniense Creúsa, filha de Erecteu, teve uma paixão violenta: violou-a numa gruta da Acrópole e tornou-a mãe de Íon, ancestral dos Jônios. Creúsa colocou o menino num cesto e o abandonou no mesmo local em que fora amada pelo deus. Íon foi levado a Delfos por Hermes e criado no Templo de Apolo. Creúsa, em seguida, desposou Xuto, mas, como não concebesse, visitou Delfos e tendo reencontrado o filho, foi mãe, um pouco mais tarde, de dois belos rebentos: Diomedes e Aqueu. Com Evadne teve Íamo, ancestral da célebre família sacerdotal dos Iâmidas de Olímpia. Castália, filha do rio Aquelôo, também lhe fugiu: perseguida por Apolo junto ao santuário de Delfos, atirou-se na fonte, que depois recebeu seu nome e que foi consagrada ao deus dos Oráculos. As águas de Castália davam inspiração poética e serviam para as purificações no templo de Delfos. Era dessa água que bebia a Pítia”.

 

Um dos mais interessantes aspectos do seu mito é como se apodera de Delfos, o centro do mundo, o umbigo(onfalo), local de poder da arte adivinhatória, o local que se cultuava Géia a deusa primeva, o matriarcado ali garantido pela guardiã do templo, uma dragão fêmea, Delfine. Depois transformada no dragão Píton, que na verdade era uma serpete, símbolo das forças ctônicas, das potencias telúricas, a terra primitiva de Géia, Apolo, a luz solar, a força Patriarcal, destrona as forças telúricas, das trevas.  Na magistral descrição de Junito, sobre o que seria o culto à Apolo em Delfos:

“Embora ainda se ignore a etimologia de Delfos, os gregos sempre a relacionaram com delphýs, útero, a cavidade misteriosa, para onde descia a Pítia, para tocar o omphalós, antes de responder às perguntas dos consulentes. Cavidade se diz em grego stómion, que significa tanto cavidade quanto vagina, daí ser o omphalós tão “carregado de sentido genital”. A descida ao útero de Delfos, à “cavidade”, onde profetizava a Pítia e o fato de a mesma tocar o omphalós, ali representado por uma pedra, configuravam, de per si, uma “união física” da sacerdotisa com Apolo. Para perpetuar a memória do triunfo de Apolo sobre Píton e para se ter o dragão in hono animo (e este é o sentido dos jogos fúnebres), celebravam-se lá nas alturas do Parnaso, de quatro em quatro anos, os Jogos Píticos” […] De qualquer forma, a presença do deus patriarcal no Parnaso, a partir da Época Geométrica, é confirmada pela substituição de estatuetas femininas em terracota por estatuetas masculinas em bronze”.

 

A conquista de Delfos, além da clara substituição do matriarcado em decadência, tem um caráter político mais amplo, será amplamente usado no sentido filosófico, que ultrapassa a questão religiosa, por ser oblíquo em suas respostas, cabe ao intérprete o seu melhor entendimento. Assim resume Junito: “De qualquer forma, “Os Oráculos” traduziam a vontade todo-poderosa de Delfos, porque, para todo o mundo grego, Apolo foi decididamente o árbitro e o garante da ortodoxia. Os oráculos délficos são conhecidos por textos literários, particularmente do historiador Heródoto (séc. V a.C.) e por inscrições. Algumas respostas de Lóxias, sobretudo as mais antigas, redigidas em hexâmetros datílicos, ficaram célebres por causa de seu sentido obscuro e ambíguo.

Sirva de exemplo a resposta do Oráculo ao famoso rei da Lídia, Creso (séc. VI a.C.), que, em guerra contra Ciro, rei da Pérsia, interrogou a Pítia a respeito da “destruição de um grande império”. A Pitonisa respondeu com absoluta precisão: Se Creso cruzar o rio Hális, destruirá um grande império. O império destruído não foi o de Ciro, como supunha Creso, mas seu próprio reino. O deus não mentiu, mas a resposta foi terrivelmente ambígua. A respeito dessa particularidade do Oráculo de Delfos, vale a pena mencionar o fr. 247 de Heráclito: “O deus soberano, cujo oráculo está em Delfos, nem revela, nem oculta coisa alguma, mas manifesta-se por sinais”. Ou seja: Apolo não esconde a verdade, apenas faz que se lhe compreenda a vontade“.

 

A grandiosidade  de Delfos é que servia de unidade nacional, mesmo as  dissenções internas , tinha no oráculo uma local de respeito e que todas cidades-estado se encontravam no respeito ao “espírito grego“. Platão, no seu livro República, explica quais os principais  os deveres de um verdadeiro legislador, primeiro peça ao deus  Apolo que os guie para criar as leis do Estado, porque “esse deus, exegeta nacional, intérprete tradicional da religião, se estabeleceu no centro e no umbigo da Terra, para guiar o gênero humano”.

Deuses Gregos e seus Casamentos

 

Zeus e Hera

 

Neste momento de reflexão, sobre os novos rumos, como descrito no post Qvo Vadis?, voltei aos estudos da Grécia, lembrei de uma dificuldade recorrente para que gosta do tema é a fragmentação, os vários mitos são tratados em variadas obras, ou apenas mencionados, que apenas com muito estudo se consegue uma visão mais ampla, neste blog, concentrei alguns estudos dos mitos gregos na Categoria: Mitologia. Relendo os vários artigos vejo que há enormes lacunas, normal, pelo pouco tempo do blog e das dificuldades naturais que o tema apresenta.

 

Seguindo o caminho do mestre Junito de Sousa Brandão, copiei, alguns resumos de uniões e casamentos dos deuses, dos seus maravilhosos livros : Mitologia Grega, em três volumes. Assim acredito que estes resumos, ajudem como fonte de consulta para uma visão mais geral dos Mitos, ou ainda, de como se relacionaram, deuses, heróis e mortais. As varias uniões e seus descendentes, mostram a estreita relação de uma religião viva, os seres mitológicos intimamente ligados ao “povo”. Junito basicamente condensa as lições de cosmogonia de Hesíodo, Homero e das contribuições de Ovídio, para traças estes “casamentos”.

 

1) A linhagem dos Deuses  – Úrano – Cronos – Zeus

 

De Úrano a Zeus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2) A importante descendência de Zeus – Leda – linhagem de heróis da guerra de Tróia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3) Linhagem de Posidon – Mares, Oceanos, e monstros


 

 

4)Linhagem  de Hélio – Sol, a Luz

 

 

Importante também publicar as divindades gregas e seus equivalentes latinos, muitas vezes, nos deparamos com a nomenclatura romana, até porque nossa língua é neolatina, além do fato de Roma ter dominado o mundo, seu império se impôs politicamente, militarmente, claro que culturalmente, mesmo que sua cosmogonia seja uma grosseira adaptação dos deuses gregos. A “tradução” não apenas roubou a força do mito, mas empobreceu, em muitos casos, o próprio mito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por fim Zeus, já muitas vezes resenhado por nós como no post: Zeus Pai: O Deus Estado, merece um destaque especial por ser o auge da cosmogonia grega, e sua uniões como nos lembra Junito, tinham caráter de consolidar em si todo o poder, quase que sugando a força dos outros mitos. Nas palavras de Junito: “Zeus consolidou seu poder, tornando-se o pai dos deuses e dos homens. Repartiu suas honras com os outros Imortais e iniciou seu reinado para sempre. Seus múltiplos casamentos refletem-lhe o poder de fecundação. Nova era se abre para Hesíodo: com Zeus está a Dique, a nova Justiça. E a Terceira e última Geração Divina: o estágio olímpico de Zeus (Teogonia – versos 886-964).

 

A lista de suas uniões divinas e com mortais:

 

A) Uniões com deusas

 

Zeus e Métis foram pais de Atená

Zeus e Têmis geraram as Horas e as Moîras

Zeus e Eurínome geraram as Cárites

Zeus e Deméter geraram Core ou Perséfone

Zeus e Mnemósina geraram as Musas

Zeus e Leto geraram Apoio e Ártemis

Zeus com sua “legítima” esposa Hera gerou Hebe, Ares, Ilítia (e Hefesto?)

 

B) União com mortais(antigas “divindades” que perderam status)

 

Zeus e Maia geraram Hermes

Zeus e Sêmele geraram Dioniso

Zeus e Alcmena geraram Héracles

Zeus e Dânae geraram Perseu

Zeus e Europa geraram
Minos, Sarpédon e Radamanto

Zeus e Io geraram Épafo

Zeus e Leda geraram Pólux e Helena, Castor e Clitemnestra.

 

Espero que assim ajude a ter por onde começar a pesquisar, buscando os mitos e suas relações diversas com outros mitos, suas tão grandiosas aventuras.

Crise 2.0: Grécia – A Vitória de Pirro

 

 

Samaras,líder da Direita( a cara do AgriPipino Maia) Foto - John Koledisis

No ano de 281 A.C, o Rei e General Grego Pirro, invadiu a Itália, com uma armada gigante formada por cerca de 25 mil homens, liderada diretamente por pelo Rei. Porém, no ano de 279 A.C., as tropas de Pirro invadem a região da Apúlia, travando uma longa batalha em Áscoli, que, embora vitorioso, o exército grego teve enormes baixas, a que Pirro prontamente falou: “Mais uma vitória como esta, e estou perdido.” O que  passou a ser conhecida como “Vitória de Pirro”, aquela em que a vitória, parece uma derrota, de tão custosa.

 

Acompanhamos neste último ano o desenrolar dos acontecimentos da Crise Mundial, aqui na série Crise 2.0, em particular na Europa, e nesta com especial carinho, o destino grego. As tragédias se sucederam nestes últimos dois anos ao país, uma queda vertiginosa, daquilo que nunca fora realmente forte, mas com a adesão ao Euro, parecia uma oportunidade de mudar o destino de um dos países mais pobres da Europa. Todos os esforços do povo grego para aderir ao Euro, foram jogados fora por uma elite corrupta e entreguista. Os bilhões de Euros que aportaram no país, boa parte foi desviado para uso privado e mesquinho.

 

Enquanto a farra do dinheiro fácil circulava na Zona do Euro, parecia que tudo ia bem, mas a Grécia já acumulava grandes déficits fiscais, alguns culpavam pela mal sucedida Olimpíadas, em que gastaram cerca de 15% do PIB do país,  em obras que nada mudou a economia ou a dinâmica de desenvolvimento. O custo altíssimo, as imensa corrupção levou rapidamente ao vermelho todas as finanças. A combinação de corrupção e ineficiência estatal, incapaz de cobrar impostos dos mais ricos, apenas o setor de construção naval, quase a metade da riqueza do país, é isento de impostos com norma constitucional que os protege.

 

Rapidamente, após o estouro da crise em 2008 na Zona do Euro, Grécia, a exemplo de Irlanda e Portugal, os três países mais pobres do acordo, faliram. A situação grega foi a pior de todas, até agora, em apenas 2 anos o PIB do país recuou 20%, a sua dívida pública quase que dobrou, atingindo mais de 160% do PIB. O desemprego saltou de 12 aos 22,6%, entre os jovens em mais de 50%. Ano passado em 8 meses 11% dos médicos saíram da Grécia. Em pouco mais de 1 ano se formou uma massa de sem teto em Atenas de mais de 50 mil pessoas. A fome e miséria virou rotina. Um empobrecimento ainda maior, retrocedeu o país ao pré-Euro.

 

Troika e Eleições

 

Em Setembro de 2011, a Alemanha, via Troika(FMI, BCE e UE), impôs ao povo grego um governo tecnocrata, liderado por PapaDEMos, por coincidência um dos homens que tinha feito o último swap de contas gregas junto ao Goldman Sachs, seus ex-patrões, que deu um prejuízo de mais de 300 milhões de Euros. A intervenção e monitoramento do dia a dia da vida da Grécia, apenas pioraram mais ainda as condições da Economia. 6 meses depois do Governo tecnocrata, as eleições aprofundaram a crise, com nenhum grupo conseguindo formar um governo.

 

Ontem as eleições suplementares deu vitória à Direita, para formar um governo pro-Euro, mas é a famosa vitória de Pirro, aqui de nome Samaras, seu partido obteve 29,6 % dos votos, contra 26,7 % da Esquerda radical Syriza, que prometia “romper com os pactos de resgate e suspender o pagamento das dívidas, cresceu de menos de 5% a 26,7%, tornando-se a segunda força política do país. A diferença entre Samaras e seu principal adversário, Alexis Tsipras, era no final da noite de ontem de pouco mais de 170 mil votos, entre 9,8 milhões de eleitores”.

 

A Alemanha sinaliza que pode rever uma parte do acordo: “após vitória da Nova Democracia, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, se recusou a usar o termo “renegociação”, mas admitiu que a União Europeia tende a aceitar a alteração de cláusulas do segundo plano de socorro. “Não podem ocorrer mudanças importantes nesse acordo, mas eu posso imaginar que rediscutamos as datas”. Westerwelle ressaltou, entretanto, que o país terá de fazer reformas estruturais de qualquer forma. “A Grécia deve se ater ao que foi acertado. Não há saída fora as reformas.”

 

Apesar do empenho de Angela Merkel, ameaçando diretamente se os gregos votassem em Alexis Tsipras, ele obteve um resultado estupendo, dando-lhe a chance de ficar com a segunda bancada no parlamento, ganhando mais forças diante de pacote tão desumano imposto aos gregos pela Troika, como bem observou “Vamos fazer uma oposição em benefício do povo grego. Em nenhuma hipótese vamos apoiar as medidas de austeridade. Elas não podem ir além”.

 

Na Grécia há uma cláusula eleitoral que o partido que ganha a maioria dos votos, nomeia 50 deputados a mais, uma coisa esdruxula, que elevou a participação da Direita de 79 cadeira ao 129, enquanto a Syriza ficou com 71 cadeiras, os “socialistas” caíram de mais de 100 cadeiras para 33.  A diferença é que agora os termos do acordo com a Troika não serão assinados por todos os parlamentares, como fizeram em outubro, por exigência da Alemanha, ou todos partidos assinavam o acordo ou não daria a ajuda, uma humilhação jamais vista, nem em rendição de guerra. Um parlamento que não aceita divergência.

 

O Estadão traz longa matéria que não demonstra tanto otimismo com a “vitória de Pirro”:  “O resultado oficial, quando confirmado, dará direito a Samaras de costurar a formação de um governo de coalizão, que deve ser integrado por Nova Democracia, Pasok, Esquerda Democrática e, possivelmente, Gregos Independentes. Os dois primeiros partidos são considerados “pró-austeridade”, por seu compromisso com os termos do programa de socorro de € 130 bilhões concedido pela União Europeia, pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Até a noite de ontem, as discussões sobre a formação de um governo de coalizão não tinham sido iniciadas oficialmente, o que deve ocorrer hoje, encerrando um impasse político iniciado em 6 de maio. Há só um problema: alguns líderes do Pasok condicionam a formação de um governo à participação do Syriza, hipótese excluída por Tsipras desde as últimas eleições fracassadas”.

 

Pobre Grécia, mas ao mesmo tempo heroica de resistir a tanto assédio. Acompanhemos.