Crise 2.0: UE – Fim da Classe Média?

 

 

A desigualdade cresce na Europa - foto STEVEN GOVERNO / GLOBAL IMAGENS

 

O esforço intelectual para escrever sobre a crise é imenso e, muitas vezes, penso ser maior do que minha capacidade de elaboração. Nos mais de 250 artigos aqui,na série sobre a Crise 2.0, busquei trabalhar algumas ideias e trazer aos que me leem um panorama mais amplo possível sobre os rumos da economia mundial. De certo que nem sempre consegui atingir o objetivo, mas tenho tentado. O que mais procuro é aproximar a analise da realidade concreta, mas, com certeza, viver longe da Europa, por exemplo, pode dificultar uma compreensão mais acurada do que se passa.

 

Procuro trabalhar com diversas fontes, as mais antagônicas e usar minha experiência para filtrar os exageros e no final opinar de forma mais precisa sobre os fenômenos analisados. Outro dia, conversando com um amigo sobre a questão da crise ele veio dizer que o Crise 2.0 estava exagerando, que a situação da Espanha não era tudo aquilo que vinha escrevendo, pois ele tinha amigos que lá moravam, não era tudo isto. Ouvi, como sempre faço, mas, por coincidência ao chegar em casa leio um email de um amigo que dizia o oposto, que a Espanha estava muito pior. Concluí, o caminho que trilhei está mais próximo da realidade, pois os extremos opostos não estão satisfeitos.

 

Hoje, o El País, o grande diário espanhol, traz um rico debate sobre o futuro da Europa, são entrevistas, artigos e matérias, com lideranças da Europa e do resto do mundo, um amplo painel de ideias, que deveria ser lido por todos os amigos que acompanham esta série. Há uma longa entrevista com François Hollande, Presidente da França, que chega a ser melancólica, em poucos meses de governo já se depara com índices altos de desaprovação, além de se ver preso à armadilha da Troika, a austeridade, política central imposta pela Alemanha de forma irresistível à toda UE.

 

Uma das matérias sobre o futuro da Europa traz a realidade cinco famílias de classe média na Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Itália, os países mais ricos da Europa, demonstrando o declínio do famoso padrão de vida europeu, que, segundo a matéria era sustentando pelo Estado Bem-Estar Social, com suas bases saídas da segunda guerra e moldado pelo Plano Marshall, que serviu de contraponto ao leste europeu. Com a queda da ex-URSS, muitos dos valores e funções deste modelo começaram a ser questionados, mas apenas com o advento da grande crise, efetivamente, será quebrado.

 

Segundo,os professores  Sara Baliña e José A. Herce, da Escuela de Finanzas Aplicadas AFI, afirmam que “quando a crise entrar em sua reta final, serão pouquíssimos os países que poderão exibir ou que terão mantido os padrões de vida que sua população tinha antes de 2008″. “É inquestionável que a combinação de alguns anos, os próximos, de crescimento econômico reduzido e desemprego elevado vai provocar uma alteração estrutural das pautas de comportamento e gastos das famílias”, escrevem os professores”. (A erosão da classe média – El País, via Estadão, 17/10/2012)

 

O relato das famílias é particularmente comovente, o caso de Luis e Hortensia, casal espanhol de 57 e 48 ano de idade, ambos desempregados, que veem seu padrão de vida minguar mês a mês com a poupança sendo gasta, vivem da aposentadoria proporcional de Luis, de cerca de 1400 Euros, que são divididos em 600 Euros para pagar a hipoteca do apartamento, 300 Euros para pagar empréstimos . Lhes sobram 500 Euros, que são administrados com cuidado, acabam de cortar Tv a cabo/Internet e telefone que consumia 90 Euros. Nas palavras de Luis: Eu trabalhava e morava com alguma confiança, mas tudo mudou”, diz ele. “Emocionalmente, você se sente muito mal. Ainda tenho um pouco de suco para dar, não acho que é só o que me aconteceu. Em 57 anos, eu não tenho nenhuma opção para encontrar trabalho” (El País , 17/10/2012).

 

Mesmo, a prospera Alemanha, sofre com a desigualdade, que embora não esteja enfrentando os problemas sociais mais terríveis de Espanha, Grécia ou Portugal, o clima já não é de otimismo, pois os dados apontam para uma realidade complexa, o aumento do fosso entre os super Ricos e os pobres, segundo o El País, “ A cada ano, o Federal Statistical Institute estabelece quantas pessoas estão em risco de cair na pobreza, isto é, quantas pessoas têm menos dinheiro do que a média da sociedade. Apesar do crescimento econômico, o número aumentou ligeiramente em 2011. 15,1% da população está enfrentando o problema da pobreza. Segundo a definição de peritos em estatística, no caso, uma família com uma pessoa, este problema começa a partir de uma receita líquida de menos de 848 € por mês. Na Alemanha, um em cada sete crianças com menos de 15 anos que vivem de ajuda social. Na ex-RDA, é de um em quatro, na capital, Berlim, um em cada três.

Na Alemanha, a pobreza e a riqueza são herdadas; concordam tanto os economistas e especialistas em educação. Portanto, o pesquisador de mercado de trabalho mais conhecido no país, Joachim Möller, lança a seguinte advertência: “Quando a frustração dos pobres torna-se o álcool, letargia e crime, toda a sociedade sofre. Isso é algo que vemos na América. ” Mas “milagre trabalho” do país parece estar ainda longe de atingir uma situação” (El País 17/10/2012).

 

Em nossos trabalhos, em particular sobre o  novo Estado, Estado Gotham City, já enfrentamos esta questão sobre o fim do Estado de Bem-Estar Social, seu desmonte e as consequência do empobrecimento, este estudo em quatro artigos:

1) Definição geral do que é o Novo Estado, expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado e mais seis pequenos ensaios que dão sustentação a tese;

2) Desta definição passei a analisar os atores em luta, primeiro o comportamento do grande capital, em especial o capital financeiro, a fração burguesa que domina as ações do Capital, aqui escrito no artigo – Crise 2.0: Novo Estado e o Capital;

3) O segundo vetor são os novos movimentos de resistência ao Novo Estado, que surgiu durante a crise, movimento, na maioria das vezes de negação geral, sem apontar saída, vistos aqui – Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados;

4)  E o terceiro vetor é sobre  Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS que tratamos das alternativas ao eixo central do capital (EUA, UE e Japão), surgida por iniciativa do Brasil, os BRICS, que se consolidou na atuação conjunta pós 2007;

 

A realidade começa a se tornar nua e crua aos antigos estados de bem-estar social, em poucos anos serão sombra do que foram, se nada for feito, é só questão de tempo.

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Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS

 

BRICS e o impasse para o Novo Estado (Foto: Saurabh Das / AP Photo)

Esta semana tenho me dedicado a fundamentar o conceito sobre o “Novo” Estado, o que vem sendo gestado na atual crise,  que também defini como Crise de ciclo longo, ou depressão, não apenas uma crise cíclica. De tal sorte, para este grau de crise, todos os elementos combinados de queima de Forças Produtivas mais remodelação do Estado se faz necessário. Quem nos ler aqui, na série sobre a Crise 2.0, sabe do esforço teórico de encadear os fatos e reproduzir de forma simples, dentro de uma lógica política bem definida.

 

A questão do Estado, ou o novo estado ou ainda o Estado Gotham City, é a afirmação política e econômica, do grande Capital diante da Crise, os artigos anteriores têm o seguinte objeto:

 

1) Definição geral do que é o Novo Estado, expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado e mais seis pequenos ensaios que dão sustentação a tese;

2) Desta definição passei a analisar os atores em luta, primeiro o comportamento do grande capital, em especial o capital financeiro, a fração burguesa que domina as ações do Capital, aqui escrito no artigo – Crise 2.0: Novo Estado e o Capital;

3) O segundo vetor são os novos movimentos de resistência ao Novo Estado, que surgiu durante a crise, movimento, na maioria das vezes de negação geral, sem apontar saída, vistos aqui – Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados;

4) Para fechar, esta série, dentro da série, trataremos das alternativas ao eixo central do capital (EUA, UE e Japão), surgida por iniciativa do Brasil, os BRICS, que se consolidou na atuação conjunta pós 2007, é este o objeto deste novo artigo;

 

Vou começar pelo fim, uma conclusão geral sobre a alternativa apresentada pelo  BRICS, ou melhor pelo Brasil, mais particularmente a política do PT. A afirmação é: O PT, o Brasil e por conseguinte os BRICS, não se opõem ao Novo Estado, não criam outro Estado, diferente, mas objetivamente atuam como “Empate”, algo como os serigueiros que não permitiam o corte das árvores na Amazônia. O que na prática significa um embaraço geral ao centro do Capital, pois eles entraram em crise juntos, mas já não podem usar do restante do planeta, como antes, para exportar sua crise, ou, mais precisamente, sua saída, o Novo Estado.

 

A questão ganha contornos dramáticos quando lemos que , segundo o FMI “a economia global leverá pelo menos dez anos para sair da crise financeira iniciada em 2008, afirmou o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard” (Agência de notícias Reuters). Ora, dez anos numa economia tão interligada pode gestar novos centros de poderes, se o centro não os dominar completamente, como é o caso da China, e numa perspectiva maior os BRICS. Mas o que têm feito este bloco diante da Crise? de que forma forma atingidos?

 

Do ponto de vista da economia, vejo diferenças grandes, no combate à Crise, como descrevi no artigo Crise 2.0: Como Combater a Crise? UE/EUA x BRICS , em que comparo as políticas traçadas pelos BRICS, este “bloco econômico, informal, denominado de BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), tem se caracterizado por buscar alternativas diferentes da optada pelos EUA e pela UE para combater a crise. Desde 2008 buscam mais integração comercial e principalmente enfrentar a crise de forma comum, com incentivo ao emprego, grandes obras públicas, fortalecimento do mercado interno e a alternativa de financiamento produtivo.

O ambiente geral é complicado, se em 2007/2008 os EUA caíram economicamente, mas a Zona do Euro se manteve, com um detalhe a mais, a Zona do Euro é a maior financiadora da China, cerca de 25% do investimentos gerais, 15% do Brasil. Com a Crise de 2011 houve um fechamento de torneiras dos financiamentos externos, tão essenciais a estes países, devido a baixa poupança interna. Além disto, as importações da UE da China caíram 7% em 2012. O mesmo se deve repetir com o Brasil.

Os BRICS têm sido aguerridos  e por mais que tenham sobrevivido a atual crise, não estão imunes, recentemente se reuniram na Índia, buscando uma maior convergência de ações e intercâmbio, para que possam, de forma mais efetiva, protegerem suas economias e manter o crescimento econômico dos últimos anos. As duas políticas acertadas neste recente encontro são: 1) No comércio entre os BRICS, usar as próprias moedas; 2) Criar um banco de investimento do grupo; São medidas que dinamizam o comércio entre estes países, pois em parte não se precisa usar Dólar/Euro nas transações. O banco comum ajuda na questão de financiamento, diminuindo a dependência e do humor do mercado mundial.

Mais ainda, os BRICS se unem contra a chuva de trilhões imposta pelos EUA(FED) e UE(BCE), mais duas QE ( emissão massiva de moedas) que incentiva a especulação com as moedas locais, impondo sua valorização, causando um desequilíbrio das contas e tornando os produtos destes países mais “baratos” diante da produção local. O fluxo de capital com caráter especulativo desarruma as contas públicas de países como o Brasil.

O quadro se agrava, mas tanto Brasil, como China se mexem de forma sólida, dão a dinâmica aos demais, a Índia enfrenta com mais dificuldades a crise. Esta última semana a China lançou mais um pacote, a exemplo do PAC, aqui do Brasil, lá, segundo a Reuters  ”A China aprovou mais de US$ 150 bilhões em 60 projetos de infraestrutura para estimular a economia diante do maior desaquecimento em três anos, o que aumenta as esperanças de que o motor do crescimento mundial talvez tenha uma melhora a partir do quarto trimestre. Ações e futuros de aço saltaram diante do plano – um dos mais ambiciosos que a China revelou neste ano – de construir estradas, portos e pistas de aeroportos”.

A Saída apontada pelos BRICS é totalmente diferente das implementadas nos EUA e UE, mostrando que há sim, alternativas para combater a crise. O que falta na Europa, principalmente nos países mais afetados pela crise, são forças políticas para seguir este modelo, romper com o Euro e a Troika”.

 

Do ponto de vista do Estado, a China usa de conceitos de economia estatal centralizada, combinando com mercado e empresas privadas, o Estado é definidor de suas ações, uma ampla e competente burocracia vai levando o gigantesco barco, com mais de 1, 4 bilhões de habitantes, sinceramente não sei que outra for
mação política daria conta de tanta gente e tantas contradições. Os elementos da democracia, tal qual conhecemos no ocidente, dificilmente encontraremos no oriente, isto vale para China, Coréia do Sul ou Japão, são regimes muito específicos, mas que a democracia, na forma ocidental, sirva como parâmetro. O Novo Estado se faz presente pela Força e repressão, quando exército e forças de seguranças, usa de violência, para que os trabalhadores cumpram os contratos fabris de forma aviltante.

 

Índia com seu regime de castas, desigual, com divisão religiosa potencialmente explosiva e os seus mais de 1 bilhão de habitantes, está sendo gerido por uma nova elite política e intelectual que tentar dar uma unidade política a um país gigantesco que não parece disposto a assumir valores ocidentais, como seus. A entrada de grandes empresas dinamizou a economia do país, mas o atraso histórico e a crise começam a minar seu crescimento. A Rússia, com seu poder energético e uma frágil democracia, dominado por uma ex-burocratas da antiga URSS, que, durante o processo de privatização ficaram bilionários, mas vivem das lutas autoritárias entre eles pelo controle do Estado e as riquezas ainda geridas por ele. Parte do Novo Estado se afirmou na Rússia, mesmo fazendo parte dos BRICS, o Estado é claramente o identificado com o Centro do Capital, até no modelo do grupo de elite que o gere.

 

O Brasil foi extremamente penalizado nos anos 80, devido a crise da dívida, só efetivamente se readequando na gestão Itamar, quando lançou sua dolarização, uma moeda ancorada no Dólar, aquilo que era uma tática temporária virou ancora do poder. FHC, usando do prestígio da estabilidade conduziu uma série de desmontes do Estado, rumo ao Novo Estado, muitas características do que se propõe hoje, foi implementado no Brasil, sem grande resistência, os anos de hiperinflação, desarranjo econômico foi preponderante para baixa resistência.

 

Vários elementos estranhos ao ordenamento jurídico local, como as famigeradas agências, forma incorporados ao Estado, uma construção artificial do modelo dos EUA, diante de uma constituição de modelo europeu. Esta “ginástica”, sem mediação, levou ao esvaziamento do Estado, em particular no setor de Infraestrutura, como Energia, Estradas, Portos, Aeroportos e Comunicações. O que levou o Brasil, nas crises cíclicas, de 97, 98 e 99, a ficar sem política de Estado, redundando no apagão elétrico e na completa dependência do FMI.

 

Os governos Lula e Dilma houve uma readequação da atuação do Estado, mas sem mexer ou retomar o estado, não se opondo ao “Novo Estado. Os vários avanços econômicos no Brasil, de incorporação de amplas parcelas que viviam à margem da cidadania, sem emprego ou renda, ainda não se traduziu em avanços políticos, o nível de negociação para implementar qualquer mudança nos três poderes é extremamente lento, desgastante e que emperra o salto para frente do país.

 

O impasse é a marca deste período, a grande crise, talvez, tenha bloqueado uma politica mais afirmativa, de ruptura com o modelo FHC, do Novo Estado, isto em parte atrasa o Brasil, o  que nos parece de extrema urgência, só assim, pode-se efetivamente chegar em outro patamar de país e nação. O que foi feito nestes últimos 10 anos, não nos parece pouco, visto que, a pouco tempo, pensava-se em atrelar o Brasil ao EUA, como forma inexorável de vencermos nossas mazelas, com o PT se mostrou o contrário, isto é MUITO.

 

O Novo Estado, parece, se impor de forma desigual, no mundo, do lado dos BRICS houve bloqueio e empates, não a ruptura com a sua lógica.

 

 

 

Crise 2.0: O Poder da Alemanha – Roteiro

 

Merkel - O Poder Alemão - foto Bild: 2012 Reuters/FABRIZIO BENSCH

Como temos feito com alguns temas ou subtemas que crescem, fazemos uma espécie de  roteiro que facilita o acompanhamento do assunto, trazendo os principais posts sobre ele. No caso da Alemanha, já passou da hora de uma visão mais completa que dê uma ideia global de como começa  seu poder e por que domina a Europa. Aqui, na série sobre a Crise 2. 0, tratamos muito sobre o país, mas espalhados por vários posts. Espero, agora, melhor localizar a questão, indicando uma sequência de artigos sobre a alemanha.

 

Por uma questão de metodologia vamos nos concentrar especificamente nos últimos governos da Alemanha, pois o salto histórico está justamente neles, para entender as questões de hoje, algumas pistas sobre como chegou aqui já pus em alguns textos, em particular as reformas de Gerhard Schröder.

 

A Alemanha vinha de uma custosa reunificação, mesmo sendo a principal economia europeia, a realidade mudara muito, o Estado estava imensamente endividado, pois era preciso tornar comum o padrão de vida aos dois lados, este era o maior desafio. Quando a direita perde a eleição para Gerhard Schröder e este leva o SPD, Social Democrata, a praticar um duríssima política neo-liberal, quadros históricos se afastam do partido.

As reformas implementadas por Schröder segue o receituário básico das políticas liberais: Reforma da Previdência, flexibilização do contrato de trabalho, privatizações. A destruição do Estado de Bem-Estar Social, com a chamada “Agenda 2010″ mudou radicalmente as relações de trabalho na Alemanha. A economia alemã baseada em forte incremento em tecnologia e mão de obra especializada, agora também “barata”. A resposta que teve nas urnas foi uma derrota para uma pouco expressiva Angela Merkel.

Merkel, oriunda da Ex-Alemanha Oriental, levada ao governo por Helmut Kohl ainda nos anos 90, rapidamente cresceu na direita alemã que fora abalada pelos escândalos de corrupção do antigo primeiro-ministro, por 7 anos se manteve na oposição até derrotar Gerhard Schröder. Com uma combinação de força externa e habilidade interna, Frau Merkel galvanizou as forças da Alemanha e se impôs na Zona do Euro.

 

Preparada e armada fortemente, aproveitando as condições da moeda única,os números fortes da Alemanha, são o contraponto aos decadentes de Itália ou Espanha, o superavit do país é de igual tamanho do déficit dos demais, ou seja, a transferência de riqueza e acumulação é feita na mesma proporção e vista a olhos nus. Quanto mais a Alemanha cresce, mais Itália, Espanha, Grécia ou Portugal caem. A França está no meio do caminho, ou no centro do “cabo de força”.

 

Rapidamente, a Alemanha aprofundou o fosso que a separa dos parceiros do sul, levando a uma distância grave, que só aumentou nos últimos 3 anos: “Não é apenas trabalhadores que desembarcam na Alemanha por conta da crise em seus países de origem. Nos últimos dois anos, o mercado alemão atraiu bilhões de euros. Temendo uma quebra de bancos ou mesmo a saída da Grécia da zona do euro, os investidores optaram por levar seu dinheiro para o local mais seguro da Europa. Empresários e banqueiros alemães comemoram. Desde 2009,  1 trilhão saiu dos bancos dos países do sul da Europa, seja por conta de correntistas em busca de um local seguro para suas economias ou por conta de investidores que buscavam novas oportunidades”.(Estadão, Maio de 2012)

 

O conjunto de artigos mostram a dimensão do poder alemão, como toda Europa virou refém deste poder, como o país se impõe duramente sobre os demais. Boa leitura.

 

  1. Poder Econômico e seus números

 

Crise 2. 0: Europa é Alemã!

Crise 2.0: Europa é Alemã II

Crise 2.0: Europa é Alemã III

Crise 2.0:UE cai, Alemanha sobe

Crise 2.0: Alemanha – Força e Limites do Capital

Crise 2.0: A Lógica do Capital by Alemanha

Crise 2.0: Alemanha deveria sair da Zona do Euro?

Crise 2.0: O (não)Mistério da Força Alemã

Crise 2.0: Alemanha, Esmaga a UE

 

2. Poder Político

 

 

Crise 2.0: Alemanha, o milagre para poucos

Crise 2.0: Merkel, a dona da Bola

Crise 2.0: Os Sátrapas

Crise 2.0: Europa sob jugo alemão

Crise 2.0: os novos vassalos

Crise 2.0: O risco Merkel

Crise 2.0: A Farsa das”Lições de Casa” Alemãs

Crise 2.0: Alemanha – Todos dizem Eu te Amo!

 

Crise 2.0: UE liderada por Medíocres

 

 

Líderes,com baixa liderança e carisma, dificultam saídas para Crise

As declarações de líderes políticos, empresários, sindicalistas, artistas vão compondo o retrato da atual crise, de vez em quando aqui, na série sobre a Crise 2.0, vamos tomando nota destas palavras, pois, ditas no calor da pressão, revelam muitas verdades, que, dificilmente, em épocas de “paz” seriam faladas. Com os líderes do sul “pobre” da Europa e de sangue quente, conseguimos captar um amargor maior ou muitas vezes mais “raiva” nas frases, nem que seja apenas para provocar efeito midiático, de uma indignação pública em contradição com a covardia e submissão nas reuniões privadas.

 

O Primeiro-Ministro “Biônico” da Itália, Mario Monti, que não é belo, se especializou em declarações fortes, de aparente indignação, tentando esconder seu fracasso completo e sua total fidelidade canina à troika, em especial à Alemanha. Diante de mais um número ruim da economia italiana, se saiu com esta frase: “Somente um idiota poderia pensar que reformas estruturais profundas não prejudicariam a demanda”. Tais palavras se voltam contra ele, pois, o mesmo Monti, disse neste ano que confiava que “as reformas não prejudicarão a Itália”.  O espaço entre as declarações foi pouco mais de dois meses.

 

Mas os melhores momentos de Monti, na reunião com os empresários do setor têxtil italiano foram quando reconheceu que não basta baixar o bônus da dívida dos países, pois a crise mesmo está ligada à competitividade: “Nós estamos enfrentando um diferencial na produtividade (em relação a outros países da zona do euro), não apenas um diferencial nos juros dos bônus”. Isto sim, é o centro do problema Sul-Norte, os países em crise são meros compradores da Alemanha e França, com indústria secundária e baixa produtividade. O fluxo de capital, com a moeda forte, deu a ilusão de riqueza comum, mas, na crise, ficou demonstrada a real diferença. No fim, ele ainda deu uma estocada nas grifes que usam Made In Itália, mas produzem na China, Tailândia, Malásia e outros: “Mas, embora a etiqueta ‘feito na Itália’ seja um motivo de orgulho, eu sonho em ouvir um dia sobre coisas que foram ‘legisladas na Itália’ e ‘implementadas na Itália”.

 

O Caso de Mariano Rajoy, Presidenta da Espanha, na prática primeiro-ministro, é mais patético, líder da ala extremista, religiosa, do Partido Popular (PP), o medíocre Rajoy viu cair no colo o poder, numa campanha em que não apresentou qualquer programa, apenas criticava o PSOE pela condução da crise. Ganhou ampla maioria no parlamento, principalmente pelo boicote dos indignados, foi a maior abstenção da democracia. Com as mãos livres, Rajoy se especializou em piorar o país. As reformas aprofundaram a crise de forma irresistível, mesmo assim Rajoy continua vivendo num mundo paralelo.

 

Suas declarações são de uma infelicidade e despreparo assustador, falando à TV sobre se pediria o resgate da dívida do país, disse: “Olharei para as condições. Eu não gostaria, e não poderia aceitar, que dissessem para mim quais seriam as políticas concretas sobre as quais deveríamos realizar cortes”. Como alguém que vai pedir ajuda, por falência completa e fica com mimimi? Quer enganar a quem? As condições são as mesmas de Irlanda, Portugal e Grécia, a Espanha perderam qualquer autonomia, viverá sob intervenção da troika, Rajoy e espanhóis, fora a arrogância, não têm nada de especial.

 

Monti chegou a propor uma cúpula para discutir medidas de combate ao crescente sentimento anti-Euro, por aí se percebe que com governantes assim, não pode haver esperança de que se saía com dignidade do atoleiro, refletem o clima geral de mediocridades que dirigem os países da Europa, exceto a esperta Merkel, os outros são terrivelmente ruins. Cabe aos trabalhadores buscar uma nova alternativa para seus países, conseguirão?

 

Crise 2.0: Como Combater a Crise? UE/EUA x BRICS

 

Manifestações na Grécia contra a Troika - Foto: Sotires Barbarousis (EFE)

A grande Crise que apavora o mundo desde 2008, como disse aqui, na série sobre a Crise 2.0, iniciada com a Superprodução de Capital, cujo pico se deu em meados de 2005 nos EUA, com a combinação de altos salários, baixo desemprego e mais alto preço dos imóveis. Fenômeno idêntico ao ocorrido na Europa, com seu ápice, em meados de 2007. Com a explosão “pública” dos bancos nos EUA e a da crise das dívidas na Europa, o mundo mudou radicalmente nos últimos 5 anos. Um novo ator emergiu neste cenário: Os BRICS.

 

 

O que fazem EUA e UE para combater a Crise?

 

 

As políticas tradicionais foram varridas, os 25 anos de domínio absoluto do EUA com o novo liberalismo (Neoliberalismo), ruiu definitivamente, uma série de medidas estatizantes foram tomadas para salvar banqueiros e empresas, a fina flor do pensamento anti-Estado, fazia fila na porta do FED e do Tesouro dos EUA, clamando por dinheiro. Nada menos de 5 trilhões de dólares de dinheiro público foi usado para salvar os bancos e as empresas no país. Toda a ideologia morreu. Mesmo com tudo isto, houve um aumento no número no clube dos bilionários, pois estes foram protegidos na crise.

 

Os efeitos nocivos da crise sobre os trabalhadores e sobre a classe média dos EUA, foi brutal, o desemprego alcançou 9,2%, antes 4,9%(2005), os imóveis sofreram uma desvalorização de mais de 35%, as famílias tiveram seus rendimentos médios decrescido em 40%. A pobreza avançou de forma generalizada, em setembro de 2011, 42 milhões de norte-americanos dependiam dos Food Stamps(uma espécie de Bolsa Família), cidades inteiras foram paralisadas, seus bairros mais pobres abandonados pelas administrações públicas falidas, explodiram em violência. As mazelas do modelo se tornaram expostas, em particular na saúde, totalmente privada, milhões de pessoas sem acesso.

 

Apenas em 2011, o PIB dos EUA, descontada a inflação, foi positivo, voltando ao patamar de 2005, ou seja 6 anos perdidos. Do outro lado do atlântico, quando estourou a crise nos EUA, parecia que o Euro iria ocupar o lugar histórico do Dólar, e que a UE seria a substituta natural do gigante americano. Ledo engano, o desastre americano, a intensa relação entre os gigantes, a integração dos bancos, levou o velho continente ao colapso, se bem que de forma desigual. O norte, rico, dominado pela Alemanha, que fez vampirismo do sul, pobre, não sentiu os efeitos totais da crise, mas viu seu mercado cativo cair.

 

Os “tigres” da Zona do Euro, Irlanda, Portugal e Espanha faliram, a problemática Grécia, ameaça sumir do mapa como economia, a política do Euro, levada a cabo pelos banqueiros Alemães e Franceses, de exportar capitais, com empréstimos infinitos a estes países, em troca da compra de mercadorias prontas do norte, que parecia enricar o sul, se tornou perniciosa. Os empréstimos massivos levaram a um endividamento dos Estados e das famílias, redundando numa crise muito similar à da dívida externa da América Latina, nos anos 80 (Crise 2.0: 30 anos da Crise das Dívidas da América Latina).

 

A ação de um novo organismo, formado por FMI, BCE e Comissão UE, conhecido como Troika, piorou de vez a situação do Sul Europeu. A influência da Alemanha sobre a Troika leva a pesadas imposições aos seus parceiros do sul, exigindo constantes sacrifícios, naquilo que se denomina Política de Austeridade, nada muito diferente do que o FMI impôs à América Latina nos anos 80. Estas políticas que visam economizar todo e qualquer gasto estatal, com cortes nos salários, funcionalismo, pensões, saúde e educação, leva ao povo e aos trabalhadores uma vida cheia de privações e miséria.

 

Os seguidos planos feitos para estes países, em particular os que pediram resgate (Irlanda, Portugal, Grécia e parcialmente Espanha), não conseguiu nenhuma melhoria da economia, ao contrário, os números apenas pioram, em particular na questão do desemprego explosivo em cada um deles. Mas, mesmo diante do fracasso, a ordem é exigir mais ajustes e cortes. Como os anunciados em Portugal na última sexta ( Crise 2.0: Portugal Castiga os Trabalhadores ) e os de França e Espanha ( Crise 2.0: UE – Mais Austeridade). Parece, que não sobrou outra política, a não ser, a do sofrimento extremo aos mais pobres. Com todos os cortes, sobrou dinheiro para salvar bancos e aumentar o orçamento do aparato repressivo na Espanha (30% a mais nos gastos em 2012).

 

 

O Que fazem os BRICS diante da Crise?

 

 

Diante das duas crises, que faz parte um mesmo movimento do Capital, a força que surge deste quadro é bloco econômico, informal, denominado de BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), tem se caracterizado por buscar alternativas diferentes da optada pelos EUA e pela UE para combater a crise. Desde 2008 buscam mais integração comercial e principalmente enfrentar a crise de forma comum, com incentivo ao emprego, grandes obras públicas, fortalecimento do mercado interno e a alternativa de financiamento produtivo.

 

O ambiente geral é complicado, se em 2007/2008 os EUA caíram economicamente, mas a Zona do Euro se manteve, com um detalhe a mais, a Zona do Euro é a maior financiadora da China, cerca de 25% do investimentos gerais, 15% do Brasil. Com a Crise de 2011 houve um fechamento de torneiras dos financiamentos externos, tão essenciais a estes países, devido a baixa poupança interna. Além disto, as importações da UE da China caíram 7% em 2012. O mesmo se deve repetir com o Brasil.

 

Os BRICS têm sido aguerridos  e por mais que tenham sobrevivido a atual crise, não estão imunes, recentemente se reuniram na Índia, buscando uma maior convergência de ações e intercâmbio, para que possam, de forma mais efetiva, protegerem suas economias e manter o crescimento econômico dos últimos anos. As duas políticas acertadas neste recente encontro são: 1) No comércio entre os BRICS, usar as próprias moedas; 2) Criar um banco de investimento do grupo; São medidas que dinamizam o comércio entre estes países, pois em parte não se precisa usar Dólar/Euro nas transações. O banco comum ajuda na questão de financiamento, diminuindo a dependência e do humor
do mercado mundial.

 

Mais ainda, os BRICS se unem contra a chuva de trilhões imposta pelos EUA(FED) e UE(BCE), mais duas QE ( emissão massiva de moedas) que incentiva a especulação com as moedas locais, impondo sua valorização, causando um desequilíbrio das contas e tornando os produtos destes países mais “baratos” diante da produção local. O fluxo de capital com caráter especulativo desarruma as contas públicas de países como o Brasil.

 

O quadro se agrava, mas tanto Brasil, como China se mexem de forma sólida, dão a dinâmica aos demais, a Índia enfrenta com mais dificuldades a crise. Esta última semana a China lançou mais um pacote, a exemplo do PAC, aqui do Brasil, lá, segundo a Reuters  “A China aprovou mais de US$ 150 bilhões em 60 projetos de infraestrutura para estimular a economia diante do maior desaquecimento em três anos, o que aumenta as esperanças de que o motor do crescimento mundial talvez tenha uma melhora a partir do quarto trimestre. Ações e futuros de aço saltaram diante do plano – um dos mais ambiciosos que a China revelou neste ano – de construir estradas, portos e pistas de aeroportos”.

 

A Saída apontada pelos BRICS é totalmente diferente das implementadas nos EUA e UE, mostrando que há sim, alternativas para combater a crise. O que falta na Europa, principalmente nos países mais afetados pela crise, são forças políticas para seguir este modelo, romper com o Euro e a Troika.