Mercadões e seus Sabores

 

 

Grande Bazar - Istambul

 

Uma coisa que me atrai em cidades grandes são os mercadões, apenas de ver as cores e as coisas vendidas ali, penso nos séculos passados e suas histórias ali passados, os encontros e desencontros da vida. Os rústicos quiosques de venda, ou os produtos ali do lado de fora, com o entrar e sair de compradores e curiosos. Os cheiros das frutas ou condimentos, das comidas vendidas dão o toque a mais. Aquela mistura de gentes, de lugares tão distintos ali, se confraternizando e vivendo as diferenças.

 

Ontem estava vendo um filme, cujo cenário era Istambul, a linda cidade que une Ocidente e Oriente, o Istmo, que de tantas histórias fez dela uma das mais importantes do mundo, mas o que mais curti foi ver o seu imenso mercadão. Recente, dois amigos, de lugares e experiências diferentes, estiveram em Istambul e me contaram exatamente a mesma impressão que tiveram daquele lugar imenso, colorido e misterioso. Ouvi de um de outro, me deu uma vontade de ir conhecer a cidade e seu mercadão. No filme, várias vezes vi as imagens dos produtos, das pessoas ali misturadas, confesso que me senti lá, sem nunca ter ido.

 

 

Ver-o-Peso e suas muitas especiárias

Minha primeira experiência com mercadão foi em Belém, no Ver-o-Peso, tinha quase 9 anos, meu pai me levou na viagem durante as férias de julho de 1978. Ao chegar em Belém fiquei na casa de tios de minha mãe, pois parte da família de meu avô tinha migrado para o Pará na década de 40 e 50, um foi levando o outro e ali se estabeleceram, e parte deles virou comerciante no já famoso Ver-o-Peso, o maior entreposto da Amazônia. Fiquei maravilhado, as frutas, ervas, plantas medicinais, especiárias, aquele colorido, nos olhos de um menino cheio de vontade de conhecer o mundo, foi uma experiência inesquecível.

 

 

O novo Mercado Central de Fortaleza e seu artesanato

 

Algum tempo depois, conheci o mercadão  de Fortaleza, quando me mudei para lá. Tinha uma tia que trabalhava nos correios e morava na Costa Barros e costumava passar no antigo mercado central, ainda em frente da catedral, agora fica ao lado. Era uma aventura passar por dentro, sinto o cheiro de batida e rapadura, como se estive andando por lá agora, são memórias de 30 anos atrás que se reavivam, quando penso em mercadão. Era, como todos mercadão, confuso, sons altos, negociações de preços, pechinchar era a ordem, lá se vendia de tudo, Fortaleza ainda não era cheia de turistas como hoje. Mas lá se via gente de várias lugares do Brasil e do mundo, o que me levou a uma conclusão: O lugar mais simples da cidade, é o mais universal.

 

 

Mercado Central de SP e as muitas frutas

Depois conheci vários mercadões, como o de São Paulo, antes de ser reestilizado, ainda mais cru, o vai e vem, as fruta que nunca tinha conhecido ali vendidos, o peixe vindo da Ceasa, aquelas ruelas de sotaques estranhos para mim, algo parecido com português, denunciando as origens distintas, dos donos de barracas, descendentes de estrangeiros, mesmo vivendo no Brasil e de mais de uma geração mantinham palavras e costumes de seus pais e avós. Depois virou point turístico, o famoso sanduíche de mortadela, os pasteis, mais parecido com cenário de novela, mas ainda vale a pena ir, quem não conhece o local.

 

 

Mercadão de BH e seus muitos Queijos

Outros mercados que fui conhecendo nas minhas viagens pelo Brasil e fora dele, o de Belo Horizonte é um exemplo de local maravilhoso de visitar, comer mexidão, provar queijos e doces, andar pelas galerias à toa. Trabalhei em BH algumas vezes, sempre que podia, ia ao mercadão, o prazer de andar por lá, comprar, provar os produtos, ouvir os sotaques locais, parar e ouvir as histórias, os folclores da cidade, da política, quase me sentia no interior, de tanta amizade e proximidade das pessoas, uma praça pública de alegria e sorrisos, no meio da confusão de gentes.

 

 

Mercadão de Santiago seus restaurantes

No Chile, em Santiago, fui também ao Mercadão local, me senti em “casa” com aqueles produtos, as variedades de coisas, os restaurantes convidativos, os sons, tudo parecia tão próximo de mim. Naquele povo que vendia, que gosta de conversar, nada lembra loja, ou shopping, em mercadão o que vale é o papo, mesmo em língua diferente, as pessoas se comunicam, se apresentam, não vendem uma marca, mas sim o amor que colocam nos seus produtos, pode ser o mais simples ou o mais sofisticado, além de ser primordial negociar, lhe fazer desconto, para que se saía feliz.

 

Tenho certeza que você também teu o seu Mercadão favorito, que tal nos contar?

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Belém do Pará – Uma viagem

 

Belém - Foto Wikipedia

 

Fiz alguma viagens memoráveis na vida, no post Viagens contei alguns lugares que morei, mas hoje vou contar uma aventura fantástica, uma viagem com meu pai. Em julho de 1978, no fim do mês, meu presente de aniversário de 9 anos, foi viajar com meu ele de Sobral, no Ceará, para Belém do Pará. Meu pai tinha um caminhão Mercedes, 1316, boleia dupla, grande, íamos, meu pai, um outro motorista, Baíco e Eu. Lembro que meu saímos de Bela Cruz, carregada coco, em Acaraú, seguimos para Sobral.

 

A viagem começa em Sobral, os últimos preparativos, verificação de pneus, motor, óleo, freios, mantimentos. Chegamos meio-dia e esperamos o sol baixar para começar a subir a Serra do Ibiapaba. Meu velho era uma sumidade na direção, sabia/sabe o barulho de cada peça, tinha um ouvido aguçado, naquela época, já se ressentia de um olho, devido luz alta dos faróis. Mas ele dirigia com uma tranquilidade absurda, o caminhão carregado com 9 ou 10 toneladas de coco, aquela estrada boa, já escurecendo, subiu a serra grande com facilidade. Paramos em Tianguá para jantar.

 

Dormi, ele continuo guiando até uma meia-noite. Parou num posto, acho que já no Piauí, dormiu até umas 5 e meia, depois tomamos café e seguimos viagem. Atravessando o Piauí, quente demais, ainda mais com aquele calor da cabine do caminhão. Mas, para mim, aquilo era festa, minha primeira viagem longa com meu pai. Meu irmão mais velho já tinha feito algumas vezes este percurso, principalmente nas férias. A noite chegamos ao Codó no Maranhão, lá comi num restaurante de estrada o melhor arroz da minha vida, ainda hoje penso naquele sabor.

 

Ponto sobre o Rio Gurupi-Divisa do Pará com o Maranhão

Ponto sobre o Rio Gurupi-Divisa do Pará com o Maranhão

 

Noutro dia a viagem foi interrompida em Boa Vista do Gurupi, a divisa entre Maranhão e Pará. Havia uma grande ponte, mas em 1977 ela foi arrastada pela cheia do rio Gurupi, levou uns 2 anos para que uma nova fosse construída, a ditadura já sentia, os efeitos do fim dos créditos fáceis. A alternativa era atravessar caminhões, ônibus,carros, motocicletas, gente em balsas. A fila da balsa, dependendo da época, demorava até 2 dias. Lembro que chegamos perto do meio dia ao local. Entramos na fila, cheia de caminhões, aí um pequeno fogão, eles prepararam almoço. Maria Isabel, que é arroz branco com carne seca e batata, uma delícia. Na carroceria meu pai armou rede para dormir, impossível ficar dentro da cabine, o calor era insuportável.

 

O medo era muito grande daquelas balsas serem arrastadas pela correnteza forte do rio, uma travessia de uns 500 metros, mas a alegria de chegar do outro lado, já nos deixou felizes, entramos finalmente no Pará. Paramos em Castanhal, destino da carga de coco, lá tinha uma grande fábrica de sorvetes, uma boa cidade. Depois de descarregar seguimos para Belém, pois meu pai tinha parentes e amigos, além do que, lá, carregaria de madeira, para voltarmos ao Ceará.

 

Ver-o-Peso

Ficamos uns 3 ou 4 dias em Belém, uma cidade muito bonita, em 1978 ainda não era tão grande, como agora, estive três vezes em Belém em 2008/2009. O que mais me chamou a atenção foi o Ver-o-Peso, um longo comércio na região das docas da a baía do Guajará. Aquele grande mercado de especiárias, cheio de frutos, raízes, condimentos, uma festa para os olhos. Meus parentes tinham barraca lá, então, me diverti mais ainda. Uma viagem inesquecível, nem me dava conta de onde estava, a imensidão da floresta, a porta de entrada que é Belém e o imenso rio Amazonas.

 

 

Uns dois anos depois, meu pai deixou de fazer este roteiro de caminhão, ele que tanto gostava de Belém, de dirigir seu caminhão. Ficou mais de 30 anos sem voltar a Belém, voltou neste mês, mas me disse, que sonha mesmo é ir de carro, cidade a cidade, parando nos locais que ia, uma viagem afetiva, sentimental. Até hoje lembro de detalhes desta viagem, da alegria de acompanhar meu pai, até do toca-fitas cara-preta, tocando José Ribeiro, Roberto Carlos.