Cenas Eleitorais

 

Dilma eHaddad: Lula o inventor de Postes,que vai iluminando o Brasil ( (Foto: Eduardo Enomoto/R7))

 

De vez em quando você acha que já viu tudo na vida, mais ainda em política, mas a realidade sempre vem te desmentir, o que é muito bom, sinal que ainda temos muito a aprender. Mais ainda, não duvidar que a vida tem um surpresa, boa ou ruim, dependendo do ponto de vista, mas, importante, continuamos no “jogo”. Achar que já sabemos tudo ou conhecemos tudo, não é bom negócio. Quando se escreve, melhor ter em mente, que podemos descobrir algo mais, em nós ou nos fenômenos que analisamos.

 

Alguns fatos destas eleições de São Paulo e de outras cidades no Brasil, dão mais razão à ideia de que não devemos nos surpreender com eles, alguns são francamente pitorescos, para não falar outra coisa, como o caso do candidato do PSOL de Belém que teve apoio de Lula, do PT, fez vídeo pedindo voto, mas uma corrente interna do PSOL, pede “voto crítico” no seu candidato, é a Treva.Em Macapá, o PSOL, foi ao segundo turno, recebeu apoio do DEM e de várias forças da Direita, começando a viver no “mundo real” das alianças para se chegar aos governos. Militantes e correntes internas estão a condenar as alianças, até com um discurso de “ocupe PSOL”, morri.

 

Mas, aqui em São Paulo, o ex-candidato a Presidente da República pelo PSOL, o valoroso Plínio de Arruda Sampaio, líder da esquerda radical, chegou a cogitar votar no candidato da extrema-direita, Serra, porque o mais importante é “derrotar o PT”. É o velho movimento circular de extremos se unirem, depois esclareceu, que apenas achava “Serra mais competente”, mas que votará Nulo, que beleza!

 

Do lado da extrema-direita, Serra inovou, trouxe do Rio de Janeiro, o indefectível Pastor Mala(Faia), com sua proposta de “dar um cacete em Haddad e seu Kit Gay”. Ora, assim, como na eleição passada, o cada dia mais direitoso, candidato do PSDB, explorou o aborto, agora seria a homofobia. Em 2010, foi desmascarado em casa, sobre o aborto, agora, de novo, foi desmascarado, em sua gestão(sic)no Estado de São Paulo, também tinha um kit gay, em resumo ele virou o kich Gai(em japonês). Mas, Serra, não sossegou ,convocou FHC( quem?) para falar de Ética e dar um Up na sua desastrosa campanha, a primeira declaração do “príncipe” foi dizer que Serra estava se entregando aos extremistas de direita, pow!!

 

Quando achava que mais nada aconteceria, hoje, o mais “preparado” dos homens, Serra, diz que as escolas, em sua gestão(sic) fará de tudo para identificar os alunos, “propensos ao mundo criminoso”, para que sejam levados à Fundação Casa(ex-Febem). É caso clássico de X-9, Minority Report, neofascismo ao extremo, se enterrou de vez. A reação foi imediata nas redes sociais, a lembrança de Lombroso, a necessidade de ver em determinadas características o potencial agente criminoso, pode ser também o elemento para outros desvios mais graves como classificação ideológica, comportamental, separando as pessoas por suas questões sexuais ou religiosas.

 

Para fechar, Serra, tem em  Soninha Francine,ex-Vj da MTV, ex-vereadora do PT, uma ardorosa defensora, ela resolveu cometer um texto “contra a baixaria petista”, no meio do artigo  mandou um tremendo FDP, para Haddad, tudo isto no alto nível tucano de ser, depois, arrependida, apagou o palavrão. Outras vezes já escrevi sobre este caminho tortuoso de cruzar o rio ideológico ( ver o post As Margens do Rio ), o convertido se torna patético e raivoso, no seu novo perfil, destila ódio e nojo aos seus antigos companheiros de causa.

 

Pensando bem, ainda temos muito por ver, em especial neste campo, nem precisa esperar muito. De positivo, sob o meu ponto de vista, tem sido o desempenho de Haddad e Márcio Pochmamm, candidatos em São Paulo e Campinas, com a surpresa da capacidade de ambos em se comunicar e manter um nível de proposição, sem se mostrarem pedantes ou populistas, gratas lufadas de inteligência e  de energia neste campo.

Felicidade ou Tristeza

 

 

Antes de dormir, vou deixar um último resto de sentimento de tristeza que me abateu, desde terça a noite, e que, em parte retratei no post As Longas Noites…, mas estava no metrô agora a noite e comecei a chorar intimamente, não teve jeito, li alguns comentários, ao artigo, mais emoção, me lembrei de um pequena letra, que fala de tristeza, mas se cham Felicidade, uma contradição, mas explica o que sinto:

 

Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora (Felicidade – Lupicínio Rodrigues)

 

Busquei uma interpretação diferente espero que gostem, enquanto choro um pouquinho mais…

 

Felicidade (Lupicínio Rodrigues) – Paulo Moura, Luiz Melodia e Adriana Calcanhotto

 

As Longas Noites…

 

A noite e sol, se confundem na dor

 

“longa é a noite que nunca acaba” ( Macbeth – W. Shakespeare)

 

Tem dias que não dar vontade nenhuma de acordar, a noite mal dormida já prenuncia ou melhor denuncia que você não deveria acordar mesmo, quem sabe ficar mais um três dias na cama. Esta foi uma típica noite/madrugada assim, tosse irritante que não parava, cada vez que tossia a dor na cabeça piorava, mas o que martelava mesmo era o sentimento de impotência, de pouco ou nada pudesse fazer contra os fados da vida.

 

Numa ordem cronológica destes eventos de impotência, desapontamento ou mesmo de derrota, sempre me vem a cabeça o dia anterior ao segundo turno das eleições presidenciais de 1989, um dia antes, na sexta, o debate final não foi bom, Lula estava muito cansado, cara de quem não dormia a muito tempo, uma série de comício e viagens pelo Brasil tinha dado o combustível para aquela arrancada. Mas, sua campanha, errara nos instantes finais, enquanto Collor saiu de circulação por 2 dias, treinou muito o debate, Lula chegara como se viesse da noitada. O debate não foi um massacre, mas também não fora favorável a ele. Entretanto, quando assiste o JN, a edição foi massacrante, a performance de Collor foi explorado ao extremo, realmente ele foi melhor, é fato, mas como colocado foi mais que um massacre. Naquela noite não dormi, em parte resolveu, pois ali me preparei para derrota. Só vim a me restabelecer, fazer as pazes com as eleições em 2002.

 

Anos depois, duas vezes seguidas(1999 e 2000), não dormi quando o Corinthians perdeu para o Palmeiras na Libertadores, a primeira derrota, era aceitável, mesmo nos pênaltis o time não merecia ir longe, não era tão bom. No ano seguinte, sim, o Corinthians , era muito melhor. Foram dois grandes jogos, no primeiro o time massacrou, mas cansou de perder gols, quase foi castigado, o resultado de 4 x 3 não refletiu o jogo. Na semana seguinte, o embate começou nervoso ao extremo, Palmeiras fez 1 x0, mas Luisão em grande fase fez dois gols. A cautela do Oswaldo Oliveira fez com que tirasse justamente Luisão, em duas bobeados na jogadas mais manjadas o Palmeiras virou: 3 x 2. Os pênaltis foram cruéis, Dida, goleiro do Corinthians era especialista em pegar pênaltis, não conseguiu pegar nenhum. Mas o drama foi Marcelinho Carioca, o ídolo do time, grande batedor de Pênalti acabou por consagrar Marcos. A noite não acabou, por vários anos e Libertadores, até 2012, ela me perseguiu.

 

Bem, as piores noite, não dormidas foram as de 11, 12,13 e 14 de junho de 2010, quando descobrimos que a Letícia estava com Leucemia, aquelas 4 ou 5 noites, pensei em não mais viver, a dor era imenso, TODAS as incertezas do mundo recaíram sobre mim. Simplesmente não tinha sono, o corpo doía demais, mas não conseguia descansar, era como se tivesse ligado total. O diagnóstico era prévio, precisava de um mais específico, que ia determinar o tipo da Leucemia e qual tratamento deveria seguir, que só foi ter no dia 15 de Junho. Algumas noites depois, em julho, também fiquei sem chão, quando ela foi para UTI. Desta longa noite que se iniciou naquele dia de abertura da copa do mundo, até hoje, raras são as noites que durmo e descanso, hoje estou um pouco mais aliviado.

 

Ontem, hoje, foi uma destas noites que não acabam, que nos torturam, fiquei lembrando de José Dirceu, que nunca tive qualquer admiração política ou afinidade ideológica, mas que reconheço seu papel e sua importância histórica, agora ali entregue aos seus mais canalhas detratores, gente que não tem uma única gota de honra a lhe enxovalhar, comemorando como se queimasse uma bruxa ou o diabo na fogueira medieval. Um triste tribunal, de que não precisou de provas e elementos materiais para lhe condenar, jogar às aves de rapina. Quando ainda era moço, preso, depois banido, conseguiu se reconstruir, o que lhe sobrará de vida, com seus mais de 65 anos? Os holofotes, de uma possível prisão, um cerco ainda maior de mídia, a lhe destruir o pouco tempo que lhe resta. Pensei no homem, a família, os ideais, que tanto se arriscou, que errou gravemente, sem dúvida, mas jamais lhe faltou dignidade e vontade de lutar.

 

Agora a pouco, li a carta da filha de Genoíno Neto no Blog do Nassif  ( A coragem é o que dá sentido à liberdade ), ele é meu conterrâneo, que depois de fugir da seca, foi à luta estudantil nos anos de chumbo. Dali foi ao Araguaia, numa paixão cega de uma tática equivocada, feito preso, torturado. A anistia lhe restituiu direitos cassados, não mais a juventude, fez-se deputado, dos mais atuantes, talvez o maior conhecer do funcionamento do congresso, que liderava uma minúscula bancada do PT e conseguia impor derrotas aos poderosos de plantão. Sua família mora aqui perto de mim, sem exageros de luxos ou valores milionários que lhe atribuem. A militância que lhe daria a honra maior no outono da vida, agora pode lhe render o cárcere.

 

Bem, são os riscos e as armadilhas da vida, pois a noite, a mesma que embala seus sonhos e o sono reparador, também pode lhe deixar acordado longamente, sentidos os horrores de suas dores.

Por que o PT não Cresceu Muito Mais?

 

 

Dilma e Lula os maiores expoentes do PT

 

Um primeira análise geral das eleições identifiquei que o PT foi o grande vencedor, não apenas pelos números, com maior votação e crescimento, mas pela qualidade destes avanços, no texto Deu 13 na Cabeça, procurei demonstrar de forma concisa o que conseguir vislumbrar neste primeiro turno. Mas, vi em alguns amigos, um certo ar de triunfalismo, que, ao meu ver, isto nos leva a nada.

 

É verdade que deu PT na cabeça,mas não nos deixemos iludir por isto,tem um longo segundo turno, em cidades de vital importância para elevar ainda mais a vitoria da Esquerda. Segundo,sejamos precisos na avaliação, para fazermos uma reflexão criterioso sobre o significado do avanços e o limites, pois, com dois excelentes governos nacionais de Lula e este de Dilma, muito bem avaliados, deveríamos nos perguntar os por quês da vitória nas ser mais ampla?

 

Levantei algumas hipóteses para isto:

 

1) Só agora o PT se constituiu como partido nacional,nas grandes,médias e pequenas cidades, faltava política ampla;

2) PT ainda funciona de forma centralizada,em contradição com a dispersão política,precisa azeitar seus canais,combater caciquismos e o cupulismo;

3 )PT sempre priorizou as eleições gerais(presidência),o que era correto, porém criou um hiato, na elaboração de projetos  locais e chegar a todos os lugares do Brasil;

4) PT funciona com umbigo em São Paulo, sua origem, hoje com quadros envelhecendo, nem sempre bem, que tem que aprender a incorporar o novo,difícil;

5 )PT paga alto preço pelo Mensalão,não adianta relativizarmos, o peso de ser mais um partido “comum” teu seu preço,seria mais fácil a comunicação do resultados de seus governos, agora tem que se explicar porque usou as práticas comuns a todos os outros partidos, quando se pretendia diferente;

6) A soma geral destes fatores,inibe uma projeção maior. Lembremos que, historicamente, os  partidos que chegam à Presidência têm mais densidade nacional;

7) PT chegou ao Governo Central e não definiu seu modelo de Estado, este impasse, que tratamos no post ( Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS ), acaba, também, por sinalizar um conservadorismo em temas sensíveis, com receio de que as mudanças possam criar problemas de governabilidade;

8 ) Obvio que a grande vitória neste primeiro turno,não pode ser subestimada, mas também não deve ser superestimada. Tem longo caminho pela frente, muitas ideias devem ser tabulados  para se mudar – Partido, Estado e Democracia;

9 ) PT não costuma ouvir os “de fora”,mesmo quem o apoia de longa data, seus dirigentes, mesmo os locais agem como burocratas e chegam com “soluções prontas”, o que afasta o diálogo e à adesão honesta dos de fora;

 

São apenas pequenas observações de um velho militante de esquerda, não petistas, mas que vota no PT. Com intuito de ajudar nas nossas reflexões,ações e autocríticas. Para qualificar o debate e os enfrentamentos.

As Margens do Rio

 

 

Toda vez que há uma eleição repenso os meus valores, minha conduta de cidadão, de militante e , hoje, de pensador. As coisas que decidimos na vida, os valores que assimilamos, mesmo na tenra idade, são para sempre, independe de onde estivermos, como pensarmos. O método de análise e a racionalidade ou a paixão nos  acompanhará, não adiantando dizer que já não somos mais os mesmo, é fato, mudamos, mas, em algum lugar da mente, ou pensamentos vamos nos encontrar com aqueles valores.

 

Abracei, muito cedo, uma visão de mundo, que foi sendo trabalhada, estudada, refletida e questionada. Entre as grandes reflexões e questionamentos, sem dúvida, se deu quando caiu o muro de Berlim, sobre estes temas escrevi recentemente a trilogia: 1)  A Perda da Inocência (Partido) I ; 2) A Perda da Inocência (Revolução) II e 3) A Perda da Inocência (Ideologia) III. Muitos amigos, companheiros e camaradas não aguentaram o baque e foram cuidar da vida, longe de militância. Alguns se tornaram absolutamente refratários a qualquer debate político, respeito-os, é uma opção de vida, de muitos que se doaram tanto, sem reservas.

 

Crescer, repensar ideias, ser convencido por outras melhores, faz parte da dinâmica da vida, é a nobre arte de amadurecimento, de melhor entendimento das coisas e dos processos. Tenho feito isto, o que me parece bom, tem me tornado melhor e mais feliz. Mudar e refletir sobre os ideais, de como tornar viável os sonhos e os projetos, é mais que uma obrigação, é a dialética da vida, confrontar modelos, possibilidades, escolhendo melhores ferramentar para um patamar maior, mas sempre com coerência e respeito aos valores de onde partimos.

 

Nestes processos de reflexões, houve aqueles que simplesmente negaram tudo, inclusive a si mesmos, ficam, hoje, devotando ódio ao que defendiam, chegando a uma agressividade que assusta, uma conversão dolorida, que deve torturar suas mentes, pelo menos os de boa-fé. Eventualmente, quando os encontro, não me olham nos olhos, a não ser quando fuzilam e destilam ódio, identificando em mim, talvez, a culpa de seus pecados, pois assim permaneci. Nem duvido de suas honestidade e honradez, mas, não posso deixar de pensar, se um dia defendiam aquilo como verdade.

 

Tenho um sonho na vida, envelhecer bem, sem precisar negar minhas ideias de quando era jovem, não significando que permaneça com as mesmas ideias, mas mantendo meus princípios e a utopia. Que reúna as condições materiais e de vida, para jamais me tornar refém de qualquer força que me obrigue a mudar de lado. Que tenha a sensibilidade de olhar sempre as pessoas sem desviar o olhar, ou expressar ódio, por aquilo que um dia defendi com tanta carinho e dedicação, pois nada me envergonharia mais do que isto.

 

A vida pode levar a caminhos diferentes, mas espero não cruzar o rio, por mais estreita seja a margem que esteja a seguir, pois viver não é fácil, e viver é perigoso demais.

A Perda da Inocência (Ideologia) III

 

A história NÃO acabou - Rebelião grega - Foto: AP

Algumas coisas em minha vida são absolutamente paradoxais, por exemplo, na organização mais anti-estudo que participei, foi justamente o período que mais me aprofundei na teoria política e do conhecimento. Era justamente para ter me paralisado, deu-se o oposto. Aparentemente é uma contradição, estas coisas não são simples de explicar, tem um contexto histórico e pessoal que acabam ajudando a entender o que se vivia em cada momento de nossas vidas, em particular no tocante aos estudos, conhecimento, descobertas.

 

O início dos anos 90 são decisivos para quem quer entender o presente, isto tanto à Esquerda, quanto à Direita. Os eventos de 1989 com a ruína completa do Leste Europeu, trouxe ao mundo o fim de um época, as sete décadas anteriores a polarização política e ideológica foi marcante, desde a Revolução Russa o mundo se dividiu profundamente, independente do espectro que qualquer um se localize, é impossível não aceitar esta premissa como verdade. Até mesmo quando Hitler assumiu o poder e fez a guerra, que uniu Eua, Reino Undo à URSS, a separação era clara.

 

O pós-guerra aprofundou as diferenças, com a morte de Stalin, seus crimes amplamente conhecidos, não deu espaço para que abrandasse ou se aproximasse os dois campos. Em certos aspectos, os partidos de esquerda europeus se distanciaram do Leste, assumiram uma postura crítica à experiência dos dito países socialistas, mas sem construir nada sólido que pudesse se contrapor, ao mesmo tempo,  a ideologia capitalista americana e seu outro lado da URSS. A voz simplista dos trotskistas era de que, o leste viria a cair, mas a revolução seria retomada, mais ou menos ao período da NEP, antes dos expurgos stalinistas.

 

A realidade é que a queda do Leste, não trouxe uma revolução dentro da revolução,  não recuamos à 1928, ao contrário, voltamos à pré-revolução, uma restauração completa, todo o leste ruiu, houve um triunfo completo do império único. As relações daquele longínquo 1992 que teve em Fukuyama a voz dos vencedores “acabou a história e temos o último homem”. O impacto era enorme, as organizações, pequenas ou grandes, de esquerda, são tomadas pelo sentimento de que tudo ruíra, em primeiro lugar, a ideologia socialista.

 

O desarmamento não foi imediato, foi paulatino e contínuo, ano a ano, mesmo diante das crises que teimavam em reaparecer, as respostas era parciais ou sem convicção, a militância mais ideológica foi abatida, sem esperança ou força para reconstruir a sua Utopia. Aceitou, não pacificamente, mas de certa forma, tacitamente o retrocesso, como final. Os anos 90 o mundo foi sacudido por três crises graves ( tigres asiáticos, Russa e dívidas), mas sem reação, a ideologia do pensamento único prevaleceu.

 

Os anos 2000, iniciou-se com 11 de setembro, a reação ao império único foi dada, não por uma ideologia anti-capitalista, mas uma ação religiosa. A reação dos EUA fez crescer a pressão contra qualquer liberdade ou questionamento ao império. As invasões de países como Afeganistão, Iraque, ocupação do Paquistão e ações na África, demonstram que nada se contrapõe ao EUA. Senhor do mundo e dos destinos da humanidade. A sua força, mesmo que desmoralizada pela ousadia de Bin Laden, se tornou mais viva e presente no mundo.

 

Mas aí a hidra do Capital, nossa velha conhecida, a Crise de Superprodução, voltou a aparecer. O ano foi 2005, mas se preferirem, Lehman Brothers em 2008. É quase um renascimento de Marx, agora visto como visionário, quase profeta, não como um revolucionário, que questiona as bases do sistema capitalista. O nosso desmonte foi tão grande, que até é difícil encontrar referência e análises do significado da atual Crise.

 

Os Eua entraram na pior crise de suas história, desde 1929, a Europa que poderia contrabalançar o Capital, mergulhou num caos, mesmo assim continuamos desarmados. A ideologia, nosso fogo de Prometeu, nos foi tomada de volta por Zeus.  As experiências do Brasil, sem ser cair no umbigo local, é de longe a maior  reação à ideologia dominante, cheia de contradições, vacilos, traições de classe. Mas foi um dos poucos movimentos em que o Capital domina, mas não é seu projeto hegemônico que dirige os destinos de uma grande nação.

 

A nossa luta atual é para achar de volta nossa Utopia, será que é nesta geração? Do meu lado, faço um esforço teórico para discutir a atual Crise, com olhos marxista, no que denomino Crise 2.0, ao mesmo tempo trouxe ao debate, principalmente para os mais jovens, estas três partes sobre Política: 1)  A Perda da Inocência (Partido) I , 2) A Perda da Inocência (Revolução) II e este agora.

 

Tudo que fazemos é pouco, diante do que já perdemos.

A Perda da Inocência (Revolução) II

 

A romântica Revolução dos Sandinistas

O ano é 1985, mais ou menos em maio daquele ano, estava cursando Telecomunicações na Escola Técnica Federal do Ceará( ETFCE, depois CEFET, hoje, IFES-CE), tinha 15 anos, breve 16, participei do meu segundo congresso da Umes,  mas agora com alguma convicção política. Vivia flutuando entre os pró-soviéticos ( Prestistas ) e os Trotskistas ( Alicerce – depois Convergência), sem me definir ainda. Naquele ano, vi que precisamos ler mais, saber o que realmente deveria abraçar, com quem me “organizar”.

 

O segundo semestre foi mais do animado, a primeira eleição direta para prefeito das capitais, em Fortaleza, os coronéis estavam em baixa, parecia que o PMDB ou PFL ganharia com facilidade, aí surge uma figura linda e carismática de Maria Luíza Fontenelle,  ex-deputada do MDB( entrismo do PC do B), que rompera com o PC do B, junto com PRC, entraram no PT e se candidata. Parecia que era apenas uma candidatura para marcar posição, crescer o PT, como fora a de Américo Barreira ao Governo do Estado em 1982. Mas ali era um momento novo.

 

A não ida ao Congresso e votar em Tancredo Neves foi fundamental ao PT, pois se mostrou coerente com as Diretas já!, em Fortaleza, cresceu rapidamente na classe média, no meio estudantil, lembro que o PC do B, que era a maior corrente estudantil, apoiou o candidato do PMDB. Porém, na base do movimento a candidatura que empolgou e virou uma febre foi a do PT. Na ETFCE, montamos um comitê no laboratório de Física, Professor Nelson e Eu, levamos Maria Luíza a um debate na Escola que foi uma festa. Dos 3% de toda campanha, mesmo dia 11/11 era este o número à vitória final dia 15/11 foi algo inesquecível.

 

Após as eleições fui a um congresso em Goiânia, lá acabei por me juntar de vez aos ex-Prestistas, do CGB, conforme contei no primeiro post: A Perda da Inocência (Partido) I. Aqui não se trata de uma mera adesão, mas assumir ideologicamente o campo da antiga URSS, isto em 1985, já quase na posse de Gorbachev. Esta definição vai marcar minha militância para sempre. Logo a seguir vieram a Glasnot e Perestroika, um assombro para todo o mundo, em particular aos que estava no campo pro-soviético, imaginem a ginástica para explicar cada coisa.

 

Os anos seguintes que mais crescemos na militância política e ideológica, com estudos, muitos debates, nosso pequeno e dedicado grupo, maioria de estudantes universitários e secundaristas, com poucos sindicalistas, tinha muita disposição de luta. Mas, se caracterizava mais, pelo perfil intelectual, reflexo de nossas origens. O incentivo à leitura, a elaboração política, era uma herança do velho partidão. No movimento éramos conhecidos como “ratos de livros”, que, longe de ser algo pejorativo, muito nos orgulhava. Também para defender o que pregávamos tinha que ter muita convicção ideológica, claro.

 

Os anos de 1989 a 1991 foram pesados, quase todo nosso arcabouço ideológico ruiu, a URSS sumiu, o muro, o retrocesso generalizado. Os fatos marcantes de 1989, porém, não foi o conjunto de quedas, pois no Brasil vivíamos uma ascensão política inacreditável, a maior expressão disto era a consolidação da CUT e do PT, mais ainda, Lula ser candidato fortíssimo à presidência. Este contraponto, nos aliviava do pânico do leste. Aliás, para nós, o que lá acontecia era um aprofundamento da revolução.

 

A Queda

 

O mundo e muro caindo, menos nossa "ficha"

A ida de Lula ao segundo turno deu um certo gás, para nem olharmos que o Muro de Berlim caíra de vez, ou pensar que, o que se via no Leste era uma volta ao capitalismo, abertamente, ou se tudo aquilo não era apenas capitalismo de estado. Mesmo as divisões que aconteceram no seio do nosso grupo, ainda não tinha feito cair a ficha completamente. A derrota de Lula, para um outsider, nascido na extrema-direita, sem base social alguma, começou a pesar sobre todos nós. A ressaca prometia ser longa, mas era final de ano, teria uns três meses até a posse de Collor.

 

Efetivamente, o dia que posso dizer que houve a Perda da Inocência ( Revolução), foi num domingo de carnaval, 25 de fevereiro de 1990, estava em Olinda, na verdade num apartamento que alugamos em Paulista, nos preparando para irmos a Olinda quando saí uma notícia que Violeta Chamorro, vencera os Sandinista, aquilo bateu forte demais, ali sim, sentiu, agora a coisa ruiu mesmo. Foi um choque, talvez até mais forte do que a derrota de Lula, ele foi ao segundo turno, para nós era muito.

 

O Leste cair, não era de todo ruim, os erros duramente punidos, mas os Sandinistas, a FSLN era muito cara para todos nós, eles não tinham vínculos com o Leste Europeu, era tipicamente uma revolução latino-americana, uma construção de base, apaixonante, democrática, mantivera eleições, muitos avanços. Sua derrota, foi simbólica, pelo menos para mim. Acabado o “carnaval”, sabia que teria que me reinventar, em todos os campos: Politicamente, ideologicamente e mais ainda intelectualmente. Ali, fechou-se um ciclo, abriu-se outro.