Crise 2.0: UE – Fim da Classe Média?

 

 

A desigualdade cresce na Europa - foto STEVEN GOVERNO / GLOBAL IMAGENS

 

O esforço intelectual para escrever sobre a crise é imenso e, muitas vezes, penso ser maior do que minha capacidade de elaboração. Nos mais de 250 artigos aqui,na série sobre a Crise 2.0, busquei trabalhar algumas ideias e trazer aos que me leem um panorama mais amplo possível sobre os rumos da economia mundial. De certo que nem sempre consegui atingir o objetivo, mas tenho tentado. O que mais procuro é aproximar a analise da realidade concreta, mas, com certeza, viver longe da Europa, por exemplo, pode dificultar uma compreensão mais acurada do que se passa.

 

Procuro trabalhar com diversas fontes, as mais antagônicas e usar minha experiência para filtrar os exageros e no final opinar de forma mais precisa sobre os fenômenos analisados. Outro dia, conversando com um amigo sobre a questão da crise ele veio dizer que o Crise 2.0 estava exagerando, que a situação da Espanha não era tudo aquilo que vinha escrevendo, pois ele tinha amigos que lá moravam, não era tudo isto. Ouvi, como sempre faço, mas, por coincidência ao chegar em casa leio um email de um amigo que dizia o oposto, que a Espanha estava muito pior. Concluí, o caminho que trilhei está mais próximo da realidade, pois os extremos opostos não estão satisfeitos.

 

Hoje, o El País, o grande diário espanhol, traz um rico debate sobre o futuro da Europa, são entrevistas, artigos e matérias, com lideranças da Europa e do resto do mundo, um amplo painel de ideias, que deveria ser lido por todos os amigos que acompanham esta série. Há uma longa entrevista com François Hollande, Presidente da França, que chega a ser melancólica, em poucos meses de governo já se depara com índices altos de desaprovação, além de se ver preso à armadilha da Troika, a austeridade, política central imposta pela Alemanha de forma irresistível à toda UE.

 

Uma das matérias sobre o futuro da Europa traz a realidade cinco famílias de classe média na Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Itália, os países mais ricos da Europa, demonstrando o declínio do famoso padrão de vida europeu, que, segundo a matéria era sustentando pelo Estado Bem-Estar Social, com suas bases saídas da segunda guerra e moldado pelo Plano Marshall, que serviu de contraponto ao leste europeu. Com a queda da ex-URSS, muitos dos valores e funções deste modelo começaram a ser questionados, mas apenas com o advento da grande crise, efetivamente, será quebrado.

 

Segundo,os professores  Sara Baliña e José A. Herce, da Escuela de Finanzas Aplicadas AFI, afirmam que “quando a crise entrar em sua reta final, serão pouquíssimos os países que poderão exibir ou que terão mantido os padrões de vida que sua população tinha antes de 2008″. “É inquestionável que a combinação de alguns anos, os próximos, de crescimento econômico reduzido e desemprego elevado vai provocar uma alteração estrutural das pautas de comportamento e gastos das famílias”, escrevem os professores”. (A erosão da classe média – El País, via Estadão, 17/10/2012)

 

O relato das famílias é particularmente comovente, o caso de Luis e Hortensia, casal espanhol de 57 e 48 ano de idade, ambos desempregados, que veem seu padrão de vida minguar mês a mês com a poupança sendo gasta, vivem da aposentadoria proporcional de Luis, de cerca de 1400 Euros, que são divididos em 600 Euros para pagar a hipoteca do apartamento, 300 Euros para pagar empréstimos . Lhes sobram 500 Euros, que são administrados com cuidado, acabam de cortar Tv a cabo/Internet e telefone que consumia 90 Euros. Nas palavras de Luis: Eu trabalhava e morava com alguma confiança, mas tudo mudou”, diz ele. “Emocionalmente, você se sente muito mal. Ainda tenho um pouco de suco para dar, não acho que é só o que me aconteceu. Em 57 anos, eu não tenho nenhuma opção para encontrar trabalho” (El País , 17/10/2012).

 

Mesmo, a prospera Alemanha, sofre com a desigualdade, que embora não esteja enfrentando os problemas sociais mais terríveis de Espanha, Grécia ou Portugal, o clima já não é de otimismo, pois os dados apontam para uma realidade complexa, o aumento do fosso entre os super Ricos e os pobres, segundo o El País, “ A cada ano, o Federal Statistical Institute estabelece quantas pessoas estão em risco de cair na pobreza, isto é, quantas pessoas têm menos dinheiro do que a média da sociedade. Apesar do crescimento econômico, o número aumentou ligeiramente em 2011. 15,1% da população está enfrentando o problema da pobreza. Segundo a definição de peritos em estatística, no caso, uma família com uma pessoa, este problema começa a partir de uma receita líquida de menos de 848 € por mês. Na Alemanha, um em cada sete crianças com menos de 15 anos que vivem de ajuda social. Na ex-RDA, é de um em quatro, na capital, Berlim, um em cada três.

Na Alemanha, a pobreza e a riqueza são herdadas; concordam tanto os economistas e especialistas em educação. Portanto, o pesquisador de mercado de trabalho mais conhecido no país, Joachim Möller, lança a seguinte advertência: “Quando a frustração dos pobres torna-se o álcool, letargia e crime, toda a sociedade sofre. Isso é algo que vemos na América. ” Mas “milagre trabalho” do país parece estar ainda longe de atingir uma situação” (El País 17/10/2012).

 

Em nossos trabalhos, em particular sobre o  novo Estado, Estado Gotham City, já enfrentamos esta questão sobre o fim do Estado de Bem-Estar Social, seu desmonte e as consequência do empobrecimento, este estudo em quatro artigos:

1) Definição geral do que é o Novo Estado, expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado e mais seis pequenos ensaios que dão sustentação a tese;

2) Desta definição passei a analisar os atores em luta, primeiro o comportamento do grande capital, em especial o capital financeiro, a fração burguesa que domina as ações do Capital, aqui escrito no artigo – Crise 2.0: Novo Estado e o Capital;

3) O segundo vetor são os novos movimentos de resistência ao Novo Estado, que surgiu durante a crise, movimento, na maioria das vezes de negação geral, sem apontar saída, vistos aqui – Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados;

4)  E o terceiro vetor é sobre  Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS que tratamos das alternativas ao eixo central do capital (EUA, UE e Japão), surgida por iniciativa do Brasil, os BRICS, que se consolidou na atuação conjunta pós 2007;

 

A realidade começa a se tornar nua e crua aos antigos estados de bem-estar social, em poucos anos serão sombra do que foram, se nada for feito, é só questão de tempo.

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Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS

 

BRICS e o impasse para o Novo Estado (Foto: Saurabh Das / AP Photo)

Esta semana tenho me dedicado a fundamentar o conceito sobre o “Novo” Estado, o que vem sendo gestado na atual crise,  que também defini como Crise de ciclo longo, ou depressão, não apenas uma crise cíclica. De tal sorte, para este grau de crise, todos os elementos combinados de queima de Forças Produtivas mais remodelação do Estado se faz necessário. Quem nos ler aqui, na série sobre a Crise 2.0, sabe do esforço teórico de encadear os fatos e reproduzir de forma simples, dentro de uma lógica política bem definida.

 

A questão do Estado, ou o novo estado ou ainda o Estado Gotham City, é a afirmação política e econômica, do grande Capital diante da Crise, os artigos anteriores têm o seguinte objeto:

 

1) Definição geral do que é o Novo Estado, expresso no artigo Crise 2.0: O Novo Estado e mais seis pequenos ensaios que dão sustentação a tese;

2) Desta definição passei a analisar os atores em luta, primeiro o comportamento do grande capital, em especial o capital financeiro, a fração burguesa que domina as ações do Capital, aqui escrito no artigo – Crise 2.0: Novo Estado e o Capital;

3) O segundo vetor são os novos movimentos de resistência ao Novo Estado, que surgiu durante a crise, movimento, na maioria das vezes de negação geral, sem apontar saída, vistos aqui – Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados;

4) Para fechar, esta série, dentro da série, trataremos das alternativas ao eixo central do capital (EUA, UE e Japão), surgida por iniciativa do Brasil, os BRICS, que se consolidou na atuação conjunta pós 2007, é este o objeto deste novo artigo;

 

Vou começar pelo fim, uma conclusão geral sobre a alternativa apresentada pelo  BRICS, ou melhor pelo Brasil, mais particularmente a política do PT. A afirmação é: O PT, o Brasil e por conseguinte os BRICS, não se opõem ao Novo Estado, não criam outro Estado, diferente, mas objetivamente atuam como “Empate”, algo como os serigueiros que não permitiam o corte das árvores na Amazônia. O que na prática significa um embaraço geral ao centro do Capital, pois eles entraram em crise juntos, mas já não podem usar do restante do planeta, como antes, para exportar sua crise, ou, mais precisamente, sua saída, o Novo Estado.

 

A questão ganha contornos dramáticos quando lemos que , segundo o FMI “a economia global leverá pelo menos dez anos para sair da crise financeira iniciada em 2008, afirmou o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard” (Agência de notícias Reuters). Ora, dez anos numa economia tão interligada pode gestar novos centros de poderes, se o centro não os dominar completamente, como é o caso da China, e numa perspectiva maior os BRICS. Mas o que têm feito este bloco diante da Crise? de que forma forma atingidos?

 

Do ponto de vista da economia, vejo diferenças grandes, no combate à Crise, como descrevi no artigo Crise 2.0: Como Combater a Crise? UE/EUA x BRICS , em que comparo as políticas traçadas pelos BRICS, este “bloco econômico, informal, denominado de BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), tem se caracterizado por buscar alternativas diferentes da optada pelos EUA e pela UE para combater a crise. Desde 2008 buscam mais integração comercial e principalmente enfrentar a crise de forma comum, com incentivo ao emprego, grandes obras públicas, fortalecimento do mercado interno e a alternativa de financiamento produtivo.

O ambiente geral é complicado, se em 2007/2008 os EUA caíram economicamente, mas a Zona do Euro se manteve, com um detalhe a mais, a Zona do Euro é a maior financiadora da China, cerca de 25% do investimentos gerais, 15% do Brasil. Com a Crise de 2011 houve um fechamento de torneiras dos financiamentos externos, tão essenciais a estes países, devido a baixa poupança interna. Além disto, as importações da UE da China caíram 7% em 2012. O mesmo se deve repetir com o Brasil.

Os BRICS têm sido aguerridos  e por mais que tenham sobrevivido a atual crise, não estão imunes, recentemente se reuniram na Índia, buscando uma maior convergência de ações e intercâmbio, para que possam, de forma mais efetiva, protegerem suas economias e manter o crescimento econômico dos últimos anos. As duas políticas acertadas neste recente encontro são: 1) No comércio entre os BRICS, usar as próprias moedas; 2) Criar um banco de investimento do grupo; São medidas que dinamizam o comércio entre estes países, pois em parte não se precisa usar Dólar/Euro nas transações. O banco comum ajuda na questão de financiamento, diminuindo a dependência e do humor do mercado mundial.

Mais ainda, os BRICS se unem contra a chuva de trilhões imposta pelos EUA(FED) e UE(BCE), mais duas QE ( emissão massiva de moedas) que incentiva a especulação com as moedas locais, impondo sua valorização, causando um desequilíbrio das contas e tornando os produtos destes países mais “baratos” diante da produção local. O fluxo de capital com caráter especulativo desarruma as contas públicas de países como o Brasil.

O quadro se agrava, mas tanto Brasil, como China se mexem de forma sólida, dão a dinâmica aos demais, a Índia enfrenta com mais dificuldades a crise. Esta última semana a China lançou mais um pacote, a exemplo do PAC, aqui do Brasil, lá, segundo a Reuters  ”A China aprovou mais de US$ 150 bilhões em 60 projetos de infraestrutura para estimular a economia diante do maior desaquecimento em três anos, o que aumenta as esperanças de que o motor do crescimento mundial talvez tenha uma melhora a partir do quarto trimestre. Ações e futuros de aço saltaram diante do plano – um dos mais ambiciosos que a China revelou neste ano – de construir estradas, portos e pistas de aeroportos”.

A Saída apontada pelos BRICS é totalmente diferente das implementadas nos EUA e UE, mostrando que há sim, alternativas para combater a crise. O que falta na Europa, principalmente nos países mais afetados pela crise, são forças políticas para seguir este modelo, romper com o Euro e a Troika”.

 

Do ponto de vista do Estado, a China usa de conceitos de economia estatal centralizada, combinando com mercado e empresas privadas, o Estado é definidor de suas ações, uma ampla e competente burocracia vai levando o gigantesco barco, com mais de 1, 4 bilhões de habitantes, sinceramente não sei que outra for
mação política daria conta de tanta gente e tantas contradições. Os elementos da democracia, tal qual conhecemos no ocidente, dificilmente encontraremos no oriente, isto vale para China, Coréia do Sul ou Japão, são regimes muito específicos, mas que a democracia, na forma ocidental, sirva como parâmetro. O Novo Estado se faz presente pela Força e repressão, quando exército e forças de seguranças, usa de violência, para que os trabalhadores cumpram os contratos fabris de forma aviltante.

 

Índia com seu regime de castas, desigual, com divisão religiosa potencialmente explosiva e os seus mais de 1 bilhão de habitantes, está sendo gerido por uma nova elite política e intelectual que tentar dar uma unidade política a um país gigantesco que não parece disposto a assumir valores ocidentais, como seus. A entrada de grandes empresas dinamizou a economia do país, mas o atraso histórico e a crise começam a minar seu crescimento. A Rússia, com seu poder energético e uma frágil democracia, dominado por uma ex-burocratas da antiga URSS, que, durante o processo de privatização ficaram bilionários, mas vivem das lutas autoritárias entre eles pelo controle do Estado e as riquezas ainda geridas por ele. Parte do Novo Estado se afirmou na Rússia, mesmo fazendo parte dos BRICS, o Estado é claramente o identificado com o Centro do Capital, até no modelo do grupo de elite que o gere.

 

O Brasil foi extremamente penalizado nos anos 80, devido a crise da dívida, só efetivamente se readequando na gestão Itamar, quando lançou sua dolarização, uma moeda ancorada no Dólar, aquilo que era uma tática temporária virou ancora do poder. FHC, usando do prestígio da estabilidade conduziu uma série de desmontes do Estado, rumo ao Novo Estado, muitas características do que se propõe hoje, foi implementado no Brasil, sem grande resistência, os anos de hiperinflação, desarranjo econômico foi preponderante para baixa resistência.

 

Vários elementos estranhos ao ordenamento jurídico local, como as famigeradas agências, forma incorporados ao Estado, uma construção artificial do modelo dos EUA, diante de uma constituição de modelo europeu. Esta “ginástica”, sem mediação, levou ao esvaziamento do Estado, em particular no setor de Infraestrutura, como Energia, Estradas, Portos, Aeroportos e Comunicações. O que levou o Brasil, nas crises cíclicas, de 97, 98 e 99, a ficar sem política de Estado, redundando no apagão elétrico e na completa dependência do FMI.

 

Os governos Lula e Dilma houve uma readequação da atuação do Estado, mas sem mexer ou retomar o estado, não se opondo ao “Novo Estado. Os vários avanços econômicos no Brasil, de incorporação de amplas parcelas que viviam à margem da cidadania, sem emprego ou renda, ainda não se traduziu em avanços políticos, o nível de negociação para implementar qualquer mudança nos três poderes é extremamente lento, desgastante e que emperra o salto para frente do país.

 

O impasse é a marca deste período, a grande crise, talvez, tenha bloqueado uma politica mais afirmativa, de ruptura com o modelo FHC, do Novo Estado, isto em parte atrasa o Brasil, o  que nos parece de extrema urgência, só assim, pode-se efetivamente chegar em outro patamar de país e nação. O que foi feito nestes últimos 10 anos, não nos parece pouco, visto que, a pouco tempo, pensava-se em atrelar o Brasil ao EUA, como forma inexorável de vencermos nossas mazelas, com o PT se mostrou o contrário, isto é MUITO.

 

O Novo Estado, parece, se impor de forma desigual, no mundo, do lado dos BRICS houve bloqueio e empates, não a ruptura com a sua lógica.

 

 

 

Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados

 

Indignados na Espanha - Força e Limites - Foto Claudio Álvarez/El País

 

Como parte da estrutura de análise sobre o “Novo Estado”, que denominamos de Estado Gotham City, resolvi definir de uma forma mais geral aqui, na série sobre a Crise 2.0, quais os principais vetores que balizam este conceito de Estado e poder. Começamos com um texto geral, Crise 2.0: O Novo Estado, com  as linhas gerais da formulação que venho elaborando nestes 15 meses em que venho acompanhando a monumental Crise de Superprodução de capitais.

 

Os quase 250 artigos dão uma visão completa da Crise, mas este novo conjunto de elaborações busca identificar quais os atos e fatos, dos atores na luta de classes, tomam para enfrentar a Crise e, como parte dela, a questão de um Novo Estado que vai sendo gestado. Do artigo inicial, que contem indicação de mais seis outros, comecei a rascunhar mais outros três outros, o primeiro deles : Crise 2.0: Novo Estado e o Capital, responde às questões históricas e correntes das políticas do grande capital, visando iniciar um novo ciclo longo do Capital.

 

Agora, neste post, a investigação caminhará para o lado dos trabalhadores e do povo em geral, que tem se organizado na Europa e EUA, nos visíveis movimentos de Indignados Occupys, entre outros. O que queremos verificar é se identificamos planos ou propostas claras de ruptura com o sistema, ou proposições dentro do sistema, que, de forma objetiva, apontem alguma saída da Crise. Por vários momentos na Série Crise 2.0, debati o papel dos Indignados e o que se propunham, de forma crítica e direta. Ainda em setembro do ano passado assim caracterizei-os:

“O país mais atingindo pela crise, sem dúvida, é a Grécia e para variar a classe trabalhadora foi “convidada” a pagar a conta. Os planos do governo, como sempre, punem os trabalhadores, cortando previdência e aposentadoria, flexibilizando mais ainda o emprego. Os trabalhadores gregos têm respondido de forma ativa, com grandes manifestações e greves. Sob constante ameaça de perder o “status” de integrante da Zona do Euro, a Grécia é o país da região que paga os piores salários. A resistência é heroica, lembra seu passado mitológico.

A Puerta Del Sol em Madri é o símbolo de luta e resistência dos trabalhadores e do povo espanhol. Ocupada desde maio, expandiu para todo o país e a Europa que as medidas de mais ajustes não serão aceitas. A combinação de desemprego e falta de perspectiva política levou a este amplo movimento a juventude, setor mais atingindo pela crise.

As rebeliões de Londres em julho, uma onda que misturava protesto e vandalismo, mostrou que a luta é a saída para as regiões mais excluídas do país, apesar da repressão violenta, do corte de comunicação via celular. Foram momentos que puseram a nu a situação precária que a classe trabalhadora inglesa enfrenta.

A recente ocupação de Wall Street é mais um indício de que a resistência chega ao coração do sistema. O amplo empobrecimento, os seguidos planos que salvam a pele dos bilionários não são digeridos pacificamente pelos trabalhadores e os estudantes.

As famosas manifestações da “Primavera Árabe”, que teve seu auge no Egito, foram para a Europa, mostraram ao povo que só a luta direta pode enfrentar a Crise 2.0. As ações dos governos, até hoje, foram para salvar os mais ricos, relegando aos trabalhadores, aos jovens e aos estudantes o ônus da crise. A classe trabalhadora luta e resiste em condições bastante precárias”. ( Crise 2.0 : A Resistência é possível? )

 

E logo depois, após os indignados espanhóis boicotarem as eleições espanholas, o que levou a uma ampla abstenção, entretanto deu uma esmagadora vitória para Direita espanhola, os setores ainda mais radicais do PP se aproveitaram da divisão no seio da esquerda e centro-esquerda e, mesmo sem programa, Rajoy assumiu o governo, tornando ainda pior as condições gerais dos trabalhadores e do povo espanhol, o que me levou a levantar alguns questionamentos, sobre a forma de atuação destes movimentos:

“Algumas questões incômodas que precisamos pensar sobre os indignados:

1)      A Primavera de Madrid/Barcelona se esvaziou?

2)     Ela desmascarou o governo “socialista”, mas também deu combustível para Direita?

3)     Movimento forjou qualquer plataforma ampla de alternativa de Poder, ou quem sabe de Governo?

4)     Quais os passos seguintes, se o novo governo é mais do mesmo?

5)    Apenas se indignar com os políticos pode levar a uma despolitização geral?

 

Preocupante que na Itália o desespero leva a uma aprovação de 80% ao novo Governo tecnocrata, não eleito, feito na cúpula repleto de tecnocratas ligados aos bancos. O movimento de 68 em Paris levou a um apoio maciço a De Gaule, que quase caíra, chegou a se refugiar numa base militar, meses depois foi reeleito de forma ampla.

Para mim fica claro que todos estes movimentos que questionam o poder estabelecido, mas que não se torna alternativa, nem de poder, nem de governo, acaba numa imensa frustração, alimentando assim a Direita, que com um discurso moralista, de técnicos, sem ligação com a utopia gerado naqueles movimentos, galvaniza a revolta para seus governos, fechando assim uma “vaga histórica” de período revolucionário, sem partido ou movimento que o leve até o fim. Crise 2.0: Direita, Volver!!

 

O que percebemos é que estes movimentos são fundamentais no questionamento geral e na resistência contra os planos de austeridade, na luta contra o “Novo Estado”, mas seus limites estão no vazio de propostas alternativas, no mês passado, as grandiosas manifestações em Madri, se espalharam pela Europa, levantando os trabalhadores da França, Portugal, Grécia e Alemanha, com poderosas marchas e enfrentamentos. Em Portugal se avizinha uma greve geral, na Grécia, menos de três meses do novo governo já houve uma greve geral.

 

A tônica do #25S e #29S, os indignados
espanhóis, foi bem captado pelo El País que assim narrou “Os Parlamentares, dentro do prédio do Congresso,  ouviram encolhidos o humor e os gritos vindo para eles vindos da rua. A barreira policial, as cercas, os tanques e oficiais a pé, com cães e a cavalo, não poderiam evitar o que o som e as imagens das ruas. A começar pela simplicidade de “ladrões”, ao coro de “lá é a caverna de Ali Baba”. Os cartazes  feitos à mão de centenas de manifestantes acenando a mais forte frase:  “Que se vão todos eles.” E outros, um sinal pequeno, com um “NÃO”, apenas um “não” na direção do Congresso dos Deputados.”

 

O teor da negação é o mesmo do ano passado, o que nos leva a pensar que, por enquanto, há apenas disposição de resistir, sem no entanto, se apresentar como alternativa de poder, o que torna perigoso, uma negação generalizada aos partidos e a política, abrindo mais espaço para despolitização e boicote, o que acaba favorecendo à Direita. O caminho do Syriza, o pequeno partido de esquerda grego que ousou enfrentar as forças políticas tradicionais e disputou firmemente as eleições com um amplo crescimento, se tornando alternativa clara aos governos da Troika, Recentemente, o Syriza, dirigiu a poderosa greve geral, que parou o país, nos parece, que este é rumo certo para o povo e para os trabalhadores, que pagam a dura conta da Crise.

Crise 2.0: Novo Estado e o Capital

 

G20, reunidos no México, sem saídas - Foto: afp.com/Bertrand Langlois

“Estamos totalmente conscientes das grandes dificuldades que os portugueses e muitos europeus estão enfrentando, mas a verdade é que o caminho do ajuste deve continuar” (“Molão”, digo Durão Barroso, Presidente da UE)

 

A frase de Molão Barroso, político da Direita de Portugal, que ajudou a afundar seu país na época de “ouro” do Euro, tomando empréstimos a rodo, sem jamais se preocupar com o dia que chegasse a cobrança, parecia que o país era rico e tudo seria para sempre. Quem acompanha a série sobre a Crise 2.0, sabe como estes países foram vítimas da lógica de endividamento sem fim, a burguesia local se encheu de dinheiro, saindo pelo mundo a comprar empresas, Portugal e Espanha, usaram o Euro para crescer fora da Europa, com as privatizações da América Latina, África e Leste Europeu.

 

Agora, falidos, temos que ler as “lições” de Molão Barroso, um mero burocrata sem poder, que é seguidamente atropelado por quem realmente manda, Merkel e seus bancos alemães. Mas, não satisfeito, ele diz mais sobre a crise em Portugal: “Para Portugal voltar a crescer é preciso confiança, e a confiança só vai voltar se Portugal atravessar o difícil caminho da consolidação fiscal e reformas estruturais“, e o recado, segundo a Agência Dow Jones se estende a toda zona do Euro: “Barroso disse ainda que mesmo os países que não enfrentam problemas fiscais mais graves entendem a necessidade de fazer ajustes e citou o plano orçamentário da França para 2013, que é “extremamente rigoroso e exigente”.

 

Estamos inciando uma série de artigos tentando entender as proposições de saídas para crise, principalmente qual estrutura de Estado, se propõe. O artigo balizador Crise 2.0: O Novo Estado, que fundamenta minhas conclusões breves, sobre o “Novo” Estado, e abre o debate sobre como os agentes vão traçando seus planos e estrategias diante da crise. Do lado do grande capital, exploramos as principais políticas gestadas rumo ao novo estado, que apresentei, no artigo citado, assim resumidas:

“Umas das conclusões centrais, a que cheguei, foi a mutação do Estado, parte delas foi um insigth conjunto com Sergio Rauber, no limite identificamos que os elementos desta mutação, no leste veio com a Perestroika, que varreu os regimes daquelas formações políticas. Entretanto, os eventos da Crise de 2005/2007, com a queda do muro de Wall Street, o novo “Estado” se impõe aos EUA e UE. A América Latina, já havia passado por este ajuste nos anos 80/90.

Os vetores visíveis deste “Novo” Estado, boa parte dele gestado pelo neoliberalismo, são: o fim do conceito do Estado de Bem estar social, ou sua redução ao mínimo possível. Segundo, a ampla privatização, com o fim da intervenção direta do Estado na Economia. Terceiro a  Educação, Cultura e Saúde perde cada vez mais seu caráter de obrigação pública e gratuita, passam a ser geridos por entes privados. O que sobrou ao novo estado é gerir as forças repressivas, aplicação de leis restritivas, quebra de direitos fundamentais, naquilo que estamos chamando de Estado Gotham City”.

 

Trabalho com um conceito de que há dois movimentos combinados de crises: As cíclicas, dentro de um ciclo longo e as Depressões, que finaliza/inicia ciclos longo. Identifico, como ciclo longo, aqueles em que o Capital, mesmo com crise cíclicas, não se expõe a perda de poder, que tem, entre eles, uma grande Crise/Depressão, com durações mais ou menos identificadas historicamente, assim temos: Primeiro Ciclo – 1789 a 1871 , Depressão – 1871 a 1893. Segundo ciclo, 1893 a 1929, Depressão 1929 a 1939, Guerra. Terceiro Ciclo 1939 a 1974, Depressão 1974 a 1982. Quarto Ciclo 1982 a 2007, Depressão 2007 … No meio destes ciclos as crises cíclicas não abalavam de forma suficientes o poder do Capital.

 

No período de depressão é que surge um novo modelo de acumulação, de rearranjo que dará mais tempo ao Capital de consolidação e poder, nomeadamente entre 1871 e 1893, houve um processo de monopolização da Economia, rumo ao modelo imperialista, regional, do ciclo seguinte. Com o pós-guerra houve uma conformação de um estado imperialista, de caráter global, mas marcado pela contradição vinda com as Ex-URSS. A reconstrução da Europa com o Plano Marshall e a consolidação do Estado de Bem Estar Social.

 

A Depressão de 1974 a 1982, veio do esgotamento do modelo de Estado, que tinha presença na Economia, regulando e intervindo, que favoreceu enormemente o Capital, cresceu, expandiu e mundializou os mercados. A crise longa, de um mundo conectado, durou até 1982, com a ascensão de Reagan/Volcker ao poder, ali se definiu o novo modelo de estado, que liberou forças extremas para um novo ciclo. Paralelo ao que acontecia nos Eua e Europa, a Ex-URSS e a América Latina, fizeram seus ajustes, dos mais dolorosos, com o fim do Estado centralizado, dirigido com mão de ferro, tanto à direita quanto à Esquerda.

 

O longo período que vai de 1982 a 2005, com um modelo de estado, com menor intervenção do estado, o poder das agências em detrimento do poder eleito, houve o esvaziamento da regulação, o  que deu às corporações amplos poderes, de ir e vir, que hoje denominamos de globalização. Esta ampla liberdade do Capital, combinada com governos locais sem poder efetivo, ou limitado à funções de segurança externa(EUA) ou de distúrbios internos, com a diminuição da proteção social ( Saúde, Educação e Previdência), a aparência é de ausência do Estado, ou de governos, muitas vezes confundidos como executivos de corporações.

 

O advento da crise, de alguma forma, reposicionou o Estado, os antigos mecanismos de controle, principalmente os econômicos foram invocados para salvar o capital, as imensas injeções de capital nos sistemas financeiros dos Eua e da Europa, bem como das corporações, veio acompanhado de mais exigências de sacrifícios dos trabalhadores e do povo. A queima de capital, condição fundamental para um novo ciclo, por mais intensa que tenha sido, por exemplo, nos EUA houve uma queda de 40% na renda das famílias, 25 % nos salários e crescimento do desemprego de 4,9% para 9,2%, ainda não foi suficiente para retomada.

 

O caso da UE é ainda mais complexo, pois a antiga estrutura do Esta
do de Bem Estar Social, não fora desmontada, o desemprego explodiu nos últimos 4 anos, países inteiros faliram, como Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha, outros estão mal economicamente, como Itália, França e Inglaterra. Os ataques aos trabalhadores e ao povo continuar a crescer, as palavras de Molão Barroso é o reflexo desta disposição do grande Capital, na busca de um novo estado. As saídas, com fórmulas dos anos 80, não parece ser suficientes, pois a crise permanece forte, o Estado é o ponto central para uma nova saída.

 

Do ponto de vista dos principais centros econômicos mundiais, EUA, UE e Japão, o que se gesta de saída é aprofundar o definhamento do Estado, com a imposição de medidas cada vez mais fortes, de arrocho econômico, de cortes sociais, abandono à exclusão direta milhões de pessoas, uma descida à barbárie. A não aceitação, protestos, têm sido reprimidos de forma violenta, tanto pela ação estatal, como para-estatal( caso Grego) das milícias neonazistas( ver matéria do El País:  Neonazistas assumem trabalho da Polícia na Grécia ).

 

A combinação de semi-Estado, parece, ser a “solução” engendrada, terá sucesso?

Crise 2.0: O Novo Estado

 

Novo Estado, só sobrou a Força? Foto: REUTERS/Susana Vera

Desde o início desta série sobre a Crise 2.0, procuro o debate sobre a ação dos vários atores envolvidos na Crise, as visões das saídas e soluções para economia mundial. Acompanho de forma sistematicamente as declarações e discursos dos principais líderes políticos ou economistas, assim como busco ouvir o que dizem os líderes oposicionistas, dos trabalhadores aos eventos enfrentados. Procurando entender a dinâmica da luta de classes, neste momento agudo, que se abre tantas possibilidades de saídas não clássicas, inclusive, a revolução.

 

Com este método, esta série, não apenas elenca os fatos, os eventos, noticiando-os, mas também rascunha teses e opiniões sobre os diversos cenários que foram surgindo nestes 15 meses de trabalho. Umas das conclusões centrais, a que cheguei, foi a mutação do Estado, parte delas foi um insigth conjunto com Sergio Rauber, no limite identificamos que os elementos desta mutação, no leste veio com a Perestroika, que varreu os regimes daquelas formações políticas. Entretanto, os eventos da Crise de 2005/2007, com a queda do muro de Wall Street, o novo “Estado” se impõe aos EUA e UE. A América Latina, já havia passado por este ajuste nos anos 80/90.

 

Estes posts, abaixo,  dão suporte e demonstram de forma mais ampla o que definimos por Novo Estado, como se gesta e como se organiza, quais seus principais vetores de ação e seus limites:

 

Os vetores visíveis deste “Novo” Estado, boa parte dele gestado pelo neoliberalismo, são: o fim do conceito do Estado de Bem estar social, ou sua redução ao mínimo possível. Segundo, a ampla privatização, com o fim da intervenção direta do Estado na Economia. Terceiro a  Educação, Cultura e Saúde perde cada vez mais seu caráter de obrigação pública e gratuita, passam a ser geridos por entes privados. O que sobrou ao novo estado é gerir as forças repressivas, aplicação de leis restritivas, quebra de direitos fundamentais, naquilo que estamos chamando de Estado Gotham City.

 

 

A própria retomada de um novo ciclo do Capital, nos parece, que depende vitalmente da implementação deste novo Estado, os governos seriam meros apêndices dos grandes bancos e grandes empresas, presidentes, primeiros ministros se comportam como executivos de corporações, em muitos casos, ao saírem do governos vão efetivamente trabalhas nelas.  A forma de representação entra em contradição com a democracia representativa, o que em muitos lugares o próprio conceito de democracia começa a ser questionado, a força e repressão como opção principal, ou a aprovação de leis como Patriot Act Nº 1, ou as leis de imigração na França, dão o teor deste momento.

 

O Estado é capturado por agências e burocratas que não respondem aos anseios populares, pois não passam e não querem passar pelo crivo popular, os casos mais esdrúxulos são os do EUA em que o Presidente do FED, sem mandato popular é quem define o futuro do país, o Presidente Obama, efetivamente, não tem como intervir nos destinos econômicos, a modelagem do Estado não lhe permite margem de manobra. Algumas agências, aqui no Brasil, criadas na gestão tucanas, desafiam o ordenamento jurídico, legislando sem mandato. O problema é que o Brasil, a exemplo da UE, não tem o tipo de Constituição como os EUA que permite a “livre” ação destes burocratas.

 

Os ataques aos direitos sociais, consagrados nas constituições de vários países da UE é o centro do conflito deste novo modelo de Estado, Portugal, Espanha, Grécia enfrentam esta grave crise com medidas que são afrontas à suas Leis maiores. As supremas cortes viraram o último recurso contras várias destas medidas, em Portugal, por exemplo, o governo suspendeu o 13º e 14º salários, devido a exigência da Troika de economia de gastos, a corte suprema condenou o governo a pagar, mas efetivamente não houve o cumprimento.

 

Os recentes aumentos de impostos em Portugal e na Espanha, países amplamente penalizados com os cortes levou milhões de pessoas às ruas contra os planos de austeridades, este parece ser o único caminho para limitar a ação dos governos fantoches, executivos das corporações, sem o menor apelo popular. A questão que fica, sempre, qual a alternativa? Novas eleições? Novas formas de representações? Fim do Euro? Quais os limites dos “Indignados”?

 

Resenha de Setembro

 

A Primavera que chegou

 

 

Fechamos mais um mês, este foi muito especial, que agora passo a relatar nesta resenha, uma espécie de resumo do que melhor aconteceu no blog, nestes últimos trinta dias. Claro que os fatores pessoais, hoje, vão falar mais alto, naturalmente, pois, no dia 10 de setembro, a médica da minha filha nos deu uma ótima notícia, indicando o final do tratamento dela, para o fim de Novembro, leia aqui no post: Contagem Regressiva Para Cura. Desde então os dias se tornaram melhores e mais felizes, refletido nos posts posteriores.

 

Ainda, no campo pessoal, tivemos o aniversário de 15 anos da Letícia, com a vinda de todos os familiares para São Paulo, para juntos celebramos não apenas o debute dela, mas o renascimento de nossa guerreira, foram dias especialmente emocionante, que retratei em vários posts, com fotos e registros de nossa alegria:

Agradeço imensamente os esforços de todos eles, assim como dos amigos que fizeram da comemoração da Letícia um evento muito maior do que imaginávamos, os olhos delas e os nossos brilharam intensamente.

 

O foco do Blog na análise da Crise Mundial, que denominamos  de Crise 2.0, avançou em algumas teses em especial no caráter do Estado, que passamos a nomear de “Estado Gotham City”, que descrevi no post, talvez ,o mais importante do mês que se se encerra: Crise 2.0: O Estado Gotham City, assim definimos:

“O Estado, que surge, desta crise, começou a ser gestado nos anos 80, e teve na queda do muro de Berlim, seu maior ganho. Desde ali,  não mais preocupado em atender as demandas sociais, ou fazer contraponto, ao leste europeu, sem estas obrigações amplas, a diminuição dele, o corte das garantias, virou a obsessão do Capital. A redefinição do papel do Estado, seu tamanho, alcance, foi paulatinamente sendo trabalhado, tanto do ponto de vista econômico, como político, mais ainda sobre o aspecto ideológico.

Esta redefinição é bem clara, uma parte da burocracia é cortada, as empresas privatizadas, preservando-se apenas o aparelho repressivo, na maioria dos países ele permanece intacto. Até a indústria armamentista, de composição majoritária estatal, foi “terceirizada”, o controle do processo é do Estado, por óbvio, não se perde a força maior, da coerção e ameaça. Saúde e Educação, foram fortemente atacadas, nos países mais periféricos, que ainda começava um incipiente estado de bem estar social, nem tiveram inteiramente implementado, já sofreram o baque do “novo modelo”. Nos países centrais o desmonte se deu de forma mais lenta, principalmente na Europa Central”.

 

Estas questões somadas ao recrudescimento da Crise, em especial na Grécia, Portugal e Espanha, porém com elementos novos, a saída às ruas de amplas massas para se opor aos ataques do grande capital e seu Estado putrefato, as ondas de grandes manifestações, deram um novo colorido a Europa, reacendendo a esperança de algo novo surja e barre os planos de austeridades, que apenas espremeu até o fim o que restava do povo e dos trabalhadores. Os posts abaixo dão ideia do que aconteceu nestes últimos:

Continuamos atentos aos acontecimentos e tentando trazer os principais fatos para analisar e debater aqui no blog.

 

Por fim, nas sextas, fim de tarde procurei levar música e leveza, trazendo minhas músicas e artistas de que tanto gosto, como : GenesisRenaissance, nas demais, estava de férias, mas pretendo seguir fazendo posts bem astrais preparando o fim de semana, assim como estas resenhas mensais. Mais uma vez, obrigado aos amigos pela leitura e divulgação deste espaço, nas redes sociais e nos comentário.

 

Este é o artigo de número 600, um feito sem dúvida, que só cheguei até aqui pelo carinho e apoio de todos vocês. Como sexta não teve música, pois o meu amigo Ricardo Queiroz publicou belo post sobre Tim Maia , que seria meu tema, me rendi a beleza de sua palavras, mas deixo a música para hoje, afinal estamos na primavera.

 

 

Crise 2.0: #29S – A Resistência na Europa

 

Praça Neptuno, noite de 29 de Setembro - Foto El País

Praça Neptuno, noite de 29 de Setembro - Foto El País

 

 

A provocação do Presidente da Espanha, Mariano Rajoy, de que a “maioria silenciosa” era contra os protestos chamados pelos #25S, os “Indignados”, foi como um murro na cara dos cidadãos espanhóis, a resposta parece clara, hoje durante todo o dia e se estendendo pela madrugada milhões de pessoas foram às ruas, agora cercam o Parlamento do país, com um mensagem bem clara: Parem os Cortes! Aqui, na série sobre a Crise 2.0, venho trabalhando e analisando o desenrolar da crise na Zona do Euro, em particular nos países mais afetados e que estão sob às ordens da Troika e seus planos de mais arrocho, só levou Portugal, Grécia, Irlanda e agora Espanha a mais crise, miséria e fome.

 

Como demonstramos nos últimos posts, consolidados no artigo : Crise 2.0: Espanha – Ruptura Social, nos parece que a completa falência econômica da Espanha será acompanhada de um processo de desintegração social, que só sobrou ao governo da Extrema-Direita, liderado pelo pernóstico, Rajoy, a repressão aberta ao seu povo e a intimidação, naquilo que venho denominado de Estado Gotham City, formulado no artigo ( Crise 2.0: O Estado Gotham City ). Ao mesmo tempo que Rajoy provoca o povo falando de maioria silenciosa, lançou mão de um aparato repressivo violento e desproporcional, a policia filma os manifestantes, identificando-os, pondo seus rostos nas tvs e web para intimidá-los e futuros processos, que serão seletivos. O caminho de Rajoy é o Estado de Exceção, suspendo as garantias constitucionais, pois não há espaço político para promover mais cortes, como os apresentados ao orçamento de 2013.

 

A reação das pessoas foi bem capturada pela edição on line do jornal El País, que acompanha os milhões que se manifestam e não arredam pé da luta, que segundo o jornal,  “os manifestantes expressaram indignação com a ação da polícia, declarações posteriores, alegando que a intervenção do governo foi “extraordinário”, “maravilhoso”, “brilhante” e “exemplar”, e também é ofendido pelo palavras Mariano Rajoy, em Nova York”. ( falando da “maioria silenciosa” vs baderneiros) . Os insultos de Rajoy e da autoridades elevou o nível de revolta, hoje o 29S, demonstrou a disposição do povo, como declaram as pessoas entrevistadas: “Eu me senti insultada, e vir aqui é a minha resposta”, disse Elizabeth Martinez,uma advogada de 38 anos. “Eu acho que o sistema está quebrado, que listas fechadas não me deixa escolher representantes querem, que as promessas eleitorais não são cumpridas, e que a ajuda do governo aos bancos sobre as pessoas. Rajoy, por tudo o que ele diz, não vou calar a boca. “

 

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imagem do 15M

 

 

É uma voz contundente que se segue a muitas outras, ainda mais forte, ainda segundo o El País: “Essas palavras foram um erro”, concorda João Alcudia, 74, aposentado. “Você não pode ofender o público e manifestar pacificamente”. “Um pouco de respeito, por favor”, diz Montse Fernandez, 38 anos, que compareceu ao evento com sua irmã Vanessa e um amigo. “Quem é este homem para julgar para assistir a uma demonstração? Eu sou um bom cidadão, trabalhando mãe, eu pago os meus impostos e manifestar precisamente porque me importo com o meu país. Porque eu quero o meu filho de dois anos tenha futuro e eu não gosto que o governo está fazendo. Rajoy poderia parar um pouco olhar para a rua e ver o que está acontecendo. Parece que os políticos estão em outro mundo. Levou décadas para obter direitos sociais que nós tivemos, e não vamos testemunhar como se dissipa tudo sem protesto. ”

 

As imensas manifestações tomaram conta  de várias cidades europeias em solidariedade aos espanhóis, Berlim, Varsovia, Londres e Lisboa se levantaram no protesto de hoje,o 29S, na maior destas marchas, em Lisboa contou com mais de 100 mil pessoas. Em Madri se fala em mais de 1 milhão de pessoas, a polícia estava confiscando câmeras e celulares para evitar que os manifestantes filmasse a ação repressiva. Tudo me lembra a Praça de Tahir, Egito, na famosa primavera árabe. Aqui vivemos o “Outono do Euro” e Madri pode ser a resposta contra a Austeridade e os planos neofascista da Troika.

 

Acompanhamos de forma muito próxima, eventualmente aqui escrevendo e nos posicionando em apoio ao sofrido povo espanhol, grego, português e em geral da Europa que vive a maior crise do pós-guerra, que a cada dia, hora parece demonstrar firmeza e coesão para enfrentar seus governos comprometidos com os banqueiros e grandes empresas. Agora é preciso resistir e lutar, contra os planos de austeridade e o domínio da Troika.