Crise 2.0: A nova França

 

vitoria-hollande-frança - Reuters

 

No mês passado, escrevi (Crise 2.0: A Guilhotina)  sobre a queda em massa de vários governos europeus devido a Crise 2.0, assim descrito: “O ambiente da Crise 2.0 levou, em menos de dois anos, à guilhotina, apenas na Europa,  dez governos: Islândia, Irlanda, Grécia, Portugal, Reino Unido, Eslováquia, Romênia, Espanha, Itália e Holanda. É uma verdadeira limpeza, não olhando se os governos são de Direita ou Esquerda, ninguém foi poupado, mas há uma crescente preocupação com a força que ganha a extrema-direita. Neste clima de queda, sem soluções de longo prazo, o desespero leva à saída de ruptura, inclusive as com violência”.

 

Hoje a eleição presidencial francesa, mais importante da Europa, até agora, derrubou mais um governo, a Direita Francesa, liderada por Sarkozy, repete o desempenho de Valéry Giscard d’Estaing, que também perdeu a reeleição em 1981, para também um socialista, François Miterrand, quebrando uma hegemonia da Direita, agora mais uma vez, outro François, Hollande, faz os socialista voltar ao poder, depois de de 17 anos. Uma vitória cheia de simbolismo, num momento que a França experimenta uma longa decadência e perda de importância na União Europa, frente à Alemanha.

 

Escrevemos ainda sobre a questão francesa, numa série de artigos sobre Sarkozy, a quem responsabilizamos diretamente, por entregar o destino europeu unicamente aos caprichos da Chanceler Angela Merkel, sua companheira da Direita Alemã, que impõe ao s povos da UE um regime duro de austeridade que  tem significado, desemprego, miséria e decadência, sugando um a um, fortalecendo a Alemanha. A política alemã, é exatamente o oposto dos princípios de crescimento compartilhado e união cooperativa, que era a ideia original da União Europeia. O que se viu, nos primeiros anos do Euro, enquanto não havia crise, uma expansão de crédito e endividamento, uma busca artificial de ter um padrão comum, agora se cobra rigorosamente a conta. Merkel representa a força desta cobrança e Sarkozy funcionou como seu capacho, fazendo o trabalho sujo de humilhar os demais países.

 

Como dissemos, anteriormente, sobre como se comportou Sarkozy, diante da liderança alemã: “Merkel impõe todos os seus desejos na UE, BCE e no FMI, usa Sarkozy como um serviçal, mais próximo do que os outros, dando-lhe alguma importância. As decisões secundárias ela deixa que ele tome, infla seu ego, mas questões centrais são tomadas de forma impiedosa. Os Sátrapas (Monti, PapaDEMos, Rajoy e outros) primeiro falam com Sarko, como se fosse um sacerdote pitonista, ele consulta o Oráculo(Merkel) e lhes traduz as ordens aos serviçais”. ( Crise 2.0: Caminhos para França )

 

A França foi submetida a uma política coadjuvante, perdendo sua importância e, pior, um país com baixo crescimento, com conflitos sociais extremados, inclusive sob inspiração da doutrina de Sarkozy, que já impunha-a, quando era ministro, endurecendo mais ainda a política de enfrentamento aos estrangeiros, que são em grande número no país, que, quando não estava em crise, funcionava como mão de obra barata e farta, hoje, virou “problema policial”, no conceito de Sarkozy. Esta combinação de fatores caracterizou o fraco governo do presidente, que vivia de pequenos golpes de marketing, como seu casamento com a ex-modelo,cantora,atriz e midiática Carla Bruni. Seu apoio incondicional à Merkel, nunca conseguiu emplacar no cenário, qualquer proposta econômica  significativa, ele que defendia a taxação das transações do capital especulativo, uma espécie de CPMF, jamais foi levada à sério.

 

Os Socialistas que enfrentavam uma crise com três derrotas presidenciais seguidas, com perda de cadeiras no parlamento, renasceu nos últimos dois anos, fruto da crise, François Hollande, ex-companheiro da candidata derrotada na eleição passada Segonèle Royal, liderou uma renovação nos socialistas, mais pragmático,contido, mas com duras críticas ao governo Sarkozy. Cresceu muito e chegou como favorito na campanha eleitoral, mas sem empolgar, pois nada dizia, e o primeiro turno que parecia tranquilo, foi bastante apertado. Com o apoio tanto da esquerda, que teve grande papel, como do centro, empurrou Sarkozy para os braços da extrema-direita, que também teve desempenho excepcional, mas que não o apoiou abertamente. O melhor retrato do embate se deu no último debate, em que finalmente Hollande enfrentou de peito aberto e encurralou Sarkozy, não dando mais qualquer chance de virada.

 

A mudança é significativa que analisaremos com mais propriedade depois, o recado das urnas e ruas é de oposição à política de austeridade, contra a Troika, põe em xeque a liderança alemã na Europa, muda-se  as expectativas do pensamento único, de como até hoje se enfrenta a crise. A França a segunda maior economia, pode ser o contraponto ao rolo compressor alemão, mesmo que os socialistas não tenham apresentado um programa alternativo claro, mas fica a sensação de que muito se alterará nas relações estabelecidas por Sarkozy.

 

Nas palavra do vencedor: “As pessoas esperam por esse momento há anos, outros, mais jovem, não viveram épocas como essa. Muitas pessoas tiveram muitas decepções, e eu me sinto feliz em poder trazer esperança”, declarou Hollande. E lembrando os compromissos de campanha, repeitiu: “Acesso aos serviços de saúde, igualdade, priorizar a educação serão meus compromissos, além de mudanças ecológicas que precisamos realizar. Precisamos liderar a  Europa para o futuro”. (Uol, 06/05/2012)

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4 respostas em “Crise 2.0: A nova França

  1. Estava vendo na TV 5 Monde a festa na praça da Bastilha. Uma cara jovem, muitos jovens. Espero que o Hollande não decepcione essa meninada que estava feliz com sua vitória. E que ele seja realmente um contraponto a politica da Merkel.PS: sua análise da conjuntura mais uma vez sem retoques. Parabens!!!

  2. Pingback: Crise 2.0: Desafios de Hollande | Arnobio Rocha – Política, Economia e Cultura

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